Vogel: Análise Química Quantitativa
13.19 Eletrodo de vidro
compõem uma classe de eletrodos seletivos para íons [15] capazes de
analisar muitos íons diferentes (Seções 13.19 a 13.21).
Os eletrodos indicadores de ânions são eletrodos de gás (oxigênio para
OH – – e cloro para Cl, por exemplo). Muitas vezes, é possível usar um
eletrodo do segundo tipo. Como vimos na Seção 13.14, o potencial de um
eletrodo de prata–cloreto de prata é controlado pela atividade do íon cloreto
em solução. Além disso, também existem muitos eletrodos seletivos para
ânions.
O eletrodo indicador usado em uma titulação potenciométrica depende da
reação de interesse. Assim, para uma titulação ácido–base, o eletrodo
indicador é normalmente um eletrodo de vidro (Seção 13.19), para uma
titulação por precipitação (halogeneto com nitrato de prata ou prata com
cloreto), um eletrodo de prata e para uma titulação redox (ferro(II) com
dicromato), um eletrodo de platina.
13.19 Eletrodo de vidro
O eletrodo de vidro é o eletrodo sensível a íons hidrogênio mais utilizado.
Seu funcionamento baseia-se no fato de que quando a membrana de vidro
está imersa em uma solução, o potencial da membrana é função linear da
concentração de íons hidrogênio na solução. A Fig. 13.7(a) mostra
esquematicamente o arranjo de um eletrodo de vidro. O bulbo (A) fica
imerso na solução de interesse, enche-se o bulbo com uma solução de ácido
clorídrico (usualmente 0,1 M) para completar o circuito elétrico e coloca-se
um eletrodo de prata–cloreto de prata na solução. Se a concentração da
solução de ácido clorídrico permanece constante, o potencial do eletrodo de
prata–cloreto de prata também permanece constante, assim como o
potencial entre a solução de ácido clorídrico e a superfície interna do bulbo
de vidro. Por isso, o único potencial que pode variar é o potencial entre a
superfície externa do bulbo de vidro e a solução-teste, isto é, o potencial do
eletrodo depende da concentração de íons hidrogênio na solução-teste.
Os eletrodos de vidro também existem como eletrodos de combinação
[16] que incluem o eletrodo indicador (um bulbo de vidro fino) e um eletrodo de referência (prata–cloreto de prata) em uma única unidade. A
Fig. 13.7(b) mostra um esquema destes eletrodos. O bulbo de vidro fino (A)
e o tubo estreito (B) ao qual ele se liga estão cheios de ácido clorídrico e
contêm um eletrodo de prata–cloreto de prata (C). O tubo de diâmetro
maior (D) ligado à parte inferior do tubo B contém uma solução saturada de
cloreto de potássio e cloreto de prata, e um segundo eletrodo de prata–
cloreto de prata (E). O conjunto selado é um equipamento robusto e muito
conveniente porque não é necessário colocar dois componentes diferentes
na solução.
Fig. 13.7 Eletrodo de vidro: (a) arranjamento básico; (b) eletrodo de combinação — A = bulbo de vidro; B = tubo estreito; C = eletrodo de prata–cloreto de prata; D = tubo largo; E = eletrodo de prata-cloreto de prata
A qualidade do vidro usado na construção do eletrodo é muito
importante. Vidros mais duros, do tipo Pyrex, não são convenientes. Por
muito tempo usou-se um vidro de sódio e cálcio de composição aproximada
72% de SiO2, 22% de Na2O e 6% de CaO. Estes eletrodos são muito satisfatórios entre pH 1 e 9, porém, em soluções mais básicas, o eletrodo tende a dar valores mais baixos de pH. As tentativas feitas para descobrir
um vidro que não fosse sujeito a este “erro alcalino” levaram a um vidro em
que o sódio foi substituído por lítio. O eletrodo de vidro de composição
63% de SiO 2, 28% de Li2O, 2% de Cs2O, 4% de BaO e 3% de La2O3 tem um erro de –0,12 pH em pH 12,8 na presença de íons sódio na concentração
2 M. Hoje, os vidros de lítio são os preferidos para o trabalho em valores de
pH altos.
