Vogel: Análise Química Quantitativa
5.3 Líquidos
Fig. 5.12 Diagrama de blocos de um monitor de PAN: VC = válvula
A sensibilidade pode chegar a 1 μg · m3, suficiente na maior parte das
situações.
Um sistema portátil baseia-se na adsorção do mercúrio sobre uma folha ou
fio de ouro, que altera a resistência elétrica do metal. A alteração pode ser
medida e relacionada à concentração do mercúrio. No final do ciclo de medidas, aquece-se a folha (ou fio) de ouro para sublimar o mercúrio e
reativar o sistema. Apesar de muito menos sensível do que o outro sistema,
com limite de detecção de 1 μg · m-3, este tipo de dispositivo é muito menor
e mais barato. Ele pode ser também usado na avaliação da exposição média
durante tempos longos para obtenção de padrões de exposição ocupacional,
porque a folha (ou fio) de ouro retém todo o mercúrio existente no ar que é bombeado sobre ela.
5.3 Líquidos
A literatura sobre a amostragem de líquidos é muito extensa e, em muitos
casos específicos, é possível usar ou modificar um procedimento de
amostragem já existente. Esta seção tenta dar uma visão geral das técnicas de amostragem e coleta de líquidos. A amostragem de líquidos está fortemente relacionada com a água potável ou seus precursores. Por isto, grande parte de
nossa discussão está relacionada com a água potável, embora as técnicas
possam ser usadas em outros líquidos. Vários parâmetros são importantes no
planejamento de um protocolo de amostragem, inclusive as exigências e
diretrizes da legislação. Como a água é essencial à vida, o controle severo de
sua pureza é necessário e desejável, porém, ele não é uniforme e a legislação que envolve água e fontes de água e sua implementação variam muito de um
país para outro. A Tabela 5.3, embora incompleta, lista alguns dos mais
importantes atos e decretos que governam as técnicas de amostragem usadas
na Inglaterra, nos Estados Unidos e na União Européia. Os regulamentos,
decretos e recomendações relativos à composição da água são complexos e
seu número continua a crescer à medida que aumenta o interesse em proteger o meio ambiente.
Cerca de 700 compostos orgânicos são encontrados nos suprimentos de
água e diferentes governos têm visões muito diferentes sobre como eles
devem ser monitorados e controlados. A tendência mundial é cada vez mais
estabelecer controles que especificam os valores máximos permitidos de
determinadas substâncias e dão origem a listas de produtos químicos “perigosos”. Este processo começou nos Estados Unidos no início dos anos
1970, quando a Agência de Proteção Ambiental (EPA) produziu uma lista de
poluentes importantes contendo 129 substâncias e os níveis máximos de
concentração (MCLs — Maximum concentration levels) de cada um deles.
Desde então, esta lista vem sendo aumentada. Listas semelhantes existem
na Europa. São as listas vermelha, cinza e preta em que se atribui a cada substância uma determinada concentração máxima permitida (MAC —
Maximum allowable concentration) ou valor prescrito de concentração
(PCV). Esta abordagem mecânica tem várias vantagens além da facilidade de
interpretação das falhas dos regulamentos, mas tem, também, algumas
desvantagens, como a incapacidade de responder às ameaças de novos
poluentes e à falta de apreciação científica sobre o perigo real que a presença de um produto químico ou um grupo de produtos químicos representa para o
meio ambiente. Porém, sejam quais forem os critérios utilizados na
interpretação, os resultados analíticos devem ser o mais representativos possível do todo e devem dar uma indicação confiável da concentração de
quaisquer materiais analisados.
