Os Miseráveis
III — Duas desgraças juntas fazem uma ventura
— Senhora! Eu já aqui vou, eu já aqui vou!
E deitou-se abaixo da cama com as pálpebras meio fechadas pelo peso do sono, estendendo o braço para o recanto da parede.
— Ai! Jesus Senhor, que não encontro a vassoura! — disse ela.
Porém, abrindo de todo os olhos, viu o rosto risonho de Jean Valjean e disse:
— Ai, é verdade! Muito bons dias, meu senhor.
As crianças aceitam logo, e familiarmente, a alegria e a ventura, porque elas mesmo
são ventura e alegria.
Mal Cose e avistou a boneca aos pés da cama, pegou nela, fazendo, ao mesmo tempo que brincava, mil perguntas a Jean Valjean. Perguntou-lhe onde estava; se Paris era grande; se estava bem longe da Thenardier; se ela voltaria; etc., etc.
De súbito, exclamou:
— Como isto aqui é bonito.
Era uma suja pocilga, mas Cosette sentia-se livre.
— Quer que eu varra? — tornou ela por fim.
— Não, brinca — disse Jean Valjean.
Assim se passou o decurso do dia. Cose e, sem lhe dar cuidado saber coisa nenhuma, era inexprimivelmente feliz entre aquela boneca e aquele velho.
III — Duas desgraças juntas fazem uma ventura No dia seguinte, quando amanheceu, ainda Jean Valjean estava junto da cama de Cosette, esperando imóvel que ela acordasse.
Jean Valjean sentia penetrar-lhe na alma um sentimento desconhecido.
Aquele homem nunca tinha amado.
Havia vinte e cinco anos que se via só no mundo, sem nunca ter sido pai, amante, marido ou amigo. Nas galés era mau, sombrio, casto, ignorante e insociável. Estava cheio de virgindades o coração daquele velho forçado. Sua irmã e os filhos de sua irmã haviam-lhe deixado apenas uma recordação vaga e longínqua, que viera por fim a desvanecer-se quase completamente. Fizera todos os esforços para dar com eles, porém, como nunca o pôde conseguir, esqueceu-os. É assim feita a natureza humana.
As outras impressões ternas da sua mocidade, se é que as vera, haviam caído num abismo.
Quando viu Cose e, quando a tomou, arrebatou e libertou, sen u revolverem-se-lhe as entranhas. Todo o fogo de que era suscep vel o seu coração, toda a intensidade do afecto que podia votar a um ser humano, se lhe despertou, precipitando-se para aquela criança. Acercava-se da cama em que ela dormia e tremia de alegria, experimentava emoções maternas. É uma coisa bem obscura e agradável esse grande e estranho movimento de um coração que principia a amar.
Pobre coração aquele, que pulsava como novo num peito de velho Como ele, porém, nha cinquenta e cinco anos e Cose e oito, todo o amor que poderia ter em toda a sua vida fundiu-se numa espécie de clarão inevitável.
Era aquela a segunda aparição branca que ele encontrava.
O bispo fizera-lhe nascer no seu horizonte a aurora da virtude; Cose e fazia-lhe nascer nele a aurora do amor.
Neste deslumbramento decorreram os primeiros dias.
Pela sua parte, Cose e tornava-se outra também, sem disso dar fé, pobre entezinho!
Quando sua mãe a deixou, era tão pequena que já não se lembrava dela.
Como todas as crianças semelhantes aos rebentos da vinha que a tudo se agarram, Cose e tentara amar, porém não pôde chegar a consegui-lo. Todos a haviam repelido, os Thenardier, os filhos e as outras crianças. Amara o cão, mas este morrera, e após isto,
nem pessoas nem coisas se importaram com ela. Lúgubre coisa por nós já indicada, aquela criança aos oito anos nha o coração frio. Não era por culpa dela, nem porque lhe faltasse a faculdade de amar; ai, era a possibilidade. De modo que, desde o primeiro dia, tudo o que nela pensava e sonhava, principiou a amar aquele velho.
Experimentava o que nunca sen ra uma sensação semelhante à da flor quando desabrocha.
O próprio Jean Valjean não lhe produzia o efeito de um velho ou de um pobre.