Quando se mede a concentração de íons hidrogênio em uma solução, o
eletrodo de vidro deve ser combinado com um eletrodo de referência,
freqüentemente o eletrodo de calomelano saturado. O resultado é a célula
Devido à alta resistência da membrana de vidro, não se pode usar um
potenciômetro simples para medir a f.e.m. da célula e um equipamento
especial é necessário. A f.e.m. da célula é dada pela equação
E + = K + ( RT / F ) In a
H
ou, na temperatura de 25°C, por
E = K + 0,0591 pH
Nestas equações, K é uma constante que depende, em parte, da natureza do
vidro usado na construção da membrana e, em parte, do caráter de cada
eletrodo e seu valor pode variar um pouco com o tempo. A variação de K
com o tempo está relacionada à existência de um potencial assimétrico no
eletrodo de vidro que é determinado pelas respostas diferentes das
superfícies interna e externa do bulbo às mudanças de atividade do íon
hidrogênio. As diferenças de resposta podem ser devidas a condições
diferentes de tensão nas duas superfícies. Devido ao potencial assimétrico,
um eletrodo de vidro colocado em uma solução que é idêntica à solução
interna de ácido clorídrico tem um potencial pequeno que varia com o tempo. Em conseqüência, não é possível atribuir a K um valor constante e
os eletrodos de vidro devem ser calibrados com freqüência contra uma
solução de atividade de íons hidrogênio conhecida (uma solução tampão).
A operação de um eletrodo de vidro depende da diferença entre as
superfícies interna e externa da membrana de vidro. Estes eletrodos devem
ficar imersos em água por algumas horas antes do uso, por isso acredita-se
que se forme na superfície do vidro uma camada hidratada em que ocorre a
troca de íons. Se o vidro contém sódio, a troca pode ser representada por
Como a concentração da solução no interior do bulbo de vidro é constante,
na parte interna do bulbo se estabelece um equilíbrio que leva a um
potencial constante. Na parte externa, o potencial depende da concentração
de íons hidrogênio da solução na qual o bulbo está colocado. A
condutividade entre a camada de vidro “seco” que existe na parte interna e a
camada hidratada da parte externa é devida à migração intersticial de íons
sódio no interior da estrutura do silicato. Para detalhes da teoria de
funcionamento do eletrodo de vidro, consulte os livros-texto de
eletroquímica.
Devido ao equilíbrio, não é surpreendente que na presença de uma
solução muito concentrada de íons sódio, de hidróxido de sódio, por
exemplo, o pH determinado seja mais baixo. Nestas condições, os íons
sódio da solução substituem os íons hidrogênio na camada hidratada e a
f.e.m. medida (e, em conseqüência, o pH) é muito baixa. Esta é a fonte do
“erro alcalino” dos eletrodos construídos com vidro de sódio e cálcio.
Também ocorrem erros em soluções muito ácidas (concentrações de íon
hidrogênio acima de 1 M), porém em menor grau. Este efeito é
conseqüência da menor atividade da água em soluções ácidas, que afeta a
camada de hidratação do eletrodo envolvida na reação de troca de íons.
O eletrodo de vidro pode ser usado na presença de oxidantes e redutores
fortes, em meio viscoso e na presença de proteínas e substâncias
semelhantes que interferem seriamente com outros eletrodos. Ele também pode ser adaptado para medidas em pequenos volumes de solução. Os
resultados podem estar errados quando as soluções-teste são pouco
tamponadas e quase neutras.
Deve-se lavar bastante o eletrodo de vidro com água destilada após o uso
e com várias porções da solução-teste antes de cada medida. O eletrodo de
vidro deve ser mantido em água destilada, exceto durante longos períodos
de estocagem. Ele volta a dar boa resposta quando imerso por 12 horas em
água destilada antes de ser usado novamente [17].
Eletrodos de vidro seletivos para íons
Quando se reduz a preferência dos vidros de sódio e cálcio pela troca de
íons hidrogênio, a participação de outros íons no processo é possível. A
obtenção de uma boa resposta dos eletrodos para íons como o sódio e o
potássio foi conseguida com a adição de óxido de alumínio ao vidro. A
Tabela 13.6 dá a composição típica dos vidros usados em eletrodos seletivos
para cátions. Em todos estes eletrodos, a sensibilidade aos íons hidrogênio
permanece e, por isso, em determinações potenciométricas em que estes
eletrodos são usados, a concentração de íons hidrogênio deve ser reduzida a
valores inferiores a 1% da concentração do íon que está sendo determinado
e em soluções que contêm mais de um tipo de cátions de metais alcalinos
ocorre interferência.
