Rang e Dale: Farmacologia
45 Fármacos Ansiolíticos e Hipnóticos
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Neste capítulo discutimos a natureza da ansiedade e os fármacos usados
para tratá-la (fármacos ansiolíticos), assim como os fármacos utilizados
para tratar a insônia (fármacos hipnóticos). Historicamente, havia
sobreposição entre esses dois grupos que frequentemente causavam um
grau de sedação e sonolência. Os novos fármacos ansiolíticos têm muito
menos efeito sedativo, e outros fármacos hipnóticos foram introduzidos sem
os efeitos ansiolíticos. Muitos dos fármacos utilizados para tratar a
ansiedade foram desenvolvidos primeiramente, e são ainda utilizados para
tratar outros transtornos como a depressão (ver Capítulo 48), a epilepsia
(ver Capítulo 46) e a esquizofrenia (ver Capítulo 47). Neste capítulo iremos
nos concentrar no seu uso como ansiolíticos.
NATUREZA DA ANSIEDADE E SEU TRATAMENTO
A resposta normal a estímulos ameaçadores engloba vários componentes
que incluem comportamentos de defesa, reflexos autonômicos, despertar e
alerta, secreção de corticosteroides e emoções negativas. Nos estados de
ansiedade, essas reações ocorrem de maneira antecipatória, muitas vezes independentemente dos estímulos externos. A distinção entre um estado
“patológico” e um estado “normal” de ansiedade não é clara, mas
representa o ponto em que os sintomas interferem na realização de tarefas
produtivas normais. O termo “ansiedade” é aplicado a muitos transtornos
distintos. Uma divisão útil dos transtornos da ansiedade pode ajudar a
explicar por que os diferentes tipos de ansiedade respondem de forma
distinta a diferentes fármacos em (i) transtornos que envolvem medo
(ataques de pânico e fobias) (ii) e naqueles que envolvem um sentimento
mais generalizado de ansiedade (muitas vezes classificados como
transtornos de ansiedade generalizada).
Os transtornos de ansiedade reconhecidos clinicamente incluem os
seguintes:
• Transtorno de ansiedade generalizada (estado permanente de ansiedade
excessiva em que falta uma razão ou um foco definido)
• Transtorno de ansiedade social (medo de estar e de interagir com outras
pessoas)
• Fobias (medo excessivo de objetos ou situações específicas, por
exemplo, cobras, espaços abertos, andar de avião)
• Transtorno de pânico (ataques súbitos de medo aterrador que ocorrem
em associação com sintomas somáticos exuberantes, tais como sudação,
taquicardia, dor torácica, tremor e sensação de sufocamento). Esses
ataques podem ser induzidos, mesmo em indivíduos normais, pela
infusão de lactato de sódio, e essa condição parece ter um componente
genético.
Transtornos relacionados incluem:
• Transtorno de estresse pós-traumático (PTSD; do inglês, post-traumatic
stress disorder; distúrbio desencadeado por uma lembrança de
experiências passadas estressantes)
• Transtorno obsessivo-compulsivo (comportamentos compulsivos
ritualistas desencadeados por ansiedade irracional, p. ex., medo de
contaminação).
A descrição extensiva dos transtornos de ansiedade pode ser encontrada no
DSM-5.1
É necessário enfatizar que o tratamento desses transtornos geralmente
envolve abordagens psicológicas, assim como o tratamento com fármacos.
Ao longo da última década, o tratamento farmacológico da ansiedade
mudou da utilização dos agentes ansiolíticos/hipnóticos tradicionais (i. e.,
benzodiazepínicos e barbitúricos) para o uso de fármacos também utilizados
para tratar outros distúrbios do sistema nervoso central (SNC) (p. ex.,
fármacos antidepressivos, antiepilépticos e antipsicóticos) ou agonistas dos
receptores 5-hidroxitriptamina (5-HT) 1A (p. ex., buspirona) que não têm efeito hipnótico. Além disso, os benzodiazepínicos, ao mesmo tempo que
são fármacos ansiolíticos eficazes, têm a desvantagem de causar efeitos
secundários não desejáveis, como amnésia, capacidade de induzirem
tolerância e dependência física, assim como serem substâncias de uso
abusivo. Eles são também ineficazes em tratar a depressão que ocorre
juntamente com ansiedade. Ao contrário dos antidepressivos e da
buspirona, que necessitam de tratamento por 3 semanas ou mais para
mostrar algum efeito terapêutico, os benzodiazepínicos atuam em 30
minutos, de modo que podem ser úteis para pacientes que requeiram
tratamento agudo, e podem ser tomados “conforme necessário”.
Nos anos mais recentes, um número infinito de bebidas de
“relaxamento” contendo neurotransmissores do SNC, seus precursores ou
outros hormônios e aminoácidos foi colocado no mercado sem qualquer
evidência de eficácia.2