Tabela 5.3 Pontos principais da legislação das águas
Inglaterra EUA União Européia
1973 A Lei das Águas é 1970 A Agência 1976 Portaria de Substâncias Perigosas concebida para prover de Proteção (76/464/EEC); uma lista de 129
uma ”água saudável”; Ambiental (EPA substâncias que devem ser eliminadas da
ela foi alterada em – Environmental água (apenas 17 da lista têm a
1989; a Autoridade Protection concordância geral)
Nacional dos Rios (NRA Agency) é criada
– National Rivers 1980 A Portaria sobre a qualidade da água Authority ) é instalada 1972 A Lei para consumo humano (80/778/EEC)
Federal de estabelece valores máximos admissíveis
1974 Lei de Controle da Controle de de concentração (MACs) e valores mínimos Poluição (COPA — Poluição das de concentração requeridos (MRCs)
Control of Pollution Act), Águas (Lei da
“O poluidor paga”, não Água Limpa) MAC A interpretação acerca do que se se refere a compostos introduz a lista
entende por MAC, particularmente níveis
específicos de poluentes
médios, leva a um grande debate. A
prioritários, com
Inglaterra estabelece objetivos de
1990 129 compostos A Lei de Proteção qualidade ambiental (EQOs —
Ambiental é uma vasta environmental quality objectives em 13 classes; os) para cada
métodos da série
legislação sobre todos corpo d’água, isto é, após a poluição ter
600-EPA são
os aspectos da sido incorporada à água. O resto da Europa
criados para
poluição; ainda não foi emprega padrões de emissão fixos na
águas industriais;
totalmente fonte.
a lei foi alterada
implementada
em 1977, 1981 e
1987
1990 A Terceira 1974 A Lei da Conferência do Mar do Água Potável
Norte (Haia) introduz a Segura (SDWA –
lista vermelha de Safe Drinking
substâncias; de Water Act)
aplicação restrita às estabelece
águas de estuários padrões
nacionais para a
1991 água potável; ela
Lei da Água
introduz os níveis
Industrial
máximos de
contaminantes
1995 A Lei Ambiental é (MCLs —
a peça principal da maximum
legislação; ela trata de contaminant
todos os aspectos levels) e os níveis ambientais, não máximos
somente da água recomendados
de
1996 contaminantes A Agência
Ambiental criada pela (RCMLs —
Lei Ambiental de 1995 recommended
é instalada em 1º de maximum
abril contamiant
levels); a lei foi alterada em
1977, 1981 e
1987
1980 A Lei da Resposta
Ambiental
Abrangente,
Compensação e
Responsabilidade
(CERCLA —
Comprehensive
Environmental
Response,
Compensation
and Liability Act), o “Super Fundo”,
está
principalmente
dirigido à
poluição de
despejos de
resíduos
1986 Lei da
Reautorização e
Alterações no
“Super Fundo”
(SARA — Super
Fund
Amendments and
Reauthorisation
Act)
Como no caso dos gases, um pequeno volume de água contém um grande
número de partículas, normalmente moléculas ou íons, assim, a amostra coletada pode ser tratada por métodos estatísticos. Permanece, porém, o
problema de que esta amostra deve ser representativa do todo. A variabilidade é, novamente, um fator que deve ser cuidadosamente
avaliado.
Nota Neste contexto, o termo “variabilidade” significa que os resultados
obtidos para um analito dependem de fatores externos, independentemente
do processo de amostragem. Variações que ocorrem depois da coleta da
amostra, devido à decomposição, à adsorção etc., estão ou deveriam estar
sob controle do analista.
No laboratório costumamos considerar os líquidos como homogêneos, pelo menos quando só uma fase é visível, porém, no caso de grandes volumes de
líquidos, os pontos de coleta da amostra devem ser cuidadosamente
escolhidos. Não faz sentido supor que o Oceano Atlântico, por exemplo, seja
homogêneo, com concentrações de analitos constantes ao longo da superfície
e da profundidade. Mesmo quando o volume não é tão grande, a variação da
posição de amostragem pode ser importante devido a fatores como variações de densidade, o fluxo laminar na superfície ou turbulências no líquido. A
variação devida ao tempo e às condições meteorológicas (chuva) impõem
uma restrição adicional ao método de amostragem. Quando existem
interfaces no líquido devido à imiscibilidade de duas ou mais fases, os
problemas de amostragem podem ser sérios. Neste caso, o analista,
habitualmente, escolheria amostrar e analisar separadamente cada fase.
A faixa de concentração do analito pode variar entre poucos por cento do
total até traços em ppb ou menos. O volume necessário de amostra também
pode variar consideravelmente. Usam-se, freqüentemente, técnicas de
préconcentração para obter quantidades mensuráveis de analito. A
estabilidade da amostra coletada pode ser também outra dificuldade pois, em
alguns casos, sem preservação adequada ou sem estabilização da amostra, ocorrem alterações entre a coleta e a análise. É importante, finalmente, ter
clareza do objetivo da análise. Em muitos casos, a forma exata da questão
central — Qual é o valor médio? Qual é o valor máximo? Será que a amostra
contém X? A concentração do analito está abaixo de limites definidos? —
pode determinar o método a ser usado na amostragem e na análise
subseqüente.
