Os Miseráveis
I — A cloaca e as suas maravilhas
Pode-se afirmar que a cloaca é, há dez séculos, a doença de Paris, É o vício que ela tem no sangue. A este respeito nunca o ins nto popular se enganou. O mister dos trabalhadores de canos era, noutro tempo, tão perigoso e quase tão repugnante ao povo como o de esfolador de animais, por tanto tempo votado ao horror e abandonado ao algoz.. Só por meio de elevada paga se decidia algum pedreiro a entranhar-se nessa fé da sapa, em que a escada do limpador hesitava antes de descer; dizia-se proverbialmente: «Descer ao encanamento é entrar na sepultura»; e, como já dissemos, lendas medonhas de toda a natureza cobriam de terror esse cano colossal; sen na temerosa que guarda em si tanto os ves gios das revoluções do globo como os das revoluções dos homens, e em que se encontram ves gios de todos os cataclismos, desde a concha diluviária até ao trapo de Marat.
LIVRO TERCEIRO — A LAMA, MAS TAMBÉM A ALMA I — A cloaca e as suas maravilhas
Jean Valjean achava-se, pois, no cano de despejo de Paris.
Outra semelhança de Paris com o mar. Como no Oceano, o mergulhador pode nele desaparecer. A transição era inaudita. Jean Valjean saíra da cidade mesmo no meio dela e, num abrir e fechar de olhos, no tempo de levantar e de baixar. Uma tampa, passara da luz do dia para a completa escuridão, do meio-dia para a meia-noite, do túmulo para o silêncio, do turbilhão dos trovões para a estagnação do túmulo; e por uma peripécia muito mais prodigiosa ainda do que a da rua de Polonceau, do extremo» perigo para a segurança absoluta.
A súbita queda numa vala; a desaparição no subterrâneo de Paris; deixar aquela rua, onde a morte espreitava por toda a parte, por essa espécie de sepulcro onde residia a vida, foi uma singular transição para Jean Valjean, que ficou alguns segundos como que atordoado, aplicando o ouvido com ar estupefacto. A armadilha da salvação abrira-selhe subitamente debaixo dos pés. A bondade celeste como que o apanhara à falsa fé.
Adoráveis ciladas da Providência!
O pior, porém, era que o ferido não fazia o mínimo movimento e Jean Valjean não sabia se o que levava às costas era um morto ou um vivo.
A sua primeira sensação foi a cegueira. Repen namente deixou de ver. Pareceu-lhe que num minuto ensurdecera. Não ouvia já coisa alguma. A frené ca tempestade de homicídio que se desencadeava alguns pés acima dele não lhe chegava, como já dissemos, aos ouvidos, graças à espessura de terra que o separava dela, senão muito confusamente, e como um rumor saído de uma profundidade. Conhecia que era sólido o que nha debaixo dos pés; nada mais, mas era o que bastava. Estendeu um braço, depois o outro, tocou de ambos os lados a parede e reconheceu que o corredor era estreito; escorregou e reconheceu que a laje estava molhada. Adiantou com precaução um pé, temendo que se lhe deparasse um buraco, um poço ou um precipício, e convenceu-se de que o lajedo se prolongava. O conhecimento do lugar em que se achava foi-lhe dado por uma baforada fétida.
Passados alguns minutos já não estava cego. Pelo respiradouro por onde nha descido penetrava uma porção de luz, que o ajudou a recuperar a vista no meio da vala em que se achava. Começou a dis nguir alguma coisa. O corredor onde se enterrara —
nenhuma outra palavra exprime melhor a situação — era fechada pela parte de trás. Era um dos fundos de saco que a linguagem especial denomina ramais. Na frente tinha outro muro; um muro de trevas. A luz do respiradouro ex nguia-se a dez ou doze passos do sí o onde se encontrava Jean Valjean, e deixava apenas uma claridade lívida em alguns metros da parede húmida do cano. Para além a opacidade era maciça; penetrar nela parecia horrível; a entrada ali assemelhava-se a uma submersão. Contudo, podia-se penetrar naquela muralha de nevoeiro, e assim era preciso. Era necessário até não haver demora. Jean Valjean lembrou-se de que aquela grade, descoberta por ele debaixo das pedras, podia-o ser também pelos soldados, e que tudo dependia de um tal acaso. Podiam também descer ao cano e revistá-lo. Não havia um minuto a perder. Depusera
Mário no chão, tornou a apanhá-lo — é ainda este o verdadeiro termo — tornou a pô-lo às costas e meteu-se ao caminho. Entrou resolutamente naquela escuridão.
A realidade é que estavam menos salvos do que Jean Valjean supunha. Eram esperados por perigos doutro género e não menores. Depois do turbilhão fulgurante do combate, a caverna dos maternas e dos enganos; depois do caos, a cloaca. Jean Valjean caíra de um dos círculos do inferno para outro.