Tabela 13.6 Composição de vidros para eletrodos de vidro sensíveis para cátions
Composição Para a determinação de
Na + O 22%, CaO 6%, SiO 72% H (sujeito a erro alcalino)
2 2
Li + O 28%, Cs O 2%, BaO 4%, La O 3%, SiO H (erro alcalino reduzido)
2 2 2 3 2
63%
Li + O 15%, Al O 25%, SiO 60% Li
2 2 3 2
Na + + O 11%, Al O 18%, SiO 71% Na , Ag
2 2 3 2
Na O 27%, Al O 5%, SiO 68% 2 2 3 2
A construção destes eletrodos é idêntica à do eletrodo de vidro sensível
ao pH. Eles têm de ser usados, é claro, juntamente com um eletrodo de
referência, usualmente o eletrodo de prata–cloreto de prata. Pode-se usar
também um eletrodo de referência de junção dupla. A resposta do detector à
atividade do cátion é dada pela equação de Nernst:
E + = k + ( RT / nF ) log a
Mn
e para um cátion de carga unitária, como –log a M + = pM (equivalente a pH)
E = k – 0,0591 pM (em 25°C)
O eletrodo, porém, pode responder a outros cátions de carga unitária e,
quando um cátion C + + interfere, o equilíbrio entre os íons M da superfície
do vidro que está em contato com a solução e os íons C+ em solução se
estabelece:
A constante de equilíbrio (constante de troca iônica) é dada por
onde aM + e aC + são as atividades dos íons na solução-teste e os a′ são as atividades destes íons na superfície do vidro.
O potencial de eletrodo nestas condições é dado por
onde + K é o potencial assimétrico do eletrodo na presença do íon M e
M
é o coeficiente de seletividade do eletrodo M contra C. K e podem ser M
avaliados através de medidas de f.e.m. em duas soluções que contêm
quantidades conhecidas dos dois íons:
O coeficiente de seletividade é uma medida da interferência do íon C+ na
determinação do íon M+, porém seu valor depende de variáveis como a
concentração iônica total na solução e a razão entre a atividade do íon que
está sendo determinado e a atividade do íon que interfere. Um coeficiente
de seletividade pequeno corresponde a um eletrodo que não sofre muita
interferência daquele íon em particular. Um eletrodo seletivo para sódio,
por exemplo, deve ter um coeficiente de seletividade inferior a 0,005 para
não dar resultados errados devidos à interferência de íons potássio.
Grande parte do trabalho de desenvolvimento de eletrodos seletivos para
íons foi feita por Pungor e colaboradores [18]. Eles mostraram que era
possível usar borracha de silicone e membranas de plástico impregnadas de
sais de prata e outros sais para a medida de concentrações de ânions. A
membrana de vidro pode ser substituída ou modificada de várias maneiras.
Monocristais, discos prensados de material cristalino ou até mesmo
trocadores de íons líquidos contidos em membranas poliméricas podem ser
usados.
Pode-se fabricar um eletrodo seletivo para iodeto acrescentando iodeto de
prata finamente dividido a um monômero de borracha de silicone antes de
fazer a polimerização. Um disco do polímero impregnado com iodeto de
prata é usado para selar a parte inferior de um tubo de vidro que é cheio
parcialmente com iodeto de potássio 0,1 M e no qual é colocado um fio de
prata que mergulha na solução. Quando a extremidade coberta pela
membrana mergulha em uma solução que contém íons iodeto, uma situação semelhante à que ocorre com eletrodos de vidro se estabelece. As partículas
de iodeto de prata entram em equilíbrio com a solução em ambos os lados
da membrana. No interior do eletrodo, a concentração de íons iodeto é
constante e o sistema é estável. Na parte exterior, a posição de equilíbrio
depende da concentração de íons iodeto da solução e um potencial entre as
duas faces da membrana que varia com a concentração de íons iodeto da
solução-teste se estabelece.
