Vogel: Análise Química Quantitativa
19.11 Sistemas associados
A maior parte das bibliotecas armazenam espectros EI. Muito poucas
incluem espectros produzidos através de outras técnicas de ionização. A
fragmentação de um composto depende, em parte, da temperatura e da
pressão da fonte de íons e, eventualmente, da geometria do espectrômetro
de massas. Assim, a identidade perfeita entre um espectro da biblioteca e o
da amostra raramente é possível, mesmo se o espectro da amostra não
estiver contaminado por picos de impurezas e de substâncias da linha de
base.
Os dados destas bibliotecas são armazenados em um formato
comprimido e não incluem os valores de m/z e da intensidade de cada pico
do espectro. Um método muito usado é o dos oito picos que, como o nome
sugere, é um espectro que contém dados de intensidade para os oito picos
mais intensos de uma faixa espectral determinada (de 50 até o íon
molecular, por exemplo). Em uma busca de rotina, a resposta normal, neste
caso, é uma lista de três a dez compostos prováveis, às vezes com um fator
de probabilidade associado a cada estrutura. Como, entretanto, este tipo de
procura é uma simples comparação matemática, embora envolvendo um
número grande de espectros, algumas das substâncias dadas como
prováveis podem ser descartadas facilmente se o analista tiver o
conhecimento químico das substâncias envolvidas no experimento. O
processo de comparação de espectros pode ser feito sem a ajuda de um
computador. O índice de oito picos da Wiley pode ser obtido na forma de
um livro em que estão tabelados os íons segundo a massa molecular
crescente ou segundo a massa crescente do íon base. A busca nestas tabelas
pode ser quase tão rápida quanto a procura por computador.
19.11 Sistemas associados
Embora seja uma técnica excelente para a identificação de substâncias
desconhecidas, a espectrometria de massas exige o uso de substâncias
puras. Até mesmo misturas simples tendem a produzir espectros
complicados que são, às vezes, de interpretação difícil ou impossível. Por
outro lado, a quantificação de amostras introduzidas diretamente no
espectrômetro é, com freqüência, difícil porque pode ser complicado introduzir quantidades conhecidas da substância na fonte de íons e porque
podem ocorrer variações na abundância dos íons produzidos por algumas
fontes. Estas dificuldades facilitaram o desenvolvimento de técnicas
associadas, capazes de combinar a capacidade de separação de outras
técnicas com o espectrômetro de massas e permitindo a introdução no
espectrômetro de pequenas quantidades de amostras puras de forma
controlada. Os candidatos mais óbvios são os métodos cromatográficos,
para os quais se dispõe de interfaces para CG-MS, HPLCMS e SFC-MS.
Além destas técnicas de separação, outros métodos podem ser usados e a
eletroforese capilar–espectrometria de massas (CE-MS) é muito
promissora. As técnicas de MS-MS, ou espectrometria de massas em
seqüência, também foram incluídas nesta seção porque em muitos aspectos
elas são melhores do que a cromatografia convencional para a análise de
misturas. O uso de espectrômetros de massas como detectores em métodos
cromatográficos não somente permite a identificação dos compostos
quando eles eluem da coluna, uma enorme vantagem, mas também, o uso
de técnicas específicas da MS, como o monitoramento de um único íon
(SIM), por exemplo, permite o aumento da sensibilidade dos detectores
convencionais.
Tabela 19.6 Perdas comuns do íon molecular
Espécies
comumente
associadas com a
Íons massa perdida Inferências possíveis
M-1 · H Aldeídos, acetais, alquinos
M-15 Acetais, derivados de metila
M-16 · O Compostos nitro-aromáticos, N-óxidos,
sulfóxidos
Amidas aromáticas
M-17 · OH Ácidos carboxílicos
NH Aminas (raro) 3
M-18 HM 0 Álcoois, ácidos, aldeídos alifáticos, álcoois e 2
cetonas de esteróides
M-19 · F Compostos de flúor
M-20 HF Compostos de flúor
M-26 C H Compostos aromáticos 2 2
M-27 HCN Aitrilas aromáticas, heterociclos com
nitrogênio
M-28 C H Ésteres ou éteres etílicos, n-propilcetonas 2 4
CO Quinonas, fenóis, heterociclos com oxigênio
M-29 Grupo etila
CHO· Aldeídos aromáticos, fenóis
M-30 CH 0 Ésteres metílicos aromáticos 2
NO Compostos nitro-aromáticos
M-31 · CH 0 Ésteres metílicos, cetais ou acetais de
3
dimetila
M-32 CH OH Ésteres metílicos 3
M-33 H20 + CH3 Álcoois primários não-ramificados de
cadeia curta, álcoois de esteróides
HS · Tióis
M-34 H S Tióis 2
M-35/37 · Cl Compostos de cloro
M-36/38 HCI Compostos de cloro
M-40 ·CH2CN Aitrilas e dinitrilas alifáticas
M-41 Ésteres de propila
M-42 C H Butilcetonas, éteres de propila 3 6
CH CO Metilcetonas, acetatos, compostos de N- 2
acetila
M-43 Propilcetonas
CH · CO Metilcetonas
3
HNCO Purinas, dioxo-piperazinas
M-44 CO Anidridos, imidas cíclicas ésteres não-2
saturados, carbonatos
M-45 ·COOH Ácidos carboxílicos
C · H 0 Ésteres etílicos, acetais ou cetais
2 5
M-46 C2H5OH Ésteres etílicos
N0 Compostos nitro-aromáticos 2
CO + H20 Ácidos carboxílicos
M-47 CH SH, CH S Tióis alifáticos 2 3
M-48 CH3SH Tioésteres de metila
SO Sulfóxidos aromáticos
M-55 Ésteres de butila
M-56 C H Compostos de butila, pentilcetonas 4 8
CO + CO Quinona
19.11.1 Cromatografia a gás–espectrometria de massas (CG-MS)
A cromatografia a gás–espectrometria de massas (CG-MS) foi uma das
primeiras técnicas associadas e é, até hoje, uma das técnicas de
espectrometria de massas mais usadas e mais úteis. Os primeiros aparelhos
enfrentaram as dificuldades de conciliar as exigências diferentes das duas
técnicas. A espectrometria de massas conjuga alto vácuo e altas voltagens
com a manipulação de uma quantidade pequena de amostra de uma só vez,
enquanto a cromatografia a gás opera na pressão atmosférica em modo
contínuo. Interfaces complexas entre as duas partes da aparelhagem tiveram
de ser desenvolvidas. Nos sistemas modernos estes problemas foram
praticamente resolvidos e sistemas associados muito eficientes podem ser
encontrados na rotina do laboratório.
O primeiro ponto importante desta evolução ocorreu quando as colunas
capilares de cromatografia a gás entraram em uso generalizado. Estas
colunas operam em vazões da ordem de 1 ml · min −1, em contraste com as
vazões de 30 a 80 ml · min−1típicas das colunas tradicionais. Em
conseqüência, não era mais necessário usar um separador entre o
cromatógrafo e o espectrômetro de massas para remover o gás de arrasto, e
todo o eluente da coluna podia ser introduzido diretamente na fonte de íons,
permitindo o acoplamento direto entre os dois sistemas. Hoje, esta técnica é
usada por todos os sistemas CG-MS e o acoplamento direto será a única
interface descrita neste texto. Se necessário, informações sobre os antigos
separadores de Rhyage (jato) ou Watson–Biemann (efusão) podem ser
obtidas nas referências gerais listadas no fim do capítulo. Hoje em dia, uma
grande parte de toda a cromatografia com fase gasosa é feita em colunas
capilares, predominantemente de quartzo, com a fase estacionária ligada
quimicamente às paredes da coluna para evitar perdas. Estas colunas podem
ser diretamente ligadas à maior parte das fontes de íons através de um anel
de compressão.
A coluna passa, normalmente por um tubo de aço inoxidável, que a
mantém na posição correta. O tubo é aquecido para evitar condensação na
linha de transferência. Quando a coluna está em posição, as bombas do
espectrômetro suportam vazões de até 1 ml · min −1 na coluna, mantendo
ainda o vácuo adequado na fonte de íons. Muitos sistemas de CG-MS
dedicados suportam as vazões da ordem de 3 a 10 ml · min −1 usadas em
capilares de grande diâmetro (wide-bore). Assim, a interface física entre o
cromatógrafo e o espectrômetro não é, em geral, um problema e pode-se
escolher dentre diversos tipos de espectrômetros de massas.
A dificuldade principal é decidir a combinação mais apropriada para o
trabalho de um determinado laboratório. Como a cromatografia com fase
gasosa só separa moléculas voláteis (predominantemente orgânicas), para
resolver a maior parte dos problemas analíticos, o espectrômetro de massas
só precisa cobrir uma faixa modesta de massas, digamos 750 unidades, com
resolução inferior a 1000. Ele deve, entretanto, ter resposta rápida e deve
ser sensível, para detectar os picos menos intensos do cromatograma e
permitir a obtenção de seus espectros de massas. Dentre os espectrômetros
de massas descritos anteriormente, os espectrômetros de massas com filtro
de massas de quadrupolo (Q) e de captura de íons (IT) são ideais e existem
muitos instrumentos comerciais de CG-Q e CG-IT para a escolha. Observe,
todavia, que praticamente qualquer espectrômetro de massas pode ser
acoplado a um cromatógrafo a gás.
Os sistemas são tão bem ajustados que se pode descrevêlos melhor como
detectores seletivos de massas de cromatógrafos a gás e não como sistemas
associados. Não se trata de uma crítica a estes instrumentos, que têm
excelente desempenho e chegam a custar menos da quarta parte do preço de
um espectrômetro de massas padrão (que também pode ter um sistema CG
acoplado). Lembre-se, entretanto, de que eles são feitos com objetivos
limitados e não espere deles a flexibilidade de operação dos espectrômetros
de massas convencionais. Um CG-Q ou um CGIT podem ser facilmente
operados no modo EI ou CI (íons positivos e negativos), mas outras fontes
de ionização externas, incluindo API, podem também ser usadas, se
desejado.
Todos os detectores seletivos de massas têm a aquisição de dados e o
controle computadorizados porque o volume das informações geradas em
um único experimento de CG-MS seria intratável de outra forma e é nesta
parte do sistema que ocorrem as maiores diferenças entre os diversos
instrumentos comerciais. Os interessados em adquirir sistemas CG-MS têm
muitas opções e a escolha final do instrumento depende essencialmente do
desempenho esperado e do orçamento disponível. Os instrumentos de setor
magnético com dupla focalização, maiores e mais caros, também permitem
a ligação de um cromatógrafo a gás e têm sobre os CG-Q e CG-IT a
vantagem da resolução muito mais alta e a medida mais acurada das massas
de cada componente que elui pela coluna. Sua limitação de velocidade de
mais ou menos uma varredura completa por segundo, entretanto, é uma
limitação importante para as colunas cromatográficas ultra-rápidas
modernas. Isto faz com que o quadrupolo, que pode fazer até 8 varreduras
completas por segundo, seja, quase sempre, a melhor escolha para um CG-
MS.
19.11.2 Cromatografia líquida de alto desempenho–espectrometria de massas (HPLC-MS)
Em contraste com CG-MS, a interface entre HPLC e MS foi até
recentemente um problema. As grandes quantidades de eluente líquido,
contendo freqüentemente componentes não-voláteis, têm de ser separadas
da amostra para que o espectro de massas seja satisfatório. As primeiras
tentativas de resolver este problema empregavam fitas ou fios móveis
banhados continuamente pelo eluente. O solvente era removido por
aquecimento da fita ou fio em uma estufa e a amostra era transferida para o
espectrômetro de massas, através de um selo de vácuo [16].
Estes aparatos não eram muito satisfatórios e outras técnicas estão sendo
hoje usadas. O mais simples é usar um dispositivo de entrada direta,
semelhante ao do CG-MS, em que colunas de microdiâmetro de HPLC com
vazões relativamente baixas levam a amostra diretamente à fonte de íons.
Uma porção do fluxo de solvente pode sofrer um desvio e entrar na fonte onde o solvente passa a agir como um reagente CI. No caso de algumas
amostras e aplicações este arranjo é aceitável, mas problemas de
contaminação e acúmulo de substâncias não-voláteis são mais sérios do que
em CG-MS, em que o material que é admitido na fonte de íons já passou
pela coluna como vapor. Outra técnica geral, muito em voga atualmente, é
usar um procedimento muito usado em espectroscopia atômica, isto é,
nebulizar o eluente líquido. Um certo número de interfaces que usam este
processo podem ser obtidas comercialmente e várias delas têm potencial
considerável, especialmente para o estudo de moléculas biológicas que são
em geral cromatografadas em fases líquidas tamponadas. Estas interfaces
derivam-se das antigas fontes de ionização na pressão atmosférica (API).
