Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 325 de 359

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Os Miseráveis

IV — Também ele carrega com a sua cruz

— Isto é de mais! Uma chave do governo!...

E, serenando-se imediatamente, con nuou, exprimindo a infinidade de ideias que lhe acudiam ao cérebro, pela seguinte cadeia de exclamações admira vas, proferidas com acento quase irónico:

— Ora! Ora! Ora!

Dito isto, foi postar-se à espreita por trás do monte de entulho, com a raiva paciente do mas m!, à espera não sei se de ver sair o homem que entrara, se de ver entrar mais alguns.

Quanto ao carro, que regulava pelos dele todos os seus movimentos, parara junto do parapeito, e o cocheiro, prevendo considerável demora, encaixou o focinho dos seus cavalos no saco de aveia molhada em baixo; saco tão conhecido dos parisienses, por isso que às vezes o governo — seja dito em parêntesis — lhes dá de comer nele.

Ao mesmo tempo, os raros transeuntes da ponte de Iena, antes de completamente se afastarem, voltavam-se e punham-se a contemplar por alguns momentos aqueles dois vultos imóveis, que faziam parte da paisagem: o homem na ribanceira, o carro no cais.

IV — Também ele carrega com a sua cruz

Jean Valjean pusera-se de novo a caminho, porém cada vez eram maiores as dificuldades que lhe surgiam diante, porque nem sempre o nível das abóbadas dos canos é o mesmo. A sua altura média regula por cinco pés e seis polegadas, mas conquanto fosse calculada para a estatura de um homem, Jean Valjean via-se obrigado a agachar—

se para obstar a que Mário batesse com a cabeça na abóbada. A cada instante se via na necessidade de se curvar e tornar-se a endireitar, sem, porém, nunca deixar de apalpar a parede. Infelizmente, quer para as mãos, quer para os pés, eram pouco seguros os pontos de apoio que encontrava, por causa da humidade das pedras e da viscosidade do pavimento do cano. Por consequência, a cada passo escorregava ou vacilava no meio do sujo canal subterrâneo. Os reflexos intermitentes dos respiradouros apenas apareceriam de longe em longe, e tão descorados, que mais pareciam provir da Lua que do Sol; tudo o mais eram trevas, miasmas, sombras, cerração escura. Pela fome, e especialmente pela sede, ele se sen a pungido o desditoso, e ali nha água; mas água que, como no mar, ele via e não podia beber. Apesar da força de que era dotado, que era extrema, como se sabe, e que nem com a idade nha diminuído, graças ao seu casto e sóbrio viver, Jean Valjean começava a sen r-se enfraquecer, e, à medida que mais se sen a presa do cansaço, mais se lhe aumentava o peso do fardo que conduzia. Mário, cadáver, talvez apesar do extremo cuidado com que Jean Valjean lhe procurava deixar O peito desoprimido para que tomasse livremente a respiração, pesava como pesam todos os corpos inertes. Ao firmar os pés no chão, os ratos cruzavam-se em tal quan dade pelo pavimento do cano; que ele sen a-os roçarem-lhe pelas pernas, chegando um, a mordê-lo; espavorido talvez do inaudito encontro. De espaço a espaço; porém, ba a-lhe no rosto, coada pelas grades dos respiradouros, uma lufada de ar fresco, que o reanimava.

Seriam três horas da tarde, pouco mais ou menos, quando ele chegou ao Cano Grande.

No primeiro relance, ficou maravilhado daquele súbito alargamento, ao ver-se de chofre no meio de uma ampla galeria, a cujas paredes não chegava ao mesmo tempo com ambos os braços estendidos e debaixo de uma abóbada em que não tocava com a cabeça. Esta circunstância, porém, facilmente se explica, sabendo-se que o Cano Grande tem sete pés de altura sobre oito de largo.

No sí o onde o cano de Montmartre vem desaguar ao Cano Grande, há uma encruzilhada formada por mais duas galerias subterrâneas, a da rua da Provença e a do Matadouro, que também ali desaguam. Outro qualquer, ao ver-se entre aqueles quatro caminhos, teria ficado indeciso; Jean Valjean não hesitou, tomando pelo mais largo; isto

é, pelo principal. Neste ponto, porém, a mesma dúvida do princípio se oferecia: devia subir ou descer? Jean Valjean viu que a situação urgia, e que, portanto, lhe cumpria chegar ao Sena a todo o transe, ou, por outras palavras, descer. Foi o que fez, tomando, sem: hesitação, à esquerda.

Foi o que lhe valeu, pois seria erro supor que o Cano Grande tem duas saídas, uma para o lado de Bercy, outra para o de Passy, e que e, como à primeira vista pareceria, a circunvalação subterrânea da margem direita de Paris. O Cano Grande, que não é outra coisa mais — repe mos — do que o an go ribeiro de Menilmontant, termina em cima num outro cano sem saída, isto é, no seu an go ponto de par da, na base da colina de Menilmontant, onde nha a sua origem, e não tem comunicação directa com a ramificação que recebe as águas de Paris, de Popincouit para baixo, e que vai desaguar no Sena pelo cano de Amelote, logo acima da an ga ilha de Louviers. Esta ramificação, que é o complemento do cano principal, fica separada dele, por baixo da própria rua de Menilmontant, por uma grossa parede, que marca o ponto de divisão das águas de um lado e do outro. Por conseguinte, se Jean Valjean vesse subido a galeria, chegaria, após mil obstáculos, extenuado de fadiga, mais morto do que vivo, a uma parede, e então ficaria perdido.

Em vez de subir, porém, descera, guiado apenas pelo ins nto, que não o enganou.

Nisso consis a, efec vamente, a possibilidade de se ver a salvo daquele medonho labirinto, pelo meio do qual caminhava e de que nada sabia. Se alguém, naquela hora, lhe perguntasse onde se achava, Jean Valjean apenas responderia: «Nas trevas!» Guiado, pois, unicamente pelo seu ins nto, o generoso salvador de Mário deixou à direita os dois corredores que se bifurcam em forma de garra por baixo da rua Laffite e da de S.