Vogel: Análise Química Quantitativa
5.2 Gases e vapores
já demonstrou ser seguro. Veremos, adiante, alguns detalhes da legislação
específica relativa às amostras gasosas, líquidas e sólidas.
5.1.6 A terminologia da amostragem
Como ocorre em outros campos da ciência, a linguagem, em particular as
abreviações usadas nos procedimentos de amostragem, pode assustar à primeira vista. Infelizmente, é inevitável ter que aprender o jargão para poder
compreender adequadamente os problemas envolvidos e suas soluções.
5.2 Gases e vapores
Como o erro, R, é inversamente proporcional ao número de partículas de
amostra coletadas, examinaremos inicialmente a análise de gases e de
vapores, em que as partículas são moléculas (ou, ocasionalmente, átomos) e pode-se amostrar facilmente um grande número de partículas. Veremos
principalmente, nesta seção, os sistemas abertos, isto é, sistemas em que o
gás não está confinado, porque o problema de amostragem é mais difícil do
que o de gases em sistemas fechados, como tubulações e cilindros. Nos
sistemas fechados, pode-se usar procedimentos simplificados de amostragem
que se baseiam na hipótese de que a composição global é constante ou quase constante.
Em geral, a amostragem de gases e vapores em um segmento industrial
(monitoramento do local de trabalho), onde os níveis de poluentes podem ser
bastante altos, não é feita como na análise ambiental (monitoramento
ambiental), em que se espera baixas concentrações de gases poluentes. Em
cada uma destas áreas, aplicam-se legislação e diretrizes próprias. As distinções entre elas, no que diz respeito aos níveis de concentração
encontrados (ou esperados), estão, entretanto, diminuindo progressivamente
e técnicas que eram utilizadas em uma área estão agora sendo aplicadas na
outra. Embora comecemos esta seção pelo monitoramento do local de
trabalho, observe que muitas das técnicas e dos protocolos descritos
começam a ser empregados em situações mais gerais.
Os trabalhadores da indústria são protegidos da exposição excessiva a
materiais nocivos, inclusive gases e vapores, por uma legislação exigente e
diretrizes que podem variar de acordo com o país onde a indústria se localiza
[3]. Existe hoje, porém, uma forte tendência à harmonização da legislação,
em particular nos países ricos. Três fatores principais devem ser
considerados:
1. Risco inerente ao gás: é óbvio que a exposição ao HCN é mais séria do
que a vapores de etanol, por exemplo.
2. Nível de concentração do gás: existe, para muitos produtos gasosos, uma
relação entre a dose e a resposta, isto é, quanto maior o nível, mais sério é
o efeito.
3. Duração da exposição: a exposição a gases em baixas concentrações e
longos períodos não tem o mesmo efeito da exposição em concentrações elevadas e períodos curtos.
Nota Os termos “perigo” e “risco” são empregados de maneira bastante
vaga na conversação em geral para descrever a mesma coisa. Na linguagem
científica, o perigo é inerente à substância ou à situação considerada. Assim,
ácidos concentrados são sempre perigosos. Por outro lado, o risco varia, de
acordo com a ação que está sendo executada. Assim, há pouco risco de
efeitos nocivos causados por ácidos concentrados guardados em frascos adequadamente selados, porém, se eles estiverem em frascos abertos, sem
rótulo, o risco aumenta dramaticamente.
Os procedimentos de amostragem de gases devem considerar os três fatores
quando se deseja obter uma estimativa razoável do risco a que o trabalhador
está submetido. Na Inglaterra, a legislação que protege o trabalhador
considera cada um destes fatores. O primeiro deles, que é, em muitos
aspectos, o mais simples, é tratado pelo Escritório de Saúde e Segurança (Health and Safety Executive — HSE), que publica anualmente uma lista
dos limites de exposição ocupacional aceitáveis, conhecidos como EH40/X,
onde X é o ano da publicação. Estes limites fazem parte do Regulamento de
Controle de Substâncias Perigosas para a Saúde — 1988, ou Regulamento COSHH [4]. Trata-se, na verdade, de duas listas, das quais a menor contém
30 substâncias a que são atribuídos limites máximos de exposição (MELs —
Maximum Exposure Limits). Estas substâncias são os gases e vapores
considerados mais perigosos. A exposição no ambiente de trabalho a níveis
que excedem os valores publicados constitui uma violação da legislação. Em
outras palavras, o administrador responsável está infringindo a lei e é passível de processo penal.
A lista maior estabelece padrões de exposição ocupacional (OESs —
Occupational Exposure Standards) e a exposição máxima aceitável de
muitos gases e vapores que podem ser encontrados em ambientes industriais
(Tabela 5.1). Em termos simples, trata-se de uma lista de níveis “seguros”
para o trabalho com estes materiais. Como a lista é publicada anualmente, os níveis podem ser ajustados, de acordo com novas informações obtidas sobre
as substâncias.
Apesar de serem para uso na Inglaterra, os níveis estabelecidos são
semelhantes aos valores limites aceitáveis (TLVs — Threshold Limit Values),
que são os equivalentes americanos. A lista especifica os valores máximos e
a freqüência adequada das medidas. Empregam-se, usualmente, dois períodos de referência: o nível de exposição em tempo curto (STEL —
Short-Term Exposure Level), 10 minutos, geralmente, e a exposição média a
longo prazo (TWA — Time-Weighted Average), 8 horas, que corresponde à
jornada média de trabalho na indústria. Em geral, os valores são mais baixos
para exposições a longo prazo. Seria desejável monitorar um determinado
gás ou vapor usando os dois períodos, mas cada um deles exige procedimentos diferentes.
As técnicas de amostragem de gases e vapores no ambiente de trabalho se
enquadram em quatro categorias gerais:
1. Frascos de amostragem de gases.
2. Sensores estáticos.
3. Retentores de gases.
4. Análise em tempo real.
Cada método tem vantagens em certas situações, mas nenhum deles é
satisfatório em todas as situações, especialmente porque as exigências legais
baseiam-se em procedimentos de amostragem diferentes, que especificam
níveis máximos e períodos de referência diferentes para cada caso.