Interfaces de nebulização térmica
A mais antiga interface de nebulização utilizada em HPLC é a interface
térmica (TS), na qual o eluente da coluna (até 2 ml · min−1), contendo um
eletrólito volátil como o acetato de amônio, é nebulizado com o auxílio de
um vaporizador de diâmetro muito estreito, com uma ponta de rubi
aquecida, para dentro de uma câmara aquecida mantida sob vácuo por uma
bomba auxiliar. O solvente forma um jato supersônico de pequenas gotas e
evapora-se rapidamente, deixando a amostra como uma camada de sólido
contendo os íons do eletrólito. Como as partículas são muito pequenas, o
campo eletrostático induzido pelo eletrólito ioniza ligeiramente a amostra e
os íons formados podem ser dirigidos, com o auxílio de uma placa
repelidora para o analisador. Este dispositivo funciona como interface e
como fonte de íons e tem sido usado para amostras polares e iônicas em
solventes iônicos. O espectro de massas obtido desta forma é muito simples
e mostra, freqüentemente, o íon molecular ou o íon pseudomolecular. A
simplicidade do espectro é, de certo modo, uma fraqueza do método porque
a falta dos picos de fragmentação limita a interpretação do espectro e a
procura em bibliotecas. O maior problema, entretanto, é que ele só funciona
para moléculas polares em solventes polares (essencialmente soluções em
água).
Ionização por nebulização elétrica
Em uma fonte de ionização por nebulização elétrica (ESI),
o eluente de um HPLC passa por uma agulha capilar metálica e entra, sob
pressão atmosférica, em uma zona aquecida. Um potencial elevado (até 8
kV) em relação a um contra-eletrodo próximo do capilar produz um campo
elétrico intenso que induz cargas nas pequenas gotas que saem do capilar.
Estas gotas carregadas evaporam-se em um fluxo de gás nitrogênio
aquecido (80–150°C) e seu volume diminui até que a carga superficial das
gotas é suficiente para contrabalançar as forças de coesão entre as
moléculas e ocorre ionização (ainda sob pressão atmosférica). Os íons
passam, então, por um pequeno orifício e atingem o espectrômetro de
massas sob alto vácuo. Esta interface funciona melhor com moléculas
polares embora espécies com sítios não-ionizáveis possam ser ionizadas via
formação de adutos. A eficiência do processo é maior quando a vazão é
relativamente baixa (alguns poucos μl · min −1), o que pode causar
problemas de interfaceamento com um sistema padrão de HPLC, porém a
nebulização assistida por um fluxo elevado de nitrogênio permite o
aumento da vazão até 1 ml · min−1. A alta eficiência de ionização do
processo permite atingir, em certos casos, limites de detecção muito baixos.
Com vazões da ordem de alguns nl · min −1, a μESI é capaz da sensibilidade
mais alta que pode ser atualmente obtida em HPLC-MS, com limites de
detecção de pg μl–1.
Devido à natureza dos processos que ocorrem durante a ionização em
pressão atmosférica, a técnica leva a rendimentos elevados de íons com
carga múltipla, com até 100 cargas por íon. Como a espectrometria de
massas mede m/z, isto significa que uma partícula de 25 000 unidades com
50 cargas é observada na mesma posição de uma partícula de massa de 500
unidades e carga unitária. Assim, é possível medir indiretamente moléculas
de massa elevada usando uma fonte de nebulização elétrica acoplada a um
espectrômetro de massas convencional. A técnica tem sido muito usada
para a determinação de biopolímeros de massa elevada, como proteínas e seus metabólitos e produtos de decomposição. O sítio da rede dado na
Seção 19.14 mostra como calcular as massas moleculares destas moléculas.
Ainda que não tenha os recursos do MALDI-TOF, a técnica ESI permite
a medida de massas elevadas em laboratórios que só dispõem de
analisadores de massas pequenas. Cada sistema tem vantagens e
desvantagens. É a natureza da determinação desejada que decide qual é o
mais adequado.
