Vogel: Análise Química Quantitativa
19.10 Interpretação dos espectros
Após decidir a melhor configuração dos componentes do espectrômetro de
massas e obter o espectro de massas da amostra, o analista precisa
interpretá-lo! A interpretação pode parecer complicada, à primeira vista,
mas se feita de modo sistemático ela fica mais fácil. No caso de amostras
orgânicas, o primeiro objetivo do analista é, idealmente, obter a fórmula
molecular, que pode levar à estrutura molecular e à identificação desejada.
Pode-se, obviamente, cortar caminho. A identidade perfeita entre o espectro
da amostra e o de uma substância padrão conhecida obtida nas mesmas
condições é, freqüentemente, prova suficiente da estrutura. Não há garantia
de que as duas substâncias são as mesmas, entretanto, porque isômeros de
posição diferentes podem levar aos mesmos esquemas de fragmentação.
Na sistemática da interpretação, a primeira e mais importante regra é que
o espectro de massas de uma única substância é sempre muito mais fácil de
interpretar do que o espectro combinado de uma mistura. Por isto, tente
obter a amostra mais pura possível ou separe a mistura antes de usar a
espectrometria de massas. Após obter o espectro de massas, o analista pode
usar uma das seguintes técnicas:
1. Uma técnica matemática, ou de “números”, para a identificação.
2. Seu conhecimento químico e das vias de fragmentação para escrever
uma estrutura possível.
3. A comparação entre um espectro obtido de uma biblioteca compilada e o
experimental.
Usualmente nenhuma destas técnicas, usadas isoladamente, leva à
identificação inequívoca. O melhor é combinálas de forma inteligente.
Antes disso, porém, vamos olhálas, separadamente, mais de perto.
19.10.1 A técnica matemática
A espectrometria de massas é um método de separar e caracterizar íons de
massas diferentes e isto pode ser feito com alta acurácia, mesmo para íons
que contêm isótopos diferentes, logo os dados da Tabela 19.1 podem ser um bom ponto de partida. Em princípio, o íon mais interessante é o íon
molecular porque fornece o peso molecular da espécie. A identificação do
íon molecular, entretanto, pode ser muito difícil. No caso de espectros EI, a
fragmentação pode ser tão extensiva que praticamente só os fragmentos
iônicos são registrados e a intensidade do íon molecular é muito baixa ou
ele nem é registrado. No caso de outros modos de ionização, o íon pode
aparecer como (M + 1)+ + ou (M – 1). No primeiro caso, a solução é diminuir
a energia de ionização (< 70 eV). Este procedimento diminui
consideravelmente a sensibilidade do experimento mas permite, com
freqüência, a identificação do íon molecular porque a fragmentação é
menos extensiva. O segundo problema, a observação de íons diferentes do
íon molecular, tem de ser resolvido com a prática do analista.
Neste estágio vamos definir o íon molecular como sendo “o íon de maior
massa de uma determinada espécie que contém todos os elementos
presentes na forma isotópica mais abundante”. Assim, o íon molecular do
diclorometano (Fig. 19.1) mostra um pico em m/z = 84 unidades que
corresponde a 12 1 35 C HCl , mas é evidente que outros picos estão próximos
2 2
deste valor, que também provêm do íon CH + Clporém têm composição
2 2
isotópica diferente e que o pico mais intenso (o pico base) ocorre em m/z =
49 unidades. Somente alguns elementos do interesse da química orgânica
são monoisotópicos (Tabela 19.1). Embora isto complique o aspecto geral
do espectro de massas, os picos de isótopos podem ser muito úteis na
identificação das estruturas. Os efeitos dos isótopos de C, H, N e O serão
examinados adiante quando estudarmos o íon molecular mais
detalhadamente, mas como o efeito de alguns isótopos é importante e muito
óbvio, vamos discuti-lo aqui.