Dependendo do tipo de sistema, várias abordagens podem ser usadas para
obter uma amostra bruta de líquido:
1. Pequenos sistemas estáticos.
2. Sistemas de escoamento contido.
3. Sistemas de escoamento aberto.
4. Grandes sistemas estáticos.
Os procedimentos a serem usados dependem também do objetivo: obter uma
série de amostras discretas a serem analisadas separadamente ou reunir as amostras coletadas em uma amostra composta (obtida por combinação das
amostras discretas). A amostragem discreta é o método mais comumente
empregado. No entanto, quando se coleta um grande número de amostras,
sempre em duplicata, problemas com o volume e o grande número de
análises podem tornar o método muito dispendioso. Quando o que se deseja
é a concentração média do analito, é melhor preparar e executar um plano para obter uma amostra composta que reduza drasticamente o volume da
amostra e o número de análises requeridas. As amostras compostas,
entretanto, não indicam variações de composição com a posição ou com o
tempo. Isto faz com que uma combinação de amostragens discretas e
compostas seja comumente necessária. Deve-se manter sempre a limpeza em
todos os estágios do procedimento de amostragem. Isto evita contaminações e resultados falsos.
5.3.1 Amostragem discreta
Se o analista estiver alerta para a possibilidade de variação do material a ser
analisado com a posição e o tempo, e se a amostra for acessível, a
amostragem discreta pode ser feita com aparelhagens muito simples: frascos
de vidro ou polietileno com capacidade de 50 a 1000 ml. Se as amostras tiverem que ser coletadas em várias profundidades, é necessário usar frascos
de amostragem mais complicados. Existem diversos modelos, porém os dois
mais comuns são o frasco de Knudson e a bomba amostradora (Fig. 5.13).
Ambos os dispositivos podem ser usados para a amostragem em várias
profundidades. Geralmente, estes frascos são simples e confiáveis, desde que
sejam cuidadosamente limpos antes e depois do uso para evitar
contaminações. Existem problemas, porém, com essa abordagem simples. Se
um grande número de amostras (em duplicata) tiver que ser coletado, a
estocagem, o transporte e o manuseio passam a ser os fatores principais no tempo gasto e no custo do processo. Se um grande número de amostras tiver
que ser tratado antes da análise, o gasto com reagentes químicos aumenta. O
intervalo de tempo entre a coleta e a análise tende também a ser
indesejavelmente longo. O exame cuidadoso do objetivo inicial da análise
comumente sugere que não é necessário coletar um grande número de
amostras discretas. Suponha que a questão é: Qual é o valor médio? É perda de tempo coletar e analisar um grande número de amostras para obter a
média numérica de todos os resultados. Neste caso, é mais sensato usar a
amostragem composta.
Fig. 5.13 Amostrador de líquido 5.3.2 Amostragem composta
A amostragem composta é feita pela coleta de uma amostra média do
volume total antes da análise. O mais simples é misturar, no laboratório,
antes da análise, um número elevado de amostras discretas para obter uma
amostra representativa do volume total. Apesar de reduzir o tempo total da análise (e o custo) este procedimento ainda requer coleta manual, estocagem
e transporte de um certo número de amostras discretas. Assim, se possível, é
melhor misturar as amostras discretas logo depois da amostragem.
Para o monitoramento por muito tempo de grandes quantidades de líquido,
como um lago ou um reservatório, podese usar bombas para obter amostras
em várias posições fixas e um sistema de saídas de amostra ligadas a uma
bomba central e a um frasco de suporte (Fig. 5.14). Este arranjo dá uma
mistura posicional. Apesar de a mistura posicional dar comumente o
resultado desejado, ela considera que os níveis de analito variam somente
com a posição. A concentração do analito, entretanto, muda freqüentemente
com o tempo, de forma aleatória (por exemplo, efluentes de esgoto) ou
periodicamente (por hora, por dia ou mesmo por estação do ano). A amostra composta precisa refletir estas mudanças, o que é feito por coleta de uma
mistura temporal.