Quando já nha dado uns cinquenta passos teve de parar e resolver a dúvida que se lhe oferecia. O corredor terminava noutro Cano, no qual desembocava transversalmente.
Aí ofereciam-se dois caminhos. Qual deles seguir? Deveria tomar à direita ou à esquerda?
Como orientar-se naquele escuro labirinto? Este labirinto, como já noutra parte notámos, tem um fio: é o seu declive. Seguir o declive é ir ter ao rio.
Jean Valjean compreendeu-o imediatamente.
Disse consigo que, provavelmente, se achava no cano dos Mercados; que, se tomasse à esquerda, chegaria em menos de um quarto de hora a alguma embocadura do Sena entre Pont-au-Change e a Ponte Nova, isto é, achar-se-ia em pleno: dia no sí o mais povoado de Paris. Talvez fosse ter ao respiradouro de algum largo. Pasmo entre os transeuntes ao verem surgir-lhe debaixo dos pés dois homens cobertos de sangue. Os agentes da polícia acudiriam, o posto de guarda mais próximo pôr-se-ia em armas. Seria agarrado logo ao sair do cano. Antes entranhar-se naquele dédalo, embrenhar-se naquela escuridão e entregar o resultado nas mãos da Providência.
Dito isto, subiu o declive e tomou à direita.
Apenas dobrou a Volta da galeria, o longínquo clarão do respiradouro desapareceu completamente, caindo sobre ele um véu de trevas, no meio das quais lhe era impossível ver coisa alguma. Nem por isso, todavia, deixou de prosseguir, com a maior rapidez que podia, levando Mário às costas com os braços passados em roda do pescoço e os pés pendentes. Com uma das mãos segurava-lhe os braços e com a outra apalpava a parede.
O rosto do rapaz como que se colava ao dele, em virtude do sangue que lho cobria. Do corpo de Mário corria um líquido tépido, que trespassava a roupa do «seu salvador.
Entretanto, o calor húmido que se exalava da boca do ferido, e que Jean Valjean sen a num dos ouvidos, indicava que ainda respirava, e, por consequência, vivia. O corredor por onde Jean Valjean agora caminhava era menos estreito do que o primeiro. Todavia, Jean Valjean avançava com grande dificuldade. As águas da chuva do dia antecedente con nuavam ainda a correr, formando uma pequena enxurrada pelo centro do cano, de modo que ele via-se na necessidade de se cozer com a parede para não molhar os pés.
Assim caminhava por entre aquelas trevas, semelhante a um fantasma, às apalpadelas no meio do invisível e subterraneamente perdido nas sinuosidades da escuridão.
Pouco a pouco, porém, ou porque alguns respiradouros longínquos derramassem alguma claridade flutuante no meio daquela opaca cerração ou porque os seus olhos já Es vessem afeitos à escuridão, o caso é que principiou a dis nguir confusamente, ora a parede, unido à qual caminhava, ora a abóbada, por baixo da qual passava. As pupilas dilatam-se na escuridão, na qual, por úl mo, chegam a ver claramente, do mesmo modo que a alma se dilata no infortúnio, no qual vem, por último, a descobrir Deus.
Difícil, porém, era o orientar-se no meio daquele labirinto.
O traçado dos canos repercute, para assim dizer, o traçado das ruas que lhe fica sobreposto. Havia então em Paris duas mil e duzentas ruas. Por aqui se poderá formar ideia do que seria essa floresta de ramos tenebrosos, chamada encanamento. O sistema de canos existente naquela época, pegados uns aos outros, apresentaria uma extensão de onze léguas. Já dissemos que a rede actual, graças à extrema ac vidade destes últimos trinta anos, não tem menos de sessenta léguas.
Jean Valjean principiou por enganar-se.