Os efeitos de isótopos “pesados” mais comuns ocorrem em compostos
que contêm cloro, bromo, enxofre ou silício. Cloro e bromo têm dois
isótopos naturais e enxofre e silício têm três. Quando estiver estudando
organometálicos, entretanto, lembre-se de que muitos deles são
poliatômicos (Hg, por exemplo, tem sete isótopos naturais, todos com
abundância significativa).
Moléculas que contêm um átomo de cloro como o cloro-etano (Fig. 19.1)
têm dois picos na região do peso molecular separados por duas unidades de
massa que correspondem a algumas moléculas que contêm o isótopo cloro-
35 e outras que contêm o isótopo cloro-37. As intensidades destes dois
picos podem ser preditas a partir da abundância natural dos dois isótopos
(Tabela 19.1), mas é melhor, ao considerar este problema, expressar as
abundâncias como percentagens, atribuindo ao isótopo mais abundante a
percentagem 100. Isto significa que os dois picos em 64 e 66 unidades
devem ter intensidades na razão 100:32 ou cerca de 3:1. Como se pode ver
no espectro da Fig. 19.1, isto é exatamente o que se observa. Este arranjo de
picos de intensidades 3:1 separados por duas unidades é uma indicação
muito boa da presença de um átomo de cloro na molécula. Os picos em 49 e
51 unidades observados na Fig. 19.1 mostram que isto não se aplica apenas
ao íon molecular, mas também a todos os fragmentos que contêm um átomo
de cloro. No caso de bromo, o arranjo é de dois picos com
aproximadamente a mesma intensidade (100:98), separados por duas
unidades de massa. Como o flúor e o iodo são monoisotópicos, eles não dão
um arranjo característico semelhante.
É fácil calcular as intensidades esperadas quando os íons têm mais de um
átomo de cloro. Em geral, acha-se o arranjo dos isótopos fazendo a
expansão da expressão binomial (a+ b)n, onde a é a abundância do isótopo
mais leve, b é a abundância do isótopo mais pesado e n é o número de
átomos do elemento no íon. Assim, pode-se prever que no caso de dois
átomos de cloro, deve-se observar picos em M, (M + 2) e (M + 4) com
intensidades relativas 9:6:1, que podem ser vistos em 84, 86 e 88 unidades
no dicloro-metano. Esta expressão geral pode ser estendida para o caso
mais geral de dois elementos poliisotópicos diferentes em um fragmento
usando (a + b)n(c+ d)m, onde c, d e m referem-se ao segundo elemento.
Existem programas de computador que calculam estas intensidades com
acurácia e, em muitos casos, fazem parte dos programas de operação
padronizados fornecidos com o instrumento.
A técnica matemática pode também ser útil no caso de substâncias que
contêm somente os elementos comuns em compostos orgânicos, C, H, N e O. Muitos livros-texto ensinam que devido à presença de 13C em todas as
moléculas orgânicas, deve-se esperar encontrar um pico com uma unidade
de massa acima do íon molecular cuja intensidade normalizada, sendo o íon
molecular de 12C igual a 100, é igual a 1,15 vez o número de átomos de
carbono. Isto permite o cálculo aproximado do número de átomos de
carbono de uma molécula: basta medir as intensidades do íon molecular e
do íon (M + 1). (Isto só se aplica, entretanto, para modos de ionização em
que os íons (M + 1) não se formam no processo de ionização.) No caso de
moléculas que só contêm um dos quatro elementos acima, é mais acurado
calcular as intensidades relativas por meio das expressões
para todas as moléculas de fórmula C wHxNyOz.
Se o íon molecular puder ser identificado, é possível obter o peso
molecular e medir as intensidades dos íons (M + 1) e (M + 2). Existem
tabelas que relacionam as possíveis estruturas moleculares para todas as
combinações possíveis destes quatro elementos até m/z = 500 unidades,
bem como as intensidades relativas das duas massas que estão acima do íon
molecular. Isto permite reduzir o número de alternativas possíveis para a
molécula até um número relativamente pequeno [14].