As misturas temporais podem ser coletadas pela retirada contínua de um
volume pequeno com uma bomba ou pelo uso de um dispositivo de coleta
programável, mais complicado, que pode funcionar por longos períodos de
tempo e é capaz de coletar amostras em intervalos de tempo regulares ou
quando a vazão aumenta excessivamente (Fig. 5.15). Estes coletores
automáticos podem produzir uma amostra composta ou podem coletar até 24
amostras em recipientes separados, o que permite caracterizar melhor a
coleta.
Fig. 5.14 Preparador de amostras compostas de posição fixa
5.3.3 Pré-tratamento da amostra
Seja qual for a técnica de amostragem empregada, é necessário um pré-
tratamento para estabilizar a amostra e evitar mudanças de composição entre a coleta e a análise. O intervalo de tempo seguro entre a coleta e a análise, o
tempo de espera, pode variar muito, dependendo do analito e do pré-
tratamento. Para muitas amostras, especialmente as coletadas no “meio
ambiente”, o primeiro estágio deve ser a filtração para remover o “material
sólido”, indesejável. Esta etapa parece simples, porém, ela pode causar
diferenças significativas no tempo de espera e no resultado analítico final, porque a presença de pequenas partículas, inclusive microorganismos, afeta significativamente os resultados de vários analitos comuns. A título de
exemplo, quando certas bactérias estão presentes, os níveis de nitrato e
nitrito podem variar grandemente durante o tempo de espera. Um outro
problema é a concentração de muitos cátions, especialmente de metais
pesados, que parece aumentar durante o tempo de espera porque sólidos
finamente divididos dissolvem-se lentamente.
Fig. 5.15 Preparador automático de amostras compostas
Na filtração simples dos sólidos pode-se usar papéis de filtro ou filtros de
gravidade. É mais comum, porém, o uso de discos filtrantes de fibra de vidro
para uma primeira filtração rápida ou o uso de filtros de membranas
sintéticas com distribuição estreita de poros para a remoção de partículas
menores. As membranas mais comuns são de acetato de celulose com poros
entre 2,0 e 0,2 μm. As membranas com poros de 0,2 μm filtram quase todos os componentes insolúveis, incluindo espécies biológicas, porém a
velocidade de filtração é muito baixa mesmo sob pressão ou vácuo. Muitos químicos utilizam membranas de poros ligeiramente maiores (0,45 μm), isto
é, um compromisso entre a velocidade de filtração e o tamanho das
partículas retidas. No caso de pequenos volumes de amostra, pode-se usar
seringas filtrantes descartáveis, com um adaptador ajustado para o encaixe da
agulha (Luer), que podem ser empurradas firmemente para dentro de uma
seringa de vidro e são rápidas e confiáveis. Entretanto, seu preço é alto se grandes quantidades forem necessárias.
Independentemente da técnica de filtração, é importante estar alerta para a
possibilidade da separação inadvertida ou perda de analitos que possam estar
presentes como mais de uma espécie. A capacidade de alguns cátions de
existir em diferentes formas (especiação) é muito conhecida. Alumínio
dissolvido em água, por exemplo, pode estar na forma de íons, de complexos e de partículas coloidais ou pode estar adsorvido em outras partículas sólidas
em suspensão. Este fato, que pode levar a resultados analíticos bastante
diferentes para a mesma amostra com diferentes métodos analíticos, só
recentemente tem sido devidamente apreciado.
Após a filtração, a próxima etapa de estabilização é a preservação
química ou física, que permite o aumento do tempo de espera. Vários métodos podem ser utilizados, dependendo do analito a ser determinado e da
técnica usada na análise. Um procedimento normal na análise de cátions e de
alguns ânions é o tratamento com ácido nítrico para manter os analitos em
solução e reduzir ou suprimir eventuais alterações biológicas. Em geral, a
adição de 1 ml de HNO3 concentrado para cada 100 ml de amostra é
suficiente. A estocagem da amostra em temperaturas baixas, 4°C ou – 10°C, reduz normalmente as alterações químicas e biológicas. É uma boa idéia
proteger a amostra da luz, especialmente quando as concentrações de
espécies orgânicas, como, por exemplo, resíduos de pesticidas, são baixas.
