Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 343 de 359

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Os Miseráveis

I — O dia 16 de Fevereiro de 1833

impacientou-o, a ponto que exclamou com uma vivacidade que quase nha o tremor da cólera:

— Repito, esse homem, quem quer que seja, foi sublime! Sabe o que ele fez, senhor?

Interveio como o arcanjo! Arremessou-se ao meio do combate, rou-me dele, levou-me pelo encanamento, conduziu-me aqui, finalmente, pôs-me a salvo! Para isso teve de andar mais de légua e meia por medonhas galerias subterrâneas, curvado, vergado, pelo meio das trevas, por baixo dos canos; mais de légua e meia, senhor, com um cadáver às costas! E com que fim? Com o único fim de salvar esse cadáver! E esse cadáver era eu!

Esse homem disse consigo: «Aqui existe talvez ainda um clarão de vida; vou arriscar a minha existência por esta miserável centelha!» E arriscou-a, não uma vez, mas vinte, porque cada passo que dava era um perigo que lhe surgia diante! A prova é que, ao sair do cano, foi preso. Sabe, senhor, que esse homem pra cou isto tudo sem o mais leve vislumbre de esperança de uma recompensa? Que era eu? Um insurgente. Que era eu?

Um vencido! Oh, se os seiscentos mil francos de Cosette fossem meus!...

— Pois de quem são senão seus? — atalhou Jean Valjean.

— Pois bem — retrucou Mário — dá-los-ia para saber onde parava esse homem!

Jean Valjean conservou-se silencioso.

LIVRO SEXTO — A NOITE FOI PASSADA EM CLARO

I — O dia 16 de Fevereiro de 1833

A noite de 16 para 17 de Fevereiro de 1833 foi uma noite abençoada. Teve por cima da sua escuridão o céu aberto.

Foi a noite de núpcias de Mário com Cosette.

O dia havia sido delicioso.

Não fora, é Verdade, a festa azul delineada por Gillenormand; uma cena como as dos contos de fadas, animada por uma mul dão de querubins e cupidos, volteando por cima da cabeça dos noivos, um casamento digno de figurar num quadro para pôr por cima de uma porta; mas fora um suave e risonho espectáculo.

A moda do casamento em 1833 não era como a de hoje. A França ainda não nha adoptado da Inglaterra a suprema delicadeza do marido arrebatar a noiva, deitar a fugir com ela, apenas transposto o limiar da igreja, esconder-se com vergonha da própria ventura e combinar os modos de um bancarroteiro com os arroubos do cân co dos cânticos.

Não era ainda compreendido o que há de casto, delicado e decente em levar o seu paraíso aos solavancos dentro de uma sege de aluguer, entremear o seu mistério com estalos de chicote, em tomar por leito nupcial uma cama de estalagem, em deixar após si, na alcova banal paga a tanto por noite, a mais sagrada das recordações da vida, confundida com os galanteios trocados entre o cocheiro de diligência e a criada de estalagem.

Na actual metade do século XIX, já não basta o maire, com a sua faixa, o padre e a sua estola, a lei e Deus; é necessário ;que sejam completados pelo pos lhão de Longjumeau; jaqueta azul de canhões vermelhos e botões de guizos, calções de pele verde, pragas contra os cavalos normandos de cauda atada, galões falsos, chapéu de oleado, cabelos empoados, grande chicote e batas até ao meio da perna.

A França não leva ainda a elegância a ponto de, como a nobility inglesa, fazer chover sobre a sege de posta que conduz os noivos uma saraivada de sapatos e chinelos velhos, em memória de Churchill, depois Marlborough ou Malforouk, acome do no dia do seu casamento por uma cólera de a que bons resultados lhe trouxe. Verdade, verdade, os chinelos velhos ainda não fazem parte das nossas solenidades nupciais, mas uma vez que o bom gosto con nue a difundir-se, certo estamos de que também entre nós pegará a moda.

Em 1833, que ainda não vai há cem anos, não se usavam os casamentos a galope, hoje tanto em voga.

Julgava-se, nessa época — «forte extravagância! Que o casamento é uma festa ín ma e. social, que um banquete patriarcal em nada faz desmerecer uma solenidade domés ca, que a alegria, ainda que excessiva, uma vez que seja honesta nenhum mal faz à ventura, e que, finalmente, é venerando e conveniente que a fusão dos dois des nos de que há-de sair a família tenha princípio em casa, e, que o casal tenha desde esse momento por testemunha a câmara nupcial.

