Os Miseráveis
V — Utilidade de ouvir missa para vir a ser-se revolucionário
— Meu filho não chega, vou eu esperá-lo ao caminho!
E em seguida deitara pelo quarto fora e caíra no sobrado da sala de espera. Acabava de expirar.
Tinham chamado o médico e o abade. O médico, porém, chegara tarde, e o mesmo aconteceu com o abade e com o filho.
Ao clarão crepuscular daquela vela divisavam-se na face do coronel, es rado no chão, duas grandes lágrimas, que lhe coaram dos olhos já selados pelo dedo da morte. Os olhos já não nham vida, mas as duas lágrimas brilhavam-lhe ainda nas pálpebras. Eram a demora de seu filho.
Mário pôs-se a contemplar aquele homem que via pela primeira e úl ma vez, aquele varonil e venerando rosto, aqueles olhos abertos que já não viam, aqueles cabelos brancos, aqueles robustos membros, nos quais aqui e além se divisavam linhas escuras, que eram golpes de espada, e uma espécie de estrelas vermelhas, que eram buracos de balas. O mancebo contemplou o enorme gilvaz que imprimia o heroísmo naquela fronte
em que Deus imprimira a bondade. Lembrou-se que aquele homem era seu pai, que seu pai estava morto, e ficou na mesma frieza.
A tristeza que o mancebo sen u, foi a tristeza que sen ria em presença de qualquer outro homem que Visse estirado no chão, morto.
O aspecto, porém, daquele quarto era sobremodo fúnebre. A criada chorava a um canto, o abade orava, soluçando ao mesmo tempo, o médico limpava os olhos, até o próprio cadáver chorava.
O médico, o padre e a mulher olhavam para Mário entre a sua aflição sem dizer uma palavra; o mancebo é que era o estranho. Mário, envergonhado da sua pouca comoção e embaraçado da sua a tude, deixou cair o chapéu que nha na mão para fazer supor que a dor lhe tirava a força de o segurar.
Ao mesmo tempo, o mancebo sen a um como remorso do seu procedimento, achando-se mesmo a seus olhos desprezível. Mas ele nha alguma culpa nisso? Se não amava seu pai, que havia de fazer?
A herança do coronel era nula. Mal chegou para as despesas do enterro o produto da venda da mobília.
Num bocado de papel achado pela criada e por ela entregue a Mário, liam-se as seguintes linhas escritas do próprio punho do coronel.
Para meu filho.
O imperador fez-me barão no campo de batalha de Waterloo. Visto que a restauração me contesta este tulo, que eu ganhei à custa do meu próprio sangue, peço a meu filho que o tome e use como seu. Escuso de dizer que há-de ser digno dele.
No lado de trás tinha o coronel acrescentado:
Nessa mesma batalha de Waterloo salvou-me a vida um sargento chamado Thenardier. Nestes úl mos tempos, creio que este homem estava estabelecido com uma estalagem numa aldeia dos arrabaldes de Paris, em Chelles ou Mon ermeil. Se meu filho algum dia der com ele, recomendo-lhe que lhe faça todo o bem que puder.
Movido, não pelo sagrado afecto filial, mas pelo vago respeito da morte, sempre tão imperioso no coração do homem, Mário pegou no papel e guardou-o.
O espólio do coronel desapareceu todo, Gillenormand mandou vender a um adelo a espada e o uniforme que fora dele; os vizinhos entraram pelo jardim, apossando-se das flores raras que ele com tanto desvelo cul vava, e as outras plantas morreram afogadas pelas moitas de silvas e abrolhos que lhe cresceram em torno.
Mário demorara-se apenas quarenta e oito horas em Vernon, voltando depois do enterro para Paris, onde prosseguiu de novo a interrompida frequência das suas aulas de direito, sem mais lhe vir à lembrança a memória de seu pai, que era para ele como se nunca vera exis do. Dentro de dois dias estava o coronel enterrado, e no fim de três já ninguém se lembrava dele.
Mário trazia um fumo no chapéu. Era ao que se reduzia tudo.
V — Utilidade de ouvir missa para vir a ser-se revolucionário Mário conservara os costumes religiosos que adquirira na infância. Num domingo que fora ouvir missa a S. Sulpício, àquela mesma capela da Virgem onde sua a o levava quando era pequeno, estando mais distraído e pensa vo do que de ordinário, sentara-se numa cadeira de veludo de Utrecht, atrás de uma coluna, sem reparar que no recosto
da cadeira estava escrito o nome: Mabeuf, sacristão. A missa nha apenas começado, quando um velho se chegou a ele, dizendo-lhe:
— Queira desculpar, mas este é o meu lugar.
Mário ergueu-se apressadamente, e o velho entrou na posse da sua cadeira.
Terminada a missa, Mário ficou ainda pensa vo a alguns passos de distância: o velho aproximou-se novamente e disse-lhe:
— Peço-lhe que me desculpe tê-lo incomodado no começo da missa e de agora mesmo o tornar a incomodar. O senhor deve ter-me achado importuno, portanto é necessário que lhe dê uma explicação.
— É inútil, senhor!
— Não é — tornou o velho — não quero que vá fazendo má ideia de mim. Tenho muita predilecção por este lugar. Parece-me que a missa aqui é melhor. Não sabe porquê? Eu lho digo. Foi neste lugar que eu vi, durante dez anos, de dois em dois ou de três em três meses, regularmente, um pobre e honrado pai, que não nha outra ocasião nem maneira de ver seu filho, por isso que lho impediam certos assuntos de família.
Aparecia sempre à hora em que sabia trazerem seu filho à missa. O pequenino nem suspeitava que seu pai aqui es vesse; nem mesmo sabia que nha pai, o pobre inocente. O pai, pela sua parte, conservava-se atrás do pilar, para que o não vissem.
Contemplava o filho e chorava; o pobre homem adorava a criancinha. Vi isto muitas vezes. Este lugar ficou como san ficado por mim, e acostumei-me a ouvir sempre nele a missa. Prefiro-o à bancada em que devia estar, como sacristão. Tive até algum conhecimento com o infeliz homem. Tinha um sogro, uma a rica, e não sei que mais parentes que o ameaçavam de deserdar a criança, se ele, que era seu pai, lhe falasse.
Sacrificara-se para que o filho pudesse um dia ser rico e feliz. Parece que não consen am que ele o visse por mo vo de opiniões polí cas. Eu aprovo que se tenham opiniões polí cas; mas há gente que não sabe ter mão nelas. Valha-me Deus! Um homem não é um monstro só porque esteve em Waterloo; não se separa um pai de seu filho por semelhante coisa. Era um coronel de Bonaparte; e julgo que morreu. Residia em Vernon, onde está meu irmão, que é prior, e chamava-se... Tinha assim um nome como Pontmarie ou Montparcy... O que ele tinha também era uma cicatriz no rosto.
— Pontmercy — disse Mário, empalidecendo.
— É isso mesmo! Pontmercy. Conhecia-o?
— Era meu pai!