Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 40 de 359

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Os Miseráveis

Livro Quinto — A Descida

Par a o coração ver de Inverno aquela pobre criança, que ainda não contava seis anos, envolta em farrapos e ritando com frio, a varrer a rua, antes de amanhecer, com uma enorme vassoura nas mãozinhas arroxeadas e uma lágrima suspensa dos seus belos olhos rasgados.

A gente das redondezas chamavam-lhe a Cotovia. O povo, propenso às figuras, comprazera-se de assim denominar aquela criaturinha, pouco mais gorda do que um passarinho, trémula e assustada, sendo a primeira que de manhã se erguia, não só em casa, mas em toda a aldeia, e sempre antes de ser dia já na rua ou nos campos.

Somente a pobre Cotovia não cantava nunca.

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LIVRO QUINTO — A DESCIDA

I — História de um melhoramento no fabrico dos vidrilhos pretos Entretanto, o que fora feito da mãe, que no dizer dos habitantes de Mon ermeil, abandonara a filha? Onde estava e o que fazia? Depois de ter deixado a criança entregue aos mercenários cuidados dos Thenardier, con nuava o seu caminho e chegara a Montreuil-sur-mer. Passava-se isto, como estarão lembrados, em 1818.

Fan ne nha deixado a sua província havia dez anos. Montreuil-sur-mer mudara de aspecto. Enquanto Fan ne descia lentamente de miséria em miséria, fora prosperando a sua terra natal.

Havia dois anos que se nha realizado um desses factos industriais que cons tuem os grandes acontecimentos das terras pequenas. Este pormenor é importante e por isso julgamos ú l desenvolvê-lo, quase diríamos, sublinhá-lo.

Desde tempos remo ssimos que Montreuil-sur-mer nha por indústria a imitação do azeviche inglês e dos vidrilhos pretos da Alemanha, indústria que vegetara sempre, sem tomar desenvolvimento em grande escala, por causa da cares a das matérias-primas, que reagiam sobre a mão-de-obra Na ocasião em que Fan ne voltara a Montreuil-sur-Mer, tinha-se operado uma transformação inaudita na produção dos artigos pretos.

Por fins de 1815, viera estabelecer-se na cidade um homem, um desconhecido, a quem ocorreu a ideia de subs tuir neste fabrico, a resina pela goma laca e, para os braceletes em particular, as correntes apenas juntas em vez de soldadas.

Esta, se bem que, na aparência, pequena mudança, nha sido contudo uma revolução, porque, com efeito, reduzira espantosamente o preço da matéria-prima, o que permi a: primeiro, elevar o preço da mão de obra, bene cio para a localidade; em segundo lugar, melhorar o fabrico, o que era uma vantagem para o consumidor; e em terceiro, vender por melhor preço, triplicando os lucros, bene cio para o industrial.

Deste modo uma só ideia tivera três resultados.

Em menos de três anos, o autor deste processo enriquecera, o que foi uma coisa boa, enriquecendo também todos em torno de si, o que ainda foi melhor. Aquele homem era estranho ao departamento; da sua origem nada se sabia, dos seus princípios muito menos. Contava-se que viera para a cidade com muito pouco dinheiro, algumas centenas de francos, quando muito. Fora deste pequeno capital, posto ao serviço duma ideia engenhosa, fecundada pela boa ordem e pela inteligência, que ele fizera surgir a sua fortuna e a de toda aquela terra. Quando chegou a Montreuil-sur-mer, não nha mais do que o fato que levava no corpo; o seu aspecto e linguagem eram apenas os de um simples operário. Parece que no mesmo dia em que entrava obscuramente na pequena cidade de Montreuil-sur-mer, no fim da tarde de um dia de Dezembro, com uma mochila às costas e um cajado na mão, se manifestara um grande incêndio na casa do concelho municipal, do qual nha salvo, com risco da própria vida, duas crianças, filhas do capitão da gendarmeria, o que deu causa a que não lhe exigissem o passaporte. Desde essa ocasião, ficara-se, porém, a saber o seu nome. Era o senhor Madelaine.

II — Madelaine

A seu respeito só se podia dizer que era um homem de cinquenta anos, pouco mais ou menos, bondoso, parecendo sempre preocupado.

Graças aos rápidos processos da indústria que ele tão admiravelmente reformara, Montreuil-sur-mer tornara-se um considerável centro de comércio. A Espanha que consome muito azeviche, fazia todos os anos grandes encomendas. Neste ramo de comércio, Montreuil-sur-mer fazia concorrência a Londres e a Berlim. Eram tais os lucros do senhor Madelaine, que logo no segundo ano pudera construir uma grande fábrica, em que havia duas vastas oficinas, uma para homens, outra para mulheres. Quem vesse fome, podia aí apresentar-se, que nha de antemão a certeza de encontrar trabalho e pão.