Tabela 5.1 Padrões de exposição ocupacional de alguns gases e vapores comumente encontrados em ambientes industriais
Média Exposição
de 8 por 10
horas a b minutos
ppm –3 mg · m ppm mg ·
m –3
Benzeno 5 16 — —
Tetracloreto de carbono 2 12,6 — —
Cloro-benzeno 50 230 — —
Clorofórmio 2 9,8 — —
1,1-Dicloro-etano 200 810 400 1620
Dicloro-metanoc 100 350 300 1050
Formaldeídoc 2 2,5 2 2,5
Cianeto de hidrogênio c — — 10 10
Mercúrio metálico — 0,05 — 0,15
Metil-celosolve 5 16 — —
Nitro-tolueno 5 30 10 60
Fenol 5 19 10 38
Estirenoc 100 420 250 1050
Tolueno 50 188 150 560
Cloreto de vinila c 3 ppm durante 1 ano
a Exposição média a longo prazo (TWA). b Limite de exposição em curto período (STEL). c Limite máximo de exposição (MEL).
5.2.1 Frascos de amostragem de gases
Quando a amostragem rápida da atmosfera do local de trabalho for
suficiente, pode-se usar frascos de vidro ou metal de volume entre 0,01 e 10
litros (Fig. 5.2), evacuados antes do uso ou lavados com gás, que são fáceis
de usar e são confiáveis para a amostragem de gases em altas concentrações.
Eles são, porém, volumosos e podem reter gases que atrapalham análises posteriores. Seringas de amostragem de gases, que podem ser ligadas a
válvulas simples, são uma modificação desta abordagem. Bolsas plásticas
infláveis são menos volumosas e fáceis de estocar, porém elas podem ser tão
inconvenientes quando em uso como os frascos rígidos porque, quando
infladas, seu volume pode chegar a 100 litros. Para evitar a perda de amostra
por permeação através das paredes ou por adsorção na parede interna, as bolsas são normalmente produzidas em três camadas, Mylar/alumínio/polietileno. Com isto, o custo aumenta e, por isto, elas são
utilizadas várias vezes com o conseqüente risco de contaminação oriunda de
uma amostragem anterior. Por outro lado, embora fáceis de usar, estes
dispositivos indicam apenas os níveis de gases no momento em que foram
enchidos. O controle direto da atmosfera do ambiente durante um tempo
mais longo não é possível. Além disto, como o volume de gás coletado é relativamente pequeno, frascos de amostragem não são adequados para
baixos níveis de concentração.
5.2.2 Sensores estáticos
Usam-se, normalmente, duas formas de sensores estáticos no monitoramento
industrial. Os sensores adsorventes são dispositivos que contêm uma
pequena quantidade de material adsorvente em contato com a atmosfera através de uma membrana semipermeável. Na hora do uso, eles são retirados
de envelopes selados e presos na roupa do trabalhador para a detecção de
vapores que difundem no ambiente (Fig. 5.3). Apesar de simples e baratos,
eles têm um problema: como o analito chega ao adsorvente por difusão no ar,
é necessário um tempo de amostragem longo para que se atinja um nível
aceitável de sensibilidade. Eles podem, entretanto, ser usados sem problemas por trabalhadores que têm que permanecer expostos por longos períodos a
baixos níveis de eventuais poluentes. Por isto, eles são amplamente
empregados no monitoramento de rotina dos níveis de OES durante períodos
de até 8 horas. Alguns destes “monitores tipo crachá” mudam de cor quando
o poluente chega a determinados níveis, o que permite a análise do ambiente
por simples inspeção visual. (Pode-se adquirir uma versão destes dispositivos para monitoração dos níveis de CO nas residências.)
Fig. 5.2 Frascos de amostragem de gases e líquidos: (a) vidro, (b) metal
Fig. 5.3 Sensores de adsorção: (a) distintivo convencional, (b) tipo cartão de crédito
A principal desvantagem destes dispositivos é que como dependem de
uma reação química para produzir a mudança de cor, eles são específicos
para uma substância ou grupo de substâncias. Para monitorar vários gases são necessários vários dispositivos diferentes. Para superar esta dificuldade,
pode-se usar distintivos de adsorção de uso geral, geralmente contendo
carvão ativado ou outro adsorvente poderoso. Mede-se o total de gases no
final do período de amostragem por dessorção e análise do analito,
comumente por cromatografia com fase gasosa. A desvantagem deste tipo de
sensor é que a análise é feita após a amostragem, isto é, só se sabe que houve um problema depois que ele ocorreu. Outro problema é que os equipamentos
necessários para dessorção e análise são caros. Nem sempre o adsorvente é
usado na forma de distintivo. Alguns sistemas comerciais de adsorção por
difusão são, essencialmente, um tubo de vidro ou aço inoxidável que contém
o leito do adsorvente e uma membrana. Como este arranjo pode também ser
usado para a fixação de substâncias, apresentaremos uma descrição mais completa dele na Seção 5.2.3.
Os sensores específicos (eletroquímicos) podem ser usados para um
determinado gás ou vapor. Talvez o mais comum e, certamente, o mais
usado, é o “analisador de hálito”, empregado por policiais na medição do
teor de álcool no sangue de motoristas. Como estes sensores dão geralmente
uma resposta instantânea, eles serão descritos na Seção 5.2.4.
5.2.3 Retenção de substâncias
Embora os sensores estáticos adsorventes que descrevemos anteriormente
sejam, no fundo, sistemas de retenção de substâncias, porque eles usam o
mecanismo da adsorção para coletar o analito de interesse, a palavra
“retenção” é normalmente aplicada aos dispositivos de coleta ativos, em que
a atmosfera é bombeada mecanicamente através de um leito que adsorve os
analitos ou reage com eles. Atualmente, os sistemas bombeados são os mais usados na amostragem de gases antes da análise, porque pode-se ajustar a
velocidade e o tempo de bombeamento para amostrar diferentes volumes de
gases. Isto significa que eles podem ser usados para medir níveis baixos de
TWA. A escolha correta do leito de adsorção permite a determinação de uma
grande variedade de amostras.
Retentores líquidos
Os retentores líquidos são usados há muito tempo. Eles são úteis em alguns
programas de monitoramento, como, por exemplo, o controle de gases no
meio ambiente por longos períodos, devido à sua simplicidade, especificidade e sensibilidade. O gás é bombeado até um borbulhador. Usa-
se um método químico simples e confiável para reter a substância de
interesse. Pode-se, por exemplo, fixar pequenas quantidades de SO2 passando o gás por uma solução diluída de peróxido de hidrogênio. A reação
é
SO2 + H202 → H2SO4
O ácido produzido é estável e as medidas podem ser feitas por longos
períodos (30 dias ou mais). A quantidade total de ácido pode ser determinada por titulação do ácido ou pelo pH. Os retentores líquidos não são
normalmente usados no monitoramento pessoal porque é difícil fazer um
coletor que possa ficar preso na roupa sem risco de vazamento. Existe,
entretanto, pelo menos um modelo comercialmente disponível (Fig. 5.4), que
se baseia na difusão do gás através de uma membrana até um pequeno
reservatório de líquido.
Fig. 5.4 Sistema sensor de líquido para monitoramento individual de gases e vapores
Adsorventes sólidos
O uso de bombas para forçar o gás a chegar a um leito adsorvente aumenta
consideravelmente a sensibilidade em relação aos sensores de difusão
estáticos e reduz o período de amostragem necessário para se obter uma dada
massa de analito.
O mais simples destes sistemas, aplicável a concentrações altas de analito,
usa uma bomba de fole operada manualmente que força a passagem de
alguns litros de gás por um tubo recheado com material adsorvente. Um
destes dispositivos, muito usado, inclui um leito adsorvente de sílica gel
granular coberto por um ou mais reagentes específicos para o analito que
produzem cor. O nível de contaminação é determinado diretamente pela
extensão da mancha colorida no tubo. Este era o princípio utilizado nos tubos de “analisadores de hálito” originais, em que o etanol era oxidado por
dicromato e adsorvido em sílica em meio ácido para produzir uma mancha
verde devida ao cromo(III). Dispositivos deste tipo são muito empregados na
indústria, particularmente quando se suspeita de contaminação ou quando há
riscos em potencial. Apesar do uso simples e da precisão relativamente alta, eles só podem ser usados no monitoramento de altos níveis de emissões
gasosas por períodos curtos. Um outro problema é que, como a produção da
cor depende de uma reação química específica, cada tipo de gás requer um
tubo diferente.
Quando se deseja monitorar por períodos prolongados baixos níveis de
gases e vapores na indústria ou no meio ambiente (lembre-se de que grande parte da legislação industrial utiliza como referência 8 horas como período
de amostragem), podese bombear o gás até o material adsorvente usando
uma bomba de volume constante. Estas bombas são operadas por bateria e
podem ser usadas pelo trabalhador sem muito desconforto durante a jornada
de trabalho. Durante as oito horas elas levam o ar, com vazão entre 0,20 e 2 1
· min –1, até um leito de material adsorvente contido em um tubo de amostragem. Estes “monitores pessoais” são, no momento, o melhor meio de
obter uma amostra TWA representativa da exposição de um indivíduo a
gases e a vapores em ambientes industriais. É muito importante que a vazão
da bomba seja constante porque o volume de gás coletado é normalmente
calculado pela relação simples:
período de amostragem × velocidade de fluxo = volume total
Em uma situação típica, com vazão de 0,21 · min –1 durante 8 horas, seriam
coletados 9,6 l de gás, isto é, 0,096 m 3. A escolha do adsorvente e a maneira de colocá-lo no tubo podem variar consideravelmente, e muitas
configurações para uso em diferentes procedimentos de amostragem são
encontrados comercialmente. Dois pontos importantes, entretanto, devem ser
considerados. Em primeiro lugar, o adsorvente deve reter efetivamente o
material de interesse e, também, permitir sua dessorção completa antes da
análise. Em segundo lugar, como o período de amostragem é definido e a análise é feita após a coleta, estes dispositivos dão a análise total do período.
Dois tipos de tubos são, em geral, usados: de vidro e de aço inoxidável. Os
tubos de vidro têm normalmente cerca de 4 mm de diâmetro interno e 70 mm
de comprimento, são, em geral, recheados com 100 mg de adsorvente e são
mantidos em posição com a ajuda de uma tampa de lã de vidro, quartzo ou um polímero poroso. Eles são selados nas pontas, que são quebradas no
momento do uso, e o tubo é ligado à bomba por tubos flexíveis.
Estes tubos são, às vezes, conhecidos como tubos ORBO ou NIOSH
porque sua avaliação inicial foi feita pelo Instituto Nacional de Segurança
Ocupacional e Administração da Saúde (NIOSHA — National Institute of
Occupational Safety and Health Administration), nos EUA. Eles foram projetados para serem usados uma só vez. O preço no comércio é
relativamente baixo, porém eles podem ser feitos facilmente no laboratório
com tubos de vidro e um bico de Bunsen. Vários adsorventes podem ser
usados [5], porém, nos tubos descartáveis, o carvão é o mais comum, porque
adsorve fortemente a maior parte dos compostos orgânicos apolares. Usa-se
sílica gel para os compostos orgânicos mais polares e alguns compostos inorgânicos. A sílica gel, entretanto, ao contrário do carvão, adsorve água e
devese tomar cuidado para que a eficiência da adsorção não seja prejudicada
pela umidade do ar. Após o uso, os analitos absorvidos devem ser
dessorvidos e analisados quantitativamente. Como a maior parte dos gases e
vapores é fortemente adsorvida no carvão (o que, aliás, justifica seu uso) é
importante que os gases sejam dessorvidos quantitativamente e sem alterações. Isto é normalmente feito com um solvente de dessorção, que é
mais confiável do que a dessorção térmica.
Pode-se usar um grande número de solventes orgânicos, mas, na prática,
prefere-se o dissulfeto de carbono. A escolha de um solvente tóxico,
altamente inflamável e de odor muito desagradável, pode ser absurdo à
primeira vista, mas há boas razões para isto. A técnica analítica normalmente usada para separar, identificar e quantificar as substâncias é a cromatografia
com fase gasosa e, em muitos casos, o detector usado é de ionização por
chama (FID). Como a resposta do dissulfeto de carbono ao FID é muito
pequena, é pouco provável que os primeiros cinco minutos do cromatograma
sejam mascarados, e é nesta região que eluem a maior parte dos compostos
da amostra (Fig. 5.5). Em segundo lugar, pode-se obter o solvente com razoável pureza a um custo relativamente baixo. Este aspecto é relevante
porque quase sempre a coleta se limita a alguns microgramas de um determinado analito em particular e impurezas do solvente que eluem na
região de interesse podem mascarar picos da amostra.
A resposta pequena do dissulfeto de carbono a um detector FID não é
relevante em outros sistemas de detecção como GC/MS ou HPLC, porém a
vantagem da pureza ainda é muito relevante. A maneira mais simples de se
extrair o analito é quebrar o tubo de vidro ao meio, colocar os grânulos de carvão em um frasco pequeno e adicionar 0,25 a 0,50 ml de solvente,
agitando por alguns minutos, de preferência imergindo parcialmente o frasco
em um banho de ultra-som. Pode-se injetar uma alíquota do solvente
diretamente no cromatógrafo. A técnica é simples e pode-se obter, com
cuidado, resultados confiáveis, apesar de a produção de uma curva de
calibração para a análise quantitativa ser bastante demorada. A curva deve ser feita por adição de quantidades crescentes conhecidas do analito de
interesse a vários tubos em branco e fazendo a extração completa de cada um
deles.
No caso de um pequeno número de amostras, a simplicidade do
equipamento é atraente, mas o processo é bastante trabalhoso. Quando o
número de amostras é grande, por exemplo, quando se deve monitorar várias dezenas de trabalhadores diariamente, estão ficando cada vez mais
importantes outros sistemas que podem ser automatizados. Nestes sistemas
são usados tubos de 4 mm de diâmetro e 70 mm de comprimento, feitos de
aço inoxidável, abertos nas extremidades, que dispõem de tampas removidas
no momento do uso. Estes tubos contêm de 100 a 500 mg do adsorvente
presos por pequenas telas de gaze de aço inoxidável. O adsorvente é normalmente um polímero sintético poroso como o Porapak ou o Tenax,
inicialmente desenvolvidos como materiais de empacotamento para
cromatografia com fase gasosa. Para coletar a amostra, remove-se as tampas
e o ar é bombeado pelo tubo sob vazão constante durante um tempo definido,
como anteriormente. Uma vez terminada a amostragem, os analitos são
dessorvidos e analisados automaticamente. Os tubos são aquecidos sob uma corrente de gás para remover termicamente a amostra adsorvida, que é
injetada diretamente no cromatógrafo. Existem vários sistemas em carrossel
que suportam até 50 amostras. O processo completo de dessorção e análise cromatográfica pode ser feito sem assistência do operador, durante a noite, se
necessário (Fig. 5.6).
Fig. 5.5 Cromatograma de compostos orgânicos voláteis após extração com CS2. Tubo de amostragem: 100 mg de Carbotrap 20-30 mesh; dessorção: 100 μl CS2; coluna de DBS de 30 m (Dl = 0,22 mm); programação de temperatura: 1 min em 10°C, depois, até 80°C a 5 0 -1 C·min
O emprego de adsorventes porosos poliméricos permite a dessorção
efetiva por via térmica de todos os gases adsorvidos, o que confere duas
vantagens:
(a) Toda a amostra é injetada no cromatógrafo de uma só vez, o que dá
sensibilidade muito maior do que se a mesma massa de amostra
dessorvida tivesse sido extraída com um volume relativamente grande
de solvente.
(b) Os tubos são limpos termicamente, o que permite sua utilização por
diversas vezes sem perda da eficiência. A capacidade de adsorção destes
materiais, entretanto, é muito menor do que a do carvão.
A capacidade de operar uma quantidade elevada de amostras com alta
sensibilidade e precisão é, comumente, essencial em programas de
amostragem de média ou grande escala. O alto investimento inicial é
rapidamente compensado pelos custos de operação muito mais baixos. Um problema que pode ocorrer com qualquer um dos dois tipos de tubo de
amostragem é a saturação, isto é, a capacidade de adsorção do leito excedida,
seja porque o material em análise está em alta concentração ou porque outras
substâncias, por exemplo, vapor de água, são adsorvidas e deslocam o
analito. Se isto acontece, pode-se usar a extração por solvente usando tubos
com dois compartimentos, com a primeira seção, que contém 100 mg do adsorvente, separada por uma pequena peça de espuma de poliuretano de
uma segunda seção, de segurança, com 50 mg do adsorvente (Fig. 5.7). As
duas seções são analisadas separadamente. Quando se observa algum analito
na seção de segurança, ocorreu saturação, e o experimento deve ser repetido.
Estes tubos de dois compartimentos são inadequados quando se usa a
dessorção térmica automática. É sempre possível colocar dois tubos simples em série e analisar cada um deles separadamente. A Agência de Proteção
Ambiental (EPA — Environmental Protection Agency) dispõe de uma
revisão geral dos métodos em uso nos EUA [6].
Amostradores difusivos
Alguns estudos mostraram que a difusão passiva pode substituir o uso das
bombas amostradoras na coleta de voláteis com tubos de amostra. O
processo baseia-se na primeira lei de Fick da difusão, que estabelece que a
incorporação de um material por um leito adsorvente é proporcional à concentração daquele material na fase gasosa e ao tempo de exposição.
Quando em uso, os tubos, idênticos aos usados no bombeamento de
amostras, têm um grampo que permite sua fixação na roupa, como uma
caneta. As moléculas da amostra difundem com velocidade constante pelo
tubo até o adsorvente. A sensibilidade absoluta é menor do que no caso do
bombeamento ativo. Porém, em certas situações, especialmente no monitoramento por longos períodos, os resultados obtidos são confiáveis e a
precisão é tão boa como nos sistemas com bombeamento [7]. Na Inglaterra e
na Holanda, mas ainda não nos Estados Unidos, os amostradores difusivos
são os métodos recomendados (embora não exclusivamente) para o
monitoramento das indústrias, de modo a garantir a conformidade com os
padrões OES.
Fig. 5.6 Sistema automatizado de dessorção térmica/GC
Fig. 5.7 Tubo de adsorção com duas seções
As técnicas de retenção oferecem, no caso de programas de análise por
longos períodos ou em larga escala, sensibilidades elevadas e boa precisão
para muitos analitos importantes no monitoramento da higiene industrial. No
entanto, a aparelhagem usada é cara e as análises são sempre feitas após a amostragem, o que às vezes é indesejável. As técnicas de retenção começam
também a ser empregadas no monitoramento ambiental, mesmo nos casos
em que os baixos níveis esperados dos analitos e a natureza aberta do sistema
foram um problema no passado. NO2, por exemplo, pode ser monitorado
com amostradores difusionais. Tubos acrílicos contendo uma gaze metálica
impregnada com trietanolamina são usados em várias cidades para medir as
médias mensais deste poluente. O NO 2 reage específica e quantitativamente para formar um nitrito que é determinado colorimetricamente.
5.2.4 Análise em tempo real É possível usar alguns instrumentos especializados para a análise imediata
ou quase imediata. Estes equipamentos podem ser específicos para um
componente ou ser programados para analisar um componente dentre vários
materiais detectáveis. Alguns destes dispositivos são muito sensíveis e
podem ser empregados no monitoramento de sistemas ambientais em tempo
real. Outros são muito menos sensíveis (e baratos), e podem ser usados como monitores de alerta de risco em ambientes industriais. Estes dispositivos
baseiam-se em várias tecnologias e, por isto, é melhor grupá-los em quatro
categorias:
1. Sensores eletroquímicos.
2. Monitores que usam a espectroscopia no infravermelho.
3. Monitores que usam a cromatografia.
4. Sensores especializados.
Sensores eletroquímicos (amperométricos)
Existem vários sensores específicos para a determinação de gases normalmente encontrados no ambiente industrial. Eles usam uma célula
eletrolítica com uma fase gasosa para oxidar ou reduzir o material de
interesse e gerar uma resposta relacionada à concentração do analito. Eles
contêm, habitualmente, dois eletrodos polarizados imersos em um eletrólito
comum, na forma de gel, separados do ambiente externo por uma membrana
permeável a gases. Quando um determinado gás permeia a membrana, ocorre uma reação redox nos eletrodos que gera uma corrente proporcional à
concentração do gás na região do sensor. A resposta destes dispositivos é
instantânea e, por isto, eles são comumente usados como alertas de perigo.
Eles são mais úteis nas situações em que apenas um gás é de interesse e é
importante evitar níveis excessivos dele para garantir condições seguras de
trabalho.
Aplicações típicas são o monitoramento de Cl2 na água industrial, de HCl
ou amônia nas plantas industriais que usam processos químicos e o controle
dos níveis de oxigênio. Neste último caso, geralmente o alarme dispara
quando os níveis de oxigênio estão mais baixos do que é adequado. Embora estes sensores possam ser usados para vários gases de interesse ambiental e
industrial, como NOx e SO2, sua sensibilidade é normalmente baixa demais para o uso geral no monitoramento ambiental. A título de exemplo, um
monitor comercial para SO2 é ajustado para uma escala de 0 a 199 ppm de
SO2 com resolução de 0,1 ppm. Em um ambiente industrial, em que o OES
padrão para este gás é de 2 ppm com um limite STEL de 5 ppm, o monitor é perfeitamente satisfatório, porém ele não pode ser usado no monitoramento
ambiental onde o nível de 100 μg · m–3 (cerca de 0,03 ppm) é considerado
elevado. Estes dispositivos, no entanto, são pequenos, baratos e robustos, o
que os torna ideais para uso como “monitores pessoais” ou como
dispositivos de alerta de perigo.
Nota Embora na maior parte das aplicações científicas os termos partes por
milhão (ppm) e partes por bilhão (ppb) não sejam considerados aceitáveis (eles são substituídos pelos termos mais precisos μg · g–1 –1 ou μg · kg), eles
continuam a ser usados na amostragem de gases. Ao contrário de fases
líquidas ou sólidas em que 1 μg · g–1 (1 ppm) pode ser medido facilmente
(em peso ou volume), na fase gasosa, a relação entre μg · g –1 e ppm é mais
complicada e depende do conhecimento da massa molecular do gás de
interesse. A Tabela 5.2 dá os fatores de conversão entre ppm e μg · g–1 para os gases mais importantes na área ambiental.
Monitores que usam a espectroscopia no infravermelho
Muitas espécies de interesse absorvem fortemente radiação no infravermelho
em um comprimento de onda característico. Por isto, muitos analitos podem
ser determinados, mesmo em baixas concentrações, mediante o emprego de
um espectrômetro de infravermelho portátil. A Fig. 5.8(a) esquematiza um
modelo simples destes aparelhos. Nele, a emissão de radiação infravermelha
total de uma fonte passa alternativamente por uma célula de referência, que contém um gás que não absorve (em geral, nitrogênio seco), e por uma célula
de amostra que contém o analito. Uma célula de detecção com dois
compartimentos, enchidos com a substância a ser determinada (neste caso,
CO), pode ser usada para medir diferenças na energia transmitida entre os compartimentos da amostra e da referência. Embora cada instrumento seja
específico para uma substância, pode-se analisar quaisquer gases que
absorvem no infravermelho pela simples troca do detector.
Uma variante deste modelo (Fig. 5.8(b)) emprega uma única célula e um
detector, porém a radiação passa através de um filtro de gás em forma de
disco que tem uma seção com gás nitrogênio e outra com CO. Quando o filtro gira, a radiação é cortada periodicamente para produzir um sinal
modulado. Quando ela passa pela seção que contém CO, ocorre a absorção
completa no comprimento de onda de absorção, o que impede que a radiação
chegue à célula de amostra e não ocorra absorção pelo CO. Quando a seção
que contém nitrogênio encontra o feixe de radiação, a passagem até a célula
de amostra é livre e proporcional à concentração do CO. A diferença entre os dois sinais dá a concentração de CO na amostra. Pode-se analisar outros
gases mudando o gás do filtro.
Tabela 5.2 a Fatores de conversão para alguns poluentes gasosos
Gás c d Massa Resultado para TLV NAAQS (EUA)
molecular áreas urbanas
na Inglaterrab
mg.m– – – ppm mg.m ppm mg.m ppm 3 3 3
SO 64 0,08 0,03 2 0,365 0,14 (24 h) 2
NO 2 46 0,376 0,2 1 0,1 0,053
(anual)
CO 28 0,17 0,15 35 10 9 (1 h)
NO 30 0,37 0,30 25
O3 48 0,196 0,1 0,1 0,235 0,12 (1 h)
CO 44 635 353 10000 2
a Para um gás em 25°C e 1 atm (100 kPa).
1 ppm = 1 molécula por milhão de moléculas. Como o volume ocupado pelas moléculas depende da temperatura T e da pressão P, é preferível usar a razão massa/volume, expressa em mg · m-3 -3 ou μg · m. A razão massa/volume não depende de T e de P. b Resultados típicos.
c Valor limite aceitável (TLV).
d NAAQS = padrão ambiental nacional de qualidade do ar.
Fig. 5.8 Monitoramento de gases com detectores de IV: (a) sistema simples, (b) sistema em seqüência para vários gases diferentes
Estes instrumentos são, às vezes, dotados de um sistema de espelhos que
fica dentro da célula de amostra e faz com que a radiação percorra um
caminho ótico muito grande, o que aumenta consideravelmente a
sensibilidade. Estes instrumentos são relativamente sensíveis e são muito
usados no monitoramento de processos. Existe atualmente um equipamento
mais moderno (e caro) conhecido como MiranTM (analisador infravermelho miniaturizado) [8]. Trata-se de um sistema de feixe simples que permite a
seleção de um comprimento de onda ou uma faixa estreita de comprimentos
de onda na região 2,5 – 14,5 μm por meio de um filtro variável de três
segmentos. O feixe passa através de uma célula que contém a amostra de
gás.
Uma série de espelhos colocados no compartimento da célula fazem com
que o feixe de radiação atravesse a célula diversas vezes (aumentando,
assim, o passo ótico na célula até 20 m) antes de atingir o detector. Como a
lei de Beer é obedecida, a absorção é diretamente proporcional à
concentração. Na verdade, apesar de o Miran ser normalmente empregado
como um instrumento não-dispersivo, isto é, em comprimentos de onda
fixos, ele pode ser também usado para dar o espectro de um gás em toda a faixa de emissão da fonte. Isto permite a identificação de eventuais
contaminações antes da determinação quantitativa no comprimento de onda
característico selecionado. Mais de 100 gases diferentes podem ser
determinados, muitos deles com limites de detecção inferiores a 1 ppm.
Mais recente é o uso da espectroscopia fotoacústica no monitoramento de
gases. A sensibilidade é superior à das técnicas de infravermelho [9]. Usa-se uma fonte de infravermelho que passa através de um filtro seletor de banda
estreita, por um alternador mecânico e pela amostra de gás contida em uma
célula fechada. Caso ocorra absorção de radiação na faixa de comprimentos
de onda de operação, a temperatura da célula aumenta e o gás se expande.
Como a radiação é alternada na frequência de 1000 Hz, a contração e a
expansão alternadas do gás produzem uma onda sonora cuja intensidade pode ser medida com um microfone convencional e um amplificador de
áudio de ganho alto. Este arranjo leva a limites de detecção mais baixos do
que os obtidos com os detectores de infravermelho normais. Estes sistemas só podem ser empregados para gases e vapores que absorvem no
infravermelho na região medida. Assim, eles não são adequados para
moléculas simétricas. Apesar desta limitação, este método é usado para
muitos gases inorgânicos, incluindo CO2.
Com o advento de equipamentos de infravermelho com transformadas de
Fourier, esta técnica pode ser também aplicada ao monitoramento remoto. O feixe infravermelho colimado é transmitido da fonte a um espelho distante e
volta até o detector. Isto permite a determinação e quantificação de materiais
sensíveis ao infravermelho existentes em uma distância de até 1000 m entre
a fonte e o detector.
Apesar de não operar apenas na região do infravermelho, o sistema
LIDAR merece ser mencionado. Faz-se um feixe de laser de alta potência pulsar em duas freqüências; uma delas é absorvida pelas espécies de
interesse e a outra não. Este feixe pode ser dirigido a um alvo como uma
chaminé distante ou uma nuvem. O sinal refletido recebido pelo detector
permite estimar a concentração da amostra e a distância da amostra até a
fonte. Estes sistemas são geralmente grandes e muito caros, mas para certas
tarefas de monitoramento ambiental são de valor inestimável.
Monitores que usam a cromatografia
A cromatografia com fase gasosa (GC) é, no laboratório, provavelmente a melhor escolha para a análise da maior parte dos gases e vapores. A amostra
já está na forma correta para introdução no sistema e a técnica é capaz de
separar vários compostos semelhantes. Mesmo em rotina, com um detector
não-específico como o detector de ionização por chama (FID), a
cromatografia tem alta sensibilidade. Todavia, não é fácil converter o
cromatógrafo padrão de laboratório em um instrumento portátil porque isto requer uma fonte portátil de energia elétrica (os instrumentos eletrônicos
portáteis são normalmente de baixa energia) para aquecer o forno e a coluna,
e fontes portáteis de até três gases diferentes para operações de rotina.
