Vogel: Análise Química Quantitativa
5.4 Sólidos
A técnica é usada na extração de compostos orgânicos diretamente de
soluções e pode ser aplicada a uma grande variedade de substâncias, de
solventes orgânicos a materiais polares pouco voláteis como os resíduos de
pesticidas. Uma variante permite que o capilar entre em contato somente
com o vapor que está acima da superfície da água, isto é, com os
componentes voláteis da água que são adsorvidos. Isto faz com que o cromatograma correspondente seja mais simples. Em uma aplicação em
desenvolvimento, o capilar, após imersão na amostra, é introduzido em um
injetor modificado de HPLC. Uma pequena quantidade do solvente de
eluição remove a amostra e passa diretamente à entrada da coluna de HPLC.
Este arranjo permite a identificação de compostos que não podem ser
analisados por GC. Embora a técnica seja relativamente nova e pouco testada, pode-se determinar rapidamente (cerca de 15 minutos por amostra) a
maior parte dos compostos orgânicos, em concentrações inferiores a ng · 1–1,
usando pequenos volumes de amostra, sem a necessidade de solventes
orgânicos e suas possíveis complicações.
Fig. 5.17 Microextração: um dispositivo para SPME
5.4 Sólidos
A amostragem de sólidos é a tarefa mais desafiadora para o analista. Gases e
líquidos, apesar das variações devidas à posição da amostragem e ao tempo
de espera, são, em grande parte, homogêneos e contêm um grande número de
partículas (admitimos que isto é verdade sempre que coletamos no
laboratório uma alíquota de líquido contido em um balão aferido). No caso de sólidos, isto nem sempre é verdade porque a amostra é, em geral,
heterogênea e pequenas variações de posição podem ser muito significativas. Além disto, o diâmetro das partículas pode ser superior a 10 cm. A
amostragem de carvão em um carregamento e a análise de amostras de
pedras de uma montanha são exemplos. Em geral, a amostragem de sólidos
exige uma abordagem mais rigorosa e mais sistemática do que a usada nos
gases e nos líquidos. A coleta de uma amostra representativa é uma tarefa
extremamente difícil e vale a pena voltar a enfatizar que a amostragem é geralmente a maior fonte de erro na preparação da amostra para análise.
Nas amostras sólidas, as variações com o tempo são geralmente menos
importantes do que nas amostras líquidas e gasosas, porém as variações com
a posição são normalmente muito mais relevantes, isto é, as concentrações de
analito no material a ser amostrado podem variar muito, mesmo entre dois
pontos muitos próximos. O grande problema em potencial, entretanto, é o tamanho das partículas. Veremos adiante que os erros de amostragem são
inversamente proporcionais ao número de partículas amostradas. Nos gases
ou líquidos, em que a partícula é um íon ou uma molécula, pequenas
quantidades de amostra contêm um grande número de partículas (10 16
partículas por mililitro no caso dos líquidos). Nos sólidos, em que a partícula
pode ter massa igual a vários quilogramas, o problema é muito mais significativo e é necessário usar uma abordagem sistemática que reduza o
erro de amostragem o mais possível. Costuma-se desenhar um plano de
amostragem que permite ao analista calcular o número e o tamanho ideais
das amostras.
A linguagem usada na amostragem de sólidos varia de texto para texto,
portanto, vamos definir e explicar os termos que serão usados nesta seção. O material total a ser analisado é conhecido como população ou lote, que pode
ser uma massa única, mais ou menos homogênea, ou pode conter várias
unidades facilmente reconhecidas. A partir daí, define-se a amostra bruta
coletando-se incrementos do lote de tal modo que, combinados, eles sejam
representativos do lote, porém em menor escala. No caso de certos sólidos,
entretanto, a amostra bruta pode chegar a uma tonelada. A amostra analítica ou amostra de laboratório, que é ainda menor, é coletada da amostra bruta
antes da análise (Fig. 5.1).
Nota Os analistas referem-se normalmente ao tamanho de partícula como
sendo a massa ou o volume, porém, em estatística, tamanho é o número de
amostras coletadas.
Por uma questão de conveniência, os tipos de amostras são comumente
classificados como se segue:
1. Amostras brutas.
2. Amostras estratificadas (segregadas).
3. Unidades discretas (pacotes, tambores, frascos etc.).
Como vamos usar uma abordagem estatística, veremos em detalhe apenas as amostras brutas. O leitor interessado nas demais categorias deve recorrer a
textos mais especializados. O procedimento geral de amostragem envolve a
redução progressiva do material pela coleta de incrementos de maneira que a
composição seja, em cada estágio do processo, tão representativa da
composição original quanto possível, isto é, evitando procedimentos
repetitivos. A maneira de fazer isto depende principalmente da natureza da amostra. No caso de muitos materiais, especialmente produtos
manufaturados ou matérias-primas industriais, existem procedimentos bem
estabelecidos. Veremos, adiante, nesta seção, entretanto, alguns princípios e
regras gerais.
As amostras brutas podem ter muitos componentes e partículas de vários
tamanhos, porém a heterogeneidade da amostra não é reconhecida facilmente. Alguns exemplos são um carregamento de carvão ou de minério,
o solo do pátio de uma fábrica contaminado com resíduos e um pacote de
sabão em pó. Veremos, a seguir, uma descrição simplificada da análise
estatística empregada na redução de amostras brutas. É importante
reconhecer, entretanto, que, mesmo para amostras de complexidade
moderada, a análise estatística é muito complexa.
5.4.1 Estatística da amostragem Os erros nas medidas científicas são classificados como erros sistemáticos,
que são relacionados à acurácia, e erros aleatórios, que são relacionados à
precisão. Supõe-se, usualmente, nas manipulações estatísticas de laboratório,
que os erros sistemáticos são pequenos e que a incerteza remanescente é
devida aos erros aleatórios, quantificados pelo desvio-padrão. O desvio-
padrão de um método é composto pelos desvios-padrão de cada etapa da análise. Assim, no caso de amostras reais
onde so é o desvio-padrão total, sa é o desvio-padrão analítico e ss é o desvio-padrão da amostragem. É normalmente melhor usar o quadrado destes
termos, a variância, (V), porque, em um processo com várias etapas, as
variâncias são aditivas, o que não acontece com os desvios-padrão.
O desvio-padrão analítico, sa, pode ser dividido em dois componentes:
Variação na mesma amostra É a variação da resposta do instrumento
para medidas repetidas da mesma amostra. Ela é, normalmente, a menor
de todas as variâncias embora seja, com freqüência, a que mais preocupa (erroneamente) o analista.
Variações em diferentes amostras É a variação da resposta obtida para
medidas repetidas de amostras analíticas diferentes, obtidas a partir de
uma única amostra bruta. É a variância dentro do lote e depende da
composição relativa da amostra e da homogeneidade das partículas. Ela
pode ser reduzida a níveis aceitáveis pela análise repetida de alíquotas da amostra bruta, mas, por si só, não dá uma estimativa confiável da
variabilidade da população.
A variação da amostragem, s , ou variação entre as amostras, mede a
variabilidade entre partes diferentes da população. Em amostras brutas ela
pode ser grande e só poderá ser reduzida a níveis aceitáveis se um grande
número de diferentes amostras brutas da população for obtido. A
significância relativa de cada um destes termos pode ser estimada, após
avaliação por análise da variância (ANOVA — analysis of variance). A Fig.
5.1 dá valores típicos destes termos. A utilização de valores razoáveis nestas
equações mostra que se o erro da amostragem for elevado, é perda de tempo
e de dinheiro usar uma técnica analítica muito precisa porque o erro total é
essencialmente determinado pelo erro de amostragem. Se a técnica analítica
tem precisão três vezes melhor do que a amostragem, faz pouco sentido
tentar reduzir a precisão analítica ainda mais. É melhor, em geral, coletar um grande número de amostras (o que melhora a precisão da amostragem) e
analisá-las com um método analítico de precisão moderada do que usar uma
técnica de precisão muito alta e um número pequeno de amostras. O uso de
amostras compostas pode aumentar muito a precisão total do experimento, se
as circunstâncias forem adequadas.