Ionização química sob pressão atmosférica
A ionização química sob pressão atmosférica (APCI) usa uma descarga em
corona em um eletrodo colocado na zona aquecida, depois da saída do
capilar (Fig. 19.11a). O eluente do HPLC (até 2 ml · min −1) passa por um
capilar aquecido, ocorre nebulização pneumática provocada por um fluxo
de gás aquecido (normalmente nitrogênio) com formação de uma névoa de
pequenas gotas. As gotas passam por uma zona aquecida até 450°C, para
dessolvatação e vaporização, onde ocorre a ionização primária das
moléculas da fase móvel, induzida por um eletrodo sob potencial dc
elevado que produz a descarga em corona. Como estes íons permanecem na
zona de dessolvatação por vários segundos, eles interagem com as
moléculas da amostra e provocam a ionização secundária, de modo análogo
ao da fonte CI de baixa pressão descrita na Seção 19.4.2. A fonte pode ser
operada no modo CI positivo ou no modo CI negativo e tende a dar íons
pseudomoleculares: (M + H)+ – , no modo positivo, e (M – H), no modo
negativo. Todos estes processos ocorrem na pressão atmosférica e a fonte se
comunica com o analisador do espectrômetro de massas que está em alto
vácuo, como em ESI, via um pequeno orifício.
Fig. 19.11 Interfaces LC-MS: (a) APCI, (b) feixe de partículas
Ao contrário de ESI, APCI não se presta para a análise de compostos
polares nem dá íons de carga múltipla e não pode ser usado para substâncias
de alto peso molecular. A técnica permite, entretanto, a ionização de
compostos nãopolares muito mais efetivamente do que ESI e pode ser usada
com sistemas HPLC em fase normal e em fase reversa (base em água). O
equipamento é extremamente tolerante para com soluções “sujas” e esta
propriedade, juntamente com a possibilidade do uso de vazões elevadas, faz
com que APCI esteja se tornando uma fonte padrão para HPLC-MS,
especialmente no acompanhamento de substâncias não-polares em
concentrações baixas no ambiente.
Interface de feixes de partículas Outra interface de nebulização que pode ser usada para ligar HPLC e MS é
a interface de feixes de partículas (PBI). O eluente é misturado com hélio e
passa pelo nebulizador para atingir uma câmara aquecida, onde o solvente
se evapora rapidamente e é eliminado por bombeamento. As partículas
dessolvatadas passam por um orifício e penetram na câmara de uma fonte
EI ou CI convencional (Fig. 19.11b). Como este processo não é APCI, a
interface tem de ser ligada a uma fonte de ionização convencional. Em
comparação com outros sistemas, PBI tem maior tolerância a mudanças de
viscosidade ou tensão superficial nos eluentes, permitindo a utilização de
todos os tipos de solventes de HPLC, ainda que o desempenho varie muito
com a natureza do solvente. Outra vantagem é que se obtêm espectros
convencionais que podem ser comparados com as bibliotecas
computadorizadas comuns.
Um número muito maior de tipos de amostras pode ser separada por
HPLC do que com CG, especialmente nas importantes pesquisas em
compostos de interesse farmacêutico e nas ciências biológicas. Por isso, os
fabricantes de instrumentos se empenharam, e continuarão a fazê-lo, no
desenvolvimento das características, aplicações e uso fácil de interfaces e
fontes. Muito provavelmente, as interfaces que nos parecem hoje ideais em
termos de sensibilidade, confiabilidade e facilidade de quantificação serão
muito rapidamente substituídas por outras, mais versáteis, sensíveis e
estáveis.
19.11.3 Cromatografia com fluido supercrítico–espectrometria de massas (SFC-MS)
A cromatografia com fluido supercrítico tem as vantagens da cromatografia
a gás e da cromatografia líquida com alta pressão com poucas de suas
desvantagens. Isto é particularmente verdadeiro quando ela é acoplada à
espectrometria de massas, porque as colunas podem ser acopladas
diretamente à fonte de íons sem necessidade de interfaces complicadas
como as descritas para HPLC. O fluido de cromatografia mais comum é o
dióxido de carbono que não causa problemas no espectrômetro de massas ou em seu sistema de bombeamento. Os espectros obtidos são
freqüentemente um tipo de CI em que o grande excesso de CO 2 funciona como reagente. Embora a técnica SFC-MS tenha provocado muito interesse
e algumas aplicações tenham sido publicadas [17], seu desenvolvimento
comercial tem sido lento e ela ainda precisa justificar seu potencial.