Esta técnica é ideal para o uso de computadores e existem programas que
fazem estes cálculos para um dado íon molecular com relativa facilidade. A
Tabela 19.4 mostra um cálculo típico em que todas as possíveis
combinações de C, H, N e O para a massa 100 foram incluídas,
considerando-se apenas os valores 12, 1, 14 e 16 e incluindo algumas
restrições, destinadas a remover anomalias evidentes tais como H 100. A aplicação de regras de valência para cada átomo reduzem a lista até um
número razoável de estruturas prováveis. Esta técnica simples leva a apenas
10 fórmulas moleculares possíveis para a massa 100. A regra do nitrogênio (Seção 19.10.2) é uma conseqüência destas regras de valência. Regras
químicas simples mostram que algumas combinações não são razoáveis.
As intensidades de (M + 1) e (M + 2) destas moléculas também são
listadas. Observe que para um íon molecular com m/z = 100 u com
intensidades 6,9 e 0,2 considerando o íon molecular = 100, a fórmula mais
provável é C6H12O. Infelizmente, pelo menos 19 estruturas diferentes são conhecidas para esta fórmula, mas pelo menos as possibilidades estruturais
foram drasticamente reduzidas. (O índice de oito picos da Wiley relaciona
122 possibilidades para a massa 100 u.) É sempre possível obter o espectro
em alta resolução, com a massa do íon molecular tendo resolução de
algumas partes por milhão, isto é, 0,0001 u, e isto torna a identificação mais
positiva. Usando as massas acuradas tabeladas para cada isótopo, pode-se
calcular a massa exata até quatro casas decimais para uma das combinações
da massa nominal 100 u. Isto mostra que cada combinação tem massa
diferente e no exemplo escolhido (massa 100,0888 unidades), o cálculo
mostra que a fórmula provável deduzida a partir das medidas de baixa
resolução muito provavelmente está correta.
Uma fórmula que usa as massas acuradas dos quatro elementos mais
comuns em moléculas orgânicas é
que pode ser usada se dados de alta resolução estiverem disponíveis. Os
programas de computador de alguns instrumentos incluem os algoritmos
necessários para muitos destes cálculos. Porém, nem sempre é possível
medir a massa acurada, mesmo quando se pode usar um espectrômetro de
alta resolução, porque a medida é muito demorada, especialmente no caso
de técnicas associadas como CGMS. Se a resolução é moderada, o uso da
técnica não é possível.
Tabela 19.4 a Fórmulas possíveis para a massa 100 (geradas por computador)
Compostos possíveisbcom massa = 100 (sem regras de valência)
C H N O C H O C H N 2 2 3 2 4 4 3 5 122
C2H4N4O C4H6NO2 C6H12O
C H NO C H N O C H N 3 2 3 4 8 2 6 14
C3H4N2O2 C4H10N3 C7H16
C H N O C H O C H N 3 6 3 5 8 2 7 2
C3H8N4 C5H10NO C8H4
Compostos prováveisc(usando as regras de valência)
intensidades d
Composto Massa M M + 1 M + 2
acurada
C H N O 100,038511 100 3,7038 0,0329 2 4 4
C3H4N2O2 100,027278 100 4,0702 0,4236
C H N 100,074896 100 4,9330 0,0552 3 8 4
C4H4O3 100,01604 100 4,5561 0,6037
C H N O 100,063683 100 5,2994 0,0391 4 8 2
C5H8O2 100,05243 100 5,6658 0,5286
C H N 100,100048 100 6,4686 0,1755 5 12 2
C6H12O 100,088815 100 6,8350 0,1965
C H 100,1252 100 8,0042 0,2720 7 16
C8H4 100,0313 100 8,8733 0,3445
a Os programas de computador foram desenvolvidos por R. J. Barnes. b Compostos possíveis são todas as combinações de CwHxNyOzque dão massa nominal 100, desde que as condições × >1, y < 4, z < 4, × < 2w + y + 2 sejam obedecidas. cCompostos prováveis são encontrados com o auxílio de um algoritmo que encontra todos os compostos legítimos de uma certa massa nominal que também obedecem as regras de valência.
d As intensidades de pico relativas são encontradas com o auxílio de um algoritmo que expande os termos polinomiais completos de probabilidade. Todos os valores de massas e
abundâncias estão na Tabela 19.1.
