Os Miseráveis
IV — A autoridade readquire os seus direitos
Javert era um carácter completo, que tão pouco consen a uma ruga no seu dever como no seu vestuário; metódico com os celerados, rígido com os botões do seu casaco.
Para ele colocar tão mal a fivela da gravata, era indispensável que vesse experimentado uma dessas comoções que se poderiam denominar tremores de terra ín mos.
Apresentara-se com toda a simplicidade, requisitara um cabo e quatro soldados na guarda vizinha, deixara os soldados no pá o e soubera onde era o quarto de Fan ne pela porteira, que não suspeitou de coisa alguma, acostumada, como estava, a ver gente armada procurar o senhor maire.
Javert, chegando ao quarto de Fan ne, empurrou a porta com a brandura de um espião e entrou.
Verdadeiramente, não entrou. Conservou-se estacado na porta entreaberta, com o chapéu na cabeça e a mão esquerda me da no peito da sobrecasaca, abotoada até ao pescoço. Nas pregas do cotovelo direito dis nguia-se o castão de chumbo da sua enorme bengala, que desaparecia por detrás dele.
Conservou-se assim perto dum minuto, sem que fosse notada a sua presença. De repente, Fan ne ergueu os olhos, viu-o, e fez com que Madelaine se voltasse. No momento em que os olhos de Madelaine encontraram os de Javert, este, sem se mover,
semse aproximar, tornou-se espantoso. Nenhum sen mento humano consegue ser medonho como a alegria. Era o rosto de um demónio, apoderando-se da alma condenada que lhe pertencia. A certeza de ter, enfim, em seu poder Jean Valjean fez-lhe aparecerna fisionomia tudo o que nha na alma. O fundo revolvido subiu à super cie. A humilhação de lhe ter quase perdido a pista e de se ter iludido por alguns instantes com Champmathieu desaparecia sob o orgulho de ter adivinhado tão bem e de ter conservado por tanto tempo um ins nto tão infalível. O contentamento de Javert patenteava-se-lhe na a tude soberana. A deformidade do triunfo expandia-se-lhe na acanhada fronte. Era a horrorosa ostentação de um rosto satisfeito.
Javert, naquele momento, estava no céu. Sem que o compreendesse muito claramente, mas, contudo, com uma confusa intuição da sua indispensabilidade e do seu bom êxito, conhecia que ele, Javert, personificava a jus ça, a luz e a verdade, desempenhando o seu encargo de destruir o mal.
Tinha por todos os lados em torno de si, a uma profundidade infinita, a autoridade, a razão, o assunto julgado, a consciência legal, a vindicta pública, todas as estrelas; protegia a ordem e fazia sair da lei o raio, vingava a sociedade, auxiliava o princípio absoluto; elevava-se no meio dos esplendores da glória; na sua vitória havia ainda um resto de desafio e de combate; de pé, al vo, brilhante, patenteava em pleno rosto a bes alidade sobrenatural de um arcanjo feroz; a sombra tremenda da missão que desempenhava tornava-lhe visível no punho contraído o vago cin lar do gládio social; feliz e indignado, nha debaixo dos pés o crime, o vício, a rebelião, a perdição, o inferno; estava radiante. Sorria-se porque exterminava. Havia incontestável grandezanaquele S.
Miguel monstruoso.
Javert por tal modo medonho não tinha nada de ignóbil.
A probidade, a sinceridade, a candura, a convicção, a ideia do dever, são coisas que, enganando-se, podem tornar-se hediondas, mas que mesmo nesse estado se conservam grandiosas; a majestade delas, próprias da consciência humana, persiste mesmo no horror; são virtudes estas que têm um vício o erro. A inexorável alegria honesta de um faná co em plena atrocidade conserva não sei que esplendor lugubremente venerável.
Javert, sem que o suspeitasse, no meio da sua avantajada felicidade, era digno de lástima, como todo o ignorante que triunfa. Não podia haver coisa tão pungente eterrível como aquela figura, em que se patenteava o que poderia chamar-se maldade do bem.
IV — A autoridade readquire os seus direitos
Fan ne não tornara a ver Javert desde o dia em que o maire a livrara dele. O seu cérebro enfermo não compreendeu coisa alguma, apenas do que não duvidou foi de que ele a ia buscar. Não pôde suportar a horrorosa aparição, sen u-se expirar, ocultou o rosto com ambas as mãos e gritou com a maior aflição:
— Salve-me, senhor Madelaine!
Jean Valjean (doravante não o denominaremos de outro modo) levantara-se. Ouvindo a exclamação de Fan ne voltou-se para ela e disse-lhe com a maior doçura e tranquilidade:
— Não tenha receio. Não foi por sua causa que ele veio aqui. — Depois, dirigindo-se a Javert: — Já sei o que me quer.
Javert retorquiu:
— Vamos, depressa!
Estas palavras foram acompanhadas com uma inflexão em que havia qualquer coisa de bravio e frené co. Não há ortografia que pudesse transmi r o acento com que elas foram pronunciadas. Não foram palavras humanas, foi um rugido.
