Os Miseráveis
I — A sala de baixo
Sen a-se indisposto contra si mesmo, contra a impetuosidade do turbilhão de sensações que o tinham ensurdecido, cegado. Estava descontente de si mesmo.
O que deveria então fazer?
As visitas de Jean Valjean repugnavam-lhe profundamente. Para que iria aquele homem a sua casa? O que nha ali que fazer? Neste ponto diligenciava atordoar-se; não queria cavar, não queria aprofundar, não queria sondar-se a si próprio.
Tinha prome do Jean Valjean nha a sua promessa; ainda com um forçado, sobretudo com um forçado, deve cumprir-se a palavra dada. Contudo, o seu primeiro dever era para com Cosette.
Em suma, sentia-se agitado por uma repulsão, que dominava tudo.
Mário revolvia no espírito todo este conjunto de ideias, passando sucessivamente de
uma a outra, e agitado por todas. Daqui profunda perturbação. Não lhe foi fácil ocultar esta perturbação a Cosette; mas o amor é um talento e Mário conseguiu.
No fim de tudo, sem intenção, aparente, fez algumas perguntas a Cose e, que, cândida como uma pomba, não suspeitou coisa nenhuma; falava-lhe da sua infância e da sua mocidade, e cada vez ficava mais convencido de que tudo o que um homem pode ser de bom, de paternal e de respeitável, nha-o sido para Cose e aquele forçado. Tudo o que Mário tinha entrevisto e suposto era real. A sinistra urtiga amara e protegera o lírio.
LIVRO OITAVO — O DECRESCIMENTO CREPUSCULAR
I — A sala de baixo
No dia seguinte, ao anoitecer, Jean Valjean ba a à porta da casa onde morava Gillenormand, na rua das Mulheres do Calvário e era recebido por Biscainho, que se achava no portal e prontamente acudira a abrir.
Semelhante pron dão e a circunstância de se achar tão a propósito próximo da porta quase fazia desconfiar que para isso nha recebido ordem, o que não pode ser mo vo para espanto, pois não é raro dizer-se a um criado: «Esteja à espreita a ver quando chega o senhor Fulano».
— O senhor barão recomendou-me que lhe perguntasse se queria subir ou ficar mesmo aqui em baixo — disse Biscainho para Jean Valjean, sem esperar que ele se lhe dirigisse.
— Eu fico mesmo aqui em baixo! — respondeu Jean Valjean.
A vista desta resposta, Biscainho abriu a porta da sala, que ficava logo à entrada e acrescentou com o mesmo modo respeitoso com que nha recebido o suposto Fauchelevent.
— Vou prevenir a senhora.
Biscainho saiu e ele entrou.
A sala em que Jean Valjean acabava de entrar era uma loja abobadada e húmida, ladrilhada de jolo e apenas alumiada por uma janela gradeada de ferro, que deitava para a rua.
Esta sala, que, em caso de necessidade, podia servir de adega, não era das que a vassoura, a escova e o espanador trazem em con nuo sobressalto. Ali o pó jazia em sossego, as aranhas viviam livres da menor perseguição. Bastava ver a larga e negra teia, semeada de moscas mortas, com que uma delas forrara um dos caixilhos da janela, para se conhecer que ninguém naquela casa nha a crueldade de as ir perturbar no exercício das suas habilidades.
A mobília, que era pouco espaçosa e sobremodo baixa, consis a num monte de garrafas arrumadas a um canto. As paredes, pintadas de ocre amarelo, achavam-se em parte escalavradas e em osso; Na extremidade oposta à entrada, via-se um fogão com guarnições de madeira pintada de preto e prateleira estreita. O fogão estava aceso, o que indicava que a resposta de Jean Valjean: «Eu fico mesmo aqui em baixo» já era esperada.
De cada lado do fogão achava-se uma cadeira de braços. No espaço que ia de uma à outra, via-se estendido, em guisa de tapete, um estrado Velho já com mais traças do que lã.
A única luz desta sala era o reflexo que se projectava do fogão e a claridade crepuscular que se coava por entre os varões da janela gradeada. Apenas entrou, Jean Valjean atirou-se com expressão de desalento para uma das cadeiras.
O pobre homem sen a-se desfalecido. Havia uns poucos dias que não comia nem dormia.
Biscainho voltou a pôr um cas çal aceso sobre a prateleira do fogão e re rou-se, sem
que Jean Valjean, que, com a cabeça pendida para o peito, parecia mergulhado em completa abstracção, desse por ele nem pelo que tinha vindo fazer.
