Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 1 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Prefácio

Nesta edição, como nas anteriores, nos propusemos a explicar o que os

medicamentos fazem com relação aos mecanismos pelos quais eles atuam.

Isso inclui a análise não somente nos níveis celular e molecular em que o

conhecimento e as técnicas estão avançando velozmente, mas também no

nível dos mecanismos fisiológicos e dos distúrbios patológicos. As raízes da

farmacologia encontram-se na terapêutica, cujo objetivo é aliviar os efeitos

das doenças. Por isso tentamos interligá-los nos níveis molecular e celular

com a gama de efeitos benéficos e adversos que o ser humano experimenta

quando faz uso de fármacos, seja por motivos terapêuticos ou outras razões.

Os agentes terapêuticos têm elevada taxa de obsolescência. Na década de

2008 a 2017, 301 novos fármacos obtiveram aprovação regulatória para o

uso como agentes terapêuticos. A maioria explora os mesmos alvos

moleculares de fármacos já em uso. O conhecimento dos mecanismos de

ação da classe de fármacos à qual pertence um novo agente é um bom ponto

de partida para entender e utilizar um novo composto de maneira

inteligente.

De modo significativo, no entanto, um terço destes recém-chegados são

fármacos “com mecanismo de ação singular”. Ou seja, eles atuam em novos

alvos moleculares não previamente explorados para fins terapêuticos e,

portanto, provavelmente produzirão efeitos não descritos antes. Nem todos serão bem-sucedidos clinicamente, mas alguns estimularão o

desenvolvimento de compostos posteriores aprimorados do mesmo tipo.

Além disso, cerca de um quarto dos novos compostos são “biofármacos” –

principalmente proteínas produzidas pela bioengenharia, e não pela química

sintética. Estão crescendo em importância como agentes terapêuticos e, em

geral, têm características um pouco diferentes dos fármacos convencionais,

e serão abordados em um capítulo revisado. A taxa muito alta de inovação

na descoberta de medicamentos é uma mudança recente – e muito bem-

vinda – devido, em grande parte, aos rápidos avanços na biologia molecular

e celular que tiveram origem no sequenciamento do genoma humano em

2003. Nós tentamos atingir um equilíbrio entre a necessidade de

acompanhar estes desenvolvimentos modernos e o perigo de sobrecarga de

informação. Nossa ênfase está em explicar os princípios gerais subjacentes

à ação dos fármacos, que se aplicam tanto aos antigos como aos novos, e

descrever mais detalhadamente as ações e mecanismos dos fármacos já

estabelecidos e familiares, incluindo referências que abrangem

desenvolvimentos modernos e futuros.

A farmacologia é uma disciplina científica viva com direito próprio,

com uma importância que vai além de proporcionar uma base para o uso de

fármacos na terapia, e o nosso objetivo é oferecer um conhecimento sólido

não apenas para os futuros médicos, mas também para cientistas de outras

disciplinas que precisem entender como os fármacos atuam. Descrevemos,

portanto, sempre que for o caso, como os fármacos são utilizados como

sondas para a elucidação de funções celulares e fisiológicas, para melhorar

nossa compreensão de como o corpo humano funciona normalmente e o

que está errado na doença, mesmo quando os compostos não têm uso

clínico. Além das aplicações terapêuticas, os medicamentos têm outros impactos na sociedade, que abordamos em capítulos sobre substâncias

psicoativas, uso abusivo de drogas e uso de drogas no esporte.

Os nomes de fármacos e substâncias químicas correlatas são

estabelecidos pelo uso e, algumas vezes, apresentam mais de uma

denominação de uso comum. Para efeitos de prescrição, é importante o uso

de denominações padrões, e procuramos aqui seguir ao máximo a lista de

medicamentos genéricos da Organização Mundial da Saúde. Por vezes,

essas denominações confrontam-se com certos nomes familiares (p. ex., o

mediador endógeno prostaglandina I2, ou prostaciclina – que são os nomes padrões na literatura científica – recebe o nome de “epoprostenol”, uma

denominação não familiar para a maioria dos cientistas). Nestes casos,

geralmente adotamos a nomenclatura científica convencional.

A ação de um fármaco somente pode ser compreendida no contexto do

restante dos acontecimentos no organismo. Por isso, no início da maioria

dos capítulos, introduzimos uma breve discussão sobre os processos

fisiológicos e bioquímicos relevantes para a ação dos fármacos descritos.

Foram incluídas as estruturas químicas dos medicamentos apenas quando

essa informação ajuda na compreensão das suas características

farmacológicas e farmacocinéticas.

A organização geral do livro foi mantida, com seções abrangendo: (1)

os princípios gerais da ação dos fármacos; (2) os mediadores químicos e os

mecanismos celulares com os quais os fármacos interagem de modo a

produzir seus efeitos terapêuticos; (3) a ação de fármacos sobre sistemas

orgânicos específicos; (4) a ação de fármacos sobre o sistema nervoso; (5) a

ação de fármacos usados no tratamento de doenças infecciosas e do câncer;

e (6) uma variedade de tópicos especiais como as reações adversas, os usos

não medicinais dos fármacos etc. Essa organização reflete nossa crença de

que a ação dos fármacos precisa ser entendida não apenas como uma descrição dos seus efeitos individuais e seu uso, mas no sentido de uma

intervenção química que perturba a rede de sinais químicos e celulares que

estão por trás da função de qualquer organismo vivo. Além de atualizar

cada capítulo, acrescentamos novos materiais sobre biofármacos e medicina

personalizada, tópicos de particular interesse atual. No Capítulo 48 foi

incluído material atualizado adicional sobre fármacos que melhoram a

cognição.

Apesar de a farmacologia, assim como outros segmentos da ciência

biomédica, estar em constante avanço graças à aquisição de novas

informações, ao desenvolvimento de novos conceitos e à introdução de

novos medicamentos para uso clínico, evitamos expandir a nona edição em

relação à anterior, eliminando dados e material obsoleto. Além disso, fez-se

uso extensivo de texto em letras menores para abranger informações mais

especializadas e especulativas que não sejam essenciais para a compreensão

da mensagem-chave, mas que virão, provavelmente, a ser úteis para os

estudantes que procuram aprofundar o conhecimento. Na seleção do novo

material a ser incluído, levamos em consideração não apenas agentes novos,

mas também recentes acréscimos ao conhecimento básico que

fundamentam o desenvolvimento de novos fármacos. Além disso, sempre

que possível, fornecemos um breve esboço de novos tratamentos a

caminho. As listas de referências são, em grande parte, restritas a

orientações sobre leitura adicional, juntamente com artigos de revisão que

listam trabalhos originais importantes.

Finalmente, esperamos conseguir transmitir algum do nosso próprio

entusiasmo pela ciência e importância da farmacologia no mundo moderno.

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