Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 19 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Agonistas parciais como antagonistas

de expressão do receptor), um agonista parcial em outro (baixo nível de

expressão do receptor), e mesmo um antagonista em outro (nível muito

baixo de expressão do receptor). O termo “agonista parcial” é, portanto,

aplicável somente ao descrever a ação de um fármaco em um tecido ou

tipo de célula específico.

Para receptores acoplados à proteína G, a elucidação de suas estruturas

por cristalografia de raios X (descrita no Capítulo 3) e a aplicação de

simulações de dinâmica molecular de ligação de fármacos estão

começando a questionar a base molecular da ativação de receptores e a

razão pela qual alguns ligantes são agonistas e alguns são antagonistas.

Para estudantes que começam a estudar a farmacologia, o modelo

teórico simples de dois estados descrito a seguir fornece um ponto de

partida útil.

 

AGONISTAS PARCIAIS COMO ANTAGONISTAS

Ao discutir a eficácia dos agonistas parciais anteriormente, considerou-se a

situação na qual o tecido foi exposto apenas a um único fármaco, o agonista

parcial. É necessário considerar também como a presença de um agonista

parcial iria alterar a resposta de um tecido a um agonista de eficácia

superior. Este exemplo é mostrado na Figura 2.8, em que se pode observar

que a presença do agonista parcial induz algum nível de resposta

dependente da concentração inicialmente aplicada. Entretanto, uma vez que

o agonista parcial compete com o agonista pleno para se ligar aos

receptores, a sua baixa efetividade o torna um antagonista competitivo,

deslocando a curva de concentração-resposta do agonista pleno para a

direita. Isso não é apenas um ponto teórico mal definido, mas algo que

ocorre na prática clínica. No tratamento de consumidores de heroína, a

buprenorfina, um agonista parcial fraco, não só atua como um opiáceo fraco substituto, mas também como um antagonista, e reduz a probabilidade de

superdosagem quando os consumidores têm recaída e consomem heroína

novamente (ver Capítulo 50).

 

Figura 2.8 Curvas hipotéticas de concentração-resposta para um agonista pleno na

ausência e na presença de concentrações crescentes de um agonista parcial. O agonista parcial terá ação agonista e, portanto, a resposta inicial aumenta à medida que a concentração do agonista parcial cresce, chegando a um máximo igual à resposta máxima do agonista parcial. No entanto, quando o agonista pleno é adicionado na presença do agonista parcial, sua curva de concentração-resposta é deslocada para a direita.

 

Ativação constitutiva de receptores e agonistas inversos

▼ Embora estejamos acostumados a pensar que os receptores são

ativados apenas quando a molécula de um agonista se liga a eles, há

exemplos (ver De Ligt et al., 2000) em que pode ocorrer um nível

apreciável de ativação mesmo na ausência de ligantes (ativação

constitutiva). Esses exemplos incluem os receptores para

benzodiazepínicos (ver Capítulo 45), canabinoides (ver Capítulo 20),

serotonina (ver Capítulo 16) e alguns outros mediadores. Além disso, ■ Modelo dos dois estados do receptor

ocorrem mutações nos receptores – tanto espontâneas, em algumas

condições patológicas (Bond e Ijzerman, 2006), quanto

experimentalmente induzidas (ver Capítulo 4) – que resultam em

substancial ativação constitutiva. Se um ligante reduz o nível de

ativação constitutiva, tais fármacos recebem a denominação de

agonistas inversos (Figura 2.9; De Ligt et al., 2000) para distingui-los

dos antagonistas neutros, que, por si sós, não afetam o nível de

ativação. Os agonistas inversos podem ser considerados fármacos com

eficácia negativa, o que os diferencia dos agonistas (eficácia positiva) e

dos antagonistas neutros (eficácia zero). Antagonistas neutros, ao se

ligarem ao ponto de ligação do agonista, vão antagonizar tanto agonistas

como agonistas inversos. O agonismo inverso foi inicialmente

observado no receptor da benzodiazepina (ver Capítulo 45), mas tais

fármacos são pró-convulsivos e, então, não são úteis para terapia. Novos

exemplos de receptores constitutivamente ativos e de agonistas inversos

estão surgindo com frequência crescente (principalmente entre os

receptores acoplados à proteína G). Pimavanserina, um agonista

inverso do receptor 5-HT2A, foi recentemente desenvolvido para o

tratamento da psicose associada à doença de Parkinson (ver Capítulos

41 e 47). Aparentemente, a maioria dos antagonistas utilizados na

clínica é, na verdade, composta por agonistas inversos quando testados

em sistemas que revelam a ativação constitutiva de receptores. Contudo,

a maior parte dos receptores – como os gatos – mostra preferência pelo

estado inativo e, por isso, não há diferença prática entre um antagonista

competitivo e um agonista inverso. A seção a seguir descreve um

modelo simples que explica o agonismo pleno, parcial e inverso em

termos da afinidade relativa de diferentes ligantes pelos estados de

repouso e ativado do receptor.

