Vogel: Análise Química Quantitativa
6.7 Separações instrumentais
automáticas foram desenvolvidas, principalmente para aplicações
biológicas, que podem trabalhar com volumes de até 1000 ml por amostra.
Como a água é removida em temperaturas moderadamente baixas,
espera-se que a amostra seja menos alterada do que nas destilações
convencionais e, como a operação é feita no vácuo, com menor
contaminação. A matriz remanescente ao final do processo, que comumente
se resume a uma pequena porção de pó seco, é geralmente bastante estável
e, por isso, a técnica é conveniente para processar amostras que não podem
ser analisadas imediatamente. Na análise de materiais orgânicos de baixo
peso molecular, é, entretanto, aconselhável verificar se o material não foi
perdido durante o tratamento com vácuo.
A diálise é outra técnica mais familiar para o biólogo do que para o
químico. Uma membrana semipermeável (acetato de celulose ou material
semelhante com poros de diâmetro de 1 a 5 nm) é normalmente colocada
entre duas soluções contendo concentrações diferentes de íons metálicos em
água. Após um certo período de tempo, que pode chegar até a 48 horas, as
espécies pequenas (íons) passam pela membrana para igualar as
concentrações. Em aplicações biológicas, uma das fases contém espécies
iônicas e biomoléculas grandes e a outra é água pura. O equilíbrio que se
estabelece reduz efetivamente a concentração de íons na primeira fase sem
perdas ou alterações substanciais nas moléculas grandes, normalmente
proteínas. Este é o processo usado na dessalinização de soluções de
proteínas. Todavia, como muitos colóides têm, também, partículas com
cerca de 1 a 5 nm de diâmetro, a técnica pode ser útil na separação ou na
pré-concentração de certas soluções coloidais inorgânicas pouco estáveis. A
técnica pode ser também usada na preparação de amostras para análise por
métodos instrumentais. Assim, por exemplo, costuma-se eliminar as
proteínas de amostras antes de usar a cromatografia líquida de alta
eficiência porque as proteínas podem dificultar o processo de separação e
entupir irreversivelmente a coluna.
6.7 Separações instrumentais Mencionamos, no início deste capítulo, que as separações são classificadas
em dois grupos, de acordo com a quantidade de analito: separações em
grande escala e separações instrumentais. Apesar de a maior parte do
material descrito nesta seção ser uma introdução aos Caps. 7, 8 e 9, que
tratam das separações instrumentais, estes processos são cada vez mais
usados, com o auxílio de aparelhagens simples, em separações e pré-
concentrações antes da cromatografia ou de outra técnica instrumental de
rotina. Todos os processos descritos a seguir relacionam-se à diferença de
afinidade de analitos em relação a duas fases em contato.
Para nossos fins, podemos considerar que uma das fases permanece
estacionária enquanto a outra pode se mover (a fase móvel). Assim, a
separação ocorre na interface entre a fase móvel e a fase estacionária. Até
recentemente, a maior parte dos analistas leria a frase anterior como uma
definição razoável de um processo cromatográfico. Com o uso crescente,
porém, dos métodos eletroforéticos, que também separam analitos em
interfaces, a definição de “cromatografia” tornou-se menos clara. Por isso,
quando consideramos separações de substâncias semelhantes na interface
de uma fase fixa e outra móvel, não importa como queiramos chamar o
processo, devemos primeiramente considerar o que está realmente
acontecendo. Só depois de feito isto é que o analista usa seus
conhecimentos químicos de modo a obter da maneira mais eficiente a
separação desejada. Isto geralmente não é simples porque, como existem
várias técnicas capazes de separar uma dada mistura, não existem
procedimentos preferenciais: eles freqüentemente se equivalem.
A escolha do método de separação é normalmente feita com base na
sensibilidade, na velocidade de obtenção dos resultados ou até mesmo na
disponibilidade de equipamentos e materiais. Não é necessário procurar
obter sempre a separação máxima dos componentes. É aqui que a
experiência do analista é mais importante. Existem, entretanto, diretrizes
que, se usadas com cautela, ajudam a simplificar o processo. Assim,
moléculas orgânicas de baixo peso molecular, voláteis e neutras, são
geralmente separadas por cromatografia com fase gasosa, enquanto íons ou
moléculas facilmente transformadas em íons são, geralmente, separadas usando eletroforese, especialmente no caso de moléculas de alto peso
molecular. Por outro lado, apesar de a cromatografia e a eletroforese terem
se desenvolvido de modo diferente e produzido suas próprias terminologias
e de nem sempre aparecerem nos mesmos textos, as duas técnicas
compartilham o mesmo mecanismo simples de migração diferenciada do
analito através de uma fase estacionária. Assim, de uma maneira geral, os
problemas e limitações são os mesmos. Isto significa que,
independentemente da escolha da técnica, só é possível obter separações
confiáveis, reprodutíveis e eficientes se o analista puder controlar a química
e a física das fases móvel e estacionária. Pequenas mudanças de
composição química e de temperatura podem causar grandes mudanças no
processo de separação.
