Rang e Dale: Farmacologia
Espasmo muscular e relaxantes musculares
Usos clínicos dos antiepilépticos
• Convulsões tonico-clonicas generalizadas:
– Valproato, lamotrigina ou carbamazepina
– Uso de um único fármaco é preferido, quando possível, para evitar interações
farmacocinéticas
– Novos agentes incluem topiramato, levetiracetam
• Convulsões parciais (focais): carbamazepina ou lamotrigina; alternativas incluem
valproato, levetiracetam, clobazam, gabapentina, topiramato
• Crises de ausência: etossuximida, valproato
– O valproato é o fármaco de primeira escolha quando crises de ausência coexistem com
convulsões tonico-clonicas, porque a maior parte dos outros fármacos usados para convulsões tonico-clonicas pode agravar os ataques de ausência
• Convulsões mioclônicas: valproato, topiramato, levetiracetam
• Status epilepticus: lorazepam intravenoso ou (na ausência de veias acessíveis, midazolam
intramuscular ou oromucoso, ou diazepam retal)
• Dor neuropática: por exemplo, carbamazepina, gabapentina (ver Capítulo 43)
• Para estabilizar o humor em transtorno afetivo mono ou bipolar (como alternativa ao lítio):
por exemplo, carbamazepina, valproato (ver Capítulo 48).
ESPASMO MUSCULAR E RELAXANTES MUSCULARES
Muitas doenças do encéfalo e da medula espinal produzem aumento do tônus
muscular, o qual pode ser doloroso e incapacitante. São exemplos a espasticidade decorrente de lesão ao nascimento ou de doença vascular
encefálica e a paralisia produzida por lesões da medula espinal. A esclerose múltipla é uma doença neurodegenerativa que é acionada por agressão
inflamatória ao sistema nervoso central (ver Capítulo 41). Quando a doença progride por alguns anos, pode causar rigidez muscular e espasmos, assim como outros sintomas, como dor, fadiga, dificuldade para urinar e tremores. Traumatismo local ou reação inflamatória, como na artrite, podem também
causar espasmo muscular, e lombalgia crônica também costuma associar-se a espasmo muscular local.
Existem certos fármacos que atuam centralmente e possuem o efeito de reduzir o tônus basal do músculo, sem afetar seriamente sua capacidade de
contrair-se transitoriamente sob controle voluntário. A distinção entre movimentos voluntários e “tônus basal” não é nítida, e a seletividade desses
fármacos não é completa. O controle postural, por exemplo, geralmente é prejudicado por relaxantes musculares de ação central. Além disso, os
fármacos que afetam o controle motor costumam produzir efeitos um tanto generalizados sobre o sistema nervoso central, ocorrendo sonolência e
confusão como efeitos adversos muito comuns desses agentes.
O baclofeno (ver Capítulo 39) é um derivado clorofenílico do GABA,
originalmente preparado como agente lipofílico semelhante ao GABA, com a finalidade de auxiliar na penetração da barreira hematencefálica, que é impermeável ao próprio GABA. O baclofeno é agonista seletivo dos receptores
GABAB (ver Capítulo 39). A ação antiespástica do baclofeno é exercida principalmente na medula espinal, em que inibe a ativação mono e
polissináptica dos neurônios motores. É eficaz quando administrado por via oral e é usado no tratamento da espasticidade associada a esclerose múltipla ou
traumatismo medular. No entanto, não tem efeito na espasticidade cerebral causada por lesão neonatal.
O baclofeno produz vários efeitos adversos, particularmente sonolência, falta de coordenação motora e náuseas, e também pode ter efeitos
comportamentais. Não é útil na epilepsia.
Benzodiazepínicos são discutidos em detalhes no Capítulo 45. Produzem
relaxamento muscular por efeito na medula espinal. Também são ansiolíticos.
Tizanidina é um agonista dos receptores α2-adrenérgicos que alivia a espasticidade associada à esclerose múltipla e à lesão à medula espinal.
Durante muitos anos, evidências anedóticas sugeriram que fumar maconha
(ver Capítulo 20) aliviava os espasmos musculares dolorosos associados à esclerose múltipla. Sativex, um extrato de maconha contendo 9-tetra-
hidrocanabinol (também conhecido por THC ou dronabinol; ver Capítulo 19) e canabidiol, está licenciado em alguns países como tratamento da
espasticidade na esclerose múltipla. Também apresenta propriedades
analgésicas (ver Capítulos 20 e 43).