Não fez como era costume, não entrou em matéria, não exibiu o mandado de prisão.
Para ele, Jean Valjean era uma espécie de inimigo misterioso e insubjugável, um lutador tenebroso a que ele se abraçara havia cinco anos sem que nunca tivesse podido derrubá-lo. Esta prisão não era um começo, mas um fim. Limitou-se, pois, a dizer: «Vamos, depressa!»
Falando deste modo, não deu um passo, lançou a Jean Valjean esse olhar que ele deitava como um arpão, e com o qual costumava puxar para si os miseráveis de quem queria apossar-se. Era o mesmo olhar que Fan ne, dois meses antes, sen ra penetrar-lhe até à medula dos ossos. Ao grito de Javert, Fan ne abrira novamente os olhos. Mas o maire estava ao pé dela, o que poderia recear?
Javert avançou até ao meio do quarto e gritou:
— Então, avias-te?!
A desgraçada olhou em roda de si. Não estava ali mais ninguém além da religiosa e do maire. A quem poderia dirigir-se aquele abjecto tratamento de tu?Não podia ser senão a ela. A pobrezinha estremeceu. Em seguida, viu uma coisa inaudita e tal como nunca lhe aparecera nos mais negros delírios da febre. Viu o espião Javert lançar a mão à gola da sobrecasaca do maire e este curvar a cabeça. Pareceu-lhe que se acabava o mundo.
Javert, com efeito, segurou Jean Valjean pela gola da sobrecasaca.
— Senhor maire! — gritou Fantine.
Javert desatou a rir, mas com o tal riso que lhe descobria as gengivas.
— Já não há aqui nenhum maire!
Jean Valjean não tentou livrar-se da mão que o segurava e disse:
— Javert...
Javert interrompeu-o:
— Chama-me senhor inspector!
— Desejava dizer-lhe uma palavra em particular, senhor inspector.
— Fala alto, fala alto! — respondeu Javert. — Comigo não se fala em particular.
Jean Valjean continuou, baixando a voz:
— É uma súplica que tenho a fazer-lhe...
— Já te disse que fales alto.
— Mas o que eu tenho a dizer-lhesó deve ser ouvido pelo senhor.
— Que me importa a mim isso? Não tenho que ouvir!
Jean Valjean voltou-se para ele e disse-lhe rapidamente em voz baixa:
— Conceda-me três dias! Três dias para ir buscar a filha desta infeliz mulher! Pagarei o que for preciso! Acompanhar-me-á, se quiser.
— Estás a brincar?! — exclamou Javert. — Não te julgava tão estúpido! Pedes-me três dias para te safares! Dizes então que são para ires buscar a filha desta meretriz! Não pega!
Fantine estremeceu.
— A minha filha! — exclamou ela. — Ir buscar a minha filha! Então não está aqui?!
Diga-me, minha irmã, onde está Cose e? Senhor Madelaine, senhor maire, quero a minha filha!
Javert bateu com o pé no chão.
— Temos outra! Vê se te calas! Que diabo de terra esta em que os forçados são magistrados e as meretrizes tratadas como fidalgas! Mas tudo isto vai acabar e já não era sem tempo! — Olhou em seguida fixamente para Fan ne e acrescentou, segurando melhor Jean Valjean, agarrando-lhe desta vez, além da gola, na gravatae na camisa. — Já te disse que não há aqui nem senhor Madelaine, nem senhor maire. Oque aqui há é um ladrão, um salteador, um grilheta chamado Jean Valjean, o qual já me não escapa!
Fan ne ergueu-se convulsivamente, apoiou-se nos magros e hirtos braços, olhou para Jean Valjean, para Javert, para a religiosa, e abriu a boca como que para falar, mas apenas lhe saiu da garganta uma espécie de suspiro sufocado, os dentes bateram uns nos outros, estendeu os braços afli vamente, abrindo de um modo convulsivo as mãos, e procurando apoio em volta de si, como alguém prestes a afogar-se, caiu inopinadamente sobre o travesseiro.
A cabeça bateu no encosto do leito e pendeu-lhe em seguida sobre o peito, com a boca aberta, os olhos igualmente abertos, mas sem brilho.
Estava morta.
Jean Valjean pôs a sua mão na mão com que Javert o segurava, abriu-lha como teria aberto a de uma criança e disse-lhe:
— O senhor matou esta mulher!
— Acabemos com isto! — exclamou Javert furioso. — Não estou aqui para ouvir sa sfações. Deixemo-nos de histórias, a escolta está lá em baixo; ou avias-te ou mando-te amarrar.
No canto do quarto havia um leito velho de ferro, em mau estado, e que servia às irmãs para repousar quando velavam junto das doentes. Jean Valjean dirigiu-se ao leito, deslocou-lhe num abrir e fechar de olhos, a cabeceira já desengonçada, coisa facílima para músculos como os seus, empunhou a barra mais grossa e encarou Javert. Este recuou até à porta.
Jean Valjean, com a barra de ferro na mão, dirigiu-se vagarosamente para a cama de Fan ne. Quando ali chegou, voltou-se para Javert e disse-lhe com uma voz que mal se ouviu: