Vogel: Análise Química Quantitativa
19.5 Analisadores de massas
amostragem). Bombas de alta capacidade removem o material em excesso.
19.5 Analisadores de massas
O analisador de massas separa os íons que se formam na fonte de acordo
com suas razões massa/carga. Como os íons, em geral, têm uma carga
simples, o espectro corresponde, na prática, ao “espectro de massas”. As
características do analisador variam nos diferentes espectrômetros de
massas. Em alguns, a separação se limita às massas de até cerca de 500 u e,
no outro extremo, deseja-se, em outros, separar íons cujas massas diferem
por algumas partes por milhão. Por isso, qualquer comparação entre os
diversos analisadores deve ser feita com o auxílio da quantidade chamada
poder de resolução, R. Sua definição mais comum é
R = m/Δm
onde Δm é a diferença entre as massas de dois picos adjacentes separados
no limite da resolução do aparelho e m é a média da massa nominal dos dois
picos. A expressão “picos resolvidos” deve ser também definida uma vez
que, apesar de não existir uma convenção estabelecida, grande parte dos
espectroscopistas aceita o critério do vale em 10%, nos quais os picos são
considerados como resolvidos se a altura do vale entre eles é menor do que
10% da altura (Fig. 19.7).
Um espectrômetro com poder de resolução igual a 1000 (vale em 10%)
pode distinguir os seguintes picos:
Em massas ~ 1000 picos separados por 1 unidade, isto é,
1000 e 1001, por exemplo
Fig. 19.7 Resolução: definição do vale de 10%
Em massas ~ 100 picos separados por 0,1 unidade, isto é,
99,9 e 100, por exemplo
O valor 1000 foi escolhido para este exemplo porque é o poder de resolução
típico de muitos espectrômetros de massas, mas ele pode variar muito.
Sistemas de alta resolução são capazes de resolução até 125 000. Nestes
sistemas, o poder de resolução é independente da massa.
Observe que alta resolução e capacidade de medir massas elevadas não
estão diretamente relacionadas. Para distinguir entre CO+ + + , N e C H, por
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exemplo, que têm massa nominal igual a 28 u, porém têm massas iguais a
27,9949, 28,0062 e 28,0313 u, respectivamente, é necessária uma resolução
aproximadamente igual a 3000. Embora a resolução seja importante, não é
o único parâmetro relevante. Sensibilidade, capacidade de medir massas
elevadas e velocidade de varredura do espectro devem ser também
consideradas na escolha do equipamento.
19.5.1 Analisadores de setor magnético (focalização simples)
Nos primeiros experimentos em espectrometria de massas, a separação dos
íons era feita com o auxílio de uma combinação de campos elétricos e
magnéticos e, em muitos casos, estes analisadores ainda são os mais adequados. Os íons produzidos na fonte passam por uma série de fendas
onde são submetidos a potenciais crescentes. Os íons são acelerados e
adquirem energia proporcional ao gradiente de potencial, a massa e a carga
do íon:
onde V é o gradiente de potencial, v é a velocidade do íon, e é a carga do íon
( –19 e = 1,60 × 10C) e z é o número de cargas.
Se estes íons passam entre os pólos de um eletromagneto cujo campo é
perpendicular à direção do movimento, eles sofrem deflexão e assumem
uma trajetória de raio r, proporcional ao momento do íon e à força do
campo B:
Eliminando v nas Eqs. 19.1 e 19.2, tem-se que
Todos os parâmetros deveriam ser expressos em unidades SI: m (kg), r(m),
B(T), ze(C) e V(V), porém m é normalmente dado em unidades de massa
unificadas (u) ou daltons (1 u = 1,66 × 10 –27kg), r é dado em centímetros e
ze é o número de cargas eletrônicas elementares. B é dado em teslas (1 tesla
= 10 000 gauss).
A Eq. 19.3 mostra que os íons podem ser separados de acordo com a
massa (m/z) variando-se uma das grandezas B, V ou r e mantendo-se duas
delas constantes. Os analisadores de setor magnético modernos mantêm r e
V constantes e variam B, o campo magnético, alterando a corrente do
eletromagneto. Isto é feito porque a sensibilidade e a resolução caem com a
diminuição da voltagem de aceleração. Esta técnica de varredura leva a uma
escala de massas não-linear porque 2 m / z é proporcional a B. Embora, em
teoria, possa-se usar pequenos campos magnéticos e voltagens de
aceleração baixas, na prática, é necessário usar altas voltagens (8–15 kV) que geram campos magnéticos fortes em eletromagnetos laminados no
interior, grandes e caros.
Um cálculo simples baseado na Eq. 19.3 dá a intensidade típica do
campo dos instrumentos de setor magnético modernos. Para m/z = 500
unidades, raio magnético r = 30 cm e voltagem de aceleração V = 5 kV
A resolução do melhor destes sistemas de focalização simples limita-se a
2000, aproximadamente. Isto ocorre porque os íons, quando formados na
fonte, não têm inicialmente a mesma velocidade. Eles são produzidos em
uma dada faixa de energias e adquirem uma faixa de velocidades. Isto leva
ao espalhamento dos íons que deixam o analisador, limitando a resolução. O
espalhamento é diminuído quando o componente cinético da velocidade é
pequeno em comparação com a velocidade devida à voltagem de aceleração
e esta é a razão da necessidade do uso de altas voltagens de aceleração,
porém ainda existe um limite para a resolução.
19.5.2 Analisadores de foco duplo
O problema da variação da energia inicial dos íons pode ser resolvido
usando-se dois elementos de focalização colocados em série. Os
espectrômetros de massas de focalização dupla usam este arranjo. Os íons
produzidos na fonte são acelerados até um analisador eletrostático (ESA)
formado por duas placas curvas de metal com um potencial dc aplicado
entre elas, isto é, um capacitor, que submete os íons a uma força F,
perpendicular à direção do movimento, cuja magnitude é dada por
F = zeE
A esta força corresponde uma força centrífuga oposta, gerada quando os
íons entram em trajetória circular, logo
zeE 2 = mv/R
onde a força centrífuga age em uma massa m no círculo de raio R.
Como 1/2 ( 2 mv) = zeV, esta equação pode ser rearranjada a
R = 2V/E
A equação mostra que todos os íons que têm uma dada energia seguem, ao
serem acelerados por um potencial V sob um campo elétrico E, a mesma
trajetória de raio, R, independentemente do valor de m/z. A conseqüência
disso é que os íons que passam pelo campo E têm trajetórias de raios
diferentes segundo suas energias cinéticas, isto é, a focalização depende das
velocidades. Uma fenda colocada na saída do analisador eletrostático serve
como filtro de energia e deixa passar apenas um feixe de íons. Os íons que
entram no analisador magnético podem ser, então, separados de acordo com
seu momento. Existem várias maneiras de acoplar os analisadores
eletrostáticos e os setores magnéticos. Uma delas é a configuração de Nier–
Johnson (Fig. 19.4), em que se usa um analisador eletrostático de 90°
seguido por um setor magnético também de 90°, mas também se pode usar
setores de 30° e 60°. Um problema destes sistemas é que os íons são
focalizados somente em um ponto, no qual o detector tem de ser colocado
com precisão.
Também são usados instrumentos de geometria invertida nos quais o
setor magnético precede o analisador eletromagnético. Eles têm certas
vantagens, especialmente quando se estudam íons metaestáveis. A grande
vantagem dos analisadores de foco duplo é a alta resolução que pode ser
conseguida (125 000) nos instrumentos mais complexos. O problema é que
esta resolução só é alcançada em analisadores eletrostáticos grandes e caros,
associados a setores magnéticos, e estes instrumentos exigem freqüentemente componentes adicionais para a focalização (lentes de íons)
baseados em filtros de quadrupolo.
19.5.3 Filtros de massas de quadrupolo
O filtro de quadrupolo (Fig. 19.3) é muito menor e mais robusto do que o
instrumento de setor magnético, é mais fácil de construir e é mais barato. O
instrumento é feito com quatro cilindros de metal paralelos, arranjados em
dois pares, nos quais é aplicada uma combinação de voltagens dc e ac. Os
íons produzidos na fonte passam entre os quatro cilindros e atingem o
detector colocado na outra extremidade. Neste tipo de analisador, os íons
não precisam passar por um campo intenso para serem acelerados e um
potencial da ordem de 5 a 15 V é, normalmente, suficiente para levar os
íons ao analisador. O filtro de quadrupolo é capaz de aceitar íons com uma
faixa razoavelmente grande de energias (ou velocidades) iniciais, o que
permite o uso de uma fenda muito mais larga, geralmente circular, entre a
fonte e o analisador, e isto dá ao quadrupolo uma sensibilidade intrínseca
mais elevada.