Um exemplo de eletrodo de monocristal é o eletrodo seletivo para
fluoreto no qual um cristal de fluoreto de lantânio é selado na parte inferior
de um vaso de plástico. O vaso contém uma solução de cloreto de potássio e
fluoreto de potássio e um fio de prata coberto com cloreto de prata na parte
imersa na solução, isto é, um eletrodo de referência de prata–cloreto de
prata. O cristal de fluoreto de lantânio conduz íons fluoreto que, por terem
diâmetro pequeno, podem se mover entre os defeitos da estrutura cristalina
e estabelecer o equilíbrio entre a face interna do cristal e a solução interna.
Assim, quando o cristal entra em contato com uma solução que contém íons
fluoreto, o equilíbrio também se estabelece na parte externa do cristal. Em
geral, as atividades dos íons fluoreto são diferentes nas duas faces do
cristal, isto é, um potencial se estabelece e, como no interior do cristal as
condições são constantes, ele é proporcional à atividade do íon fluoreto na
solução de interesse.
Um exemplo de eletrodo de membrana de disco prensado é a pastilha de
sulfeto de prata, na qual os íons prata podem migrar. Como no eletrodo de
fluoreto de lantânio, a pastilha é selada na base de um vaso de plástico e o
contato é feito por um fio de prata que penetra a pastilha. Este fio entra em
equilíbrio com os íons prata da pastilha e funciona como um eletrodo de
referência interno. Quando colocado em uma solução que contém íons
prata, o eletrodo assume um potencial proporcional à atividade dos íons
prata na solução-teste. Colocado em uma solução que contém íons sulfeto, o
eletrodo assume um potencial que depende da atividade dos íons prata em
solução que, por sua vez, depende da atividade dos íons sulfeto em solução
e do produto de solubilidade do sulfeto de prata. Em outras palavras, é um
eletrodo do segundo tipo (Seção 13.14). Se a pastilha contém uma mistura de sulfeto de prata e cloreto de prata (ou brometo, ou iodeto), o eletrodo
assume um potencial que é determinado pela atividade do halogeneto
apropriado na solução-teste. Por outro lado, se a pastilha contém sulfeto de
prata e os sulfetos insolúveis de cobre(II), cádmio(II) ou chumbo(II), o
eletrodo resultante responde à atividade desses metais na solução-teste.
Pode-se preparar eletrodos de troca iônica usando um trocador de íons
orgânico imiscível com água (ou um material sensível a íons dissolvido em
um solvente orgânico imiscível com água) colocado em um tubo selado na
parte inferior por uma membrana hidrofóbica como, por exemplo, um filtro
de acetato de celulose (“milipore”), que não é atravessado pela água. A Fig.
13.8(a) descreve um destes eletrodos. A membrana (A) sela a parte inferior
do eletrodo, que é dividido pelo tubo central em um compartimento interno
(B) e um compartimento externo (D). O compartimento B contém uma
solução de concentração conhecida de um cloreto do metal em água. Esta
solução também é saturada com cloreto de prata e contém um eletrodo de
prata (C), que serve de eletrodo de referência. O material líquido trocador
de íons é colocado no reservatório D e os poros da membrana ficam
impregnados com o líquido orgânico que entra, assim, em contato com a
solução-teste. Esta solução tem um segundo eletrodo de referência, que
pode ser um eletrodo de calomelano. Este tipo de eletrodo é conhecido
como eletrodo de membrana líquida.
Fig. 13.8 (a) Eletrodo de troca de íons onde A = membrana; B = vaso; C = eletrodo de prata e D = compartimento exterior; (b) eletrodo de oxigênio dissolvido (cortesia de QuadraChem Laboratories Ltd., Forest Row, Sussex, Inglaterra)
É comum usar o esquema de Thomas e colaboradores [19] para preparar
membranas que contêm trocadores iônicos sólidos por dissolução do
trocador de íons líquido com cloreto de polivinila (PVC) em um solvente
orgânico adequado, tetra-hidro-furano, por exemplo, e evaporação lenta do
solvente. Um disco do resíduo flexível é cimentado em um tubo de PVC
para formar um vaso de eletrodo em que a membrana de PVC substitui o
acetato de celulose e o tubo reservatório anteriormente usado, de modo que
só um compartimento é necessário. Isto quer dizer que não se usa mais a
denominação “eletrodo de membrana líquida” porque a maior parte dos
eletrodos de troca iônica, atualmente, é construída segundo o esquema de
Thomas.