De súbito, levantou-se da cadeira, como que sobressaltado e voltou-se para trás.
Era Cosette, Cosette que ele não vira, mas que sentira entrar.
Voltou-se e quedou-se em muda contemplação diante da jovem, naquela ocasião como que iluminada por um maior realce de beleza. O que ele, porém, tão profundamente parecia observar naquele olhar não era a beleza, mas a alma.
— Sempre tem cada coisa, meu pai! Sabia que era muito singular, mas esta é que eu não esperava! Que ideia! Mário disse-me que foi seu desejo de que eu o recebesse aqui.
— Disse a verdade!
— A espera dessa resposta estava eu! Bem. Previno-o já de que vamos ter uma zanga muito grande! Principiemos pelo princípio. Meu pai, faz favor de me beijar?!
E a jovem apresentou a face a Jean Valjean.
Este, porém, conservou-se imóvel.
— Ah! Então? Muito bem. É porque se sente culpado! É o mesmo, perdoo-lhe! Jesus Cristo disse: «Oferecei a outra face». Aqui a tem!
E apresentou a outra face.
Jean Valjean ficou na mesma imobilidade. Dir-se-ia que nha os pés pregados no chão.
— O caso torna-se sério! — con nuou Cose e. Que lhe fiz eu? Declaro-lhe que estou de mal consigo! Não faço as pazes senão me prometer que janta hoje connosco!
— Já jantei!
— Não jantou tal! Hei-de fazer queixa ao senhor Gillenormand para ele lhe ralhar! Os avós têm obrigação de repreender os pais! Vamos. Venha daí comigo lá para cima. Já!
— Não posso..
A resposta de Jean Valjean encheu de espanto Cose e, que, em vez de dar ordens, principiou a fazer perguntas..
— Porque não pode? E logo foi escolher, para eu lhe aceitar a visita, a sala mais feia que tem a casa, uma espelunca que mete medo!
— Bem sabes tu... — deixou escapar Jean Valjean.
E, atalhando-se logo, prosseguiu:
— Bem sabe a senhora que eu sempre tive as minhas esquisitices!
— Sabe a senhora?! Outra novidade! — exclamou Cose e, batendo com as suas mãozinhas uma na outra.
— Que quer dizer isso?
Jean Valjean fitou-a com esse sorriso pungente a que às vezes recorria e respondeu:
— Assim o quis, assim o tem! Hoje é uma senhora casada; portanto, o tratamento que lhe pertence é este!
— Mas não para si, meu pai.
— Não torne a chamar-me pai.
— Como?
— Chame-me senhor Jean; ou simplesmente Jean, se quiser...
— Já não é meu pai, é o senhor Jean, e eu já não sou Cose e! Mas o que significa isto? Temos revoluções? O que foi que sucedeu? Olhe bem para mim. E não quer viver connosco! Não fez caso do Quarto que se lhe des nou. Que lhe fiz eu? Fiz-lhe algum mal? Sucedeu-lhe aqui alguma coisa?
— Não, não sucedeu nada.
— E, noutra parte?
— Não houve a menor alteração; está tudo como estava.
— Mas porque muda de nome?
— Também a senhora fez igual mudança.
E sorrindo-se ainda com o mesmo sorriso, acrescentou:
— Assim como em vez de Cose e é a senhora Pontmercy, assim eu posso ser o senhor Jean.
— Não percebo. Nada disso tem senso comum. Hei-de pedir licença a meu marido para lhe chamar senhor Jean. Espero que não consinta. Não imagina como me mor fica.
Pode ter caprichos; mas sem afligir a sua Cose e. É muito mal feito. Quem é tão bom não tem direito de ser mau.
Jean Valjean não respondeu.
Cose e pegou-lhe vivamente nas mãos, e com um movimento irresis vel, elevando-lhas até à altura do rosto, apertou-lhas convulsivamente contra o pescoço, por baixo da barba, o que é profundo gesto de ternura.
— Não seja mau! — disse ela.
E prosseguiu:
— Olhe, pai não ser mau, há-de vir viver connosco; nós aqui, temos passarinhos; como nha na rua Plumet; há-de sair daquele buraco da rua do Homem Armado, não nos há-de dar charadas a adivinhar, há-de ser como toda a gente, jantar e almoçar connosco e ser meu pai.
Jean Valjean desembaraçou as mãos das de Cosette.
— A senhora já não precisa de pai, tem marido.
Cosette mostrou-se enfadada.
— Já não preciso de pai! Ora, realmente, não sei o que se há-de dizer a semelhantes coisas!