Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 242 de 359

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Os Miseráveis

VI — Os velhos nasceram para sair de casa em ocasiões oportunas

— Oh, sim! — dizia ela a sós consigo no recôndito das suas alegrias. — É ele! É ele que me envia isto! Foram os anjos, foi o céu que mo res tuiu, quando eu o supunha perdido! Perdido, meu Deus! Abençoada intervenção, ó anjos! Abençoado acaso, ó céu!

Ó transfigurações do amor! Ó sonhos cegos de amantes! O acaso celeste, a intervenção dos anjos, fora a bola de pão a rada por um ladrão a outro ladrão da prisão

de Carlos Magno para a Cova dos Leões por cima dos telhados da Force.

VI — Os velhos nasceram para sair de casa em ocasiões oportunas Na tarde desse mesmo dia, Jean Valjean saiu e Cose e principiou a ves r-se. Penteou os cabelos do modo que melhor lhe ficavam, ves u um ves do, em cujo corpete a costureira, por um inocente descuido, dera uma tesourada de mais, por onde se deixava entrever a raiz do pescoço, o que, como dizem as jovens, o tornava «um pouco indecente». Nada de indecente tinha o vestido, mas era assim mais bonito do que se não vera aquela indiscreta abertura. Todo este esmero de vestuário e realce de beleza empregara a jovem sem saber porquê.

Era sua tenção sair? Não.

Esperava alguma visita? Não.

Próximo ao anoitecer, desceu ao jardim. Toussaint andava atarefada no tráfego da sua cozinha, que deitava para o pátio das traseiras.

Foi caminhando vagarosamente, desviando a intervalos com a pequenina mão os ramos que por vezes lhe vinham voluptuosos beijar a cândida fronte, até que, por fim, chegou junto do banco, sobre o qual ainda jazia a pedra.

A pedra que uma noite guardara aquele tesouro, de cuja existência a jovem tão longe estava de suspeitar.

Sentou-se e apoiou sobre ela a meiga e alva mão, como que acarinhando-a e agradecendo-lhe.

De súbito, sen u essa impressão indefinível que ainda sem ver se experimenta, quando por trás de nós se chega alguém.

Cosette voltou a cabeça e ergueu-se.

Era ele.

Estava com a cabeça descoberta. Parecia muito pálido e magro. Apenas se lhe dis nguia o seu fato preto. O crepúsculo tornava-lhe lívida a bela fronte e cobria-lhe os olhos de trevas. Sob um véu de incomparável doçura, nha alguma coisa da morte e da noite. O rosto era-lhe iluminado pela claridade do dia que se ex ngue e pelo pensamento de uma alma que se vai deste mundo.

Parecia que não era ainda o fantasma, mas que também já não era o homem.

O chapéu atirara-o para entre as ervas, a alguns passos de distância.

Cose e, prestes a desfalecer, não soltou um só grito. Recuava vagamente, porque se sen a atraída. Ele não se movia. Havia um não sei quê de Inefável e triste que a envolvia, sentia-lhe ela o olhar, que não via.

Cose e, recuando, chegou a uma árvore e encostou-se a ela. Se não fosse aquela árvore teria caído. Então ouviu-lhe ela a voz, aquela voz que nunca verdadeiramente ouvira, elevando-se apenas acima do ciciar da folhagem, e murmurando:

— Perdoe-me o estar aqui. Tenho o coração dilacerado, não podia con nuar a viver como vivia, e por isso vim. Leu o que deixei sobre este banco? Não lhe sou de todo desconhecido, não é verdade? Não tenha receio. Há já tanto tempo! Lembra-se do dia em que olhou para mim? Foi no Luxemburgo, ao pé do gladiador. E os dias em que passou pela minha frente? Foi em 16 de Junho e em 2 de Julho; há quase um ano. Depois

passou-se muito tempo sem a ver. Perguntei à alugadora de cadeiras se a nha visto, disse-me que não. Morava na rua de Oeste, no terceiro andar de uma casa nova; bem vê que sei onde morava; segui-a muitas vezes. O que devia eu fazer? Depois desapareceu.

Um dia estando a ler os periódicos debaixo das arcadas do Odeon, pareceu-me vê-la passar; corri logo, mas nha-me enganado. Era apenas uma menina que levava um chapéu como o seu. Quando é noite, venho aqui. Não tenha receio ninguém me vê.

Venho olhar de perto para as suas janelas, e ando então muito devagarinho para que não me oiça, porque talvez lhe causasse medo. Uma destas noites es ve atrás de si, voltou-se e eu afastei-me. Uma vez ouvia-a, cantar. Sen -me feliz. Sou porventura importuno em querer ouvi-la cantar através das vidraças? Não, isto não pode incomodá-la, não é verdade? Bem o vê, é o meu anjo; consinta que eu venha; creio que vou morrer! Se soubesse! Adoro-a! Perdoe-me, estou a falar-lhe e não sei o que digo; estou, talvez, enfadando-a; diga-me, enfado-a?

— Oh, minha mãe! — disse ela.

E dobrou-se sobre si mesma, como se desfalecesse.

Estava prestes a cair, o rapaz tomou-a nos braços e cingiu-a estreitamente, sem ter consciência do que fazia. Susteve-a cambaleando.

Estava como se vesse a cabeça cheia de fumo; passavam-lhe relâmpagos entre as pestanas; as ideias desvaneciam-se-lhe; parecia-lhe que desempenhava um acto religioso e que come a uma profanação. No fim de tudo não sen a o mínimo desejo por aquela mulher encantadora, cujas formas apertava contra o peito. Estava desvairado de amor.

Cose e pegou-lhe numa das mãos e pousou-a sobre o seu coração. Ele sen u então o papel que ali se achava e balbuciou:

— Então, ama-me?

Cosette respondeu em voz tão baixa que era apenas um sopro e que mal se ouvia:

— Cala-te! Bem o sabes!

E ocultou o rosto cheio de rubor no peito do rapaz, ufano e enlevado.

Deixou-se cair sobre o banco, e ela a seu lado. Já não nham palavras. As estrelas começavam a cin lar. Como foi que os lábios se encontraram? Como é que o passarinho canta, que a neve se funde, que a rosa se abre, que Maio se alegra, e que a aurora desponta por trás das árvores negras no trémulo cume das colinas?

Foi unicamente um beijo.

Ambos estremeceram fitando-se reciprocamente no meio das sombras com os olhos resplandecentes.

Não sen am nem o fresco da noite, nem o frio da pedra, nem a humidade da terra, nem a relva molhada; olhavam-se e tinham o coração cheio de pensamentos.

Sem saberem como, estavam de mãos dadas.

Ela não lhe perguntava, nem se lembrava de semelhante coisa, como e por onde entrara no jardim. Parecia-lhe uma coisa tão simples que ele ali estivesse!