Um exemplo de eletrodo em matriz de PVC é o eletrodo seletivo de íons
cálcio em que o trocador de cátions é um fosfato de dialquila, o
hidrogenofosfato de didecila ou, melhor ainda, o hidrogenofosfato de
dioctil-fenila dissolvido em fosfonato de dioctil-fenila. Em contato com uma solução de íons cálcio em água, ocorre reação envolvendo a perda de
um próton de cada uma de duas moléculas de éster para formar um fosfato
de cálcio e dialquila ou um fosfato de cálcio e dialquil-fenila na superfície
da membrana. Esta, agora, tem íons cálcio que podem entrar em equilíbrio
com qualquer outra solução que contém cálcio em que for mergulhada. Na
face interna da membrana existe uma solução de íons cálcio em
concentração conhecida e um potencial definido se estabelece. O potencial
na parte externa da membrana depende da atividade do íon cálcio presente
na solução-teste. O eletrodo falha em soluções ácidas porque a reação de
formação do fosfato de cálcio e dialquila (ou dialquil-fenila) se inverte. Se o
solvente usado for decanol, o eletrodo passa a responder a outros íons
semelhantes ao cálcio, inclusive magnésio, e pode ser usado como um
eletrodo para a “dureza da água”.
Pode-se preparar um eletrodo sensível a íons nitrato com o nitrato de
hexadecil-tridodecilamônio disperso na membrana e, também, um eletrodo
sensível a íons perclorato (íon clorato(VII)) usando uma membrana que
contém perclorato de tris(o-fenantrolina)-ferro(II).
Os trocadores de íons orgânicos mencionados anteriormente podem, em
alguns casos, ser substituídos por ligantes orgânicos neutros. Um exemplo
típico é o eletrodo seletivo para íons potássio baseado no antibiótico
valinomicina. Esta substância contém átomos de oxigênio que formam um
anel e coordenam um íon potássio por substituição na camada de
hidratação. O eletrodo funciona com uma solução interna de concentração
conhecida de cloreto de potássio, da qual alguns íons são complexados pela
valinomicina na superfície interna da membrana. Quando o eletrodo é
colocado em uma solução de íons potássio em água, alguns íons são
seqüestrados para a superfície externa da membrana e o potencial de
eletrodo resultante depende da atividade do íon potássio na solução-teste.
Muitos ligantes orgânicos sintéticos neutros são hoje utilizados como
sensores de eletrodos seletivos para um grande número de cátions.
Muitos eletrodos foram desenvolvidos para a análise de gases dissolvidos
como amônia, dióxido de carbono, dióxido de nitrogênio, dióxido de
enxofre e sulfeto de hidrogênio. No caso do sulfeto de hidrogênio, usa-se um eletrodo sensível ao íon sulfeto e, no caso do dióxido de nitrogênio, um
eletrodo sensível ao íon nitrato. Os outros gases são analisados com um
eletrodo de vidro de pH. Para determinar a proporção de qualquer um destes
gases em um fluxo de gases, a mistura passa por um borbulhador para
dissolvê-los em água e o líquido resultante é analisado com o eletrodo
apropriado.
A Fig. 13.8(a) esquematiza as características principais de um eletrodo de
gás. A diferença é que a porção central do diagrama, o vaso B e seus
componentes, são, agora, as partes relevantes. A membrana A, permeável
ao gás que está dissolvido na solução-teste, pode ser uma membrana
microporosa fabricada com poli(tetrafluoro-etileno) ou com polipropileno,
que são hidrofóbicos e não são penetrados pela água, embora permitam a
passagem de gás. Este tipo de membrana é usado com amônia, dióxido de
carbono e dióxido de nitrogênio. Uma outra possibilidade é usar como
membrana um filme homogêneo muito fino, comumente borracha de
silicone, pelo qual o gás se difunde (dióxido de enxofre, sulfeto de
hidrogênio). O eletrodo C é um eletrodo de vidro de pH ou outro eletrodo
seletivo apropriado. Um eletrodo de referência de prata–cloreto de prata
também é colocado em B. A solução que está no interior do vaso B contém
cloreto de sódio e um eletrodo apropriado para o gás que está sendo
analisado. Para NH 3 use NH4Cl, para CO2 use NaHCO3, para NO2 use
NaNO2, para SO2 use K2S2O5 e para H2S use um tampão citrato. A membrana A tem área pequena e o volume do líquido em B também é
pequeno, logo, o equilíbrio com a solução-teste se estabelece rapidamente.