Impudentes, que levavam o seu arrojo a ponto de se casarem em casa!

O casamento, pois, teve lugar em casa de Gillenormand, segundo essa moda, hoje caduca.

Por mais natural e ordinário que seja um casamento, há sempre suas complicações na publicação dos banhos, no lavrar das escrituras, nos requisitos civis e eclesiás cos. Por conseguinte, o casamento dos dois jovens deitou a 16 de Fevereiro.

Ora sucedeu — apontamos esta par cularidade simplesmente como prova da nossa exac dão — sucedeu, dizíamos, que o dia 16 de Fevereiro caiu numa terça-feira de entrudo. Deu isto lugar a hesitações e. escrúpulos, principalmente da parte da a Gillenormand.

— Dia de entrudo! — exclamou o avô. — Melhor! Como diz o rifão: Mariage un mardi gras

N’aura point d’enfants ingrats. 53

— Nada de demoras. Deixemo-nos disso! Seja no dia 16. Ou tu queres que seja mais adiante, Mário?

— De modo nenhum! — respondeu o noivo.

— Nesse caso, mãos à obra! — exclamou o ancião.

O casamento, efectuou-se, pois, no dia 16, não obstante a alegria pública. Nesse dia chovia, porém, o céu tem sempre um can nho azul à disposição da felicidade, o qual os noivos são capazes de ver, ainda quando o resto da criação se ache debaixo de um guarda-chuva.

Na véspera, Jean Valjean entregara a Mário, em presença de Gillenormand, os quinhentos e oitenta mil francos.

Como Toussaint agora se tornava inú l a Jean Valjean, Cose e ficou com ela, promovendo-a logo ao posto de sua criada grave.

Quanto a Jean Valjean, preparou-se-lhe e mobilou-se-lhe um quarto, em casa de Gillenormand, e tão irresis velmente lhe pediu a filha que o viesse habitar que ele quase prometeu.

Poucos dias, porém, antes do dia aprazado para o casamento, acontecera-lhe um desastre: esmagara o dedo polegar da mão direita. Conquanto o ferimento não fosse grave, não consen u que ninguém lho tratasse ou visse, nem mesmo Cose e, todavia teve de pôr o braço ao peito e ficou impossibilitado de assinar o quer que fosse, por não poder fazer uso daquela mão. Assinara, portanto, em lugar dele, Gillenormand, como subtutor de Cosette.

Não conduziremos o leitor à mairie nem à igreja, onde ninguém acompanha dois namorados. O costume é voltar as costas ao drama apenas ele põe ao peito um ramo de noivo. Limitar-nos-emos a apontar um incidente ignorado dos que compunham o prés to nupcial, que teve lugar no trânsito da rua das Mulheres do Calvário para a igreja de S. Paulo, onde foi celebrada a cerimónia religiosa: do casamento.

Como, nessa época, se andasse consertando a extremidade norte da rua de S. Luís, achava-se obstruída a passagem desde a rua do Parque Real. Por consequência, as carruagens do prés to nupcial não podiam dirigir-se directamente para S. Paulo; nham de mudar de itinerário o mais simples seria tornear o boulevard.

A isto, porém, objectou um dos convidados que, como era dia de entrudo, devia estar

o boulevard atulhado de carruagens.

— Porquê? — perguntou Gillenormand.

— Por causa das máscaras.

— Às mil maravilhas! — disse o velho. — Vamos pelo boulevard. Estes jovens casam-se; vão entrar no sério da vida. Devem, portanto, preparar-se, vendo uma mascarada!

Em virtude desta resolução, principiou o prés to a desfilar pelo boulevard. Na primeira berlinda ia Cose e, Gillenormand, sua filha e Jean Valjean. Seguia-se outra berlinda conduzindo Mário, ainda separado da noiva, segundo o uso.

Apenas o prés to desembocou da rua das Mulheres do Calvário, confundiu-se na imensa procissão de carruagens, que se estendiam, formando uma espécie de cadeia contínua, desde a Madalena até à Bastilha e desta até à Madalena.