Exemplo 5.1
Em uma dada análise, o erro de amostragem é 6% (s = 0,06). Uma certa
técnica analítica pode dar uma precisão de 1%. Qual é a precisão total? Vale
a pena considerar uma técnica mais lenta que pode dar uma precisão de
0,2%?
Da Eq. 5.1 tem-se
Para uma precisão analítica de 0,2%
Como se vê, não vale a pena usar a técnica mais precisa.
Exemplo 5.2
Calcule so para ss = 15% e ss = 5%. Se ss for reduzido a 1% qual é a precisão total?
Quando se tenta obter uma amostra representativa de um sólido, deve-se
tomar muito cuidado para reduzir os erros de amostragem ao mínimo senão o
tempo total gasto e o custo da análise terão sido desperdiçados. Como,
entretanto, a coleta de um número muito grande de amostras ou o uso de
amostras muito grandes encarece muito o processo, é desejável usar um
plano de amostragem. Sua finalidade é fornecer uma resposta analítica satisfatória com uma quantidade apropriada de partículas de tamanho
razoável. Um plano de amostragem deve assegurar sempre a coleta de um
número suficiente de amostras aleatórias, para que a composição possa ser
determinada com um grau de acurácia especificado.
Nota A palavra “aleatório” em estatística significa não repetitivo. Ela não
significa “ao acaso”.
É necessário, com freqüência, usar uma abordagem iterativa em que um
conjunto inicial de experimentos dá ao analista algumas informações sobre a população. Estas informações são então usadas na proposição de uma
segunda série de experimentos e assim sucessivamente, até que a precisão de
amostragem desejada seja atingida. Como a resposta obtida depende de
quanto da amostra foi coletado e de quantas amostras foram coletadas,
veremos estes termos adiante um pouco mais em detalhe.
5.4.2 Tamanho mínimo das partículas
Para calcular a massa de cada amostra bruta coletada é necessário decidir
inicialmente a variação aceitável da amostragem. Este valor, normalmente
expresso em percentagem, é escolhido pelo analista. Muito semelhante ao
nível de confiança usado na estatística simples, trata-se, na verdade, do
desvio-padrão relativo da amostragem, R. Lembre-se de que a variação
aceitável da amostragem, medida como a precisão da amostragem ou como o desvio-padrão relativo da amostragem, é decidida pelo analista, enquanto o
desvio-padrão analítico, obtido no laboratório, é calculado a partir de uma
série de determinações repetidas. Depois de escolher R é relativamente fácil para o analista calcular a quantidade de material de um determinado tipo de
amostra necessária para atingir este valor.
Considerando o caso simples de um material homogêneo com dois
componentes, A e B, e supondo uma distribuição normal (isto é, uma
estatística binomial), pode-se mostrar que a variância V de um dado
componente decresce quando o número de partículas coletadas aumenta:
A variância também depende da composição da mistura. (O bom senso indica que quanto menor for a concentração de um analito na matriz, maior
será o erro em sua determinação.) A idéia é melhor expressa considerando a
proporção de um componente, por exemplo, A, em comparação com o
número total de partículas (lembre-se de que a estatística trabalha com
números). Assim a probabilidade p de extração (análise) de uma única
partícula A da mistura de A e B é
p = na/(na + nb)
onde na é o número de partículas do tipo A na população total (na + nb). Assim, para n partículas removidas
Para B existem nq partículas onde q = nb/(na + nb). Por definição, q = 1 – p. O desvio-padrão 1/2 s para qualquer tipo de partícula é s = ( npq ), logo o
desvio-padrão relativo R para o analito A é dado por
Rearranjando estas expressões, temos Este cálculo supõe que a proporção (concentração) de A na mistura é
conhecida, o que afinal é o objetivo do exercício. Assim, na prática, deve-se
fazer uma série preliminar de experimentos e calcular aproximadamente este
valor para poder inseri-lo nas equações.