Achava-o belo, do mesmo modo que achava bonito o albergue miserável em que estava.
São efeitos estes produzidos pela aurora, pela infância, pela juventude, pela alegria.
Concorre para eles a novidade da terra e a da vida.
Não há coisa mais encantadora do que o colorido reflexo da ventura sobre as águas-furtadas. Todos nós assim temos no nosso passado uma mansarda azul.
A natureza, cinquenta anos de intervalo, haviam posto uma separação profunda entre Jean Valjean e Cose e, separação que o des no preencheu. O des no uniu repen namente e desposou com o irresis vel poder aquelas duas existências sem raízes, diferentes pela idade, só pelo luto semelhantes. Efec vamente uma completava a outra.
O ins nto de Cose e procurava um pai como o ins nto de Jean Valjean procurava um filho. Encontrarem-se foi acharem-se. Soldaram-se-lhes as mãos no momento misterioso em que se tocaram. Quando aquelas duas almas se avistaram, reconheceram-se como sendo a necessidade uma da outra e abraçaram-se estreitamente.
Podia-se dizer, tomando as palavras no sen do mais compreensivo e absoluto, que separados de tudo pela, barreira de um túmulo, Jean Valjean era o viúvo como Cose e era a órfã. Esta situação fez com que Jean Valjean se tornasse de um modo celeste o pai de Cosette.
E, em verdade, a misteriosa impressão produzida em Cose e, no meio do bosque de Chelles, pela mão de Jean Valjean, ao travar-lhe da dela, por entre a escuridão da noite, não era uma ilusão, mas uma realidade. A entrada daquele homem no des no daquela criança fora a chegada de Deus.
Por úl mo, acrescentaremos que Jean Valjean escolhera bem o seu asilo, pois estava nele numa segurança que podia parecer completa.
O quarto com alcova que ele ocupava com Cose e era o que nha a janela que dava para o boulevard, e como esta era a única que havia na casa, não nha ele a recear os olhares dos vizinhos, tanto dos lados como da frente. O rés-do-chão da casa número 50-52, espécie de telheiro, em ruínas, servia de guarida a hortelãos e não nha
comunicação com o primeiro andar, pois ficava separado deste pelo soalho, em que não havia alçapão nem escada, sendo como que o diafragma do edi cio. O primeiro andar con nha como dissemos, muitos quartos e mansardas, só um dos quais era ocupado por uma velha que era quem tratava da casa de Jean Valjean. O resto estava todo por habitar.
Fora essa velha, ornada com o tulo de principal locatária, e na realidade encarregada das funções de porteira, quem lhe alugara aquele domicílio em dia de Natal, inculcando-
se-lhe ele como um rendeiro arruinado pelos vales de Espanha, que pretendia ir para ali morar com uma filhinha. Jean Valjean pagara seis meses adiantados, encarregando a velha de mobilar o quarto e o gabinete do modo que se viu. Fora esta boa mulher quem acendera o fogão e preparara tudo na noite da sua chegada.
Sucederam-se as semanas. Aqueles dois entes passavam uma existência feliz naquele miserável aposento.
Cose e logo pela manhã começava a rir, a brincar e a cantar. As crianças têm o seu canto de manhã como as aves.
Jean Valjean às vezes travava-lhe da vermelha e engelhada mãozinha e beijava-lha; porém, a pobre criança, afeita a ser espancada, não sabia o que isto queria dizer e retirava-a toda envergonhada.
Às vezes tornava-se séria e punha-se a contemplar o seu ves do preto. Cose e já não andava coberta de andrajos, andava de luto; saía da miséria e entrava na vida.
Jean Valjean começava a ensinar-lhe a ler. Às vezes, quando estava a fazê-la soletrar, lembrava-se de que fora com a ideia de pra car o mal que aprendera a ler nas galés, ideia que aproveitava para ensinar a ler a uma criança, e então o velho forçado sorria com esse sorriso pensativo dos anjos.
Sen a nisto uma premeditação superior, uma vontade de alguém sem ser o homem, e perdia-se em fundas cogitações. Os bons pensamentos têm seus abismos como os maus.