Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 246 de 359

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Os Miseráveis

I — Origem

— Está tudo pronto? Já não precisam de mim? Já estão desenrascados; então raspo-me: tenho de ir levantar os meus petizes.

E afastou-se.

Os cinco homens saíram do tapume a um e um.

Depois de Gavroche ter desaparecido na esquina da rua dos Ballets, Babet chamou Thenardier de parte:

— Reparaste naquele rapaz? — perguntou-lhe ele.

— Qual rapaz?

— O que subiu ao muro, o que levou a corda.

— Não reparei muito, não.

— Pois olha, não sei bem, mas parece-me que é teu filho.

— Ora — disse Thenardier — pois tu crês nisso?

LIVRO SÉTIMO — O CALÃO

I — Origem

Pigritia é uma palavra terrível.

Esta palavra gera um mundo, a pégre; leia-se: o roubo; é um inferno, a pégrenne,—

leia-se: a fome.

Assim, a preguiça é mãe.

Tem um filho, o roubo: e uma filha, a fome.

Mas onde é que nos encontramos agora? No calão.

O que é o calão? É ao mesmo tempo a nação e o idioma; é o roubo sob as suas duas espécies; povo e língua.

Quando há trinta e quatro anos o narrador desta séria e sombria história introduziu no meio de uma obra, escrita com o mesmo fim

do que esta39 , um ladrão falando calão, houve pasmo e clamor. «O quê! Pois é possível! O calão! Mas o calão é uma coisa medonha! É a língua das galés, das enxovias, de tudo o que a sociedade tem de mais abominável!» etc., etc.

Nunca compreendemos este género de objecções.

Depois, dois poderosos romancistas, dos quais um é profundo observador do coração humano, e outro intrépido amigo do povo, Balzac e Eugénio Sue, tendo apresentado ladrões falando a sua língua natural, como fizera em 1828 o autor do Úl mo dia de um condenado, viram erguer-se as mesmas reclamações. Repe u-se: «O que nos querem os escritores com este repugnante dialecto? O calão é odioso! O calão faz tremer!»

Sem dúvida. Quem o nega?

Desde quando é do como erro, quando se trata de sondar uma ferida, um abismo ou uma sociedade, penetrar demasiado, descer até ao fundo? Pensáramos sempre que era isto algumas vezes um acto de coragem, é, pelo menos, uma acção simples e ú l, digna da atenção simpá ca que é merecedor o dever aceito e cumprido. Não explorar, não estudar tudo, parar no meio do caminho, para quê? Parar pertence à sonda e não a quem a lança.

Com efeito, ir procurar nos baixios da ordem social, Já onde acaba a terra e começa o lodo, esquadrinhar nessas vagas espessas, prosseguir sempre, agarrar e lançar, ainda palpitante, para a rua, este idioma abjecto, que trazido assim para a luz goteja lama; este vocabulário peçonhento, de que cada palavra parece corcova imunda de um monstro da vasa e das trevas não é tarefa atraente ou fácil.

Não há nada mais lúgubre do que contemplar assim a nu, à luz do pensamento, o terrível e irregular movimento do calão. Parece ser realmente uma espécie de horrível animal só feito para a noite e que acaba de ser arrancado da sua sen na. Julga-se ver medonha escuridão, viva e eriçada, que estremece, se move, se agita, torna a pedir as trevas, ameaça e olha. Uma palavra assemelha-se a uma garra, outra a um olho baço e sanguinário; tal ou qual frase parece mover-se qual pinça de caranguejo. Tudo isto vive da vitalidade hedionda das coisas que foram organizadas na desorganização.

Desde quando, porém, é que o horror exclui o estudo? Desde quando é o médico expulso pela doença? Imagine-se um Naturalista que se recusasse a estudar o escorpião,

a centopeia, a tarântula, e que os lançasse de novo nas suas trevas, dizendo: «Que feios são!» O pensador que fugisse do calão, assemelhar-se-ia a um cirurgião que voltasse o rosto vendo uma úlcera. Seria o mesmo que um filólogo hesitando em examinar um facto da língua, um filósofo hesitando em examinar um facto da humanidade. Porque, é necessário dizê-lo aos que o ignoram, o calão é ao mesmo tempo um fenómeno literário e um resultado social. O que é o calão propriamente dito? O calão é alíngua da miséria.