As amostras que contêm concentrações baixas de espécies orgânicas voláteis
são mais difíceis de conservar. Elas devem ser coletadas em recipientes de
vidro totalmente cheios de líquido, sem bolhas de ar no topo, e analisadas o mais rapidamente possível. É geralmente muito mais difícil manter a
integridade de amostras biologicamente ativas, que devem ser analisadas
imediatamente ou preservadas com muito cuidado.
5.3.4 Amostragem e análise no campo
Porque a preservação e a estocagem podem alterar a composição dos
materiais, várias técnicas estão sendo desenvolvidas para que a análise possa
ser feita no ponto de coleta de amostras ambientais e ecológicas. Com isto,
evita-se o procedimento normal de coleta, transporte e análise a posteriori.
Equipamentos de teste portáteis para a determinação de parâmetros como
temperatura, pH e condutividade já são usados há bastante tempo. Testes
colorimétricos simples para os cátions e ânions mais importantes também
não são novidade, porém, alguns dispositivos espectroscópicos mais
complexos e sensíveis, que permitem a determinação mais ou menos
específica de muitos cátions e ânions e mesmo algumas espécies orgânicas, começam a ser usados [12]. Todos estes “conjuntos de teste” baseiam-se, na
prática, em procedimentos padronizados de análise espectrométrica por
UV/visível, porém os reagentes são cuidadosamente embalados na forma de
tabletes ou de envelopes fechados, o que permite que a química necessária
possa ser feita sem dificuldades no local de coleta da amostra. A intensidade
das cores das soluções resultantes dos testes é geralmente comparada com padrões ou é medida com fotômetros equipados com baterias. O
comprimento de onda é fixo e os aparelhos podem ser calibrados em
unidades de concentração para o analito de interesse.
Combinações de fonte e detector baseadas no sistema ótico de diodo
emissor de luz (LED), unidas à estabilidade da eletrônica em estado sólido,
permitem que estes instrumentos sejam pequenos, relativamente baratos e muito estáveis. A combinação de sistemas químicos e bioquímicos aumenta
o número de espécies que podem ser determinadas e permite alcançar limites
de análise mais baixos. Alguns poluentes importantes, como pesticidas e
resíduos de explosivos, podem ser quantificados especificamente com
modificações de ensaios imunológicos padronizados, especialmente os
ensaios imunossorventes com enzimas ligadas (ELISA). A bioquímica envolvida nestes testes é relativamente complexa e depende da ligação (ou
da ligação competitiva) do substrato a um anticorpo imobilizado. O resultado
final, porém, é a produção de uma solução em que a intensidade da cor é
inversamente proporcional à concentração do analito [13].
Estas técnicas levam o laboratório até a amostra e, por isto, praticamente
eliminam os problemas de deterioração da amostra durante a estocagem.
Elas, porém, são relativamente demoradas e de forma nenhuma dispensam
procedimentos de amostragem adequados. Além disto, como são geralmente
específicas para um determinado analito, elas não são tão versáteis nem tão
sensíveis como os métodos espectrofotométricos tradicionais de laboratório. A decisão de usar o equipamento de teste no campo ou de preservar as
amostras e transportá-las até o laboratório para análise pertence ao analista e
baseia-se na sua experiência, na disponibilidade do equipamento e no
objetivo original da análise.
5.3.5 Pré-concentração da amostra
Os ânions e cátions de interesse nas amostras de água podem, em muitos casos, ser analisados nas concentrações que caracterizam a poluição com o
auxílio de procedimentos simplicados de pré-tratamento ou de concentração
da amostra, especialmente em laboratórios bem equipados. Chegase a atingir
limites de detecção da ordem de μg · l–1 (ppb) e, abaixo deste limite, muito
poucas substâncias inorgânicas representam um risco para a saúde. No caso
da análise de algumas espécies orgânicas, que têm que ser determinadas em concentrações muito baixas (ng · l –1), a pré-concentração é normalmente
necessária. O analista pode escolher dentre cinco métodos gerais.
