Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 120 de 359

Páginas do PDF

Os Miseráveis

III — Severidades

Haviam ob do, é verdade, ser enterradas a uma hora especial e num lugar reservado no cemitério de Vaugirard, que nha sido construído em terreno noutro tempo pertencente à comunidade, porém isto não passava de uma consolação medíocre.

À quinta-feira estas religiosas ouvem missa cantada, vésperas e todos os o cios, como nos domingos. Além disto, observam escrupulosamente todos os dias santos dispensados, desconhecidos das pessoas mundanas, que a igreja outrora prodigalizava em França e ainda prodigaliza na Espanha e na Itália. As suas estações na capela são intermináveis. Quanto ao número e duração das suas rezas, não podemos dar melhor ideia destas duas coisas do que citando o dito ingénuo de uma delas: As rezas das postulantes são terríveis, as das noviças ainda, piores e as das professas muito piores ainda.

Reúne-se o capítulo uma vez por semana; preside a prioresa e assistem as madres vocais. Cada uma das irmãs vem por sua vez ajoelhar na pedra e confessar em voz alta, diante de todas, as faltas e pecados que naquela semana cometeu. Após cada confissão, consultam-se as madres vocais e infligem em voz alta as penitências.

Além da confissão em voz alta, para a qual se reservam as faltas de mais alguma gravidade, têm para as faltas veniais o que elas chamam a culpa. Fazer a culpa é prostrar-se diante da prioresa, até que esta, a quem nenhuma religiosa trata de outro modo senão por nossa mãe, advirta a paciente de que só se pode levantar, batendo uma pancada na sua cadeira coral. A culpa faz-se por qualquer tenuíssima coisa, por quebrar um copo, por ter rasgado um véu, por uma involuntária demora de alguns segundos num o cio, pela desafinação de uma nota na igreja, etc. Isto basta para que a religiosa a quem tal coisa acontece faça logo a culpa. A culpa, porém, é inteiramente espontânea; é a própria culpada, (julgamos e mologicamente própria do lugar a expressão) que a si a inflige, depois de se julgar. Nos domingos e dias santos, os o cios são salmodiados por quatro madres cantoras, diante de uma estante de quatro faces.

Ora, um dia, uma das madres cantoras entoou um salmo, que principiava por um Ecce; porém, como em vez de Ecce, dissesse em voz alta estas três notas: dó, si, sol, sofreu por esta distracção uma culpa que durou todo o tempo do o cio. A falta tornava-se enorme, porque as outras religiosas tinham-se rido.

Quando uma religiosa é chamada ao parlatório, ainda que seja a prioresa, baixa o véu de modo a não deixar ver mais do que a boca.

Só a prioresa pode comunicar com estranhos. As outras não podem ver senão os parentes mais próximos e isso ainda raras vezes. Se sucede apresentar-se alguma pessoa de fora para ver alguma religiosa a quem no mundo conheceu ou amou, é necessário uma negociação completa. Se é senhora, pode ser concedida a autorização algumas vezes; vem então a religiosa e aquela fala-lhe através dos pos gos, que não se abrem senão para uma mãe ou irmã. Escusado é dizer que aos homens tal permissão é recusada sempre.

Eis aqui, pois, a regra de S. Bento, agravada por Martin Verga.

Não são rosadas, frescas e joviais, como de ordinário as filhas das outras ordens, as religiosas de quem nos ocupamos. São pálidas e no rosto trazem impressos em traços visíveis o selo das austeridades definhadoras, a que pela regra que as rege, estão sujeitas. Só de 1825 a 1830 endoideceram três.

III — Severidades

A que é admi da, é pelo menos dois anos postulante e às vezes quatro, ao que se devem acrescentar outros quatro anos de noviciado. É raro, por consequência, que alguma faça os votos defini vos antes dos vinte e três ou vinte e quatro. As bernardas-beneditinas de Martin Verga não admitem viúvas na sua ordem.

Nas suas celas entregam-se a muitas macerações em segredo, de que nunca devem falar.

No dia em que uma noviça faz a sua profissão, adornam-na com os seus mais belos enfeites, põem-lhe uma grinalda de rosas brancas, alisam-lhe e dispõem-lhe o cabelo em caracóis e em seguida a noviça prostra-se e as outras estendem-lhe por cima um véu preto e cantam-lhe o o cio de defuntos. Dividem-se então as religiosas em duas fileiras; uma passa próximo da noviça, dizendo com acento las moso: Morreu a nossa irmã! E a outra responde em voz retumbante: Mas vive em Jesus Cristo!

Na época em que se passa esta história havia um recolhimento de meninas adjunto ao convento. Recolhimento de donzelas nobres, pela maior parte ricas, entre as quais se dis nguiam as meninas de Sainte-Aulaire e de Bélissen e uma inglesa que nha o ilustre nome católico de Talbot. Cresciam estas donzelas, educadas por aquelas religiosas entre quatro paredes, no horror do mundo e do século. Um dia, dizia-nos uma delas: Só o ver as pedras da rua fazia-me estremecer dos pés à cabeça! Andavam ves das de azul com uma touca branca na cabeça e uma pomba figurando o Espírito Santo ao peito, de cobre ou prata dourada. Em certos dias santos de guarda, com especialidade no dia de Santa Marta, concedia-se-lhes, como subido favor e suprema ventura, ves rem-se de religiosas e fazerem os ofícios e as práticas de S. Bento em todo o dia.

Nos primeiros tempos, as religiosas emprestavam-lhes os seus ves dos pretos; porém, como isto parecesse profano, a prioresa proibiu-o e só foi permi do tal emprés mo às noviças. É para notar que estas representações, decerto toleradas e favorecidas no convento por um secreto espírito de proseli smo e para fazer antegostar àquelas crianças o santo hábito, fossem uma ventura real e uma verdadeira recreação para as recolhidas. Era para elas um passatempo com que a sua simplicidade engraçava por ser uma coisa nova, uma coisa que as mudava. Cândidas razões infan s, que não chegam, todavia, a fazer-nos compreender, a nós mundanos, a felicidade de pegar num hissope e estar de pé horas seguidas a cantar em quarteto diante de uma estante de coro.