Um outro guia, também baseado nas propriedades numéricas dos átomos
do íon, é igualmente útil quando se têm dados de alta resolução. Muitos
elementos encontrados em moléculas orgânicas têm massas atômicas
ligeiramente superiores a um número inteiro, isto é, eles têm “excesso” de
massa, mas flúor e iodo, que são monoisotópicos, têm massas ligeiramente
inferiores a um número inteiro, isto é, têm “deficiência” de massa, que
permite sua fácil identificação quando a massa é medida com acurácia. Isto
explica também o uso de perfluoro-querosene como material de calibração,
especialmente em alta resolução, em que seus fragmentos, numerosos e
espalhados por uma grande faixa de massas, podem ser distinguidos
facilmente dos fragmentos da maior parte dos compostos.
19.10.2 Interpretação química Mesmo quando se mede acuradamente a massa de íons isolados ou de
pequenos grupos de isótopos, o resultado não dá informações sobre as
estruturas químicas correspondentes a uma determinada fórmula molecular.
Para isso, o analista tem de interpretar os picos principais do espectro de
massas. A excelência da interpretação depende da prática do analista, mas,
com a ajuda da química orgânica, algumas “regras” podem ajudar a
simplificar a tarefa. O ponto de partida é novamente, quando possível, o íon
molecular que é sempre uma espécie com número ímpar de elétrons e
massa molecular par, para C, H, O e N, exceto se contiver um número
ímpar de nitrogênios. Em sua forma mais simples, esta regra do nitrogênio
estabelece que moléculas com número ímpar de átomos de nitrogênio têm
massa molecular ímpar e aquelas com número par de átomos de nitrogênio
(inclusive 0) têm massa molecular par. Não há exceções e, por isso, a regra
é um guia útil na identificação de nitrogênio em moléculas, bem como uma
maneira de verificar se o íon molecular foi corretamente identificado.
Quando a ionização é feita com elétrons de 70 eV, o íon molecular
inicialmente formado tem energia em excesso e, como a maior parte das
ligações de compostos orgânicos tem energia entre 10 e 12 eV, é muito alta
a probabilidade de que o íon molecular sofra fragmentação em espécies
menores carregadas ou fragmentos ionizados que são observados no
espectro de massas. O mecanismo exato da fragmentação depende de
muitos fatores e não daremos maiores explicações por enquanto, exceto que
as fragmentações normalmente ocorrem por uma das seguintes maneiras:
1. A carga e o elétron desemparelhado ficam em um dos fragmentos e uma
molécula neutra é eliminada. Isto só é possível se ocorrer rearranjo do
íon imediatamente antes da fragmentação.
2. Ocorre quebra de ligações simples para dar um fragmento catiônico e um
radical neutro. Este processo, que dá um íon com número par de
elétrons, pode continuar, dando fragmentos cada vez menores até que o
excesso de energia se dissipe.
Os dois caminhos podem ser mostrados esquematicamente como:
O espectro de massas da maior parte dos íons contém, portanto, um íon
molecular de massa par com fragmentos predominantemente de massa
ímpar, a menos que ocorra um rearranjo. O fragmento que é eliminado da
molécula original depende das energias relativas das ligações da molécula e
de fatores de estabilização, como a conjugação, que ocorrem nos
fragmentos que podem se formar. O conhecimento da química orgânica das
espécies é útil, portanto, na predição das vias de fragmentação da molécula.