Estas equações calculam o número de partículas necessárias para dar o
valor R desejado para a variabilidade da amostragem, porém, em geral, o que interessa é a massa. A massa das partículas pode ser calculada do seguinte
modo. A massa de n partículas é
onde
r = raio da partícula
ρ = densidade da partícula
Da Eq. (5.6), substitui-se n para dar
Assim, o tamanho das partículas do material tem efeito profundo na massa
do material que deve ser coletado, porque ∝ 3 4 m r . Assim, por exemplo, 10
partículas com –1 r = 0,5 mm (1 mm de diâmetro) e densidade 2 g · ml (isto é, o sal comum) pesam 10,5 g. Se o diâmetro fosse 5 mm, o mesmo número de
partículas pesaria 1308 g (isto é, cerca de 1,3 kg). Se as partículas fossem
reduzidas, por exemplo, a 80/120 mesh (~150 μm), então, menos de 40 mg
equivaleriam às 104 partículas desejadas. A Eq. (5.8) pode ser rearranjada e
as constantes agrupadas para dar
onde m é a massa do material coletado e Ks é uma constante conhecida como
constante de amostragem. Ela é numericamente idêntica à massa de material necessária para dar o desvio-padrão relativo de amostragem R igual a 1%.
Embora simples, a constante de amostragem inclui a densidade e a composição do analito que está sendo testado, que não são normalmente
conhecidas antes da seqüência de ensaios, salvo se o mesmo tipo de material
for analisado regularmente. Por isto, seu uso é limitado às análises de rotina
do mesmo tipo de amostra ou tipos semelhantes, em que pode ser necessário
calcular diferentes níveis de variância.
Nota Apesar de a redução mecânica do tamanho das partículas reduzir
dramaticamente a massa de material necessária para uma dada variância de amostragem, neste estágio isto não é normalmente possível porque o
procedimento é concebido para calcular a massa de material coletada da
população total, que pode ser grande demais para ser modificada. Nos
estágios subseqüentes, quando considerarmos subseções desta amostra (a
amostra bruta ou analítica), é comumente possível, e mesmo desejável,
reduzir apreciavelmente o tamanho das partículas. Existem vários sistemas de moagem, trituração e britagem que são capazes de reduzir partículas de
vários centímetros de diâmetro (pequenas pedras) até pós finos e
homogêneos. Para cálculos como os que fizemos anteriormente, se a
totalidade do material não for tratada de forma idêntica, o processo não será
válido.
Após usar estas equações para calcular a massa mínima de material
necessária para dar um determinado desvio-padrão relativo (variabilidade) previamente especificado, pode-se calcular o número mínimo de amostras
necessárias para atingir um nível de confiança adequado.
5.4.3 Número mínimo de amostras
Uma vez calculada a massa mínima de cada uma das amostras brutas, é
necessário calcular o número mínimo das amostras que devem ser coletadas
para manter a variação de amostragem desejada. Em outras palavras, quantas amostras são necessárias para que o analista possa estar certo de que a
resposta obtida está, por exemplo, no intervalo de ±5% do valor médio, isto
é, tem 95% de confiança.
Para isto, é necessária, obviamente, uma equação que inclua n (o número
de amostras) e um termo que expresse a confiança de que o analista precisa.
É comum o uso da expressão t de Student, familiar na estatística simples:
que com um simples rearranjo pode ser usada para calcular o erro permitido
na medida de várias amostras ou o número de amostras necessárias para dar
um determinado erro. Isto é feito definindo o erro como a diferença entre o
resultado verdadeiro e o valor médio:
onde a forma geral do desvio-padrão s foi substituída por R, o desvio-padrão relativo da operação de amostragem, e E é o erro. Observe que E é o erro de
amostragem que é especificado pelo analista como sendo aceitável e que
determina o número mínimo de amostras que devem ser coletadas.
Como os químicos usam com freqüência o nível de confiança de 95%, que
corresponde a t = 1,96 para um número grande de amostras, podemos fazer t
= 2 e simplificar a Eq. (5.11), que fica
Tome cuidado com as dimensões. Quando R for expresso como fração, deve-
se expressar E como fração. Se R for expresso como percentagem, E também deve ser expresso como percentagem.