▼ Como ilustrado na Figura 2.1, tanto os agonistas quanto os

antagonistas ligam-se a receptores, mas apenas os agonistas os ativam.

Como podemos expressar essa diferença, e levar em consideração a

atividade constitutiva, em termos teóricos? O modelo dos dois estados

(Figura 2.10) fornece uma abordagem simples, mas útil. Conforme

mostrado na Figura 2.1, prevemos que o receptor ocupado é capaz de

passar de um estado de “repouso” (R) para um estado ativado (R*),

sendo o R* facilitado pela ligação de uma molécula de um agonista,

mas não de uma molécula de um antagonista.

Como já descrito, os receptores podem apresentar uma ativação

constitutiva (i. e., a conformação R* pode ocorrer sem que qualquer

ligante se una aos receptores), assim o fármaco administrado encontra

uma mistura com equilíbrio entre R e R* (ver Figura 2.10). Se o

fármaco tiver maior afinidade por R* do que por R, causará um

deslocamento no equilíbrio na direção de R* (i. e., o fármaco

promoverá a ativação do receptor e será classificado como agonista). Se

a preferência do fármaco por R* for muito grande, quase todos os

receptores ocupados adotarão a conformação R*, e esse fármaco será

um agonista pleno; se o fármaco mostrar apenas seletividade moderada

por R* (digamos, cinco a dez vezes), uma proporção menor dos

receptores ocupados irá adotar a conformação R*, e este será um

agonista parcial; se ele não mostrar nenhuma preferência, o equilíbrio

R:R* vigente não será perturbado, e esse fármaco será um antagonista

competitivo (eficácia zero), ao passo que, se preferir R, deslocará o

equilíbrio em direção a R e será um agonista neutro (eficácia negativa).

Em consequência, é possível considerar a eficácia como uma

propriedade determinada pela afinidade relativa de um ligante por R e

R*, uma explicação conhecida como hipótese dos dois estados, que é

bastante útil, visto que propõe uma interpretação física para o

significado normalmente misterioso da eficácia, além de explicar a

existência de agonistas inversos.

 

Agonismo tendencioso

O modelo dos dois estados apresenta um problema importante: como

sabemos agora, os receptores não estão, de fato, restritos a dois estados

distintos, mas apresentam uma flexibilidade conformacional muito maior,

de modo que há mais do que apenas uma conformação inativa e outra ativa.

As diferentes conformações que os receptores são capazes de adotar podem

ser preferencialmente estabilizadas por diferentes ligantes, produzindo

diferentes efeitos funcionais pela ativação de vias distintas de transdução de

sinal (ver Capítulo 3).

 

Figura 2.9 Agonismo inverso. Interação de um antagonista competitivo com agonistas normais e agonistas inversos em um sistema que mostra a ativação dos receptores na ausência de quaisquer ligantes adicionados (ativação constitutiva). A. O grau de ativação dos receptores (escala vertical) aumenta na presença de um agonista (quadrados vazios) e diminui na presença de um agonista inverso (círculos vazios). A adição de um antagonista competitivo desloca ambas as curvas para a direita (símbolos cheios). B. Sozinho, o antagonista não altera o nível de atividade constitutiva (símbolos vazios), porque tem uma afinidade igual pelos estados ativo e inativo dos receptores. Na presença de um agonista (quadrados cheios) ou de um agonista inverso (círculos cheios), o antagonista restaura o sistema no sentido do nível constitutivo de atividade. Esses dados (reproduzidos com permissão de Newman-Tancredi A et al., 1997. Br. J. Pharmacol. 120, 737–739) foram obtidos com receptores para 5-hidroxitriptamina (5-HT) humanos clonados, expressos em uma linhagem de células. (Agonista, 5-carboxamidotriptamina; agonista inverso,

espiperona; antagonista, WAY 100635; concentração do ligante [M = mol/l]; ver Capítulo 16 para mais informações acerca da farmacologia dos receptores de 5-HT.)

 

Figura 2.10 Modelo dos dois estados. A figura mostra um receptor em dois estados conformacionais, repouso (R) e ativado (R*), presentes em equilíbrio. Em geral, quando não há nenhum ligante, o equilíbrio está bastante deslocado para a esquerda, havendo poucos receptores no estado R*. Quanto aos receptores constitutivamente ativos, uma proporção apreciável adota a conformação R* na ausência de qualquer ligante. Os agonistas têm uma afinidade mais alta por R* do que por R e, assim, deslocam o equilíbrio para a direita, na direção R*. Quanto maior for a afinidade relativa por R* em relação a R, maior será a eficácia do agonista. O agonista inverso tem maior afinidade por R do que por R* e, desse modo, desloca o equilíbrio para a esquerda. Um antagonista neutro tem afinidade igual por R e R*, por isso, por si só, não consegue afetar o equilíbrio conformacional, mas é capaz de reduzir, por meio de competição, a ligação de outros ligantes.

Os receptores acoplados a sistemas de segundo mensageiro (ver

Capítulo 3) podem acoplar-se a mais do que uma via intracelular efetora,

desencadeando duas ou mais respostas simultâneas. Seria possível esperar

que todos os agonistas que ativam o mesmo tipo de receptores evocassem a

mesma sequência de respostas (Figura 2.11A). No entanto, está claro que

diferentes agonistas podem exibir tendência para gerar uma resposta em vez

de outra, ainda que estejam atuando no mesmo receptor (Figura 2.11B),

provavelmente porque estabilizam diferentes estados ativados do receptor

(Kelly, 2013). O conceito de agonista tendencioso tem se tornado

importante em farmacologia.

No entanto, a redefinição e a tentativa de medir a eficácia dos agonistas

em um modelo de multiestados como este são problemáticas, exigindo a

elaboração de um modelo de transição de estados mais complicado do que o

descrito. Os erros, os imprevistos e um possível sentido têm sido descritos

por Kenakin e Christopoulos (2013).

 

Modulação alostérica

▼ Além do local de ligação do agonista (agora referido como local ou

ponto de ligação ortostérico), no qual os antagonistas competitivos

também se ligam, as proteínas dos receptores apresentam muitos outros

locais de ligação (alostéricos, ver Capítulo 3) através dos quais os

fármacos podem influenciar a função do receptor de várias maneiras:

aumentando ou diminuindo a afinidade dos agonistas pelo local de

ligação do agonista, modificando a eficácia, ou produzindo eles mesmos

uma resposta (Figura 2.12). Dependendo da direção do efeito, os

ligantes podem ser antagonistas alostéricos ou facilitadores alostéricos

do efeito agonista, e o efeito pode ser a alteração da inclinação ou o

efeito máximo na curva log da concentração-efeito do agonista (ver

Figura 2.12). Recentemente, esse tipo de modulação alostérica da

função do receptor vem atraindo muita atenção e ocorre em diferentes

tipos de receptores (ver revisão por Changeux e Christopoulos, 2016).

Exemplos bem conhecidos de facilitação alostérica incluem glicina nos

receptores NMDA (ver Capítulo 39), benzodiazepinas nos receptores

GABAA (ver Capítulo 45) e cinacalcete no receptor Ca2+ (ver Capítulo

37). Uma razão pela qual a modulação alostérica pode ser importante

para o farmacologista e para o desenvolvimento futuro de fármacos é o

fato de que, entre as famílias de receptores, como os receptores

muscarínicos (ver Capítulo 14), os locais de ligação ortostéricos são

muito similares, e tem sido difícil desenvolver agonistas e antagonistas

seletivos para subtipos individuais. A esperança é que exista maior

variação nos locais alostéricos e que seja possível desenvolver ligantes

alostéricos receptor-seletivos. Além disso, os moduladores alostéricos

positivos vão exercer seus efeitos apenas em receptores que estão sendo

ativados por ligantes endógenos, e não naqueles que não estão ativados.

Isso pode fornecer um grau de seletividade (p. ex., potencializando a

inibição espinal mediada por opioides endógenos; ver Capítulo 43) e

uma redução no perfil de efeitos colaterais.