Vogel: Análise Química Quantitativa

J Mendham · Capítulo 474 de 495

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Vogel: Análise Química Quantitativa

19.9 Medidas da razão isotópica

ou diferenciar áreas bem específicas de uma superfície de acordo com sua

posição, com resolução da ordem de 1 μm [8]. Analisadores com

microfeixes de laser estão começando a ser aplicados nas ciências

biológicas e nas áreas mais tradicionais da química. É possível mapear

variações na composição elementar de superfícies pequenas de tecidos

biológicos permitindo, por exemplo, o estudo da distribuição e função de

eletrólitos comuns (Na, K, Ca, Mg etc.) em neurônios.

 

19.8.2 Espectrometria de massas com plasma acoplado indutivamente

 

A espectrometria de massas com plasma acoplado indutivamente (ICP-MS)

será melhor descrita na Seção 19.11.5. Trata-se de uma técnica poderosa

que está se desenvolvendo rapidamente e que permite a determinação

simultânea de vários elementos em concentrações muito baixas, em

amostras líquidas ou em solução. Usa-se um plasma ICP convencional para

produzir os íons primários que são analisados em um espectrômetro de

massas de quadrupolo com faixa de massas até 300 unidades e resolução

unitária em toda a faixa (Fig. 19.10). A fonte de plasma funciona na pressão

atmosférica e, portanto, é um sistema API. O controle por computador e a

geometria otimizada fazem com que uma análise elementar completa possa

ser feita em uma única varredura, em cerca de 10 segundos por elemento

mesmo em concentrações baixas (~1 μg · kg –1). Como o instrumento usa

um quadrupolo como detector para o ICP, a discussão anterior sobre a

quantificação de metais em solução (Caps. 15 e 16) também se aplica a esta

técnica.

 

19.9 Medidas da razão isotópica

 

Os elementos comuns têm, na maior parte, mais de um isótopo (não-

radioativo). Como os espectrômetros de massas podem distiguir isótopos, o

espectro de massas de espécies atômicas ou moleculares fica mais

complicado. A observação de picos de isótopos, entretanto, pode ser muito útil quando se interpreta o espectro para obter informações moleculares ou

estruturais. A medida da razão isotópica, em amostras naturais ou

enriquecidas, tem aplicações bem específicas e importantes.

 

Fig. 19.10 Espectrômetro de massas ICP

 

19.9.1 Razões isotópicas naturais

 

Devido ao tempo de decaimento de alguns radionuclídeos comuns, é

possível determinar a idade de pedras e minerais pela medida da razão

isotópica dos elementos estáveis no fim do processo de decaimento. É

muito comum a datação geoquímica com 40 40 87 87 238 206 K/ Ar, Rb/ Sr e U/Pb. A

medida de 235 238 U/U é importante na indústria nuclear. Os íons são gerados,

freqüentemente, a partir de amostras sólidas utilizando-se uma fonte de

evaporação térmica na qual a amostra, na forma de pó, é aquecida

rapidamente em um filamento ao rubro ou em uma cama aquecida.

 

Amostras em fase gasosa

 

As razões entre outros isópotos estáveis podem ser medidas mais facilmente

se a amostra for colocada no espectrômetro em fase gás. O exemplo mais

conhecido deste tipo de análise é, talvez, a determinação de 14C (como CO )

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na datação de radiocarbono em artefatos orgânicos de interesse histórico,

mas também são comuns as determinações de 13 12 15 14 18 16 C/ C, H/D, N/ N, O/O

e 34 32 S/S. Como em todos os experimentos de determinação de razões

isotópicas, o sistema de detecção deve ser capaz de dar resultados confiáveis para estes sistemas gasosos. Além disso, é preciso considerar

também o problema adicional do desenvolvimento de um sistema de

introdução adequado para estas amostras.