19.11.4 Espectrometria de massas em seqüência (MS-MS)
Antes de discutir esta técnica, é necessário considerar a produção de íons
em um espectrômetro de massas e a velocidade de sua produção. Até agora,
consideramos que na fonte de íons as moléculas se convertem em íons
moleculares e que alguns íons têm energia suficiente para quebrarse em
fragmentos iônicos que são separados no analisador e detectados como um
espectro de massas. A escala de tempo deste processo em um espectrômetro
típico de focalização dupla é de 5 a 30 μs. Se, porém, os íons forem
produzidos lentamente (velocidades de decomposição entre 10 4 6 –1 e 10 s),
alguns destes íons secundários serão produzidos após saírem da fonte de
íons, antes do detector. Estes íons são conhecidos como íons metaestáveis e
têm sido observados em espectros de massas convencionais há muito
tempo, usualmente como picos largos de massas fracionárias. (Os sistemas
computadorizados não mostram, em geral, os picos metaestáveis no modo
normal de operação.)
A forma exata e a intensidade destes picos metaestáveis dependem de
certas características instrumentais como a temperatura e a pressão em
vários pontos do sistema. Sua observação depende também do tipo de
analisador utilizado. Assim, por exemplo, eles não são distinguidos dos íons
normais em um filtro de quadrupolo e nos espectrômetros convencionais de
focalização dupla somente os íons formados depois do setor elétrico
chegam ao detector. Os que se formam antes não passam pelo campo
elétrico. Aparentemente, os íons metaestáveis só se formam em condições
bem-definidas, com freqüência não passam pelo sistema e, se passam, nem
sempre são detectados! Eles são, entretanto, a base de uma das técnicas
mais interessantes e importantes, não somente em espectrometria de massas, mas na análise em geral, a espectrometria de massas em seqüência
(MS-MS), isto é, a separação e identificação de amostras em uma mistura
por espectrometria de massas [18].
A introdução mais simples a esta técnica é analisar o experimento
conhecido como MIKES ou espectroscopia de energia cinética de íon com
massa analisada, que pode ser executada em um instrumento de focalização
dupla com geometria invertida (B-E). O campo do eletromagneto é fixado
de tal maneira que somente íons M de massa m saem da fonte para a região
compreendida entre o magneto e o setor elétrico. Esta região é conhecida
como a segunda região livre de campo, a primeira sendo a fonte. Alguns
destes íons se decompõem e dão íons secundários de massas m 1, m2, m3 etc., que têm a mesma velocidade do íon original, mas têm energias cinéticas
diferentes. Estes íons podem ser focalizados sucessivamente no detector por
uma varredura de voltagem do setor. Em outras palavras, o setor
eletrostático age como um filtro de massas e não somente como um filtro de
energia. Este procedimento permite a determinação de todos os íons
secundários. Alterando de modo apropriado dos campos magnético e
eletrostático, uma série de espectros de massas pode ser obtida, um para
cada íon primário.
Isto é equivalente analiticamente a um cromatógrafo e um espectrômetro
de massas, isto é, separação e análise. O processo é muito mais rápido do
que as técnicas cromatográficas convencionais que exigem a separação
física. O processo todo leva frações de segundo no lugar de minutos ou
horas. Freqüentemente, coloca-se uma câmara de colisão contendo um gás
inerte como hélio ou argônio, por exemplo, na segunda região livre de
campo para aumentar a eficiência da produção de íons secundários por
colisão. A técnica é conhecida como dissociação induzida por colisão (CID)
e, neste caso, a sensibilidade é superior à da CG-MS convencional. O
experimento pode ser executado mesmo em instrumentos com geometria
EB convencional ligando-se as operações de cada setor de um modo
predeterminado. O método mais comum é o B/E ligado. O campo
magnético, B, e o campo elétrico, E, são ajustados para deixar passar o íon
M e, então, ambos são varridos simultaneamente mantendo constante a razão B/E. O processo tem como resultado a detecção de todos os íons
secundários do íon M. Um experimento complementar, 2 B/E ligado, permite
a análise de todos os íons primários que deram origem a um determinado
íon secundário.
Embora seja uma técnica poderosa, ela tem certas limitações. A
composição dos íons produzidos na fonte de íons pode não representar
acuradamente a composição da mistura original devido à supressão de íons
de um componente pelos íons de outro. Mesmo com fontes de íons
convencionais, misturas simples dão origem a um número muito grande de
íons principais e, portanto, a um conjunto complexo de dados (cada íon
principal M dando origem a um certo número de íons secundários, alguns
também produzidos por íons principais de outros componentes). Uma
solução é usar maior capacidade computacional para tratar e simplificar os
resultados, mas uma solução melhor é usar uma fonte de ionização menos
agressiva, como CI, por exemplo, que dá um conjunto menor de íons
principais, acoplada a dois ou mais espectrômetros de massas em série com
uma célula de colisão, ou mais de uma, entre cada componente.