Uma das aplicações mais conhecidas dos eletrodos de membrana
sensíveis a gás é a medida de oxigênio dissolvido. A aparelhagem inclui
uma membrana fina de PVC que cobre um eletrólito e dois eletrodos
metálicos. O oxigênio difunde-se pela membrana e é reduzido no eletrodo
em conseqüência de um potencial fixo estabelecido entre o catodo e o
anodo. Isto significa que quanto maior é a pressão parcial de oxigênio,
maior é a difusão pela membrana no mesmo tempo de análise e maior a
corrente, que é proporcional à concentração de oxigênio na solução. Se a
amostra não for agitada, a espessura da membrana determina o tempo de
resposta do eletrodo durante a medida. A Fig. 13.8(b) mostra o esquema
básico de um eletrodo de oxigênio. A calibração é necessária e é feita
facilmente com água saturada de oxigênio. A medida do oxigênio
dissolvido é particularmente importante em estudos de meio ambiente, no
tratamento de rejeitos e na indústria de bebidas.
Em conseqüência do grande desenvolvimento observado nos últimos
anos, muitos eletrodos seletivos para íons podem ser obtidos no comércio.
A Tabela 13.7 dá uma indicação de alguns eletrodos disponíveis e seus
limites de detecção. Duas considerações importantes são a faixa de
concentração em que eles podem ser usados e o tempo de resposta. Se a
f.e.m. de um determinado íon seletivo é medida em uma série de soluções
que contêm o íon relevante com várias atividades, então uma curva da
f.e.m. contra o logaritmo da atividade iônica é semelhante à Fig. 13.9. A
curva tem três partes diferentes: uma porção reta, AB, uma porção curva,
BC, e uma porção horizontal, CD. A reta AB tem inclinação igual a 2,303
RT/nF = 59,1 mV em 25°C, quando n = 1, e diz-se que nesta região o
eletrodo tem uma resposta nernstiana. O ponto B pode ser considerado
como sendo o limite mínimo de uso para todos os fins práticos. Entretanto,
é possível usar a porção curva BC fazendo uma série de medidas com
soluções de atividade conhecida na faixa adequada e construindo uma curva
de calibração. A IUPAC define o limite inferior de detecção como sendo “a
concentração do íon na qual a porção linear extrapolada do gráfico
intercepta a porção nernstiana do gráfico”, isto é, o ponto E da Fig. 13.9. O
limite de detecção sofre a influência de íons que interferem na análise.
O tempo de resposta de um eletrodo é definido como o tempo que a
f.e.m. da célula leva para chegar a 1 mV antes do valor final do equilíbrio.
O tempo de resposta é obviamente afetado pelo tipo de eletrodo,
particularmente pela natureza da membrana, pela presença de íons que
interferem e por alterações de temperatura. Procure na literatura detalhes
sobre os cuidados necessários durante o uso e na manutenção dos eletrodos
seletivos [17]
Tabela 13.7 Seleção de eletrodos sensíveis para íons comerciais
Íon Limite inferior de Íon Limite inferior de
detecção (M) detecção (M)
Na + –6 – –6 1 × 10 F 1 × 10
K+ –6 – –5 1 × 10 Cl 5 × 10
5 × 10–7 – –6 Br 5 × 10
Ag + –7 – –8 1 × 10 I 5 × 10
Ag + 2– –7 – –6 /S 1 × 10 CN 8 × 10
Ca2+ –7 –6 5 × 10 8 × 10
Ca2+ 2+ –6 –6 /Mg 6 × 10 4 × 10
Cd2+ –7 –6 1 × 10 7 × 10
Cu2+ –8 – –6 1 × 10 SCN 5 × 10
Pb2+ –6 1 × 10