Os cilindros que estão em lados opostos são ligados eletricamente, um
par ao lado positivo de uma fonte dc variável e o outro ao lado negativo da
fonte. Um gerador de radiofreqüência fornece o potencial ac (+V cos t) a
um dos pares e a mesma freqüência defasada de 180° (–V cos t) ao outro
par. Esta combinação de potenciais faz com que a trajetória dos íons seja
errática em relação ao centro do quadrupolo. No plano definido pelos dois
pares positivos de cilindros, os íons leves sofrem deflexões e colidem com
os cilindros. Os íons mais pesados sofrem deflexões menores e com a ajuda
do componente ac tendem a passar incólumes. Este arranjo funciona como
um filtro de massas. No plano formado pelos pares negativos de cilindros,
os íons positivos são atraídos pelos cilindros e tendem a ser neutralizados,
porém o componente ac se opõe a isto, mais no caso dos íons mais leves do
que nos dos mais pesados, formando assim um filtro de massas leves. O
efeito combinado é um filtro de massas de faixa estreita que permite
estabelecer uma trajetória estável para um íon de massa m/z pelo controle da razão Vdc/Vrf. Os demais íons são neutralizados por colisão com os
cilindros. (A resolução máxima é obtida quando Vdc/Vrf= 0,168.)
Quando se varia as voltagens dc e rf combinadas, mantendo-se a razão
constante, pode-se obter o espectro de massas completo. Muitas pesquisas
têm sido feitas para melhorar o desenho dos quadrupolos. A resolução
depende do comprimento dos cilindros, da qualidade do paralelismo e da
freqüência do componente rf. A sensibilidade aumenta com o diâmetro dos
cilindros. Alguns destes fatores, entretanto, tendem a trabalhar em oposição.
Diminuir o diâmetro dos cilindros leva à diminuição da sensibilidade mas
também ao aumento da faixa de massas. Os sistemas comerciais de alta
qualidade têm, comumente, cilindros de 20 cm de comprimento e 5 mm de
diâmetro que operam em freqüências rf de cerca de 10 8 Hz, e analisam
massas de 1500 u, no máximo, com resolução unitária, isto é, resolução de
1500 na massa de 1500 u.
Os desenhos mais recentes têm alguns refinamentos. Os cilindros são
colocados em uma matriz rígida de cerâmica, o que impede mudanças de
geometria em temperaturas mais elevadas. Também se utiliza um pequeno
filtro de quadrupolo preliminar dotado apenas da voltagem dc, colocado
antes do quadrupolo principal. Este arranjo protege o analisador de
contaminações e mantém o desempenho em seu melhor nível.
Embora a resolução e a faixa de massas pareçam restritas em comparação
com o desempenho de um instrumento de setor magnético e dupla
focalização, o quadrupolo tem uma grande vantagem, além do custo mais
baixo e o tamanho menor — o tempo de varredura do espectro é muito
pequeno. Como a varredura é controlada pela alteração dos potenciais
aplicados aos cilindros e como ela varia linearmente com o potencial, o
espectro de massas completo pode ser obtido (com alta acurácia e
reprodutibilidade) em alguns milissegundos. Um instrumento de setor
magnético limita-se normalmente a cerca de 0,1 segundo por década devido
às correntes localizadas produzidas no eletromagneto quando a corrente é
aumentada. (Uma década corresponde a 1–10 ou 10–100 unidades de
massa. A expressão das velocidades de varredura em termos de tempo por
década tem origem na natureza não-linear da varredura obtida por meios magnéticos.) Como veremos na Seção 19.10, esta capacidade de varredura
rápida torna o filtro de quadrupolo uma escolha interessante para o
acoplamento com as frentes de eluição da cromatografia. O filtro de
quadrupolo também é ideal para a espectrometria de massas de íons
negativos porque o filtro não depende da polaridade dos íons que passam
por ele e também porque é até mesmo possível obter varreduras alternadas
de íons positivos e negativos em um intervalo de tempo muito pequeno,
inclusive em um único pico de cromatografia em um sistema CG-MS.
Fig. 19.8 Detector de captura de elétrons
19.5.4 Detectores de captura de íons
Um detector muito semelhante ao anterior é o detector de captura de íons
(ITD) [6], no qual se utiliza uma voltagem de radiofreqüência variável para
capturar íons na cavidade formada por um eletrodo toroidal central e dois
eletrodos aterrados colocados nas extremidades do detector (Fig. 19.8). Este
sistema, mecanicamente simples, combina as funções de fonte de íons e
analisador porque, quando em operação, pulsos de elétrons gerados por um filamento aquecido convencional entram no detector através de um eletrodo
em grade, interagem com as moléculas da amostra e produzem fragmentos
semelhantes aos produzidos pelos EI normais. Estes fragmentos são, por
sua vez, retidos na cavidade pelo campo rf e liberados por uma varredura de
voltagem do campo. Os íons saem da cavidade de acordo com os valores de
m/z e são detectados como um espectro de massas. Os detectores de captura
de íons têm várias características que os tornam ideais para o acoplamento
com um cromatógrafo a gás e eles têm sido usados principalmente como
detectores de CG-MS, embora sistemas de HPLC-MS ou de LCQ estejam
ficando cada vez mais comuns, especialmente quando acoplados a uma
fonte API.