Se heteroátomos estiverem presentes, a quebra na ligação com o carbono
adjacente é muito provável. Isto ocorre porque o elétron é facilmente
abstraído do par de elétrons desemparelhado. Se a molécula tem
ramificações, pode-se predizer que a quebra ocorrerá no átomo de carbono
da ramificação, ficando a carga com o fragmento mais ramificado. As
ligações carbono-carbono são mais fracas, em geral, do que as ligações
carbono-hidrogênio e, em conseqüência, no caso de hidrocarbonetos
saturados a fragmentação ocorre por perda de CnH n 2+1.
Estas regras simples devem, entretanto, ser usadas com cuidado porque
até mesmo a fragmentação de moléculas simples leva a um espectro complicado devido à fragmentação primária, à fragmentação secundária
(íons secundários) e a rearranjos de fragmentos. Este último fenômeno, nem
sempre completamente entendido, dá, freqüentemente, fragmentos, que em
muitos casos são característicos. O exemplo mais comum é o íon muito
intenso com m/z = 91 u observado em moléculas aromáticas que têm uma
cadeia lateral de carbonos. A quebra inicial dá C + H CH que se estabiliza
6 5 2
por ressonância como o íon tropílio, C + H:
7 7
Outro rearranjo muito importante e útil na diagnose é o rearranjo de
McLafferty, cujo nome se deve ao espectroscopista que primeiro o
reconheceu em ésteres metílicos [15]. Vamos usar o mesmo exemplo mas o
processo pode ocorrer em qualquer molécula com um hidrogênio γ em
relação a um heteroátomo em ligação dupla, como —C = O, —S = O ou —
P = O.
Observe que seis centros estão envolvidos e o fragmento iônico, o enol com
m/z = 74 unidades, se forma a partir de qualquer éster metílico cuja cadeia
tem mais de três carbonos. O pico de McLafferty, que ocorre sempre na
massa 74 u, é um pico intenso porque o processo é favorável
energeticamente. O pico de rearranjo é, portanto, característico de todos os
ésteres metílicos. O processo ocorre com muitos compostos que têm uma
relação de seis centros, cada classe de compostos dando origem a um pico
de McLafferty de massa característico (Tabela 19.5). Os fragmentos iônicos
têm massa oposta (par ou ímpar) à dos fragmentos produzidos diretamente. Assim, para moléculas que contêm C, H e O, e fragmentos
predominantemente ímpares, os fragmentos de McLafferty têm massa par e
podem ser localizados mais facilmente. Quando as moléculas contêm
número ímpar de átomos de nitrogênio, os fragmentos têm massa ímpar.
Embora as vias de fragmentação características de moléculas diferentes
só possam ser bem compreendidas com a experiência, dois tipos de
tabulação são freqüentemente úteis quando se tenta interpretar um espectro
de massas desconhecido:
Tabela de fragmentos iônicos comuns A Tabela 19.5 pode ajudar no
diagnóstico de grupos particulares, mas ela deve ser usada com cuidado
porque é seletiva e muitos compostos diferentes podem dar fragmentos
semelhantes.
Lista de fragmentos eliminados comuns A Tabela 19.6 lista alguns
fragmentos comumente eliminados do íon molecular. Ela é muito útil, se
usada com cuidado, porque agora o problema é examinado do outro lado
da escala de massas. Em vez de identificar um íon de uma dada massa
(freqüentemente muito pequena), a Tabela 19.6 permite que o
espectroscopista procure, a partir do íon molecular, picos que estejam em
uma massa menor predeterminada que pareça provável em determinado
caso. De novo, a tabela é seletiva, mas observe que não existem
fragmentos eliminados comuns de massa entre 2 e 14 unidades e se
algum pico com estas características for observado, muito provavelmente
o íon molecular não foi identificado corretamente.
