Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 231 de 359

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Os Miseráveis

V — A rosa descobre que é uma máquina de guerra

Quando ele estava sentado, ela apoiava-lhe o rosto na alvejante cabeça e dizia consigo, deixando cair silenciosamente uma lágrima:

— Talvez este homem seja minha mãe!

Cose e, por mais que tal coisa pareça singular, na sua profunda ignorância de educanda num convento e apesar mesmo da maternidade ser toda ininteligível para a virgindade, acabara por imaginar que apenas nha do uma diminu ssima parcela da mãe, pois nem sequer lhe sabia o nome. Todas as vezes que o perguntava a Jean Valjean, ficava sem resposta. Se repe a a pergunta, respondia ele com um sorriso. Uma ocasião a jovem insistiu; o sorriso acabou por ser uma lágrima.

Este silêncio de Jean Valjean era como um véu lançado sobre Fantine.

Tal silêncio, porém, seria prudência? Seria respeito? Seria temor de entregar aquele nome aos acasos de outra memória sem ser a sua?

Enquanto Cose e fora criança, Jean Valjean gostava de lhe falar de sua mãe; apenas, porém, ela chegou a mais adiantada idade, tornou-se-lhe impossível tal coisa. Parecia-lhe que já não ousava. Seria por causa de Cose e? Seria por causa de Fan ne? Jean Valjean sen a-se acome do de uma espécie de religioso terror com a ideia de fazer entrar aquela sombra no pensamento de Cose e e ir juntar a defunta no seu des no, dando-lhe parte nele. Quanto mais sagrada era para ele esta sombra, mais temerosa ela lhe parecia. Ao lembrar-se de Fan ne, como que queria falar e não podia; afigurava-se-lhe ver por entre as trevas uma coisa semelhante a um dedo sobre uma boca. Acaso todo esse pudor que exis ra em Fan ne e que em vida lhe saíra violentamente teria voltado depois da sua morte a pousar sobre ela, a velar, indignado, sobre a paz daquela mulher morta, e guardá-la, feroz, no seu túmulo? Sofreria Jean Valjean, sem o saber, a sua pressão? Nós, que somos dos que crêem na morte, não rejeitaríamos esta misteriosa explicação. Eis de onde lhe provinha a impossibilidade de nem mesmo diante de Cose e pronunciar o nome de Fantine.

Um dia, Cosette disse-lhe:

— Ó meu pai, eu esta noite vi minha mãe em sonhos. Tinha umas asas muito grandes... É impossível que minha mãe em vida não fosse uma santa!

— Pelo martírio! — respondeu ele.

De resto, Jean Valjean vivia satisfeito.

Quando Cose e saía com ele, encostava-se-lhe ao braço, al va, feliz, na plenitude do coração. A tais mostras de tão exclusiva afeição, de uma afeição que se sa sfazia com ele só, Jean Valjean sen a arrobar-se-lhe o coração em delícias. O pobre homem estremecia inundado de uma angélica alegria, ao imaginar que isto duraria sempre, e convencido de que não nha sofrido bastante para merecer de Deus tão fulgurante ventura, dava-lhe graças do ín mo da alma, por permi r que um miserável, como ele, fosse assim amado por aquela inocente criatura.

V — A rosa descobre que é uma máquina de guerra

Cosette mirou-se um dia, por acaso, no seu espelho, e disse consigo:

— Ora esta!

Quase lhe parecia que era bonita. Esta descoberta causou-lhe singular perturbação.

Até àquele momento nunca tinha pensado no rosto.

Via-se ao espelho, mas não se mirava. E depois, nham-lhe dito muitas vezes que era feia; só Jean Valjean dizia devagarinho: «Não é, não, não é!» Fosse como fosse, Cose e julgara-se sempre feia e crescera nesta ideia com a resignação fácil da infância. Mas eis que de repente o espelho lhe dizia como Jean Valjean:

— Não é, não é!

Naquela noite não dormiu.

— Se eu fosse bonita! —, pensou ela. — Como era engraçado que eu fosse bonita! —

E recordava-se das suas companheiras, cuja beleza produzia efeito no convento e dizia:

— O quê! Pois serei como a menina fulana!?

No dia seguinte tornou a mirar-se, mas não por acaso, e duvidou.

— Onde nha eu o espírito! — disse ela. — Não sou feia. Tinha unicamente dormido mal e por isso estava descorada e com olheiras. — Não se sen ra demasiadamente alegre na véspera por se julgar bonita, mas ficou triste por já o não acreditar. Não tornou a mirar-se ao espelho, e durante mais de quinze dias, penteou-se sempre voltando-lhe as costas.

De tarde, depois de jantar, fazia habitualmente na sala algum bordado, ou qualquer outro trabalho, e Jean Valjean lia ao lado dela. Uma vez levantou os olhos do que estava fazendo e ficou surpreendida vendo o modo inquieto como seu pai estava olhando para ela.

Noutra ocasião, indo a passar por uma rua, afigurou-se-lhe ouvir dizer a alguém, que não pôde ver, por lhe ficar atrás:

— Bonita mulher! Mas muito mal arranjada!

— Ora, aquilo não é comigo Eu sou feia e não vou muito mal arranjada! — disse ela consigo.

Trazia nessa ocasião o seu chapéu de pelúcia e o vestido de merino.

Finalmente, estando um dia no jardim, ouviu dizer à velha Toussaint, dirigindo-se a seu pai:

— O senhor ainda não reparou como a menina se vai a pôr bonita!

Cose e não ouviu o que seu pai respondeu, porém as palavras de Toussaint causaram-lhe tal comoção que saiu do jardim, subiu ao seu quarto, correu ao espelho, a que havia três meses que se não nha olhado e soltou um grito. A imagem que o espelho lhe reflectira deixara-a deslumbrada.

Estava bela e linda com efeito; não podia recusar o testemunho do seu espelho, testemunho coerente com a opinião de Toussaint. As suas formas haviam adquirido regularidade, a pele maior (brancura, os cabelos mais brilho, os olhos de um meigo azul, certo desconhecido fulgor, que até aí não nham. Bastou um minuto para dar-lhe completa consciência da sua beleza. Fora um como clarão repen no. Era bela, já não podia deixar de o acreditar. Dizia-lho o espelho e antes do espelho outros o nham notado. Primeiro o dissera Toussaint e aquele sujeito que ela supôs não ser dela que falava, mas era indubitável que fora. Cose e voltou ao jardim, orgulhosa, desvairada, louca, ouvindo transportada o gorjear dos pássaros saudando das árvores o bem-vindo

sol de Inverno, parecendo-lhe ver reflexos dourados no céu e flores mais radiantes entre as moitas de arbustos silvestres que vegetavam no jardim.

Pelo contrário, Jean Valjean do seu lado sentia uma indefinível e profunda angústia.

É que havia algum tempo, com efeito, que ele contemplava aterrado o crescente desenvolvimento da beleza que se expandia no meigo rosto de Cose e. Aurora para todos risonha, só para ele lúgubre!

Cose e já era bela muito antes de dar por isso, porém aquela inesperada luz que vagarosamente despontava, inundando a pouco e pouco a jovem, logo no primeiro dia ferira o penetrante olhar de Jean Valjean. Conheceu que era uma alteração numa existência venturosa, e tão venturosa que não ousava tocar-lhe, receoso de causar algum transtorno. Aquele homem que se vira nos mais angus ados transes, que ainda sangrava por todos os golpes do seu des no, que fora quase um celerado e viera a tornar-se quase um santo, que, depois de rojar a corrente de forçado, rojava actualmente a invisível, mas pesada cadeia da infâmia indefinida, aquele homem que ainda estava sob o domínio da jus ça, podendo, portanto, a qualquer hora ser apanhado e ter de sair da obscuridade da sua virtude para ser exposto à claridade do opróbrio público, aquele homem aceitava tudo, tudo desculpava, perdoava, bendizia, e a tudo se sujeitava, e nada pedia senão que a providência, os homens, as leis, a sociedade, a natureza, o mundo, unicamente fizessem com que Cosette o amasse.