Injeção direta
A injeção direta não é propriamente um método de pré-concentração já que a
amostra de água é injetada diretamente em um cromatógrafo a gás. Até há
pouco tempo, esta técnica era usada apenas para amostras com altas
concentrações de materiais não-polares. Embora a cromatografia com fase
gasosa resolva normalmente volumes de amostra da ordem de 0,1–2,5 μl, a
técnica não é muito sensível e para que a análise seja satisfatória as concentrações de analito devem ser da ordem de ppm. Além disto, apesar de
as colunas não-polares (usadas para analitos não-polares) serem
relativamente tolerantes a grandes quantidades de água, não se deve injetar
água em colunas polares porque isto causa degradação e reduz a vida útil das colunas. Técnicas recentes de injeção de grandes volumes de amostra com
programação de temperatura cuidadosamente controlada, entretanto,
tornaram o processo mais atraente para certos tipos de amostra. (Um cálculo
simples mostra que 1 a 2 ml de uma solução na concentração de 10 ng · l –1
em água são necessários para passar 10 pg de material pelo detector de um
cromatógrafo.) Alguns analitos podem ser determinados por injeção direta em um sistema de HPLC de fase reversa, mas, de novo, a sensibilidade é,
com freqüência, um problema.
Análise de vapor em espaço confinado
Um método de pré-concentração muito apropriado para compostos
relativamente voláteis é a partição de compostos orgânicos entre o solvente e
a fase gasosa em equilíbrio com o líquido pelo aquecimento de um recipiente
parcialmente preenchido com a amostra. O procedimento mais simples é
tampar um pequeno frasco (5 a 10 ml) com um septo de borracha, enchê-lo parcialmente com a amostra de água e aquecê-lo em um banho de água até
45°C, aproximadamente. Espere um pouco para que os voláteis passem para
a fase gasosa, colete uma amostra com uma seringa de gases de 1 ml de
capacidade e injete diretamente em um cromatógrafo. Esta técnica é muito
útil na análise de compostos voláteis dissolvidos em água, mas limita-se a
espécies voláteis. Quando se deseja maior precisão, deve-se usar um sistema totalmente automatizado (que é caro). A análise de vapor em espaço
confinado não se limita a soluções em água e é usada, também, nas indústrias
alimentícia e de bebidas, especialmente na análise de voláteis como o álcool
e componentes do sabor e da fragrância [14]. Como é uma técnica de
concentração, ela pode ser usada para amostras com baixas concentrações de
analito.
Purga e retenção
Em muitos aspectos, este procedimento é semelhante às técnicas usadas para
a retenção de compostos orgânicos existentes em gases, exceto por um estágio inicial de purga de compostos orgânicos que estão na fase líquida.
Nesta técnica, borbulha-se um gás inerte como nitrogênio ou hélio através da amostra de água contida em um frasco volumoso. O gás de purga passa
através de uma placa de vidro sinterizado colocada abaixo da superfície do
líquido e produz uma corrente de pequenas bolhas que arrastam os
componentes orgânicos. O gás e os voláteis passam por um pequeno tubo,
semelhante aos usados na amostragem de gases, que contém um adsorvente e
retém os voláteis. O adsorvente utilizado nestes tubos não deve ser afetado pela água que é arrastada em grandes quantidades na forma de vapor. Cerca
de 20 mg de água são adsorvidos para cada 10 μg de componente orgânico.
Após um certo tempo, liga-se o tubo adsorvente a um cromatógrafo e os
orgânicos voláteis são dessorvidos termicamente para a câmara de injeção.
Se usada corretamente, a técnica dá resultados confiáveis mesmo quando as
concentrações de analito são muito baixas. No entanto, deve-se ter cuidado para que o sistema não dê valores não-representativos. A técnica só pode ser
usada para espécies voláteis. Para que a confiabilidade seja maior é desejável
usar sistemas comerciais nos quais cada componente é otimizado para a
análise.
Extração com solvente
Esta técnica é a mais antiga e provavelmente a mais conhecida dentre as
técnicas de extração. Baseia-se na partição seletiva de um soluto entre duas
fases, no caso, duas fases líquidas. Embora seja muito empregada nos laboratórios de química orgânica em operações de análise e síntese, seu uso
na pré-concentração de compostos orgânicos dissolvidos em água é, agora,
muito menos comum. Adiciona-se uma pequena quantidade de um solvente
imiscível a um volume grande de água, agita-se e deixa-se em repouso. A
princípio, quando as fases se separam, o solvente imiscível que contém uma
grande proporção de compostos orgânicos pode ser separado e analisado. Quando, porém, o objetivo é extrair analitos que estão em concentrações da
ordem de ppm ou ppb em água, os solventes utilizados têm que ser muito
puros para evitar a contaminação da amostra. Além disto, o método é muito
trabalhoso e uma preocupação crescente é o descarte seguro dos solventes
após o uso. Assim, embora o método possa ser usado na extração e pré-
concentração de muitas espécies solubilizadas em água que têm volatilidade relativamente alta, com equipamentos de rotina de laboratório, ele está em
declínio porque os solventes que têm o grau de pureza necessário são caros e
seu descarte correto após o uso é problemático.