Aqui podem fazer-nos parar; podem generalizar o facto, o que é algumas vezes uma maneira de o atenuar; podem dizer-nos que todas as profissões, todos os misteres, poder-se-ia acrescentar, quase todos os acidentes da hierarquia social, e todas as formas da inteligência têm o seu calão O negociante quando diz: «Montepelier disponível, Marselha boa qualidade»; o cambista: «por estorno, ao par»; o jogador: «estou à paz de pirulo, jogo de porta;» o oficial de diligências das ilhas normandas: «o censor arestando o prédio sujeito ao censo, não tem direito ao fruto durante o sequestro da

herança do censuário»; o vaudevilista: «alegrar o urso»40; o autor: «fiz furor»; o filósofo:

«triplicidade fenomenal»; o caçador: «dei um bigode»; o frenólogo: «ama vidade, comba vidade, secre vidade»; o soldado de infantaria: «o meu fagote de sessenta palhetas»; o cavaleiro: «a minha perua»; o mestre de esgrima: «terça, quarta, a fundo»; o impressor: «mordido no primeiro, no segundo ro»; todos, impressor, mestre de esgrima, cavaleiro, soldado, frenólogo, caçador, filósofo, autor, vaudevilista, oficial de diligências, jogador e cambista, falam calão.

O pintor, quando diz: «o meu rapin»; o tabelião «o meu salta pocinhas»; o cabeleireiro: «o meu caixeiro»; o remendão: «o meu chumeco»; falam calão. Em rigor e se o quiserem absolutamente, todos estes modos de dizer a direita e a esquerda: o marinheiro, «bombordo e es bordo»; o maquinista: «lado do pá o, lado do jardim»; o sacristão: «lado da Epístola, lado do Evangelho»; são calão. Há o calão das delambidas, como houve o calão das preciosas. O palácio de Rambouilet confinava um tanto com o Pá o dos Milagres. Há também o calão das duquesas, como o provam estas frases escritas num bilhete amoroso por uma senhora muito formosa e de elevada jerarquia, do tempo da Restauração: «Vous trouverez dans ces potains-là une foul tude de taisons pour que je

me liber se»41 . As cifras diplomá cas são um calão; a chancelaria pon cia

dizendo 26 em lugar de Roma, grkztntgzgal em lugar de remessa; e abfxustgrnogtkzu tu XI em vez de «duque de Modena» fala calão. Os médicos da Idade-Média, que para dizerem cenoura,

rabanete

e

rábano,

diziam: opoponach, perfcoschinum, repfitalmus, dracatholicum angele rum, postmegorum, falavam calão; o fabricante de açúcar que diz:

«mascavado, caixa, refinado» sendo muito honesto industrial, fala calão. Certa escola de crí ca, que exis a há uns vinte anos e que dizia: «Metade de Shakespeare é trocadilho», falava calão. O poeta e o ar sta, que com profundo juízo qualificariam o senhor de Montmorency «de burguês» se não entendesse de versos e de estátuas, falariam calão. O

académico clássico que chama «Flora» às flores, «Poznana» aos frutos, «Neptuno» ao mar, «fogos» ao amor, «atrac vos» à beleza, «um corcel» a um cavalo, «a rosa de Belona» ao laço branco ou tricolor, e «triângulo de Marte» ao chapéu armado, fala calão.

A álgebra, a medicina, a botânica têm o seu calão. A língua que se emprega a bordo,

admirável língua do mar, tão completa e pitoresca, que falaram Jean Bart, Duquesne, Sufren e Duperré, que se casa com o assobiar das ondas revoltas, com o eco do porta-voz, com o embate dos machados de abordagem e com o balanço do navio, a brisa, o furacão, o troar da ar lharia, é um calão heróico e brilhante, que está para o feroz calão da «pégre» como o leão para o chacal.

