Vogel: Análise Química Quantitativa

J Mendham · Capítulo 451 de 495

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Vogel: Análise Química Quantitativa

18.5 Instrumentação para a espectroscopia de infravermelho

são em geral ativas no infravermelho e no Raman, porém, no caso de

moléculas com centro de simetria, a regra da exclusão mútua se aplica. Em

outras palavras,

 

Em todas as moléculas com centro de simetria, as transições

permitidas no infravermelho são proibidas no espectro de Raman e

todas as transições permitidas no espectro de Raman são proibidas no

infravermelho.

 

Assim, se os espectros de infravermelho e de Raman de uma molécula têm

picos nas mesmas freqüências, a molécula não pode ser centrossimétrica

(isto é, ter centro de simetria).

O deslocamento de Raman se relaciona à constante de força, f, e à massa

reduzida, μ, da mesma maneira que na espectroscopia no infravermelho:

 

18.5 Instrumentação para a espectroscopia de infravermelho

 

Os instrumentos usados nas medidas no infravermelho médio, entre 2,5 e 50

μm, têm algumas diferenças em relação aos usados na espectrofotometria

no UV/visível. Estas diferenças são devidas, principalmente, ao fato de que

vidro e quartzo absorvem fortemente na região do infravermelho e que as

fotomultiplicadoras são insensíveis nesta região. Espelhos de superfície

metalizada são muito usados para evitar que a radiação tenha de atravessar

camadas de vidro ou quartzo, porque a reflexão em superfícies metálicas é,

geralmente, muito eficiente no infravermelho. As células de absorção e as

janelas devem ser fabricadas com materiais transparentes à radiação

infravermelha. A Tabela 18.2 lista as substâncias mais comumente usadas

no infravermelho e suas faixas úteis de transmissão.

As fontes de radiação infravermelha mais usadas nos espectrofotômetros

são (1) um filamento de Nicromo em um suporte de cerâmica, (2) a fonte de

Nernst, que é um filamento que contém óxidos de zircônio, tório e cério ligados por um aglutinante, (3) o Globar, que é um cilindro de carboneto de

silício. Estes dispositivos são aquecidos eletricamente até temperaturas na

faixa 1200–2000°C, em que o material emite radiação infravermelha com

distribuição semelhante à do corpo negro. Os espectrofotômetros

tradicionais de infravermelho usavam prismas de cloreto de sódio ou de

brometo de potássio como monocromadores, materiais que têm a

desvantagem de serem higroscópicos. Além disso, para cobrir a região do

infravermelho médio são necessários dois prismas diferentes para dispersão

adequada. Por esta razão, as redes de difração substituíram os prismas nos

monocromadores usados na região do infravermelho. As redes têm maior

poder de resolução do que os prismas e podem ser desenhadas de modo a

operar efetivamente em uma larga faixa espectral. Mesmo assim, a maior

parte dos instrumentos operam com duas redes com mudança automática de

uma para a outra em cerca de 2000 cm –1. A Fig. 18.4 mostra o esquema de

um espectrofotômetro de rede típico para uso no infravermelho.

Os espectrofotômetros de infravermelho mais avançados utilizam um

procedimento baseado na interferometria para produzir o espectro. Esta

técnica é conhecida como espectroscopia de infravermelho com

transformações de Fourier (FT-IR) [4]. Estes instrumentos baseiam-se

normalmente no desenho do interferômetro de Michelson, em que a

radiação proveniente de uma fonte de infravermelho é dividida, com um

espelho prateado pela metade colocado a 45°, em dois feixes

perpendiculares um ao outro. Se um material absorvente é colocado em um

dos feixes, o interferograma resultante incorpora as características

espectrais do material. A Fig. 18.5(a) mostra a figura de interferência

resultante no caso de uma fonte de radiação monocromática e a Fig.

18.5(b), no caso de uma fonte policromática. A radiação monocromática

produz uma cosenóide simples. A radiação policromática produz uma

figura mais complexa, porque ela contém toda a informação espectral que

chega ao detector. Duas equações fundamentais, um par de transformações

co-senoidais, relacionam a intensidade I(δ) da radiação que chega ao

detector à densidade da intensidade espectral B(ν) em um determinado

número de ondas :

Tabela 18.2 Faixas de transmissão de materiais de janelas e células

 

Faixa de transmissão

 

Material –1 μm cm

 

Fluoreto de lítio 2,5–5,9 4000–1695

 

Fluoreto de cálcio 2,4–7,7 4167–1299

 

Cloreto de sódio 2,0–15,4 5000–649

 

Brometo de potássio 9,0–26,0 1111–385

 

Brometo de césio 9,0–26,0 1111–385

 

KRS-5 (TIBr + TII) 25,0–40,0 400–250

Fig. 18.4 Espectrômetro de infravermelho com monocromador de rede de difração (Reproduzido, com permissão, de R. C. J. Osland, 1985, Principles and practices of infrared spectroscopy, 2nd ed. Philips Ltd.)