Extração com fase sólida (SPE — Solid Phase Extraction)
A extração com solvente foi suplantada pela extração com fase sólida (SPE),
talvez a melhor maneira de extrair e préconcentrar compostos orgânicos
presentes em concentrações muito baixas em água. Além do uso na análise
de águas, a extração em fase sólida também é utilizada em extrações envolvendo sistemas biológicos como, por exemplo, drogas na urina ou a
análise de sangue. Os sistemas mais comumente usados contêm um pequeno
leito de mate rial adsorvente específico colocado em uma seringa
hipodérmica descartável. Quando em uso (Fig. 5.16), o leito de adsorvente é
inicialmente pré-condicionado, com uma pequena quantidade de solvente
orgânico, normalmente álcool. A fase aquosa é, então, succionada ou bombeada através do leito, que retém os compostos orgânicos.
Fig. 5.16 Uso de cartuchos na extração em fase sólida: (▴) analito, (•) interferentes
A liberação dos compostos orgânicos é feita com outra porção de solvente
orgânico. O analista dispõe de uma grande variedade de adsorventes (a maior
parte baseada em recheios para HPLC). Os leitos adsorventes podem lidar com volumes de 2 a 2000 ml de amostra [15]. Para águas relativamente
limpas, a técnica é muito rápida e fácil de usar. A escolha correta do leito
adsorvente permite a extração de praticamente todos os compostos orgânicos
e inorgânicos com um mínimo de contaminação e fatores de concentração
próximos de 1000, nos casos favoráveis. Entretanto, na análise de grandes
volumes de água com baixas concentrações de analito ou quando a água contém quantidades apreciáveis de sólidos, o tempo necessário para a
passagem do líquido através do leito adsorvente pode ser inaceitavelmente longo, mesmo quando se utiliza vácuo. Nestes casos, pode-se usar discos de
SPE, em que o material adsorvente está preso à matriz de um disco de
filtração fino. A química do sistema é a mesma dos cartuchos porém
volumes maiores de líquido podem ser processados mais rapidamente.
Microextração em fase sólida (SPME — Solid Phase Microextraction)
A mais recente das técnicas de fase sólida, de certa forma a mais promissora,
é a microextração em fase sólida. Um capilar fino de sílica com cerca de 5
cm de comprimento, com a superfície externa recoberta com uma camada de fase estacionária (espessura entre 10 e 100 μm), é ligado ao suporte de uma
seringa que cobre o capilar com uma camada protetora de aço inoxidável
(Fig. 5.17). Quando em uso, o capilar de sílica é imerso em um pequeno
volume de água e agitado por 2 a 15 minutos. O material orgânico presente
na água passa para a fase estacionária. O capilar, então, se recolhe à capa
protetora e o conjunto é inserido através do septo de injeção na zona aquecida do injetor de um cromatógrafo. O material orgânico adsorvido no
capilar é dessorvido termicamente dentro do cromatógrafo para dar um
cromatograma comum.
Como não se usam solventes orgânicos, a técnica é muito menos sujeita à
contaminação e o cromatograma resultante é mais simples porque não existe
o pico do solvente que, em outros métodos, pode mascarar alguns componentes. A inserção do capilar na zona aquecida do injetor dessorve
completamente os compostos orgânicos da fase estacionária, o que faz com
que o capilar fique limpo e pronto para novo uso. Existem capilares de várias
espessuras e coberturas prontos para o uso em diferentes aplicações. Para uso
geral, o poli(dimetil-siloxano) é o preferido porque combina boas
propriedades de adsorção com a elevada estabilidade mecânica do filme, o que permite o uso repetido. O desenho da aparelhagem permite que a seringa
normal dos auto-amostradores convencionais possa ser substituída. Assim,
com parâmetros de tempo modificados, os capilares podem ser usados para
extrair e injetar a amostra, gerando um sistema totalmente automatizado que
extrai e injeta várias amostras com pouca participação do operador.