6.7.1 Mecanismos de separação em uma interface
Todos os cinco mecanismos descritos nesta seção podem ocorrer em fase
líquida. Na fase gasosa (cromatografia com fase gasosa) somente a
adsorção e a partição são possíveis. Estima-se que cerca de 20% dos
produtos químicos conhecidos são suficientemente estáveis e voláteis para
serem separados por cromatografia com fase gasosa. Em princípio, os
demais 80% poderiam ser separados por cromatografia líquida, mas, na
prática, algumas misturas podem ser mais facilmente separadas por
eletroforese.
Adsorção
A adsorção é provavelmente o mecanismo mais conhecido e menos usado
em cromatografia, apesar de a adsorção de um gás ou de um líquido na
superfície de um sólido ser um processo que tem muitas aplicações
científicas e comerciais. A adsorção de gases e vapores em carvão ativo,
por exemplo, é usada em muitas residências para a remoção de odores nos
exaustores de fogão. O carvão é utilizado em muitos processos industriais
na remoção de impurezas coloridas de soluções como, por exemplo, na
produção de açúcar. Outros adsorventes muito empregados são a sílica ou sílica gel, que é uma forma muito hidratada de dióxido de silício
(SiO2·xH2O), com área superficial muito grande, e o óxido de alumínio
(Al2O3·xH2O), mais conhecido como alumina.
O problema do uso da adsorção nas separações é que a interação tende a
ser tão forte que, uma vez adsorvidos, os analitos são dessorvidos com
dificuldade, o que torna, em certas circunstâncias, a cromatografia difícil ou
pouco confiável. Apesar disso, a adsorção é usada em cromatografia líquida
e em cromatografia com fase gasosa. No caso da cromatografia com fase
gasosa, a desativação das superfícies de sílica em injetores e em colunas é
essencial para reduzir a adsorção e permitir que a separação ocorra por
outro mecanismo.
Partição
A teoria da partição foi discutida na Seção 6.3.2 quando consideramos a
separação líquido–líquido em grande escala. A partição, contudo, também é
muito usada em separações cromatográficas e, neste caso, o que interessa é
a solubilidade relativa do soluto em duas fases imiscíveis. Na
cromatografia com fase gasosa, o processo implica a partição do soluto
entre uma fase móvel gasosa e uma fase estacionária líquida depositada
sobre pequenas partículas em colunas empacotadas ou ligadas
quimicamente às paredes internas de uma coluna capilar. A partição é o
mecanismo de separação mais comum em cromatografia com fase gasosa.
A solubilidade relativa dos analitos entre uma fase móvel líquida e uma fase
estacionária é mais importante em cromatografia líquida de alta eficiência.
A fase estacionária é normalmente ligada a um suporte inerte para evitar
problemas de dissolução na fase móvel (Cap. 8). Uma regra simples que
funciona na cromatografia de partição é: “semelhante separa semelhante”.
Materiais não polares dissolvem-se e são separados em fases não polares.
Materiais polares requerem fases estacionárias ainda mais polares.
Afinidade A afinidade é o mecanismo mais recentemente utilizado e o mais seletivo
dentre todos. Ela se baseia no aproveitamento de interações muito
específicas que podem existir entre a fase imóvel e certos solutos. Estas
interações são, usualmente, provocadas por reações enzimáticas ou de
anticorpo-antígeno e podem ter seletividade muito elevada para um
determinado tipo de molécula como, por exemplo, proteínas em misturas
complexas. Sabe-se que os anticorpos são extremamente específicos em
suas reações com antígenos e isso pode ser aproveitado na cromatografia
por afinidade. No processo, um anticorpo imobilizado em uma fase
estacionária (por meio de uma ligação covalente) pode reagir com uma
determinada proteína (antígeno) em uma mistura que contém várias
centenas de proteínas semelhantes, ligando-a à coluna. Após lavar a coluna
para a remoção das demais proteínas, muda-se a força iônica do eluente
para liberar a substância desejada que é então coletada [9].
O mecanismo é, às vezes, descrito como efeito “chave e fechadura”
devido à alta especificidade entre a fase estacionária e o analito. Este
mecanismo, que é usado apenas na fase líquida, simplificou grandemente a
separação e a determinação de misturas biológicas que, até recentemente,
eram consideradas difíceis demais para separar. Os princípios básicos das
separações por imunoafinidade usadas em biotecnologia foram revistos
recentemente [10]. Como as fases estacionárias contêm um material
biologicamente ativo, elas tendem a ser muito caras. Além disso, são muito
menos tolerantes sob condições adversas do que as fases estacionárias
convencionais. Assim, deve-se ter muito cuidado no seu emprego e sua
estocagem para garantir um tempo de vida útil razoável.