Algumas combinações múltiplas podem ser usadas em experimentos MS-
MS, inclusive BEEB, BEQQ, QQQ e QQTOF, em que B, E e Q se referem
ao tipo de analisador. Embora um único filtro de quadrupolo não possa
detectar íons metaestáveis, a combinação QQQ tem sido usada nestes
sistemas em série porque o primeiro Q pode funcionar como separador dos
íons principais, o segundo Q, com voltagem rf, e não dc, aplicada aos pólos,
como célula de colisão e o terceiro Q como filtro dos íons secundários (Fig.
19.12). Além das vantagens de usar o setor Q, simples, pequeno e fácil de
controlar, em lugar de E ou B, este arranjo permite a passagem de íons de
baixa energia (baixas voltagens de aceleração) pelo sistema e estes íons são
mais facilmente ativados por colisão, o que dá grande sensibilidade ao
método.
A sensibilidade e a seletividade podem ser aumentadas com o uso do
acompanhamento de reações selecionadas (SRM). Neste procedimento, o
sistema é calibrado para determinar um íon pré-selecionado produzido na
região de reação. Este íon é o resultado da decomposição de um íon primário derivado do composto a ser determinado. Como somente dois íons
são monitorados, o fragmento original e o íon que é produzido por
decomposição do fragmento na região de reação, pode-se conseguir alta
sensibilidade pelas mesmas razões invocadas no acompanhamento de um
único íon (Seção 19.7), isto é, o espectrômetro usa melhor o tempo,
observando os íons de interesse em vez de varrer uma série de massas. O
procedimento leva também a uma seletividade alta porque duas
características diferentes do composto têm de ser satisfeitas: ele deve se
fragmentar para dar um íon específico e este íon deve se decompor para dar
um segundo íon de massa definida.
Para executar este tipo de experimento, as condições de operação do
sistema em seqüência devem ser ajustadas para um determinado composto
com base em suas características de fragmentação e decomposição e os íons
primário e secundário devem ser escolhidos com cuidado. Para
determinados sistemas, este processo permite a confirmação e a
quantificação, com alta sensibilidade, de um composto em uma matriz
complexa sem necessidade de separação prévia por cromatografia. Admite-
se que a sensibilidade destes sistemas QQQ seja da ordem de 100 fg, muito
mais baixa do que o que é possível obter com a cromatografia
convencional. Os problemas da geração de grandes quantidades de dados e
do registro não padronizado dos componentes da mistura ainda
permanecem mas muitos analistas acreditam que MS-MS pode superar as
técnicas tradicionais, CG-MS, HPLC-MS e SFC-MS, em muitas aplicações.
Fig. 19.12 MS-MS em QQQ
19.11.5 Plasma acoplado indutivamente–espectrometria de massas
Uma combinação estranha à primeira vista, a técnica do plasma acoplado
indutivamente–espectrometria de massas mostrou ser tão poderosa que
muitos laboratórios a usam como método padrão para a análise elementar e
as vendas de instrumentos comerciais estão aumentando, apesar do alto
custo. As exigências normais da espectrometria de massas, isto é, uma
única substância em pequenas quantidades na zona de alto vácuo, são muito
diferentes das do ICP, introdução contínua de amostra (geralmente em água)
em um fluxo de gás argônio em pressões ligeiramente superiores à
atmosférica com aquecimento subseqüente até 8000°C (Cap. 16). O plasma
produzido, entretanto, satisfaz a exigência básica da espectrometria de
massas, isto é, ele contém alta concentração de íons na fase gás. Muita
pesquisa foi feita no desenho de interfaces apropriadas para estas duas
técnicas e embora longe da perfeição os instrumentos comerciais são
eficientes na transferência de íons do plasma para o analisador do
espectrômetro (Fig. 19.10).
A chama convencional de ICP muda de posição e dirige-se para um cone
de amostragem de liga de níquel, resfriado com água, com um pequeno
orifício no vértice. Os íons passam por este orifício e entram em uma câmara na qual a pressão se reduz até cerca de 1 torr (100 Pa) e passam por