Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 233 de 359

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Os Miseráveis

VII — Para tristeza, tristeza e meia

Sorria-lhe, e o seu sorriso parecia um requinte de galanteria, porque a galanteria e a ingenuidade são duas coisas que se tocam pelos seus extremos.

Esperava todos os dias com impaciência a hora do passeio, sen a-se indizivelmente feliz com a presença de Mário e julgava sinceramente exprimir todo o seu pensamento em dizer a Jean Valjean:

— Não há jardim mais bonito do que o Luxemburgo!

Mário e Cose e viviam como que no meio da escuridão, um para o outro. Não trocavam uma só palavra, não se saudavam, não se conheciam; viam-se; e, à semelhança dos astros no céu, que milhões de léguas separam, viviam de se olhar.

Eis como Cose e se ia pouco a pouco fazendo mulher e desenvolvendo, bela e enamorada, com a consciência da sua beleza e na ignorância do seu amor. E, além disto, inocentemente galanteadora.

VII — Para tristeza, tristeza e meia

Todas as situações têm os seus ins ntos. A velha e eterna mãe natureza adver a surdamente Jean Valjean da presença de Mário. Jean Valjean estremecia no mais escuro do seu pensamento. Jean Valjean não via nada e contudo considerava com teimosa atenção as trevas em que se achava, como se sen sse construir-se de um lado, e do outro desmoronar-se alguma coisa. Mário, adver do também, e, no que está a profunda lei de Deus, por essa mesma mãe natureza, fazia tudo quanto podia para se ocultar do

«pai». Todavia, sucedia algumas vezes ser visto por Jean Valjean. As maneiras de Mário já não eram naturais. Tinha previdências desastradas e temeridades acanhadas. Não se aproximava tanto como dantes; sentava-se ao longe e permanecia em êxtase; nha na mão um livro em que fingia ler; porque razão fingia? Dantes apresentava-se com o seu casaco velho, depois, passou a trazer todos os dias o novo; não nha a certeza de que ele não frisava; nha um olhar sonso e usava luvas; numa palavra, Jean Valjean odiava-o cordialmente.

Cose e não deixava adivinhar coisa alguma. Sem saber ao certo o que experimentava, tinha a consciência de que era alguma coisa que precisava ocultar.

Havia entre o gosto de ves r bem, que se patenteava em Cose e, e o hábito do fato novo que aparecera no desconhecido, um paralelismo importuno para Jean Valjean. Era

um acaso talvez, sem dúvida, com toda a certeza, mas um acaso ameaçador.

Nunca dirigira a Cose e a mais insignificante palavra acerca do desconhecido.

Contudo, um dia não pôde conter-se, e com o vago desespero que lança inopinadamente a sonda na sua infelicidade, disse-lhe:

— Tem um todo bem pedante aquele rapaz!

Cosette, um ano antes, menina indiferente, teria respondido:

— Pelo contrário, acho-o encantador!

Dez anos mais tarde, com o amor de Mário no coração, responderia: «Tem razão!» No momento da vida e do coração em que se achava, limitou-se a responder com suprema tranquilidade:

— Ah! Aquele rapaz!

Como se o visse pela primeira vez.

— Que estúpido sou! — pensava Jean Valjean. — Ainda não nha reparado nele. Fui eu que lho mostrei!

Ó simplicidade dos velhos! Profundidade das crianças!

É ainda uma lei desses primeiros anos de sofrimentos e cuidados, dessas lutas do primeiro amor contra os primeiros obstáculos: a jovem não se deixou cair no menor laço, o rapaz caiu em todos; Jean Valjean começara contra Mário uma surda guerra, que este com a cegueira sublime da paixão e da idade, não adivinhou. Jean Valjean preparou-lhe uma série de ciladas, trocou as horas, mudou de banco, deixou ficar sobre ele o lenço de assoar, e foi só ao Luxemburgo; Mário caiu, cego, em todas estas armadilhas; e a todos estes pontos de interrogação, que Jean Valjean lhe plantava no caminho, respondia ele ingenuamente, sim. Entretanto, Cose e permanecia murada na sua aparente indiferença e na sua imperturbável tranquilidade, de tal modo que Jean Valjean chegou a esta conclusão:

— Este papalvo está loucamente apaixonado por Cose e, que nem ao menos sabe que ele existe.

