Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 556 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

45 Fármacos Ansiolíticos e Hipnóticos

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Neste capítulo discutimos a natureza da ansiedade e os fármacos usados

para tratá-la (fármacos ansiolíticos), assim como os fármacos utilizados

para tratar a insônia (fármacos hipnóticos). Historicamente, havia

sobreposição entre esses dois grupos que frequentemente causavam um

grau de sedação e sonolência. Os novos fármacos ansiolíticos têm muito

menos efeito sedativo, e outros fármacos hipnóticos foram introduzidos sem

os efeitos ansiolíticos. Muitos dos fármacos utilizados para tratar a

ansiedade foram desenvolvidos primeiramente, e são ainda utilizados para

tratar outros transtornos como a depressão (ver Capítulo 48), a epilepsia

(ver Capítulo 46) e a esquizofrenia (ver Capítulo 47). Neste capítulo iremos

nos concentrar no seu uso como ansiolíticos.

 

NATUREZA DA ANSIEDADE E SEU TRATAMENTO

A resposta normal a estímulos ameaçadores engloba vários componentes

que incluem comportamentos de defesa, reflexos autonômicos, despertar e

alerta, secreção de corticosteroides e emoções negativas. Nos estados de

ansiedade, essas reações ocorrem de maneira antecipatória, muitas vezes independentemente dos estímulos externos. A distinção entre um estado

“patológico” e um estado “normal” de ansiedade não é clara, mas

representa o ponto em que os sintomas interferem na realização de tarefas

produtivas normais. O termo “ansiedade” é aplicado a muitos transtornos

distintos. Uma divisão útil dos transtornos da ansiedade pode ajudar a

explicar por que os diferentes tipos de ansiedade respondem de forma

distinta a diferentes fármacos em (i) transtornos que envolvem medo

(ataques de pânico e fobias) (ii) e naqueles que envolvem um sentimento

mais generalizado de ansiedade (muitas vezes classificados como

transtornos de ansiedade generalizada).

Os transtornos de ansiedade reconhecidos clinicamente incluem os

seguintes:

• Transtorno de ansiedade generalizada (estado permanente de ansiedade

excessiva em que falta uma razão ou um foco definido)

• Transtorno de ansiedade social (medo de estar e de interagir com outras

pessoas)

• Fobias (medo excessivo de objetos ou situações específicas, por

exemplo, cobras, espaços abertos, andar de avião)

• Transtorno de pânico (ataques súbitos de medo aterrador que ocorrem

em associação com sintomas somáticos exuberantes, tais como sudação,

taquicardia, dor torácica, tremor e sensação de sufocamento). Esses

ataques podem ser induzidos, mesmo em indivíduos normais, pela

infusão de lactato de sódio, e essa condição parece ter um componente

genético.

Transtornos relacionados incluem:

• Transtorno de estresse pós-traumático (PTSD; do inglês, post-traumatic

stress disorder; distúrbio desencadeado por uma lembrança de

experiências passadas estressantes)

• Transtorno obsessivo-compulsivo (comportamentos compulsivos

ritualistas desencadeados por ansiedade irracional, p. ex., medo de

contaminação).

A descrição extensiva dos transtornos de ansiedade pode ser encontrada no

DSM-5.1

É necessário enfatizar que o tratamento desses transtornos geralmente

envolve abordagens psicológicas, assim como o tratamento com fármacos.

Ao longo da última década, o tratamento farmacológico da ansiedade

mudou da utilização dos agentes ansiolíticos/hipnóticos tradicionais (i. e.,

benzodiazepínicos e barbitúricos) para o uso de fármacos também utilizados

para tratar outros distúrbios do sistema nervoso central (SNC) (p. ex.,

fármacos antidepressivos, antiepilépticos e antipsicóticos) ou agonistas dos

receptores 5-hidroxitriptamina (5-HT) 1A (p. ex., buspirona) que não têm efeito hipnótico. Além disso, os benzodiazepínicos, ao mesmo tempo que

são fármacos ansiolíticos eficazes, têm a desvantagem de causar efeitos

secundários não desejáveis, como amnésia, capacidade de induzirem

tolerância e dependência física, assim como serem substâncias de uso

abusivo. Eles são também ineficazes em tratar a depressão que ocorre

juntamente com ansiedade. Ao contrário dos antidepressivos e da

buspirona, que necessitam de tratamento por 3 semanas ou mais para

mostrar algum efeito terapêutico, os benzodiazepínicos atuam em 30

minutos, de modo que podem ser úteis para pacientes que requeiram

tratamento agudo, e podem ser tomados “conforme necessário”.

Nos anos mais recentes, um número infinito de bebidas de

“relaxamento” contendo neurotransmissores do SNC, seus precursores ou

outros hormônios e aminoácidos foi colocado no mercado sem qualquer

evidência de eficácia.2