Apesar de existirem sistemas de GC totalmente portáteis, é cada vez mais
comum usar versões simplificadas do sistema para reduzir ou eliminar as
restrições de energia e de fontes de gás. Se um detector de estado sólido substituir um FID, então o único gás necessário é o gás carreador,
normalmente nitrogênio, que pode ser armazenado em um único cilindro
pequeno. É possível separar os gases mais comuns na temperatura do
ambiente reduzindo o comprimento da coluna. Isto significa que não é mais
necessário usar um forno, isto é, o consumo de energia do sistema é
consideravelmente reduzido. Em alguns sistemas, a coluna é eliminada e uma pequena bomba é usada para levar a amostra diretamente ao detector,
eliminando por completo a necessidade de gases comprimidos.
Normalmente, um sistema deste tipo não pode separar os gases e
identificá-los. Ele dá apenas uma indicação do vapor orgânico total, o que já
é importante. Entretanto, detectores seletivos como o detector de
fotoionização (PID) ou os mais novos detectores transistorizados, sensíveis a produtos químicos, permitem que se tenha certa seletividade de resposta.
Dependendo das necessidades, pode-se comprar um cromatógrafo que
analisa o vapor orgânico total (detectores de vazamento) com seletividade
para determinado composto dentre alguns compostos orgânicos ou que
permite a separação completa e o registro de um cromatograma normal
indicando o tempo de retenção de cada pico. É possível obter alta sensibilidade e resposta rápida (poucos segundos).
Monitores para aplicações especiais
Devido ao crescente interesse nos poluentes gasosos que ocorrem em baixas
concentrações no ambiente e à necessidade de determiná-los com segurança
durante longos períodos de tempo, foram desenvolvidos sistemas de
monitoramento urbanos [10] na Inglaterra e na União Européia. O objetivo
destes sistemas é o monitoramento de um certo número de poluentes urbanos
para acompanhar os níveis de poluição por longos períodos e avaliar o efeito de medidas de redução. Como essas medidas devem ser feitas de forma
contínua por períodos de até um mês, com pouca ou nenhuma manutenção,
monitores especializados foram desenvolvidos para o acompanhamento dos
poluentes mais importantes, SOx, NOx, O3 e peróxi-acetilnitrato (PAN). Muitos destes monitores especializados são atualmente recomendados para o
monitoramento contínuo de rotina de poluentes orgânicos urbanos. Embora os processos químicos utilizados sejam bem conhecidos, eles são usados de
forma inovativa e vantajosa no monitoramento contínuo de poluentes durante
longos períodos. A Seção 5.2.5 descreve os dispositivos que são utilizados
para o monitoramento de muitos gases de interesse ambiental, juntamente
com o NDIR para CO2 e CO (veja o Cap. 18).
5.2.5 Alguns monitores de aplicações especiais
Dióxido de enxofre, SO 2
O sistema mais usado para este poluente emprega a fluorescência do dióxido de enxofre existente no ar provocada por irradiação com uma fonte intensa
que emite em 215 nm. Uma fotomultiplicadora colocada a 90° em relação à
fonte detecta a emissão entre 240 e 420 nm. Na fluorescência, a intensidade
da radiação emitida é proporcional à concentração da espécie absorvente (a
amostra) e à intensidade da fonte, logo, o uso de uma fonte intensa leva a um
baixo limite de detecção. A fonte usada nos monitores de dióxido de enxofre é uma lâmpada de zinco de catodo oco, como as usadas em espectroscopia
de absorção atômica (AAS — Atomic Absorption Spectroscopy).
Praticamente toda a intensidade de radiação desta lâmpada situa-se em um
comprimento de onda (213,86 nm), logo ela é até mais intensa do que uma
fonte de laser no mesmo comprimento de onda (Fig. 5.9). Aparentemente,
não há interferências, exceto um pequeno efeito de supressão devido à água, que pode ser facilmente eliminado por secagem do gás antes da medida. Os
limites de detecção estão na faixa de ppb, com resposta linear entre 1 ppb e
100 ppm [11].
Como o monitor é bastante simples mecanicamente e não requer o uso de
reagentes químicos, ele não precisa de manutenção por longos períodos. O
uso de eletrônica em estado sólido faz com que, uma vez calibrado, ele seja muito estável. A calibração do monitor, como a de todos os monitores de
gases, é normalmente bastante difícil porque é muito mais trabalhoso
preparar e manipular misturas de gases em baixas concentrações de analito
do que trabalhar com soluções. A melhor maneira de se obter misturas de
gases de concentrações conhecidas para fins de calibração é o uso de tubos de permeação, em que o gás difunde por uma membrana semipermeável em
velocidade conhecida em uma dada temperatura. São tubos bastante simples
de paredes de PTFE cheios de SO2 líquido, que precisam, porém, ser colocados em um ambiente termostatizado através do qual passa um fluxo de
gás em velocidade constante. A medida do volume total de gás que passa
pela aparelhagem e da perda de peso do tubo em um determinado tempo permite o cálculo da concentração do analito que passa para o gás.
Ozônio, O3
No caso do ozônio, mede-se diretamente a absorbância em 254 nm, que é
muito intensa. O caminho óptico da célula é razoavelmente longo (0,5 m). O
ar passa, então, por um conversor catalítico para remover o ozônio, sem
afetar outros gases que também absorvem naquele comprimento de onda.
Mede-se novamente a absorbância e a diferença entre as duas medidas
corresponde à absorbância do ozônio. Aplicando a lei de Beer, obtém-se uma resposta linear com limite de detecção (LOD) de 1 ppb. Como este monitor
não requer reagentes, somente uma fonte de energia, ele pode ser totalmente
automatizado e permanecer no local de medição por meses, se necessário.
Um outro método, mais sensível, de monitoramento do ozônio baseia-se
na luminescência produzida quando o ar contendo ozônio entra em contato
com uma superfície coberta com eosina seca. Uma pequena bomba empurra o ar pelo instrumento até um compartimento protegido da luz, onde passa por
uma mecha de tecido continuamente impregnada com uma solução de
eosina. Mede-se a quimiluminescência produzida com uma
fotomultiplicadora cujo foco está no centro da mecha. A reação é muito
específica e ocorre na superfície da mecha. A sensibilidade é muito elevada,
da ordem de 0,1 ppb. Compacto e leve, o instrumento (Fig. 5.10) é totalmente automatizado, com o bombeamento e as funções de medição
controlados internamente. Contudo, é necessário repor ocasionalmente a
eosina.
