Rang e Dale: Farmacologia
39 Aminoácidos Transmissores
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Neste capítulo, discutiremos os principais neurotransmissores no sistema
nervoso central (SNC), especificamente, o transmissor excitatório,
glutamato, e os transmissores inibitórios GABA e a glicina. Esta tem sido
uma área de intenso interesse científico nos últimos anos. A exposição das
complexidades dos receptores aminoácidos e dos mecanismos de
sinalização esclareceu consideravelmente seu papel na função cerebral e em
seus prováveis envolvimentos nas doenças do SNC. Foram desenvolvidos
fármacos que têm como alvo receptores e transmissores específicos; no
entanto, a transposição desse conhecimento para o desenvolvimento de
fármacos para uso terapêutico está começando a acontecer somente agora.
Aqui, apresentamos os princípios farmacológicos e incluímos referências
recentes para aqueles que buscam mais detalhes.
AMINOÁCIDOS EXCITATÓRIOS
AMINOÁCIDOS EXCITATÓRIOS COMO TRANSMISSORES NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL
O L-glutamato é o transmissor excitatório principal e onipresente no SNC.
▼ A conscientização da importância do glutamato veio lentamente
(Watkins e Jane, 2006). Nos anos 1950, trabalhos sobre o sistema
nervoso periférico destacaram os papéis transmissores da acetilcolina e
das catecolaminas e, uma vez que o cérebro também continha essas
substâncias, parecia haver poucas razões para investigações adicionais.
A presença do ácido γ-aminobutírico (GABA; ver p. 493) no cérebro e
seu poderoso efeito inibitório nos neurônios foram descobertos nos anos
1950, e seu papel como transmissor foi postulado. Ao mesmo tempo, o
trabalho do grupo de Curtis em Camberra mostrou que o glutamato e
vários outros aminoácidos ácidos produziam forte efeito excitatório,
porém parecia inconcebível que esses metabólitos tão comuns pudessem
ser de fato transmissores. Durante os anos 1960, o GABA e os
aminoácidos excitatórios (AAE) foram considerados, até mesmo por
seus descobridores, meras curiosidades farmacológicas. Nos anos 1970,
o modesto aminoácido glicina foi estabelecido como transmissor
inibitório na medula espinal, dando lugar à ideia de que os
transmissores tinham de ser moléculas exóticas, bonitas demais para
qualquer papel que não fosse o de cair nos braços de um receptor. Uma
vez que a glicina foi aceita, o restante seguiu-se rapidamente.
Importante avanço foi a descoberta dos antagonistas dos AAE,
fundamentada no trabalho de Watkins, em Bristol, que possibilitou que
o papel fisiológico do glutamato fosse estabelecido inequivocamente e
também levou à conscientização de que os receptores dos AAE são
heterogêneos.
Fazer justiça à riqueza das descobertas neste campo nos últimos 25 anos
está além do alcance deste livro; para mais detalhes, ver Traynelis et al.
(2010) e Nicoletti et al. (2011). Aqui, debruçamo-nos sobre aspectos