A maior parte dos experimentos é feita em instrumentos fabricados com

este objetivo particular. Eles têm, normalmente, dois sistemas de admissão

de gás, um para a amostra e outro para o padrão, que são essencialmente

dois reservatórios de 2 a 50 ml de volume. Através de um capilar de

escoamento viscoso, os gases passam destes reservatórios para uma fonte de

íons EI convencional. O reservatório do padrão tem, com freqüência,

volume variável para permitir a otimização da corrente de íons no detector

para fazer com que os sinais da amostra e do padrão sejam iguais. Os

sistemas deste tipo mais recentes são acoplados a um cromatógrafo a gás

através de um forno de combustão para que os compostos orgânicos

voláteis possam ser separados, transformados em CO 12 13 ( C/C) e lançados

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na fonte de íons sem perdas ou contaminação [9]. O analisador

normalmente utilizado é um setor magnético de 90° no qual os íons são

projetados em um ângulo de 26,5° para que a focalização seja astigmática.

Os instrumentos mais antigos usavam magnetos permanentes e varredura

por voltagem variável. Os instrumentos mais modernos usam

eletromagnetos que geram campos de até 1 T, com faixa de massas de 280 u

e resolução igual a 500.

O detector deve ser capaz de dar uma corrente muito estável para um

dado número de íons. Atualmente, o único dispositivo capaz disto é o vaso

de Faraday, freqüentemente utilizado como um detector múltiplo,

colocando-se um vaso no foco de cada feixe de íons. O controle é feito por

computador e faz-se a contagem de íons, de preferência à medida da

corrente total. Para aumentar a acurácia da medida da razão entre os

isótopos, o sistema pode medir as razões de um dado par de íons em uma

amostra e em um padrão, em uma seqüência alternada e repetida. Razões

isotópicas medidas com esta técnica são normalmente expressas pelo valor

δ, onde δ = 1000 (R/Rs – 1), R é a razão medida na amostra e Rs é a razão medida no padrão conhecido.

Um padrão muito usado para as razões 12 13 C/C é CaCO derivado do

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fóssil marinho da Califórnia do Sul, Belemnitella americana, que tem

valores elevados de 13C e, portanto, dá valores de δ negativos para quase

todos os outros materiais [10]. (Infelizmente, este padrão não está, no

momento, disponível no comércio.) O valor de δ pode variar entre 0 no

carbono marinho e –8 a –35, em plantas terrestres, e –50, em alguns gases

naturais. Embora pequena, a variação da abundância de 13 12 C em relação a C

pode ser medida com acurácia mesmo para espécies recentes e alguns

estudos importantes de adulteração de alimentos podem ser feitos usando o

conhecimento das razões isotópicas, em particular em materiais de origem

vegetal como açúcares e sucos de frutas. As medidas isotópicas deste tipo

estão se tornando rapidamente as técnicas padrões para a determinação de

alguns tipos de adulteração de alimentos. O uso de xaropes de baixo custo,

derivados de um ciclo C4 fotossintético, em substituição a açúcares de frutas mais caros, que utilizam um ciclo C 13 e discriminam C durante a

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fotossíntese, por exemplo, altera a razão 12 13 C/C de comidas adocicadas

[11].

 

Estudos com 14C

 

Nos métodos mais modernos de determinação de 14C em materiais antigos,

a amostra não deve estar na fase gás porque, se presente, 14N interferiria

com a medida. A técnica padrão atual é extrair e purificar o material

orgânico da amostra e convertê-lo, via CO2 e acetileno, em carbono grafítico puro. A amostra de carbono, agora no estado sólido, é ionizada

com uma fonte de íons Cs+ 14 – , para dar inicialmente Cque, por sua vez, é

convertido em íons C 3+, que são analisados em um TOF modificado. Como

os íons 14 – N são instáveis, não ocorre interferência. A análise do carbono-14

permite a obtenção de datas de fabricação confiáveis de artefatos de mais de

40 000 anos, o limite de idade que pode ser atingido com as técnicas

convencionais [12].