Quanto menor for o desvio-padrão requerido no processo total, maior será
o número de amostras necessárias. Assim, a Eq. (5.12) dá, para um desvio
padrão de amostragem igual a 7% e um erro permitido de 5%, n = 8. Se o
desvio-padrão de amostragem subir para 10%, tem-se para o mesmo erro, n
= 16. Normalmente, estes cálculos são feitos de forma iterativa, isto é, os resultados do primeiro cálculo são usados para refinar os valores para um
segundo cálculo, e assim sucessivamente, até que a resposta se aproxime de
um valor constante.
Exemplo 5.3
A determinação preliminar de s de um único lote do material total levou ao valor de 9,9% para o desvio-padrão relativo de amostragem do analito.
Quantas amostras precisam ser coletadas se o analista deseja ter 95% de
confiança de que o valor medido do analito não varia mais do que 5% em
torno da média medida?
Fazendo t = 2 (para a confiança de 95%) e substituindo na Eq. (5.12), tem-se
n 2 2 2 = 2 × (9,9) /(5) = 16 amostras
Se R fosse expresso como 0,099 e o erro E, como 0,05, o cálculo daria
n 2 2 2 = 2 × (0,099) /(0,05) = 16 amostras
O cálculo é então repetido, porém com o valor t = 2,13 (o valor de t para uma
confiança de 95% e 16 amostras). Obtém-se n = 17,78. Um terceiro cálculo
com t = 2,11 (t18) dá n = 17,45 e assim sucessivamente até um valor constante de n. Para este problema bastam quatro cálculos para obter n = 18
amostras.
Supondo que a amostragem não foi repetitiva, o erro E, que foi usado até
aqui, definido como a diferença entre o valor verdadeiro e a média, pode ser
chamado de acurácia, A. Isto dá a fórmula aproximada:
onde Vs é a variância da amostragem. Esta forma simplificada da equação
geral é muito usada no cálculo do número de amostras necessárias, n, para
alcançar uma acurácia especificada.
5.4.4 Significado dos cálculos estatísticos Todos os cálculos feitos na Seção 5.4.3 foram baseados na suposição de que
os erros de amostragem dependem do número de partículas coletadas.
Apesar de o erro depender também de outros fatores como a concentração
(composição) do analito e a complexidade da amostra, existe uma relação
quadrática inversa entre o desvio-padrão e o número de partículas coletadas.
Isto explica por que começamos o capítulo pelos gases e líquidos, em que uma pequena quantidade de amostra contém um número de partículas
suficiente para fazer com que esta parte do processo de amostragem
praticamente não tenha erros, em comparação com o que ocorre com os
sólidos, em que o número de partículas coletadas é importante. Outro
problema é que apesar de os cálculos serem baseados no número de
partículas, a tendência é medir a massa da amostra. A Eq. (5.7) mostra que existe uma relação cúbica entre a massa e o diâmetro da partícula.
Assim, quando possível, a redução do tamanho das partículas tem efeito
muito pronunciado na massa requerida para um dado número de partículas.
5.4.5 A coleta de incrementos
Uma vez calculada a massa e o número de amostras requeridas para a
análise, é preciso desenvolver um método ou métodos de obtenção de amostras não repetitivas a partir do material total. Se o material é
homogêneo, ele pode ser considerado como um conjunto de seções de
tamanhos idênticos (a matriz) e o número necessário de amostras é coletado
ao longo da matriz com a ajuda de tabelas de números aleatórios. As
amostras resultantes são analisadas separadamente ou combinadas e tratadas
como um novo material total, com características idênticas às do lote inicial, porém de tamanho menor.
Nota Pode-se reduzir, neste estágio, o tamanho de uma amostra total, sem
coletas repetitivas, usando várias técnicas bem conhecidas. A mais simples e
prática é o método do cone e da quarta parte. Arranje o material a ser
amostrado em uma pilha (cone). Corte, em seguida, a pilha em quatro partes
idênticas, como na Fig. 5.18(a). Combine dois quartos opostos e descarte os
outros dois. Supondo que o tamanho das partículas é constante ou quase constante, a massa foi reduzida à metade. O processo pode ser repetido
várias vezes até que a massa original se reduza o suficiente para a
manipulação no laboratório. Vários dispositivos mecânicos, conhecidos
como misturadores (Fig. 5.18(b)) também são usados para reduzir as
amostras brutas a proporções que podem ser manipuladas com facilidade.