O desempenho ótimo do aparelho ocorre quando a pressão na cavidade é
da ordem de 10 –2 –3 a 10torr (1 Pa a 100 mPa) para um gás de baixo peso
molecular, hidrogênio ou hélio, porque nesta faixa de pressões o movimento
dos íons na cavidade é reduzido e eles colidem com as paredes com menos
freqüência. A freqüência de operação de 1 MHz em 20 V,
aproximadamente, confina os íons ao plano xy, isto é, eles só podem se
movimentar na direção z. Quando a voltagem atinge cerca de 15 kV, íons de
massa crescente são ejetados através de um furo no eletrodo de uma das
extremidades. O controle da voltagem de varredura pode ser conseguido
rapidamente (mais rapidamente do que em um quadrupolo) e normalmente
o controle do sistema por microcomputador permite fazer um grande
número de varreduras cuja média é o espectro final. As varreduras são
sincronizadas com a voltagem da porta de modo a capturar o número ótimo
de íons para produzir o espectro. Com quantidades muito pequenas de
amostra, cada varredura leva menos de 30 ms e com quantidades muito
grandes de material na cavidade, menos de 75 ms. A conseqüência é uma
sensibilidade muito alta. Os sistemas são desenhados para dar resolução
unitária na faixa de m/z 50–650 para amostras da ordem de 1 pg com custo
mais baixo do que o de outros tipos de analisador.
Embora usado normalmente no modo de impacto de elétrons, também é
possível fazer experimentos de ionização química com alta sensibilidade. A troca de um modo para o outro pode ser feita rapidamente, o que permite
medidas EI/CI mesmo em picos de cromatografia a gás em eluição rápida.
19.5.5 Analisadores de tempo de vôo
Um analisador de massas, usado há muito tempo, é o analisador de tempo
de vôo (TOF), um outro dispositivo mecânico muito simples controlado por
uma eletrônica complexa (Fig. 19.9). Originalmente, o pulso de íons era
formado por dessorção com um plasma de califórnio-252 mas, atualmente,
isto é feito, em geral, por uma das duas técnicas de feixe, em particular com
um laser, ou pelo uso de uma fonte API. Um potencial de 1 a 10 kV,
estabelecido entre as placas de repulsão e extração, acelera o feixe até um
tubo de passagem com 15 a 100 cm de comprimento. Este tubo não está
sujeito a um campo magnético ou um campo elétrico e, por isto, é, às vezes,
denominado “zona livre de campo”. Como todos os íons sofrem
inicialmente o mesmo gradiente de potencial, eles adquirem a mesma
energia cinética, zV, mas percorrem o tubo em velocidades inversamente
proporcionais à raiz quadrada de suas massas e atingem o detector,
colocado na extremidade do tubo, em tempos diferentes. Os tempos de vôo
típicos são da ordem de 1 a 30 ms, dependendo da massa, e a informação de
muitos pulsos pode ser adquirida e tratada para produzir o espectro de
massas final.
O sinal detectado correspondente discrimina a massa contra o tempo e o
espectro de massas completo pode ser calibrado se o tempo de vôo de duas
ou mais massas conhecidas puder ser computado. A possibilidade de
calibração rápida do espectro para massas mais elevadas é uma das
principais vantagens desta técnica, já que o analisador TOF é o único que
não sofre limitações de massas e pode ser aplicado, usando MALDI-TOF
(Seção 19.4.5), no estudo de grandes biomoléculas, com m/z superior a 300
000 u. No sistema que acabamos de descrever, entretanto, a energia do feixe
de íons primário não é focalizada e a resolução limita-se a menos de 1000.
A conseqüência inesperada é que o analisador não permite a resolução de
grupos isotópicos quando as moléculas são muito grandes. Isto significa que os íons observados não correspondem às massas nominais (massas
isotópicas) normalmente encontradas na espectrometria de massas e sim às
massas isotopicamente ponderadas ou massas químicas. As duas massas
diferem em cerca de uma unidade em cada 1500 u.
Fig. 19.9 Espectrômetro de massas de tempo de vôo (TOF)
A técnica conhecida como focalização com atraso foi recentemente
desenvolvida para permitir a separação inicial dos íons segundo sua
velocidade. Assim que produzidos, os íons podem se expandir em uma
região livre de campo entre as placas de repulsão e de extração. Após um
pequeno atraso (de centenas de nanossegundos a alguns microssegundos)
aplica-se um pulso de extração à placa de repulsão para fazer com que os
íons entrem no tubo de passagem. O ajuste correto do atraso e da voltagem do pulso focaliza os íons segundo sua energia e aumenta a resolução, de