A técnica de contar para baixo a partir do íon molecular é um processo
matemático muito útil porque ajuda a determinar uma estrutura
desconhecida. Ele deve, porém, ser feito sempre começando a contagem, a
cada vez, no íon molecular e não passando de um fragmento para o outro. A
interpretação química ainda se baseia em uma técnica matemática, porém
ela está apoiada em conceitos mecanísticos da química orgânica.
19.10.3 Correlações entre espectros e espectros comparados por computador
Embora possa ser muito interessante interpretar o espectro a partir de
primeiros princípios usando as sugestões dadas anteriormente (Seções
19.10.1 e 19.10.2), problemas de tempo e custo exigem outros
procedimentos. Uma opção interessante é comparar o espectro de massas de
uma amostra de estrutura desconhecida com os espectros de uma biblioteca,
especialmente se o espectro está em um formato que permite a leitura por
computador. Isto permite a comparação rápida com um número elevado de
espectros depositados nas várias bibliotecas disponíveis antes da escolha da
melhor solução. As bibliotecas mais comumente usadas são a biblioteca de
espectros de massas da Wiley, com 130 000 espectros, e a da NIST, com 62
000 espectros [7]. Hoje, até espectrômetros de massa de preços
relativamente baixos são capazes de consultar todos os espectros destas
duas bases em alguns segundos. Há, entretanto, limites mesmo para os
programas mais avançados. De fato, 200 000 espectros pode parecer um
número muito elevado, mas eles representam apenas 10% de todos os
compostos orgânicos conhecidos. É claro, também, que estas bibliotecas
não podem conter os espectros de todos os novos compostos produzidos
pelo laboratório do analista, embora muitas delas disponham de um
conjunto de arquivos que permitem a inclusão de novos compostos no
acervo da biblioteca principal.
Tabela 19.5 Fragmentos iônicos comuns
Valor de m/z Íons comumente Inferências possíveis
associados com
a massa
15 −
18 −
26 −
27 −
28 −
29 −
30 Aminas
Nitrocompostos
31 Álcoois primários
36/38 (3:1) Compostos de cloro
39 −
40 −
41 −
Nitrilas alifáticas
43 Compostos contendo propila
Compostos contendo acetila (metilcetonas,
por exemplo)
Aminas alifáticas
Amidas primárias
45 Éter metílico
Álcoois
47 Tiocompostos
50 Compostos aromáticos
51 Compostos aromáticos
55
56
57 Compostos contendo butila
Etilcetonas, ésteres propanoato
58 a Cetonas
Aminas
59 Ésteres metílicos
Amidas primáriasa
C H CH(OH)—R 2 5
Éter
60 Ácidos carboxílicos, a açúcares
61 Acetatos de alquila
Tiocompostos
65 Compostos aromáticos
66
69 Fluorocarbonetos
70
71 C H —R 5 11
Propilcetonas, ésteres de butila
72 Cetonas
Aminas
73 Álcool, éter
Derivados de trimetil-silila
Ésteres de etila
74 a Ésteres de metilaÁcidos carboxílicos
75 Benzenos dissubstituídos
Trimetil-silil-éter
76 Derivados de benzeno
77 Benzenos monossubstituídos
78 Benzenos monossubstituídos
79/81 (1:1) Compostos de bromo
80/82 (1:1) Compostos de bromo
83/85/87(9:6:1) Clorofórmio
85 C H CO—R 4 9
91 Compostos aromáticos (possivelmente
benzílicos)
92 Piridinas substituídas
91/93 (3:1) Cloretos de alquila
93/95 (1:1) Compostos de bromo
94 C H O—R 6 5
99 Etilenocetal
105 Compostos de benzoíla
122 Benzoatos de alquila
123 Benzoatos de alquila
127 Compostos de iodo
128 Compostos de iodo
135/137 (1 :1) Compostos de bromo
141 Compostos de iodo
147 Trimetil-silil-éter
149 Ftalatos de dialquila
a Fragmento de McLafferty.