Os Miseráveis
V — O velho
— Viva a Polónia!
Os guerreiros mancebos vinham do cais Morland, sem gravatas, nem chapéus, esbaforidos, ensopados em água, fuzilando relâmpagos no olhar Gavroche uniu-se a eles serenamente e perguntou:
— Para onde é a ida?
— Anda daí também — disse Courfeyrac.
Atrás de Feuilly marchava, ou antes, saltava Bahorel, espécie de peixe nas águas da revolta. Levava um colete vermelho e ia proferindo dessas palavras incendiárias que fazem estremecer tudo. À vista do colete, um homem que ia a passar gritou, tremendo de susto:
— Aí temos os vermelhos!
— Quais vermelhos nem meios vermelhos — replicou Bahorel — O seu medo causa riso, burguês! Eu não tenho medo de uma papoila nem tremo à vista de um capelo encarnado! Olhe, burguês, deixemos o medo do vermelho aos animais cornígeros!
E exclamou logo em seguida, ao avistar numa esquina a mais pacífica folha de papel que podia haver, uma pastoral do arcebispo de Paris, em virtude da qual autorizava o uso de ovos às suas «ovelhas»:
— Ovelhas! É o mesmo que chamar-nos tolos por boas palavras!
E, ao dizer isto, arrancou a pastoral. Este acto de coragem conquistou-lhe as boas graças de Gavroche. Desde esse instante, o gaiato pôs-se a estudar Bahorel.
— Bahorel, tu nisso fazes mal — observou-lhe Enjolras. — Nós não temos nada com os papéis que estão pelas esquinas, por isso devias deixar a pastoral do arcebispo em sossego. Guarda a tua provisão de cólera, não a desbarates tão inu lmente. O fazer fogo é nas fileiras, seja com alma, seja com a espingarda.
— Cada qual para o que nasceu! — retrucou Bahorel.
— Causou-me um não sei quê cá por dentro este aranzel de bispo, porque eu quero comer ovos sem lhe darem licença. Tu és um vulcão debaixo de uma crusta de neve, eu não sou assim, gosto de me diver r. Quanto mais, isto não é malbaratar coisa nenhuma, é para me exercitar. Se rasguei esta pastoral, Hercle!, foi para criar ânimo.
Impressionado por aquela palavra, Gavroche, que buscava todas as ocasiões de se instruir, e que se sentia atraído para aquele destruidor de cartazes, perguntou-lhe:
— Que diabo quer dizer Hercle?
— Quer dizer santo nome de cão, em. latim! — respondeu Bahorel.
E, ao avistar a uma janela um rapaz pálido e de barba preta, que acudira a vê-los passar, e que de certo era também algum amigo do ABC, gritou-lhe de baixo:
— Olé! Cartuchos com força. Para bellum.
— Belo homem! Já sei — disse Gavroche, que já entendia o latim.
Acompanhava já os rapazes um prés to tumultuoso, composto de estudantes, artistas, jovens filiados na Cougourde de Aix, operários, moços de fretes, uns armados de paus ou baionetas, outros com pistolas me das por entre as calças, como Combeferre.
Marchava no meio do bando um homem, que parecia de idade bastante avançada, sem qualquer arma, e que, apesar do seu ar distraído, fazia diligência por não ficar atrás.
— Quem é este? — exclamou Gavroche, apontando o ancião a Courfeyrac
— É um velho.
Era Mabeuf.
V — O velho
Digamos o que se tinha passado.
Na ocasião em que os dragões principiaram, a avançar, Enjolras e os seus amigos achavam-se no boulevard Bourdon, próximo aos celeiros. Enjolras, Courfeyrac e Combeferre nham sido dos que haviam deitado pela rua Bassonpierre, gritando: «Às barricadas!» Chegados à rua Lesdiguières, encontraram-se com um velho que vinha em direcção oposta. O que mais lhes atraiu as atenções foi ver o pobre homem caminhando aos ziguezagues, como embriagado. Além disto, apesar de ter chovido toda a manhã e chover ainda naquela ocasião com toda a força, trazia o chapéu na mão. Courfeyrac conheceu logo que era Mabeuf, porque nha muitas vezes acompanhado Mário até junto da porta dele. Conhecedor, pois, dos pacíficos e mais do que midos costumes do velho tesoureiro alfarrabista, e espantado de o ver no meio daquele tumulto a dois passos das cargas da cavalaria, quase no meio de um roteio, sem chapéu e à chuva, passeando sossegadamente entre as balas, chegou-se a ele, e então trocou-se o seguinte diálogo entre o revoltoso de vinte e cinco anos e o octogenário:
— Ó senhor Mabeuf! É melhor recolher-se a casa.
— Porquê?
— Porque vamos ter barulho.
— Isso é bom.
— Não hão-de faltar tiros nem cutiladas.
— Isso é bom.
— E até descargas de artilharia.
— Isso é bom. E para onde vão os senhores?
— Deitar o governo a terra.
— Isso é bom.
E principiara a segui-los. Desde aquele momento, porém, não tornara a pronunciar uma palavra. O seu andar tornara-se subitamente firme, de modo que, tendo-lhe alguns operários oferecido o braço, ele acenou com a cabeça que não. Caminhava quase na primeira fileira da coluna, apresentando ao mesmo tempo o movimento de um homem que anda e o rosto de um homem que dorme.
— Que danado de velho! — murmuravam os estudantes.
Corria entre os do bando o boato de que era um an go convencional, um velho regicida.
O ajuntamento já em extremo numeroso, tomara pela rua dos Vidraceiros. Na frente marchava Gavroche, cantando com toda a força que podia, o que lhe dava ares de uma corneta, os seguintes versos:
Ai, que noite tão bonita,
Tão bonita de luar
Ai, que noite tão serena
Para andar a passear!
Tou, tou, tou,