No boulevard ninguém via senão magotes de máscaras. Apesar dos aguaceiros, que, com pequenos intervalos, se sucediam, os burlescos actores daquela cena de tumulto não esfriavam do seu ardor. No bom-humor desse Inverno de 1833, Paris disfarçara-se em Veneza. Esses espectáculos já hoje se não vêem. Como tudo o que existe é carnaval, já não há carnaval.

Tanto as janelas como os passeios laterais do boulevard estavam cheios de curiosos.

Sobre os terraços que coroam os peris los dos teatros via-se igualmente uma mul dão de espectadores. Além das máscaras, gozava-se também o espectáculo daquela numerosa variedade de carros, caminhando ordenadamente, rigorosamente unidos uns aos outros, em conformidade dos regulamentos policiais e como que seguindo por trilhos de ferro. Quem se acha dentro de Um desses veículos é, ao mesmo tempo, espectador e espectáculo. Ao longo dos passeios do boulevard, estendia-se um cordão de agentes de polícia, ali postados com o fim de vigiar aquelas duas intermináveis fileiras paralelas movendo-se em sen do contrário, atentos a que nada embaraçasse a oposta corrente destes dois rios de carros, dos quais um subia para a calçada de An n, o outro para o arrabalde de Santo António. Pelo meio da rua entrecruzavam-se livremente os trens dourados dos embaixadores e pares de França. Gozavam do mesmo privilégio alguns prés tos folgazões e magníficos, especialmente o do Boi Gordo. No meio desta alegria de Paris, ouvia-se a Inglaterra fazendo estalar O seu chicote; era a sege de posta de tarde Seymouir, apodada por uma alcunha popular, passando com grande estrondo.

Na dupla fileira, ao longo da qual os guardas municipais galopavam como cães de pastor, honestos trens de família, pejados de as e avós, deixavam ver pelas por nholas gen s grupos de crianças mascaradas, interessantes criaturinhas, capacitadas de que faziam parte oficial do regozijo público, compenetradas da dignidade da sua bufoneria, que desempenhavam com gravidade de funcionários.

De quando em quando, sobrevinha algum embaraço no meio daquela procissão de veículos; uma das fileiras laterais parava até se desatar o nó e em seguida punha-se tudo de novo a caminho, tendo bastado o embaraço de uma só carruagem para paralisar toda a linha.

As carruagens que compunham o prés to nupcial achavam-se no meio do cordão que se dirigia para a Bas lha, ao longo do lado direito do boulevard. Chegados à altura da

rua de Pont-aux-Ghoux, os carros que formavam este cordão pararam um instante e a fila que seguia para a Madalena parou igualmente. Nesse ponto do segundo cordão via-se um carro de máscaras.

Estes carros, ou, para melhor dizer, estas carradas de máscaras, são muito conhecidas dos parisienses. Se faltassem no dia de entrudo ou quarta-feira da velha, causariam estranheza e toda a gente diria: «Aqui anda grande novidade! Provavelmente, temos mudança ministerial!» Magotes de Cassandras, Arlequins e Colombinas, solavancados por cima dos viandantes; toda a espécie de grotescos possíveis, desde o turco até ao selvagem; Hércules pelo braço de marquesas; regateiras que fariam tapar os ouvidos a Rabelais, como, an gamente, as ménades faziam baixar os olhos a Aristófanes; cabeleiras de estopa, calças de malha cor de carne, chapéus oleados, óculos de charlatão, tricórnios de Junot coroados por uma inquieta borboleta; gritos contra os que andam a pé, mãos nas ilhargas, a tudes despejadas, ombros nus rostos Mascarados, desfaçamentos escancarados; um caos de desavergonhadas guiado por um cocheiro coroado de flores; eis o que é esta instituição.

A Grécia precisava do carro de Thespis, a França necessita do fiacre de Vádê.

Tudo é suscep vel de paródia, até a própria paródia. A saturnal, esgar da beleza an ga, vem, de exageração em exageração, terminar no entrudo, e a bacanal, outrora coroada de pâmpanos, inundada pela luz do sol, mostrando seios de mármore, numa seminudez divina, hoje, abrandada debaixo dos trapos molhados do: norte, veio, por último, a denominar-se mascarada.

A tradição dos carros de máscaras remonta aos mais an gos tempos da monarquia.

