Os Miseráveis
XV — Cambronne
Ficaram derribados na luta os que haviam vencido a Europa, sem ter que dizer nem que fazer mais nada, porque conheciam na sombra uma presença terrível. Hoc erat in fa s. Aquele dia mudou a perspec va do género humano. Waterloo foi o gonzo do século dezanove. Era necessária a desaparição do grande homem para a chegada do grande século, e dela se encarregou alguém a quem se não replica. O pânico dos heróis explica-se. A batalha de Waterloo foi mais do que uma nuvem, foi um meteoro.
Foi a passagem de Deus.
Ao cair da noite, Bernard e Bertrand, num campo das imediações de Genape, fizeram parar, agarrando-o por uma aba do casacão, um homem desvairado, pensa vo, sinistro, que, arrastado até àquele lugar pela torrente da derrota, acabava de se apear do seu cavalo e que, depois de enfiar o braço pela rédea, voltava só para Waterloo, com olhar espantado. Era Napoleão, sonâmbulo imenso daquele sonho desfeito, tentando ainda romper para a frente.
XIV — O último quadrado
No meio da torrente da derrota, porém, conservaram-se imóveis até à noite, alguns quadrados, como rochedos no meio da água que se despenha. Sobrevinda a noite e a morte também, arrostaram-se com essa dupla sombra e deixaram-se envolver por ela, inabaláveis no seu posto. Ali, cada regimento morria isolado dos outros, porque já não havia laços que os prendessem ao exército, por todas as partes desbaratados. Para travarem esta derradeira acção, uns nham tomado posição nas eminências de Rossomme, outros na esplanada do Mont-Saint-Jean, onde, abandonados, vencidos, terríveis, agonizavam formidavelmente aqueles quadrados escuros. É que com eles morriam Ulm, Wagram, lena, Friedland.
Ao escurecer, por volta das nove horas, restava um, no fundo da esplanada do Mont-Saint-Jean, comandado por um oficial obscuro chamado Cambronne, lutando ainda debaixo dos fogos convergentes da ar lharia inimiga vitoriosa, debaixo de uma densidade terrível de projécteis naquele vale funesto, junto a essa encosta por onde treparam os couraceiros, e agora inundada pelas massas inglesas. A cada descarga, o quadrado diminuía, mas respondia estreitando de con nuo as suas quatro paredes e replicando à metralha com descargas de espingardaria, cujo troar sombrio e decrescente ao longe os fugitivos açodados paravam por um momento a escutar no meio das trevas.
Quando, porém, aquela legião não era mais do que um punhado, quando a bandeira flutuava rasgada em tiras, quando as espingardas se lhes tornaram inúteis por não terem balas, quando o montão de cadáveres se tornou maior que o grupo vivo, houve entre os vencedores um como terror sagrado em volta daqueles moribundos sublimes e a artilharia inglesa calou-se para tomar fôlego. Foi uma espécie de pausa.
Aqueles combatentes nham em roda de si um como formigueiro de espectros, uma mul dão de sombras de homens a cavalo, visto de lado; o perfil escuro das peças, o céu branco divisando-se por entre as rodas e as carretas; a colossal cabeça de morte, que os heróis entrevêm sempre nas nuvens de fumo de uma batalha, avançava com os olhos fixos neles. Ouviram carregar as peças por entre a sombra crepuscular, viram em volta das cabeças um círculo luminoso produzido pelo clarão dos morrões acesos, que brilhavam como os olhos de um gre na obscuridade, aproximaram-se das peças todos os morrões das baterias inglesas, e então um general inglês, segundo uns, Colville, segundo outros, Maitland, gritou comovido, segurando o úl mo minuto suspenso sobre a cabeça daqueles homens:
— Bravos franceses, rendei-vos!
Cambronne respondeu:
— Merda!
XV — Cambronne
Ao leitor francês que quer ser respeitado não pode ser repe da a frase mais bela que talvez tenham pronunciado lábios franceses. É proibir o sublime ao historiador; nós, porém, infringimos a proibição, apesar de todos os riscos e perigos que possamos correr.
Entre aqueles gigantes, houve um titã, que foi Cambronne.
O que pode haver de mais grandioso do que pronunciar essa palavra e em seguida morrer! Porque é morrer empregar todos os esforços para o conseguir; porque esse
homem não é culpado de ter sobrevivido, a despeito da metralha.
O homem que ganhou a batalha de Waterloo, não foi Napoleão, derrotado; não foi Wellington, recuando às quatro horas, e sem esperança às cinco; não foi Blucher, que não combateu: o homem que ganhou a batalha de Waterloo foi Cambronne.
Fulminar com tal palavra o trovão que nos aniquila, é vencer.
Respondendo de semelhante modo à catástrofe, falar assim ao des no, dar aquela base ao leão futuro, arremessar aquela réplica à chuva da noite precedente, ao muro traidor de Hougomont, à azinhaga de Ohain, à demora de Gruchy e à chegada de Blucher, ser a ironia do sepulcro, fazer com que ficasse de pé depois de tudo ter caído, afogar em duas sílabas a coalizão europeia, oferecer aos reis as sen nas já conhecidas dos Césares, fazer da úl ma a primeira das páginas juntando-lhes o relâmpago da França, terminar insolentemente Waterloo com o carnaval, completar Leónidas com Rebelais, resumir esta vitória numa palavra suprema, impossível de se pronunciar, perder o terreno e salvar a história, depois da carnificina ter por si os que riem, é imenso.
É o insulto ao raio. Este facto atinge a grandeza esquiliana.