Mas nem por isso deixava de sen r no coração doloroso estremecimento. O minuto em que Cose e amaria, podia soar de um instante para o outro Não começa tudo pela indiferença?

Uma única vez, Cose e cometera uma falta que o assustara. Erguendo-se do banco, onde estivera sentado três horas, para se retirar, disse-lhe ela:

— Já!

Jean Valjean não nha interrompido os seus passeios ao Luxemburgo, não querendo fazer coisa alguma de singular, e sobretudo, receando despertar a atenção de Cose e; mas durante essas horas tão doces para os dois namorados, enquanto Cose e enviava o seu sorriso a Mário embriagado, que não reparava em mais coisa alguma, que não via no mundo senão um radiante rosto adorado, fitava-o Jean Valjean com os olhos flamejantes e terríveis. Ele que acabara por se não julgar capaz de um sen mento malévolo, nha ali momentos em que, quando Mário estava presente, julgava voltar a ser selvagem e feroz e sen a reabrirem-se e agitarem contra o jovem aquelas velhas profundidades da sua alma, onde noutro tempo houvera tanta cólera.

Quase lhe parecia que se tornavam a formar nele desconhecidas crateras. «O quê!

Pois estava ali, aquele ente! O que vinha ele fazer? Vinha voltear, farejar, examinar, tentar? Vinha dizer: Porque não? Vinha girar em torno da sua felicidade, para lhe lançar a mão e arrebatar-lha!»

Jean Valjean acrescentava:

— Sim, é isto mesmo! O que vem ele procurar? Uma aventura. O que quer ele? Alguns namoricos! E eu! Pois terei sido primeiro o mais miserável e depois o mais desgraçado dos homens, terei passado sessenta anos da vida sobre os joelhos, terei sofrido quanto é possível sofrer, envelhecido sem ter do mocidade, terei vivido sem família, sem parentes, sem amigos, sem mulher, sem filhos, terei deixado ntas com o meu sangue todas as pedras, todos os espinhos, todos os marcos, todos os muros, terei sido brando apesar de serem ásperos comigo, bom conquanto fossem maus, ter-me-ei arrependido do mal que fiz e perdoado o mal que me fizeram, e no momento em que sou recompensado, quando está tudo terminado, quanto toco o termo, quando tenho o que quero, porque o paguei, porque o ganhei, tudo se desvanecerá, e eu perderei Cose e e perderei a minha vida, a minha alma porque um grande asno se lembrou de vir passear ao Luxemburgo!

Então as pálpebras enchiam-se-lhe de uma claridade lúgubre e extraordinária. Já não era um homem olhando para outro; não era um inimigo que mede o inimigo. Era um cão de fila encarando o ladrão.

O resto é sabido. Mário con nuou a ser insensato. Um dia seguiu Cose e até à rua de Oeste. Noutro dia falou ao porteiro. O porteiro falou também e disse a Jean Valjean:

— Sabe quem seja um rapaz curioso que perguntou pelo senhor?

No dia seguinte, Jean Valjean lançou a Mário aquela olhadela, que ele não pôde deixar de notar. Passados oito dias nha Jean Valjean mudado de domicílio, voltando à sua casa da rua Plumet e prometendo a si mesmo que não tornaria a pôr os pés no Luxemburgo, nem na rua de Oeste.