 

A primeira equação mostra a variação da densidade da intensidade espectral

com o passo óptico, δ, que é uma figura de interferência. A segunda mostra

a variação da intensidade em função do número de ondas. Uma pode ser

convertida na outra através de uma transformação de Fourier. A conversão

da informação do interferograma em um espectro de infravermelho é

complexa e só se tornou possível com o desenvolvimento dos

computadores, porém existem muitas vantagens no uso da técnica FT-IR.

Todas as freqüências são registradas simultaneamente, a relação sinal/ruído

(S/N) melhora e é mais fácil o estudo de amostras pequenas ou de materiais

com absorção pouco intensa. Além disso, o tempo necessário para uma

varredura completa do espectro é de menos de um segundo, o que permite

melhorar o espectro fazendo varreduras repetitivas e tomando a média dos espectros. Isto ocorre porque a razão sinal/ruído é diretamente relacionada a

n 1/2, onde n é o número de varreduras. Assim, 16 repetições aumentam a

razão S/N por um fator de 4. A análise quantitativa no infravermelho

tornou-se muito mais fácil e precisa com o desenvolvimento da técnica FT-

IR. A Fig. 18.6 mostra o esquema de um espectrofotômetro FT-IR típico.

 

Fig. 18.5 Interferogramas de (a) radiação monocromática e (b) radiação policromática (Reproduzido, com permissão, de B. Stuart, 1996, Modern infrared spectroscopy, ACOL–Wiley, Chichester.)

 

O desenvolvimento da técnica FT-IR permitiu seu uso em combinação

com outras técnicas analíticas. A espectroscopia de infravermelho–

cromatografia com fase gasosa (GC-IR), por exemplo, permite a

identificação dos componentes que estão eluindo em uma coluna de

cromatografia e a termogravimetria combinada com FT-IR pode dar

informações qualitativas e quantitativas sobre os produtos de uma

decomposição térmica (Seção 18.14).

A detecção do sinal de infravermelho é extremamente importante.

Alguns tipos de detector podem ser usados e a escolha depende do tipo e qualidade do espectrofotômetro. Pode-se fazer um termopar soldando dois

fios de metal 1 e 2 de tal modo que um segmento do metal 1 se liga a dois

terminais feitos com arame do metal 2. Uma junção entre os metais 1 e 2 é

aquecida pelo feixe de infravermelho e a outra junção é mantida em

temperatura constante. Pequenas diferenças de temperatura no laboratório

podem então ser desprezadas. Para evitar perdas de energia por convecção,

os pares são encapsulados a vácuo. As cápsulas têm uma janela transparente

ao infravermelho. As junções metálicas são enegrecidas para reduzir a

reflexão do feixe incidente.

Um bolômetro é essencialmente uma folha fina de platina enegrecida

mantida sob vácuo em um tubo que tem uma janela transparente à radiação

infravermelha. A folha de platina é um dos braços de uma ponte de

Wheatstone. Qualquer radiação absorvida aumenta a temperatura da folha e

muda sua resistência. Dois elementos idênticos são, geralmente, colocados

em braços opostos da ponte. Um dos elementos é atingido pelo feixe de

infravermelho enquanto o outro compensa as pequenas variações da

temperatura do laboratório. Termopares e bolômetros fornecem diretamente

uma corrente muito pequena que pode ser amplificada por técnicas

especiais para ser registrada.

Usa-se, às vezes, o detector pneumático de Golay. É, essencialmente,

uma câmara cheia de gás cuja pressão aumenta por aquecimento pela

energia radiante. Pequenas mudanças de pressão provocam a deflexão de

uma das paredes da câmara. Esta parede móvel funciona como um espelho

que reflete o feixe de luz incidente até uma fotocélula. A quantidade de luz

refletida está diretamente relacionada à expansão da câmara de gás e, por

isso, à intensidade da energia radiante da luz proveniente do

monocromador. Ao contrário dos termopares e bolômetros, este detector

responde à energia total recebida e não à energia recebida por uma

superfície de área unitária.

Fig. 18.6 Espectrômetro FT-IR (Cortesia de Lloyd Instruments plc, Southampton.)

 

Os detectores piroelétricos de muitos instrumentos modernos usam

materiais ferroelétricos que operam abaixo de suas temperaturas de Curie.

Quando a radiação infravermelha incide no detector ocorre uma mudança

de polarização que pode ser usada para produzir um sinal elétrico. Estes

detectores só produzem sinal quando a intensidade da radiação incidente se

altera. Eles são especialmente úteis em FT-IR, em que se precisa resposta

rápida. Eles usam sulfato de triglicina deuterado colocado em uma câmara

sob vácuo como meio de detecção. Quando se deseja alta sensibilidade, usa-

se um detector de telureto de cádmio e mercúrio (MCT) colocado em

nitrogênio líquido.

Todos os espectrofotômetros de infravermelho têm um registrador que

mostra o espectro de infravermelho completo em uma página, usualmente

com escalas de comprimento de onda ou número de onda no eixo horizontal

e absorbância ou transmitância percentual no eixo vertical. Os instrumentos

mais modernos também têm visores que mostram o espectro e permitem sua

comparação com espectros guardados na memória do computador ou com

espectros obtidos de bibliotecas de espectros. Em comparação com alguns

anos atrás, a espectrofotometria quantitativa no infravermelho tornou-se uma técnica analítica muito mais útil. Isto se deve principalmente ao