Sem dúvida. Mas, por mais que possam dizer, este modo de compreender a palavra calão é de uma tal extensão que nem toda a gente admi rá. Quanto a nós, conservamos nesta palavra a sua velha acepção, precisa, circunscrita e determinada, e restringimos o calão ao calão. O verdadeiro calão, o calão por excelência, se é possível juntar estas duas palavras, o imemorável calão que era um reino, não é outra coisa, repe mo-lo, senão a língua disforme, inquieta, sonsa, traidora, venenosa, cruel, vesga, vil, profunda e fatal da miséria. Na extremidade de todos os rebaixamentos e de todos os infortúnios, existe uma úl ma miséria que se revolta e que se decide a lutar com o conjunto dos factos felizes e dos direitos reinantes: luta medonha, em que, ora astuciosa, ora violenta, ao mesmo tempo raquí ca e feroz, ataca a ordem social com picadas de alfinete pelo vício, e com pancadas de maça pelo crime. Para as necessidades desta luta inventou a miséria uma língua de combate, que é o calão.

Fazer sobrenadar e suster à super cie do esquecimento, à super cie do abismo, ainda que não seja senão um fragmento de uma língua qualquer que o homem falou e que se perderia; isto é, um dos elementos, bons ou maus, de que a civilização se compõe, ou com que tem relação, é ampliar os dados da observação social, é servir a própria civilização. Este serviço prestou o Plauto, tendo ou não tendo essa intenção, fazendo falar o fenício a dois soldados cartagineses; este serviço foi prestado por Molière, fazendo falar o levan no e toda a espécie de dialectos a tantos dos seus personagens.

Aqui reanimam-se as objecções: o fenício, op mamente! O levan no, não há que dizer!

Mesmo os dialectos, passe São línguas que pertenceram a nações ou a províncias; mas o calão! De que serve conservar o calão? Para que se há-de fazer «sobrenadar» o calão?

A isto só responderemos uma palavra.

Decerto; se a língua que falou uma nação ou uma província é digna de interesse, há uma coisa mais digna ainda de atenção e de estudo, é a língua que falou uma miséria.

É a língua que tem falado em França, por exemplo, há quatro séculos, não somente uma miséria, mas a miséria, toda a miséria humana possível.

E depois, insis mos nisto: estudar as deformidades e as enfermidades sociais e apontá-las para serem curadas, não é um trabalho em que seja permitida a escolha.

O historiador dos costumes e das ideias não tem uma missão menos austera do que o historiador dos acontecimentos. Este tem a super cie da civilização, as lutas das coroas, o nascimento dos príncipes, os casamentos dos reis, as batalhas, as assembleias, os grandes homens públicos, as revoluções à luz do dia, tudo o que é exterior; o outro historiador tem o interior, o fundo, o povo que trabalha, que sofre e que espera, a mulher acabrunhada, a criança que agoniza, as guerras surdas de homem contra homem, as ferocidades obscuras, os preconceitos, as iniquidades consen das, as reacções subterrâneas da lei, as evoluções secretas das almas, os estremecimentos indis ntos das

mul dões, os famintos, os descalços, os nus, os deserdados, os órfãos, os desgraçados e os infames, todas as larvas que divagam na escuridão. É preciso que ele desça, com o coração cheio ao mesmo tempo de caridade e de severidade, como um irmão e como um juiz, até às casas-matas impenetráveis, onde se arrastam em confusão os que sangram e os que ferem, os que choram e os que maldizem, os que jejuam e os que devoram, os que suportam o mal e os que o fazem. Estes historiadores dos corações e das almas terão acaso deveres menores do que os historiadores dos factos exteriores?

Julgarão que Alighieri tenha menos coisas para dizer do que Maquiavel? A parte inferior da civilização, por ser mais profunda e mais sombria, será menos importante do que a superior? Tem-se acaso perfeito conhecimento da montanha, quando se desconhece a caverna?

Digamo-lo, contudo, de passagem; de algumas palavras do que percebe poder-se-á inferir entre as duas classes de historiadores uma separação acentuada, que não existe no nosso espírito. Ninguém é bom historiador da vida potente, visível, brilhante e pública dos povos, se não é ao mesmo tempo, numa certa proporção, historiador da sua vida profunda e oculta; e ninguém é bom historiador do ín mo, se não sabe ser, todas as vezes que é necessário, historiador do que é externo. A história dos costumes e das ideias penetra a história dos acontecimentos e reciprocamente. São duas ordens diferentes de factos, que se correspondem, que se encadeiam sempre e se geram muitas vezes. Todas as linhas que a Providência traça na super cie duma nação, tem as suas paralelas sombrias mas dis ntas, no fundo, e todas as convulsões do fundo causam agitações na superfície.