Cose e não se las mou, não disse coisa alguma, não fez perguntas, não diligenciou saber nenhum porquê; chegara já ao período em que temia trair-se. Jean Valjean não nha a mínima experiência destas misérias, as únicas que são encantadoras e que ele não conhecia; isto fez com que não compreendesse a grave significação do silêncio de Cose e. O que notou unicamente foi que ela se tornara triste, e por isso tornou-se sombrio. Era de ambos os lados a experiência em acção

Uma ocasião fez ele uma experiência. Perguntou a Cosette:

— Queres ir ao Luxemburgo?

O rosto pálido de Cosette iluminou-se com um raio de alegria

— Quero — disse ela.

Foram Tinham passado três meses. Mário já ali não ia. Não estava lá.

No dia seguinte, Jean Valjean tornou a perguntar a Cosette:

— Queres ir ao Luxemburgo?

Então respondeu ela suave e tristemente:

— Não!

Jean Valjean sentiu-se magoado por aquela tristeza, e angustiado por aquela doçura.

O que era que ocorria naquele espírito tão novel e já tão impenetrável? O que era que estava ali a ponto de se consumar? O que era que estava sucedendo à alma de Cose e?

Algumas vezes, em lugar de se deitar, Jean Valjean conservava-se sentado ao pé do seu leito, com a cabeça apoiada nas mãos, e passava noites inteiras a perguntar a si mesmo o que era que havia no pensamento de Cose e e a pensar nas coisas em que ela poderia pensar.

Em tais momentos, que vistas dolorosas voltava para o claustro, para aquele cume casto, lugar de anjos, inacessível geleira de virtude! Como ele contemplava com desesperado arrebatamento o jardim do convento cheio de flores ignoradas e de virgens encerradas, onde todos os perfumes e todas as almas sobem direitos para o céu! Como ele adorava aquele Éden fechado para sempre, de onde saíra voluntariamente, de onde loucamente se expulsara! Como las mava a sua abnegação e demência de ter reconduzido Cose e para o mundo, pobre herói do sacri cio, aniquilado pela sua própria dedicação! Como ele dizia para consigo mesmo:

— O que fiz eu?!

No fim de tudo, nada disto era percebido por Cose e. Nem mau modo nem aspereza.

Sempre o mesmo rosto sereno e bondoso. As maneiras de Jean Valjean eram mais ternas e paternais do que nunca. Se alguma coisa podia fazer adivinhar nele menos alegria, era a sua mansidão.

Cose e tornava-se pela sua parte cada vez mais triste. Sofria pela ausência de Mário, pelo mesmo modo que gozara com a sua presença, singularmente e sem o saber ao certo.

Quando Jean Valjean cessara de a conduzir aos passeios habituais, murmurara-lhe confusamente certo ins nto feminino no fundo do coração, que não devia mais mostrar desejo de ir ao Luxemburgo, e que seu pai a tornaria a levar ali, se isso lhe fosse indiferente. Mas foram passando os dias, as semanas e os meses. Jean Valjean aceitara tacitamente o tácito sen mento de Cose e. Mostrou saudades. Era já tarde. No dia em que tornou a ir ao Luxemburgo já ali não viu Mário, desaparecera; estava tudo acabado.

Que havia de fazer? Torná-lo-ia ela a encontrar? Cose e sen u um aperto de coração, que coisa alguma minorava e que aumentava todos os dias; deixou de saber se estava no Inverno ou no Verão, se fazia sol ou se chovia, se os passarinhos cantavam, se era o tempo das dálias ou das boninas do campo, se o Luxemburgo era mais encantador do que as Tulherias, se a roupa que a lavadeira trazia estava ou não bem lavada; se Toussaint comprava «bem ou mal»; e permanecia acabrunhada, absorta, atenta a um só pensamento, com o olhar vago e fito, como quando se olha na escuridão para o sí o negro e profundo onde se desvaneceu uma aparição.

Também não deixava que Jean Valjean percebesse nela coisa alguma além da sua palidez. Continuava a mostrar-lhe no rosto a expressão mais suave.