Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 196 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Adenosina como mediador

ativando vias sensíveis ao Ca2+ e causando despolarização da

membrana.

 

Os subtipos de cada família são distinguidos com base em sua estrutura

molecular, assim como pela sua seletividade por agonistas e antagonistas. O

grupo P2Y é particularmente problemático: diversos receptores foram

clonados com base na homologia com outros membros da família, mas seus

ligantes ainda não foram identificados (em outras palavras, são “receptores

órfãos”). Adicionalmente, uma vez que alguns membros deste grupo

também reconhecem pirimidinas, tais como UTP e UDP, assim como

purinas, algumas vezes são classificados como pirimidinoceptores. No

entanto, atualmente, pouco se conhece a respeito do papel das pirimidinas

na sinalização celular.

Iremos agora discutir alguns aspectos proeminentes e interessantes da

farmacologia purinérgica; a lista de leitura fornece mais informações.

 

ADENOSINA COMO MEDIADOR

A mais simples das purinas, a adenosina, é encontrada em líquidos

biológicos por todo o organismo. Ela existe livre no citosol de todas as

células e é transportada para dentro (transporte ativo contra o gradiente de

concentração) e para fora principalmente por um transportador de

membrana (do qual existem vários tipos). Pouco se sabe a respeito de como

esse processo é controlado, mas as concentrações extracelulares são

geralmente bastante baixas quando comparadas aos níveis intracelulares. A

adenosina extracelular nos tecidos deriva em parte desta fonte intracelular e

em parte da hidrólise do ATP ou ADP liberados por nucleotidases como

CD39 e CD73 (ver Figura 17.1). Fármacos como a adenosina podem ser

inativados pela adenosina deaminase, produzindo inosina, fornecendo outro nível de controle desta molécula biologicamente ativa, e outro potencial

alvo farmacológico.

 

Figura 17.1 Purinas como mediadores. O ATP (e, nas plaquetas, o ADP) está presente no citosol das células (e liberado após lesão celular) ou concentrado em vesículas pelo transportador de nucleotídios vesiculares (VNUT). Os nucleotídios podem ser liberados por exocitose ou através de canais de membrana como uma panexina (Pnx) ou transportadores (NtT). Uma vez liberado, o ATP pode ser convertido em ADP e adenosina, por ação das ectonucleotidases. A adenosina está presente no citosol de todas as células, e é liberada e capturada por transportador(es) de membrana específico(s) (NsT), que é(são) bloqueado(s) pelo dipiridamol. A adenosina pode ser hidrolisada para inosina pela enzima adenosina deaminase. O ATP atua diretamente nos receptores P2X (canais iônicos controlados pelo ligante), mas também nos receptores P2Y (GPCR, receptores acoplados à proteína G), o principal alvo para o ADP. A adenosina atua nos receptores A (também

denominados receptores P1), que também são GPCR. O Capítulo 4 contém mais detalhes sobre a exocitose e outros mecanismos secretores.

Purinas como mediadores

 

• A adenosina atua por intermédio de receptores A1, A2A, A2B e A3 acoplados à proteína G,

vinculados à inibição ou à estimulação da adenilato ciclase. Os receptores de adenosina

são bloqueados por metilxantinas, tais como a cafeína e a teo lina. O dipiridamol

bloqueia a captação de adenosina

– A adenosina afeta muitas células e tecidos, incluindo o músculo liso e as células

nervosas. Ela não é um transmissor convencional, mas pode ser importante como um

hormônio local e “modulador homeostático”

– Locais de ação importantes incluem o coração e os pulmões. A adenosina tem ação

muito curta, sendo às vezes usada pelos seus efeitos antiarrítmicos

• O ADP atua por intermédio da família de receptores “metabotrópicos” acoplados à

proteína G, P2Y1-14. Esses receptores vinculam-se a cAMP ou PLCβ

– Locais de ação importantes incluem as plaquetas, em que o ADP liberado dos

grânulos promove sua agregação por atuar no receptor PY12. Este efeito é

antagonizado pelos fármacos clopidogrel, prasugrel, ticagrelor e cangrelor

• O ATP é armazenado em vesículas e liberado por exocitose ou através de canais

membranares quando ocorre lesão celular. Ele também funciona como um mediador

intracelular, inibindo a abertura de canais de potássio de membrana

– O ATP atua nos receptores P2X; estes são canais iônicos controlados por ligantes. Ele

também pode atuar nos receptores P2Y

– A suramina bloqueia as ações do ATP na maioria dos receptores

– Locais de ação importantes do ATP incluem o sistema nervoso central (SNC), vias

periféricas e centrais e células in amatórias

– Quando liberado, o ATP é rapidamente convertido em ADP e adenosina, gerando

produtos que podem atuar em outros receptores purinérgicos.

Tabela 17.1 Receptores purinérgicos.

 

Principais ligantes

Subtipo de receptor Mecanismo Observações

endógenos

 

Adenosina (também denominada P1)

Acoplado à proteína G (Gi/o)

A 1

Diminui cAMP

Adenosina (alta a nidade)

Acoplado à proteína G (Gs)

A 2A

Aumenta cAMP

Cafeína, teo lina

Acoplado à proteína G (Gs (antagonistas) )

A 2B

Aumenta cAMP

Adenosina (baixa a nidade)

Acoplado à proteína G (Gi/o)

A 3

Diminui cAMP

P2Y “metabotrópico”a

ATP (antagonista ou agonista

P2Y parcial) 1 Suramina (antagonista)

ADP (agonista)

Acoplados à proteína G

P2Y (principalmente Gq/11). 2 UTP e ATP Suramina (antagonista)

Ativam PLCβ, mobilizam Ca2+

ATP, GTP e UTP (agonistas

P2Y4 Pirimidinoceptor

parciais)

Às vezes, alteram cAMP

P2Y6 UDP Pirimidinoceptor

P2Y11 ATP > ADP Suramina (antagonista)

P2Y12 Acoplados à proteína G ADP > ATP Receptor de ADP em

(principalmente Gi/o) plaquetas.

Reduzem cAMP Clopidigrel, prasugrel,

cangrelor e ticagrelor

(antagonistas)

 

P2Y13 ADP Suramina

P2Y14 UDP-glicose UDP

P2X “ionotrópico”

 

P2X1

P2X2

P2X3

Canais iônicos controlados

Suramina (antagonista;

P2X4 pelo receptor, seletivos para ATP

sobretudo não seletivo)

cátions

P2X5

P2X6

P2X7

a Estão listados apenas receptores humanos funcionais. Os números ausentes nas sequências indicam que esses receptores foram

clonados, mas seus ligantes ainda não foram identi cados. Uma família de receptores relacionados que liga cAMP extracelular

(CAR1-4) foi omitida, visto que pouco se conhece a respeito de sua biologia.

 

Virtualmente, todas as células expressam um ou mais receptores de

adenosina; assim, a adenosina produz muitos efeitos farmacológicos, tanto

no sistema nervoso central (SNC) quanto na periferia. Com base na sua

capacidade de minimizar as necessidades metabólicas das células, uma de

suas funções pode ser a de um agente protetor “agudo”, que é liberado

imediatamente quando a integridade do tecido é ameaçada (p. ex., por

isquemia coronariana ou cerebral; ver Capítulos 22 e 41). Sob condições

menos extremas, as variações na liberação de adenosina têm um papel no controle do fluxo sanguíneo e (por meio de efeitos nos corpos carotídeos)