O senhor Madelaine exigia boa vontade dos homens, pureza de costumes das mulheres, e probidade de todos. Para mais facilmente conseguir todas estas coisas, dividira as oficinas, para que, separados os dois sexos, as mulheres e as raparigas não viessem a perverter-se com o contacto dos homens, nem estes a deixarem-se arrastar de vergonhosos desvairamentos por aquelas. Neste ponto era inflexível. Era esta a única coisa para a qual se tornava de alguma maneira intolerante, empregando para conter o mal tanta maior severidade, quanto mais frequentes eram na terra as ocasiões de corrupção, por Montreuil-sur-mer ser uma cidade com guarnição militar De resto, a sua vinda nha sido um bene cio e a sua presença era uma providência. Antes da chegada do senhor Madelaine, tudo naquela terra jazia num estado de desalentada languidez; depois todos passaram a viver a vida sã do trabalho, aquecia tudo e penetrava em toda a parte o movimento duma forte circulação. Tanto a falta de trabalho como a miséria eram ali desconhecidos. Não havia bolsa, por mais mesquinha que fosse, em que não se encontrasse algum dinheiro, nem casa tão pobre que não penetrasse um quente raio de alegria. O senhor Madelaine empregava toda a gente, fazendo uma única exigência: «Seja homem de bem! Seja mulher honesta!»

Como já dissemos, no meio desta ac vidade, de que era a causa e o eixo, fazia o senhor Madelaine a sua fortuna; mas, coisa assaz singular num simples homem de comércio, não mostrava ser esse o seu principal cuidado. Parecia que cuidava muito nos outros e pouco em si. Em 1820 sabia-se que nha seiscentos e trinta mil francos, depositados em seu nome na casa Laffite; antes, porém, de reservar para si esses seiscentos e trinta mil francos, nha gasto mais de um milhão em favor da cidade e dos pobres.

O hospital estava mal dotado; o senhor Madelaine mandou estabelecer mais dez camas. Montreuil-sur-mer era dividida em cidade alta e cidade baixa A cidade baixa, onde ele morava, nha apenas uma escola, velho pardieiro quase em ruínas: fundou duas, uma para meninas e outra para rapazes, dando aos professores, do seu bolso, o dobro do magro ordenado oficial que recebiam, dizendo um dia a alguém que se admirava de que ele fizesse estas despesas: «Os primeiros funcionários do Estado são as amas de leite e os professores de instrução primária». Criara a expensas suas uma casa de asilo, coisa então quase desconhecida em França, e uma caixa de socorros para os operários velhos e enfermos.

Como a sua fábrica se tornasse um centro, surgiu rapidamente em torno dela um novo bairro, onde morava um grande número de famílias indigentes e onde estabeleceu uma farmácia gratuita.

Ao princípio, quando o viram começar os alicerces da sua fortuna, as boas almas disseram: «É um atrevido que quer enriquecer». Quando o viram enriquecer a terra onde estava, antes de se enriquecer a si próprio, disseram ainda as mesmas boas almas: «É um ambicioso». Isto parecia tanto mais provável, por ele ser religioso e até certo ponto zeloso nas prá cas externas, coisa muito bem vista naquela época. Ia regularmente ouvir uma missa rezada todos os domingos.

O deputado local, que por toda a parte farejava concorrência, não tardou a inquietar-se com a sua religião. Este deputado, que nha sido membro do conselho geral, par cipava das ideias religiosas de um padre da Congregação do Oratório, conhecido sob o nome de Fouché, duque de Otranto, de quem fora amigo ín mo. No fundo da sua consciência, ria-se de Deus e das coisas sagradas. Mas quando viu o rico industrial Madelaine ir à missa rezadadas sete horas, entreviu apossibilidade de um candidato e resolveu ultrapassá-lo em zelo, tomando um jesuíta para confessor e nunca faltando à missa cantada e a vésperas.

Naquele tempo, a ambição era, na verdadeira acepção da palavra, o caminho do campanário. Foi proveito dos pobres, tanto como de Deus, aquele terror, porque o respeitável deputado dotou o hospital com mais duas camas, o que fez subir o seu número a doze.

Todavia, em 1819, espalhou-se um dia na cidade o boato de que, por proposta do senhor prefeito e em consideração aos serviços prestados àquela localidade pelo senhor Madelaine, ia este ser nomeado pelo rei, maire de Montreuil-sur-mer. Os que à sua chegada o nham apodado de «ambicioso», aproveitaram com entusiasmo esta ocasião, que todos desejam, para exclamar: «Aí está! Que nhamos nós dito?» Em Montreuil-sur-mer não se falava noutra coisa e o boato nha fundamento. Passados alguns dias apareceu o decreto da nomeação no Monitor e, no dia seguinte, o senhor Madelaine declarou que não aceitava.

Nesse mesmo ano de 1819, figuravam na exposição industrial os produtos do novo sistema inventado por Madelaine, o que fez em vista do relatório do júri, com que o rei o nomeasse cavaleiro da Legião de Honra. Novo rumor na pequena cidade: «Está visto, o que ele queria era a cruz!» Porém, o senhor Madelaine recusou a venera.