Supôs que estava por baixo da rua de S. Diniz, e oxalá que assim vesse sido. Ficava por baixo da rua de S. Diniz um an go cano de pedra, que data de Luís XIII, e que vai ter direito ao cano-mestre chamado Cano Grande, tendo apenas uma volta do lado direito, na altura da an ga Corte dos Milagres, e uma única ramificação, o cano de S. Mar nho, cujos quatro braços se cortam em forma de cruz. O cano, porém, da Pequena Truanderie, cuja entrada ficava próxima da casa de pasto de Corinto, nunca, em tempo algum, comunicou com o subterrâneo da rua de S. Diniz; desemboca no cano de Montmartre, exactamente onde Jean Valjean se achava. Neste ponto, as ocasiões de se perder ainda eram em maior número, por isso o cano de Montmartre era, naquele tempo, um dos mais enlabirintados de toda a rede. Felizmente, Jean Valjean já nha passado o cano dos Mercados, cujo plano geométrico figura um sem número de mastaréus entrecruzados, porém nha para diante de se ver em mais de uma colisão: e de encontrar mais de uma esquina de rua — pois aquilo são ruas oferecendo-se-lhe como pontos de interrogação; em primeiro lugar, à esquerda, o grande cano da Platrière, espécie de capacete chinês, estendendo e emaranhando o, seu caos de TT e ZZ por baixo da casa do Correio e da rotunda do Mercado do trigo até ao Sena, onde termina em Y; segundo, à direita, o corredor curvo da rua do Quadrante com os seus três dentes, que são outros tantos becos sem saída; terceiro, à esquerda, a ramificação do Mail, complicada, quase à entrada, por uma espécie de bifurcação, e indo, de ziguezague em ziguezague, desembocar na grande cripta-úlcera do Louvre, contada e ramificada em todos os sen dos; finalmente, à direita, o corredor sem saída da rua dos Jejuadores, sem contar diversos cotovelos aqui e além, antes de chegar ao cano-mestre, o único que o podia conduzir a alguma saída remota, e, por consequência segura. Se Jean Valjean vesse alguma noção de quanto aqui indicamos, depressa conheceria, apalpando simplesmente a parede, que se não achava na galeria subterrânea da rua de S. Diniz. Em vez da an ga pedra de cantaria, em vez da an ga arquitectura, al va e régia até naquilo, com leito e fiadas certas de granito e argamassa feita da melhor cal, a qual custava a oitocentas libras a toesa, conheceria, ao tocá-la, a barateza contemporânea, o expediente económico, a alvenaria cimentada com argamassa hidráulica sobre camadas de betume, que custa duzentos francos o metro, sistema burguês chamado de «materiais miúdos».
Assim caminhava Jean Valjean, ansioso, mas sereno, sem ver nada, sem nada saber, confiando-se ao; acaso, isto é, entregando-se à Providência.
À medida, porém, que ia avançando, sen a-se tomado de certo horror e com o espírito penetrado da escuridão que o envolvia, como se caminhasse por entre um
enigma. Ó aqueduto da cloaca é temível, com o seu ver ginoso cruzamento de ramificações. É uma coisa lúgubre achar-se qualquer naquele País de trevas.
Jean Valjean via-se na necessidade de achar c quase de inventar o seu caminho, sem o ver. Naquela mansão desconhecida, cada passo que ele aventurava podia ser o úl mo.
Como sairia ele dali? Depararia com alguma saída? Encontrá-la-ia a tempo? Conseguiria abrir e penetrar aquela colossal esponja subterrânea de alvéolos de pedra? Encontraria algum inesperado nó de escuridão? Chegaria ao inextrincável e ao inacessível? Veria morrer Mário, em virtude da hemorragia, e ele morreria de fome? Acabariam por perder-se ambos e tornarem-se dois esqueletos em algum canto daquela escuridão? Não o sabia. Fazia todas estas perguntas a si mesmo, e não sabia que responder-lhes. O
intes no de Paris é um precipício. Jean Valjean achava-se, como o profeta, dentro da barriga do monstro.
Um inesperado acontecimento o veio surpreender. No momento em que menos o pensava e sem ter cessado de caminhar em linha recta, conheceu que não subia; a água da enxurrada ba a-lhe nos calcanhares, em lugar de lhe passar pelas pontas dos pés. Por consequência, o cano descia. Que queria isto dizer? Dar-se-ia o caso que ele estivesse por momentos a desembocar no Sena? O perigo em que se ia meter era grande, mas o de recuar ainda maior. À vista disto, continuou a avançar.
Não era, porém, ao Sena que ia ter. A proeminência que o solo de Paris apresenta na margem direita escoa uma das suas vertentes no Sena e a outra no cano-mestre. O cume desta proeminência, que determina a divisão das águas, desenha uma linha em extremo caprichosa. O ponto culminante, que é o lugar em que se separam as enxurradas, fica, no cano de Saint-Avoye, diante da rua de Miguel Lê Comte, no do Louvre, próximo aos boulevards, e no de Montmartre, próximo aos mercados. Era a esse ponto culminante que Jean Valjean nha chegado. Dirigia-se ele, pois, para o cano-mestre e achava-se em bom caminho, porém não tinha disso o menor conhecimento.
Todas as vezes que encontrava alguma ramificação apalpava-lhe as esquinas, e se via que a abertura que se lhe apresentava era mais estreita do que o corredor em que se achava, não entrava nela e con nuava o seu caminho, julgando, e com razão, que todo o caminho mais estreito devia ir ter a algum pequeno cano sem saída, que só serviria para mais o afastar do seu alvo, isto é, da saída. Evitou assim o laço quádruplo que lhe preparavam, no meio das trevas, os quatro dédalos que acabamos de enumerar.
Em certa ocasião, conheceu que saía debaixo da parte de Paris, petrificada pela revolta, onde as barricadas nham feito cessar a circulação, e que entrava para debaixo da parte de Paris viva e normal, porquanto ouviu, de súbito, por cima, um como ribombo de trovão, longínquo, mas contínuo. Era o rodar das seges.