Embora os misturadores sejam capazes de operar até 16 amostras idênticas em um só ciclo, é importante que eles sejam mantidos limpos antes do uso
para que não ocorra contaminação das amostras. Em alguns modelos, isto é
difícil de conseguir.
Fig. 5.18 (a) Uso da técnica do cone e da quarta parte para a redução da amostra. (b) Misturadores usados para a redução mais rápida As amostras segregadas ou estratificadas, com regiões marcadamente
diferentes, são melhor tratadas se cada região for considerada como um
material total diferente que deve ser amostrado separadamente, se necessário,
com planos de amostragem diferentes. Um outro procedimento é formar uma
amostra composta, coletando incrementos de cada região e combinando-os
de modo a preservar a composição original da amostra. Assim, se o material tiver três regiões cujos volumes estão na razão 1:5:20, os incrementos devem
manter esta proporção. O problema desta abordagem é que o número e o
tamanho dos incrementos devem refletir a composição do material original,
porém isto é exatamente o que o analista está tentando determinar!
Deve-se sempre estabelecer e cumprir um plano de amostragem.
Quaisquer modificações introduzidas durante a coleta levam a uma amostra que provavelmente não é representativa do original. Em outras palavras,
seria perda de tempo e dinheiro completar a coleta e fazer a análise. A
palavra “aleatório”, no contexto da coleta de amostras, significa não
repetitivo. Ela não significa ao acaso. Estas observações não implicam que
não se pode modificar o protocolo de amostragem, apenas que quaisquer
mudanças do plano original devem ser feitas levando em conta os dados obtidos nos estágios analíticos anteriores. O processo é iterativo e pode ser
aplicado para refinar os cálculos, mas também pode ser usado para melhorar
a acurácia e a precisão do processo de amostragem e, em última instância, a
resposta final. A iteração consome muito tempo e é custosa, mas é
freqüentemente essencial quando se deseja obter resultados confiáveis de
uma matriz complexa.
5.4.6 Amostragem de unidades discretas
O material que deve ser analisado está freqüentemente na forma de unidades
discretas: pacotes, tambores, frascos ou tabletes. Nesta situação, a variância
total do sistema compõe-se de três contribuições:
variância total = variância da operação analítica
+ variância em uma unidade
+ variância entre unidades
O primeiro destes termos é determinado pela escolha do método analítico e
todos os comentários anteriores se aplicam. O segundo e o terceiro termos
são independentes entre si e devem ser determinados separadamente, mesmo
quando o mesmo plano de amostragem (iterativo) está sendo usado para
otimizar o número e o tamanho das amostras coletadas em cada unidade. Se
o plano de amostragem preliminar não mostrar diferenças apreciáveis entre as unidades (como é normalmente o caso nos artigos de produção em massa),
as unidades podem ser combinadas em uma amostra composta para reduzir a
importância do terceiro termo.
5.4.7 Comentários gerais
A variação da concentração do analito tem normalmente duas contribuições
distintas:
Variação entre amostras É a variância entre diferentes partes da
população. Ela é normalmente elevada e só pode ser reduzida a níveis
aceitáveis pela coleta de um grande número de amostras de diferentes
partes do material a ser analisado, de modo a tornar a amostra composta
representativa do material.
Variação na amostra É a variância do analito em uma única amostra
bruta ou total. Ela depende da composição relativa da amostra e da homogeneidade das partículas, que pode, às vezes, ser melhorada pela
redução do tamanho das partículas (trituração etc.). Ela pode ser reduzida
a um nível aceitável pela análise repetida de alíquotas de uma amostra
bruta, mas ela dá apenas o resultado da análise da amostra total. Ela não
dá, por si só, uma estimativa confiável da variabilidade da população.
Em cada tipo de amostra, o plano final de amostragem depende do
conhecimento prévio do sistema e da experiência obtida pelo analista nos estágios iniciais da amostragem. Lembre-se de que amostragem aleatória não
significa a coleta indiscriminada de amostras, porém a observação rígida de
um plano de amostragem cuidadosamente preparado para reduzir a incerteza e a amostragem repetitiva é que dá a melhor estimativa possível da