Com que Cose e con nuasse a amá-lo! Com que Deus não estorvasse que o coração daquela inocente sen sse e para sempre abrigasse uma parcela de amor por ele! Ser amado por Cose e! Não pedia mais. Não queria outra ventura, outra recompensa, outra coroa, outro bálsamo, outro prémio! Se lhe dissessem:

— Queres estar melhor?

Ele responderia:

— Não!

Se Deus lhe dissesse:

— Queres vir para o céu?

Ele responderia:

— Perco na troca!

A mínima alteração, portanto, ainda que superficial, nesta situação, fazia-o estremecer como se fora um prelúdio de graves acontecimentos. Jean Valjean nunca soube bem o que era a beleza de uma mulher, mas ins n vamente parecia-lhe que era uma coisa temerosa.

Contemplava apavorado, do fundo da sua fealdade, da sua velhice, miséria, reprovação e desalento, aquela beleza que junto dele, a sua vista, se expandia cada vez mais triunfante e soberba na ingénua e temível fronte daquela criança e dizia consigo:

— Tão bela! Que será de mim agora!?

Era esta, porém, a única diferença entre o seu amor e o amor de uma mãe: ver com angústia o que uma mãe gostosamente veria.

Não tardaram a manifestar-se os primeiros sintomas.

Desde o dia seguinte àquele em que a jovem dissera consigo: «Realmente eu sou

bonita!», principiou Cose e a esmerasse no vestuário, lembrando-lhe o que uma ocasião nham dito dela: «Bonita, mas muito mal arranjada!» Sopro de oráculo que passara por ela e se desvanecera, depois de lhe depor no coração um dos dois gérmenes, que com o tempo vem a ocupar completamente a vida da mulher o desejo de agradar. O

outro gérmen é o amor.

Apenas se capacitou da sua beleza, entrou de se lhe desenvolver com toda a força o espírito feminino. Teve horror do merino e vergonha do chapéu. Logo daí ficou sabendo completamente a ciência do chapéu, do ves do, do mantelete, da bo nha, dos punhos, da fazenda mais própria, da cor que melhor diz, essa ciência que torna a mulher parisiense uma coisa indizivelmente bela, profunda e perigosa. A nenhuma como a ela cabe o epíteto de «mulher que dá volta ao juízo».

A pequena Cose e, a quem seu pai não recusava coisa nenhuma, em menos de um mês, tornou-se naquela tebaida da rua de Babilónia não só uma das mulheres mais bonitas de Paris, o que já é alguma coisa, mas uma das que ves am com mais gosto, o que mais é. O seu desejo era tornar a encontrar o que uma vez a achara mal arranjada, para «o ensinar», e ver o que ele diria.

O caso é que a jovem tornara-se arrebatadora e discriminava perfeitamente um chapéu de Gerard de outro de Herbaut.

Jean Valjean seguia ansiosamente o andamento destas devastações. Via nascer asas a Cose e, ele que conhecia que só podia andar de rojo, ou, quando muito, caminhar direito.

De resto, a qualquer mulher bastara a simples inspecção do vestuário de Cose e para conhecer que a jovem não nha mãe. Notava-se-lhe a falta de certas pequenas conveniências no trajar, de certas convenções especiais, que ela não observava. Se tivesse mãe, dir-lhe-ia esta, por exemplo, que o damasco não é próprio para uma jovem.

No primeiro dia que Cose e saiu com o seu ves do, o seu mantelete de damasco preto e o seu chapelinho de crepe branco, disse para Jean Valjean, travando-lhe do braço, com semblante risonho, olhar radiante e o coração ébrio de prazer:

— Ó pai, que tal lhe pareço assim?

— Muito linda! — respondeu ele com voz que parecia a voz amarga de um invejoso.