Nas contas de Luís XI vêem-se abonados ao bailio do palácio «vinte soldos torneses para três coches de máscaras nas praças». Actualmente, estes ruidosos magotes de criaturas, fazem-se, de ordinário, transportar em alguma sege velha pesada, e tumultuosamente sentados no tejadilho., dentro, na traseira, na lança, em toda :a parte onde podem segurar-se. São vinte numa carruagem que apenas pode conter seis. Em qualquer lugar improvisam um assento. Até nas lanternas se empoleiram. De pé, sentados, deitados com as pernas encolhidas, com dais penduradas, de toda a maneira. As mulheres sentam-se nos joelhos dos homens. Vêem-se de longe, por cima de uma multidão imensa de cabeças, aquelas pirâmides humanas, extravagantemente conformadas. Estes carros são umas como montanhas de alegria no meio do geral tumulto, montanhas de onde manam Coílé, Panard e Piron, opulentos de gíria, de onde se vomita sobre o povo o catecismo das praças. Vedes o ar de conquista daquele Carro, que a carga que leva faz parecer desmesuradamente grande? Precede-o a Vozearia, segue-o o Tumulto. Os que vão nele vociferam, gritam, cantam, rugem, contorcem-se nos transportes do prazer; ruge a alegria, flameja o sarcasmo, brilha purpurina a jovialidade; é a farsa levada em apoteose por dois sendeiros; é o Carro do triunfo do Riso.

Riso demasiado cínico para ser franco. E, com efeito, esse riso é suspeito. Esse riso tem uma missão. Tem a seu cargo provar o carnaval aos parisienses.

Estes carros da escória social, misteriosamente tenebrosos, fazem meditar o filósofo.

Dentro desse carro vai o governo. Palpa-se neles, para assim dizer, a afinidade misteriosa

que existe entre os homens públicos e as mulheres públicas.

Triste coisa, na verdade, que um edi cio de torpezas possa servir de abrigo ao prazer, que se engode um povo sobrepondo a ignomínia por cima do opróbrio, que a espionagem, servindo de cariá de à pros tuição, divirta as turbas afrontando-as, que a mul dão, goste de ver passar sobre as quatro rodas de um carro esse monstruoso montão vivo, ouropel-andrajo, meio luz, meio lixo, que ladra e canta, que se aplauda esta glória formada de vergonhas de toda a espécie, que não haja verdadeira festa para a mul dão, onde a polícia não passeie pelo meio ideia esta espécie de hidras de alegria de vinte cabeças. Mas que remédio?

Estes carros de lama enfeitada de fitas e adornada de flores são insultados e amnis ados pelo riso público. O riso de todos é cúmplice da degradação universal.

Certas festas impuras desagregam o povo e tornam-no ralé. E a ralé é como os ranos; quer histriões. O rei tem Roquelaure, o povo tem Palhaço. Paris é a grande cidade louca todas as vezes que não é a grande cidade sublime. Em Paris o carnaval faz parte da polí ca. Paris, Confessemos a verdade, não desgosta de ver a infâmia representando a comédia. Não exige de seus senhores quando os tem — senão uma coisa: que lhe mascarem a lama. Roma tinha a mesma propensão,.

Gostava de Nero, porque Nero era um dèbardeur tirânico.

Como íamos dizendo, quisera o acaso, que do lado esquerdo do boulevard parasse um desses disformes magotes de homens e mulheres mascarados, aglomerados numa descomunal carruagem, ao mesmo tempo que do lado direito paravam as seges do prés to nupcial, vindo o carro das máscaras a ficar justamente defronte da carruagem que conduzia a noiva.

— Ó rapazes — disse um máscara — vocês não querem ver um casamento?

— É um casamento falso — respondeu o outro.

— O verdadeiro somos nós!

E, após isto, não podendo dirigir alguma chufa aos noivos, por se acharem a demasiada distância e temerem a intervenção da polícia, puseram-se a olhar para a outra parte.

Ao cabo de um instante, o carro dos máscaras teve que ver-se em terríveis apertos; a mul dão principiou a apupá-los, que é o seu modo habitual de acariciar os máscaras, e os dois que acabavam de falar

veram de fazer frente àquela imensa turba,

arremessando-lhe todos os projécteis do repertório dos Mercados, com que, todavia, não conseguiam dominar o desconforme alarido do povo. Foi um medonho combate de metáforas entre os mascarados e a multidão.