Troca iônica
Já discutimos a troca iônica, encarando-a como um processo de separação
em larga escala (Seção 6.5), mas ela pode ser também usada na
cromatografia líquida. A cromatografia de troca iônica só pode ocorrer na
fase líquida. Os íons da fase móvel ligam-se temporariamente aos contra-
íons imobilizados na fase estacionária, a resina de troca iônica, de onde podem ser seletivamente deslocados por eluição com um tampão de força
iônica crescente.
Já vimos, neste capítulo, o uso da troca iônica para separar dois ou mais
íons em larga escala. Misturas bastante complexas de íons ou de espécies
ionizadas, especialmente substâncias de interesse biológico tais como
amino-ácidos, também têm sido separadas por esta técnica, com o auxílio
de colunas convencionais de 10 mm de diâmetro ou mais e eluição por
gravidade. A vantagem é que quantidades relativamente elevadas de
material (> 1 mg) podem ser separadas e isoladas para uso em outros
experimentos. Além disso, as técnicas de troca iônica podem ser adaptadas
para uso em cromatografia líquida de alta eficiência. Neste tipo de
aplicação, escolhem-se partículas de resina sintética suficientemente
pequenas para tornar eficiente a coluna. Às vezes, os grupos de troca iônica
estão ligados à superfície das partículas de sílica, de maneira semelhante às
colunas de partição de fase ligada. Este processo leva a uma partícula rígida
com propriedades de troca iônica. Usam-se, normalmente, detectores de
condutividade porque as espécies usualmente separadas na cromatografia
líquida de alta eficiência acoplada à troca iônica não são determinadas com
facilidade com detectores de UV. Embora os processos envolvidos sejam
intrinsecamente os descritos na Seção 6.5, esta versão de alto desempenho
da troca iônica é mais conhecida como cromatografia iônica. A
cromatografia iônica pode ser usada para a separação de ânions ou de
cátions, independentemente do tamanho dos íons, mas atualmente sua maior
utilidade analítica está na separação e determinação dos ânions mais
comuns (F– – – – – – 2– 3– , Cl , Br , I , NO , NO , SO , PO etc.) em água,
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particularmente em águas naturais e, também, de cátions e ânions em
alimentos [11].
Permeação em gel
A permeação em gel é um mecanismo simples de separação de espécies
segundo seu tamanho. Usam-se outros nomes, também, como filtração em
gel, cromatografia de exclusão molecular e peneira molecular. Esta última
denominação é hoje pouco usada, mas talvez seja a mais descritiva de todas. A fase estacionária é um material polimérico conhecido como gel.
Dentre os géis mais utilizados estão os materiais conhecidos como
Sephadex, produzidos pela indução de graus variáveis de ligações cruzadas
em uma estrutura do tipo dextrano (carboidrato polimérico) (Fig. 6.5). O
controle do número de ligações cruzadas permite a produção de poros de
diferentes tamanhos na estrutura levando a “peneiras” capazes de separar as
moléculas de acordo com seu tamanho.
Os Sephadex de porosidade diferente podem ser usados para a separação
de moléculas biológicas como peptídeos e proteínas de tamanhos muito
diferentes: a resina Sephadex G-10 é usada para moléculas de massa
molecular relativa (RMM) até 700 e a resina Sephadex G-200 para
moléculas com RMM até 750000. Os géis de Sephadex são razoavelmente
polares e absorvem água (com considerável inchamento). Já os géis
reticulados baseados em poliacrilamidas (Bio-Gel) ou em poliestireno
(Styragel) além de serem completamente inertes em relação à água também
podem ser usados em sistemas formados por solventes orgânicos comuns,
tais como o tolueno e o cloreto de metileno. Veremos na Seção 8.2.4 o
aproveitamento de géis com exclusão pelo tamanho na separação de
moléculas grandes por cromatografia líquida. A exclusão pelo tamanho
também encontra aplicação na separação de moléculas pequenas,
notadamente gases, por cromatografia com fase gasosa. Neste caso, a fase
estacionária baseia-se em matrizes inorgânicas com orifícios de diâmetro
suficiente para separar moléculas pequenas de gases e é comumente
denominada peneira molecular.
Na cromatografia de exclusão por tamanho ou permeação em gel, as
moléculas grandes são sempre eluídas primeiro, seguindo-se
sucessivamente moléculas cada vez menores. Isto acontece porque as
moléculas pequenas podem penetrar mais profundamente nos orifícios do
gel e são mais fortemente retidas do que as moléculas maiores que não
podem fazer o mesmo. (É aqui que a analogia com as peneiras falha porque
no caso das peneiras são as partículas menores que passam mais
rapidamente.) Existe um estudo detalhado feito no caso da separação de
macromoléculas em que se compara a permeação em gel (onde as moléculas grandes eluem primeiro) e a eletroforese (onde as moléculas
menores deslocam-se mais rapidamente) [12].
Fig. 6.5 Estrutura parcial da resina Sephadex