Fig. 5.9 Monitor luminescente para o dióxido de enxofre
Fig. 5.10 Monitor gás/líquido de luminescência para dióxido de enxofre
Óxidos de nitrogênio
São conhecidos pelo menos cinco compostos bem definidos contendo
somente nitrogênio e oxigênio, porém apenas três deles são comumente
encontrados na atmosfera poluída das cidades. O óxido nitroso, N2O, ou o
gás do riso, forma-se em processos microbiológicos e ocorre em concentrações de até 0,25 ppm no ar. Quando a atmosfera está poluída ele
pode chegar a níveis dez vezes mais elevados. O gás é pouco reativo em
concentrações baixas, porém decompõe-se fotoquimicamente na estratosfera
em uma seqüência de reações que produzem óxido nítrico. Os dois gases de
maior interesse do ponto de vista ambiental são o óxido de nitrogênio (NO) e
o dióxido de nitrogênio (NO2). Este último é às vezes denominado tetróxido
de dinitrogênio (N 2O4). Em conjunto, eles são conhecidos como NOx. Nas condições normais do laboratório, NO se oxida rapidamente para dar dióxido
de nitrogênio,
2NO + 0 2 2N02
a fumaça marrom que se observa nas reações do ácido nítrico concentrado. A
reação é de segunda ordem em relação a NO, entretanto, e ocorre muito
lentamente em concentrações de NO abaixo de 500 ppb. Mesmo nos níveis
de poluição atmosférica, os dois gases existem em equilíbrio em uma
proporção que depende da concentração de ozônio presente:
NO + 03 → NO2O2
Esta reação se reverte sob radiação intensa abaixo de 435 nm, isto é,
condições de insolação. A capacidade do gás marrom NO 2 de absorver energia solar ao nível do solo é a força motriz de uma complexa seqüência de
reações, que envolvem hidrocarbonetos, provenientes dos canos de descarga
dos veículos, e ozônio e, eventualmente, produzem a chamada névoa
fotoquímica, extremamente danosa para a saúde, que ocorre, às vezes, no
centro das cidades. Esses gases podem ser monitorados separadamente mas, devido ao equilíbrio, é melhor monitorá-los em conjunto.
Óxido nítrico NO Óxido nítrico e ozônio em excesso reagem em fase
gasosa para produzir dióxido de nitrogênio, metaestável, que emite
imediatamente um fóton e decai a dióxido de nitrogênio normal em uma
reação quimiluminescente:
O fóton pode ser detectado entre 600 e 2000 nm, com λmáx em 1200 nm. Esta reação pode ser usada para monitorar NO em baixos níveis no ar, medindo-se
a quantidade de luz emitida (Fig. 5.11). Uma amostra de ar é bombeada para
um recipiente protegido da luz e reage com excesso de ozônio (produzido eletricamente no equipamento). Em princípio, o ar amostrado tem níveis
baixos de ozônio porque, de outro modo, a reação ocorreria com o próprio ar. Apesar de específico para NO, pode-se passar a amostra por uma célula
catalítica e converter NO2 em NO, o que permite a medição do NOx total, bem como de cada uma das espécies separadamente. O monitor precisa
apenas de uma fonte de energia para funcionar e não depende de quaisquer
reagentes químicos. Admite-se o limite de detecção de cerca de 5 ppm. A
mesma reação pode ser usada em um sistema modificado para monitorar o ozônio, porém, há necessidade de uma fonte de NO, que tem que ser
adicionado em excesso.
Dióxido de nitrogênio NO2 O dióxido de nitrogênio é talvez o poluente mais interessante no momento, não somente por sua participação na química
complexa da névoa fotoquímica, mas também porque está implicado na
incidência crescente de asma e outros problemas respiratórios, especialmente
em jovens. Pode-se usar um sistema quase idêntico à aparelhagem descrita para a dosagem de ozônio para medir o dióxido de nitrogênio no ar, através
da quimiluminescência em fase líquida. A reação ocorre na superfície da
mecha e envolve dióxido de nitrogênio e luminol. O limite de detecção pode
chegar a 5 partes por trilhão sem que haja interferência de outras espécies. A
vantagem deste sistema é que a resposta ao dióxido de nitrogênio é direta e
instantânea (~1 segundo) ao contrário do que acontece com o NO.
Fig. 5.11 Monitor de luminescência para os óxidos de nitrogênio: PMT = fotomultiplicadora
Nitrato de peróxi-acetila (PAN)
PAN, um dos componentes nocivos da névoa fotoquímica, forma-se na
reação entre NOx, O3 e hidrocarbonetos, catalisada pela luz. Suspeita-se de que ele seja o componente importante da névoa, porque é lacrimogênio e
causa problemas respiratórios. Até recentemente, era difícil monitorá-lo
porque ele ocorre em concentrações muito baixas e é extremamente reativo.
Atualmente, ele pode ser determinado na concentração de 30 partes por
trilhão, por separação cromatográfica do PAN de outros poluentes
atmosféricos e conversão catalítica a NO2 que, por sua vez, é determinado
com o sistema mostrado na Fig. 5.12. A etapa cromatográfica é integrada ao
equipamento, mas ela reduz o número de respostas a cerca de 10 medidas
por hora.
Mercúrio
Embora não seja um poluente ambiental importante, o vapor de mercúrio é
comumente monitorado com tecnologias semelhantes às que descrevemos. O
controle dos níveis de mercúrio é importante em ambientes industriais. Usa-
se a leitura direta da absorbância. Bombeia-se o ar para uma célula de gás de
longo percurso (0,7 m) e mede-se a absorbância em 254 nm. Obtém-se o branco de uma determinada atmosfera passando o ar, antes ou imediatamente
depois das medidas, por um filtro de carvão para remover a interferência
provocada por materiais orgânicos que absorvem neste comprimento de
onda.