Ao mesmo tempo, outros dois máscaras da mesma carruagem, um espanhol com um nariz descomunal, ar de jarreta e imensos: bigodes pretos, e uma regateira magra e ainda jovem,

nham avistado também o prés to nupcial, e enquanto os seus companheiros e os transeuntes se insultavam, principiaram a conversar em voz pouco elevada.

O sussurro das suas vozes perdia-se no meio do tumulto que os cercava. Como o carro era descoberto, a chuva alagara-o completamente; o vento de Fevereiro não é quente.

Ao mesmo tempo que respondia ao espanhol, a regateira ria-se, tiritava e tossia,.

Eis o diálogo:

— Olha,

— Que é, meu pai?

— Vês, aquele velhote?

— Que velhote?

— Aquele que está na primeira carruagem do lado direito.

— O que tem o braço ao peito embrulhado num lenço preto?

— Sim.

— E então?

— Eu conheço aquele figurão, por mais que me digam!

— Ah!

— Que me atravessem uma espinha no estreito e nunca mais torne

a «piar sagrado»54, na minha vida, se eu não conheço aquela borra-botas que ali está!

— Hoje todos são borra-botas, porque estão as ruas cheias de lama.

— Debruçando-te, podes ver a noiva?

— Não,

— E o noivo?

— Naquela carruagem não vem noivo nenhum.

— Ora adeus!

— Só se o noivo é o outro velhote.

— Debruça-te bem a ver se sempre lobrigas a noiva.

— Não posso.

— Paciência! O que sei dizer é que eu conheço o figurão que traz o braço ao peito.

— Não me dirás de que te serve conhecê-lo?

— Quem sabe? Às vezes...

— Pois cá para mim, os velhos dão-me pouco cuidado!

— Pois eu conheço-o.

— Então conheça-o para aí à vontade!

— Como diabo veio ele parar aqui?

— Ora, como nós!

— De onde virá o acompanhamento?

— Eu sei lá!

— Escuta!

— Que é?

— Tu podias fazer uma coisa.

— Que coisa?

— Apear-te e ir atrás daquele acompanhamento.

— Para quê?

— Para saber onde vai e quem são os noivos. Anda depressa, filha. A quem tem boas pernas não custa isso nada.

— Não posso sair do carro.

— Porquê?

— Porque estou ajustada.

— Diabo!

— Devo o meu dia de peixeira à prefeitura.

— É verdade.,

— Bem sabes que tão depressa puser pé fora do carro, no mesmo instante serei filada pelo primeiro agente que me lobrigar.

— Bem sei isso.

— Hoje pertenço ao governo.

— É o mesmo. O que é certo é que o diabo do velho dá-me que cismar!

— A , ao menos, todos os velhos te dão que cismar. Pois olha que tu também, já não és nenhuma criança!

— Ele está na primeira carruagem...

— Então que tem lá isso?

— Na carruagem da noiva...

— E daí?

— Por conseguinte é o pai!

— E eu que tenho a ver que ele seja o pai ou a mãe?

— Digo-te que é o pai!

— Forte cisma! Há-de ser por força aquele!

— Escuta.

— Que é?

— Tu bem sabes que eu não posso sair senão mascarado. Estar aqui é como se es vesse escondido, porque ninguém me conhece. Porém amanhã acabam-se as máscaras, porque é quarta-feira de cinza, e eu arrisco-me a ser fisgado se me não recolho na toca, enquanto tu podes andar por onde bem te parecer.

— Isso agora mais devagar!

— Sempre estás mais na tua liberdade do que eu.

— Pois sim; e daí?

— Quero que saibas para onde se encaminha aquele acompanhamento.

— Para onde se encaminha?

— Sim.

— Isso sei eu, sem ser preciso ir atrás dele.

— Então para onde?

— Para o Quadrante Azul.

— Ora adeus! Para o Quadrante Azul não se vai por aqui.

— Nesse caso, então, vai para a Rajpée.

— Decerto que ele para alguma parte vai, olha a grande novidade!

— Está no seu direito; pode ir para onde quiser.

— Deixa-te de asneiras! O que eu pretendo é que me saibas quem são os noivos e onde moram, e que figura faz o velhote em tudo isto.