 

19.9.2 Enriquecimento isotópico (marcação isotópica)

Uma área de crescimento rápido nos estudos com isótopos é a utilização de

isótopos estáveis para marcar sistemas químicos ou bioquímicos, de modo a

obter informações estruturais ou investigar mecanismos de reação. A

técnica é conhecida, às vezes, como espectrometria de massas de razão

isotópica estável (SIRMS). Um exemplo simples de aplicação da marcação

isotópica é a substituição de hidrogênio por deutério em ressonância

magnética nuclear (RMN), mas a espectrometria de massas pode dar

informações mais claras sobre amostras menores. A marcação isotópica

também é usada para revelar os esquemas de fragmentação em espectros de

massas complexos, mas, neste caso, deve-se fazer a marcação com 13C, que

pode ser muito cara. Moléculas marcadas podem ser usadas no estudo de

caminhos metabólicos em medicina, bioquímica e toxicologia [13]. São

usadas, nestes experimentos, substâncias marcadas equivalentes às

substâncias normalmente usadas nos organismos. Pode-se também usá-las

para acompanhar o destino de substâncias exógenas como poluentes,

pesticidas e drogas. O material é marcado com D ou 13C em um sítio que

não afeta nem é afetado pelas reações subseqüentes e o caminho que o

material segue pode ser acompanhado por espectrometria de massas. Em

comparação com as técnicas mais antigas, que usavam materiais

radioativos, a marcação isotópica é muito mais segura para o analista e para

o paciente. Além disso, ela permite o uso de 18 15 O e N, impossível com

marcadores radioativos. A incorporação do átomo marcador em uma

posição determinada, entretanto, pode ser um processo lento que exige

perícia.

 

19.9.3 Análise por diluição isotópica

 

Trata-se de uma variante do enriquecimento isotópico que permite a medida

quantitativa direta. Suponha que uma amostra contém o composto M em

uma matriz. Se uma quantidade conhecida, Ai, de um análogo do composto isotopicamente modificado (representado por I) é adicionada a uma

quantidade Am da amostra e uma parte colocada em um espectrômetro de massas, o espectro conterá picos derivados de M e de I. No caso mais simples, em que um pico intenso derivado de M e o pico correspondente de

I (separados pela massa correspondente à diferença entre o composto

original e o modificado) podem ser vistos e não há contribuição de um

composto no pico do outro, tem-se que

 

Esta é uma aplicação especial do método do padrão interno, mais geral,

discutido nos capítulos sobre cromatografia. Este método evita o problema

da medida da quantidade de amostra colocada no sistema porque a amostra

e a referência estão juntas. Pode-se adicionar quantidades precisas do

padrão interno (I) a quantidades relativamente grandes da matriz antes da

análise de uma pequena proporção da mistura, o que permite a obtenção de

alta precisão mesmo quando a amostra tem de ser manipulada de várias

maneiras antes da medida final. No caso especial de um experimento de

espectrometria de massas, a técnica também remove muitos dos erros

associados com variações na produção de íons na fonte (que causa muitas

vezes problemas na quantificação), já que apenas um espectro de massas é

produzido e M e I estão ambos submetidos às mesmas condições de

ionização.

A sensibilidade pode ser consideravelmente aumentada com o uso do

monitoramento de um único íon (SIM) para o acompanhamento de um ou

dois picos de interesse. Além disto, é sempre possível combinar SIM com

uma das técnicas cromatográficas (CG-MS ou HPLC-MS), o que faz com

que o composto de interesse e o composto isotopicamente modificado

possam ser separados de possíveis interferentes antes do uso de SIM. Neste

caso, como as substâncias são quimicamente idênticas, elas eluem como um

único pico (separados de outros compostos da matriz), porém se SIM é

repetido muitas vezes durante a eluição do pico cromatográfico, as

abundâncias de M e I podem ser determinadas com alta precisão mesmo em

concentrações baixas.