Metocarbamol é usado para tratar dor e rigidez muscu-lares. Seu mecanismo de ação não é claro.
Dantroleno atua perifericamente, em vez de centralmente, produzindo
relaxamento muscular (ver Capítulo 4).
Toxina botulínica (ver Capítulo 14) injetada no músculo inibe a liberação de acetilcolina, causando paralisia de longa duração confinada ao local da
injeção; sua utilização para tratar espasmos musculares está aumentando. A utilização não medicinal como tratamento de “beleza” tornou-se generalizada.
REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR
Geral
Browne, T.R., Holmes, G.L., 2008. Handbook of Epilepsy. Lippincott, Williams & Wilkins, Philadelphia.
(Um livro compacto que cobre a maioria das áreas da epilepsia e seu tratamento)
Patogênese e tipos de epilepsia
Deblaere, K., Achten, E., 2008. Structural magnetic resonance imaging in epilepsy. Eur. Radiol. 18, 119–
129. (Descreve a utilização da imagem do cérebro no diagnóstico da epilepsia)
Grone, B.P., Baraban, S.C., 2015. Animal models in epilepsy research: legacies and new directions. Nat.
Neurosci. 18, 339–343. (Boa descrição de modelos animais de epilepsia mais antigos e o uso de
modelos invertebrados mais recentes para estudar as epilepsias genéticas idiopáticas)
Khosravani, H., Altier, C., Simms, B., et al., 2004. Gating effects of mutations in the Ca 3.2 T-type v
calcium channel associated with childhood absence epilepsy. J. Biol. Chem. 279, 9681–9684. (Estudo
que mostra que as mutações dos canais de cálcio vistas nas crises de ausência infantis provocam
despolarizações neuronais anormais em camundongos transgênicos)
Pandolfo, M., 2011. Genetics of epilepsy. Semin. Neurol. 31, 506–518. Shin, H.S., 2006. T-type Ca2+ channels and absence epilepsy. Cell Calcium 40, 191–196. Weber, Y.G., Lerche, H., 2008. Genetic mechanisms in idiopathic epilepsies. Dev. Med. Child Neurol. 50,
648–654. (Revisa como as mutações em canais iônicos ativados por ligantes e por voltagem estão
associadas às síndromes idiopáticas da epilepsia)
Fármacos antiepilépticos
Bialer, M., White, H.S., 2010. Key factors in the discovery and development of new antiepileptic drugs.
Nat. Rev. Drug Discov. 9, 68–82. (Consideração interessante de novos caminhos para a descoberta
de fármacos antiepilépticos)
Shih, J.J., Whitlock, J.B., Chimato, N., Vargas, E., Karceski, S.C., Frank, R.D., 2017. Epilepsy treatment
in adults and adolescents. Epilepsy Behav. 69, 186–222. (Reúne as visões de uma série de peritos
reconhecidos no tratamento da epilepsia sobre os tratamentos farmacológicos atuais para diferentes
formas de epilepsia)
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1 Em homenagem a Hughlings Jackson, destacado neurologista de Yorkshire no século IX e que publicou seu trabalho notável em Annals of the West Riding
Lunatic Asylum.
2 O brometo foi o primeiro agente antiepiléptico. Sua propensão a induzir a sedação e outros efeitos adversos resultou na sua retirada do mercado para
medicina humana, embora ainda seja aprovado para uso em seres humanos em alguns países e possa ter uso na epilepsia resistente aos fármacos na infância. Ainda é bastante utilizado na prática veterinária para o tratamento da epilepsia
em cachorros e gatos.
3 Crises de ausência, paradoxalmente, costumam ser exacerbadas por fármacos que potencializam a atividade do GABA e são mais bem tratadas por fármacos
que atuem por diferentes mecanismos, como a inibição do canal de cálcio tipo T.
4 Um dos autores, que foi um jogador de hóquei sagaz, jogou em uma equipe com um goleiro que por vezes cometia erros bobos no início do jogo.
Descobriu-se que ele sofria de epilepsia e havia tomado a sua dose de carbamazepina pouco antes do início do jogo.
5 O site da Epilepsy Foundation (http://www.epilepsy.com/accelerating-new-
therapies/new-therapies-pipeline#drugs) fornece detalhes sobre o grande
número de medicamentos atualmente em desenvolvimento para o tratamento de epilepsias.
OceanofPDF.com