Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 599 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Inibidores da monoamina oxidase

Antidepressivos antagonistas dos receptores de monoamina

 

• Mirtazapina bloqueia os receptores α-adrenérgicos e 5-HT 2C, aumentando a liberação

tanto de norepinefrina quanto de 5-HT

• Mirtazapina pode atuar mais rapidamente do que outros antidepressivos, e causa menos

náuseas e disfunções sexuais que os ISRS

• Trazodona bloqueia os receptores 5-HT2A e 5-HT2C, além da captação de 5-HT

• Mianserina é um antagonista em múltiplos receptores 5-HT (incluindo 5-HT2A), bem

como nos receptores α1 e α2. É também um agonista inverso dos receptores H1. Sua utilização está em declínio devido ao risco de depressão medular. É recomendada a

realização frequente de hemogramas

• Os efeitos adversos cardiovasculares desses fármacos são menores que os dos

antidepressivos triclíciclos

• Vortioxetina tem tanta ação de inibição de captação de 5-HT quanto múltiplas ações de

agonista parcial ou antagonista dos receptores 5-HT.

 

A mianserina, outro antagonista de receptores α2-adrenérgicos que

também bloqueia H1, 5-HT2A e receptores α1-adrenérgicos, pode causar depressão da medula óssea, necessitando de hemogramas regulares;

portanto, seu uso foi reduzido ao longo dos anos.

 

INIBIDORES DA MONOAMINA OXIDASE

Os IMAO estiveram entre os primeiros fármacos introduzidos clinicamente

como antidepressivos, mas foram superados por outros tipos de

antidepressivos, cujas eficácias clínicas foram consideradas melhores e

cujos efeitos adversos, em geral, são mais amenos que os dos IMAO. Os

principais exemplos são fenelzina, tranilcipromina e iproniazida. Esses fármacos causam inibição irreversível da enzima e não distinguem as duas

isoenzimas principais (ver adiante). A descoberta de inibidores reversíveis

que mostram seletividade para isozimas reacendeu o interesse por essa

classe de fármacos. Embora vários estudos tenham mostrado redução da

atividade da MAO plaquetária em certos grupos de pacientes depressivos,

não há evidências claras de que a atividade anômala da MAO esteja

envolvida na patogênese da depressão.

A monoamina oxidase (ver Capítulo 15) é encontrada em quase todos os

tecidos, e existe em duas formas moleculares semelhantes, codificadas por

genes separados (Tabela 48.4). A MAO-A tem preferência de substrato pela

5-HT e norepinefrina e é o principal alvo para os IMAO antidepressivos. A

MAO-B tem preferência de substrato pela feniletilamina e a dopamina. O

tipo B é inibido seletivamente pela selegilina, usada no tratamento da

doença de Parkinson (ver Capítulo 41). A desagregação do gene da MAO-A

em camundongos causa aumento do acúmulo cerebral de 5-HT e, em menor

grau, de norepinefrina, juntamente com comportamento agressivo. Existe o

relato sobre uma família com mutação hereditária levando à perda da

atividade da MAO-A. Os membros dessa família mostraram retardamento

mental e padrões de comportamento violentos. A maioria dos IMAO

antidepressivos atua sobre ambas as formas de MAO, mas estudos clínicos

com inibidores específicos para subtipos têm mostrado claramente que a

atividade antidepressiva, bem como os principais efeitos adversos dos

IMAO, associa-se à inibição de MAO-A. A MAO está localizada

intracelularmente, associando-se principalmente às mitocôndrias, e tem

duas funções principais:

1. Dentro das terminações nervosas, a MAO regula a concentração

intraneuronal livre de norepinefrina ou de 5-HT. Não está envolvida na

inativação do transmissor liberado.

A MAO na parede intestinal é importante na inativação de aminas 2.

endógenas e ingeridas, como a tiramina, que, de outra forma,

produziriam efeitos adversos.

 

■ Aspectos químicos

Os IMAO são análogos de substratos com estrutura semelhante à da

feniletilamina, e a maioria contém um grupo reativo (p. ex., hidrazina,

propargilamina, ciclopropilamina) que possibilita ao inibidor ligar-se de

maneira covalente à enzima, resultando em inibição não competitiva e

duradoura. A recuperação da atividade da MAO depois da inibição leva

várias semanas com a maioria dos fármacos, porém é mais rápida após o

uso da tranilcipromina, que forma ligação menos estável com a enzima. A

moclobemida atua como inibidor competitivo reversível.

Os IMAO não são específicos em suas ações e inibem várias outras

enzimas, bem como a MAO, incluindo muitas enzimas envolvidas no

metabolismo de outros fármacos. Isso é responsável por algumas das muitas

interações clinicamente importantes associadas aos IMAO.

 

■ Efeitos farmacológicos

Os inibidores da monoamina oxidase causam aumento rápido e sustentado

do conteúdo de 5-HT, norepinefrina e dopamina, sendo a 5-HT mais

afetada, e a dopamina menos. Ocorrem alterações semelhantes nos tecidos

periféricos, tais como coração, fígado e intestino, e também são detectáveis

aumentos das concentrações plasmáticas dessas enzimas. Embora esses

aumentos do conteúdo tecidual de aminas sejam amplamente causados pelo

acúmulo nos neurônios, a liberação de transmissor em resposta à atividade

nervosa não aumenta. Diferentemente do efeito dos ADT, os IMAO não

aumentam a resposta dos órgãos periféricos, como o coração e os vasos, à estimulação nervosa simpática. O principal efeito dos IMAO é aumentar a

concentração citoplasmática das monoaminas nas terminações nervosas,

sem afetar grandemente os depósitos vesiculares que são liberados por

estimulação nervosa. O aumento do compartimento (pool) citoplasmático

resulta em aumento da taxa de liberação espontânea das monoaminas e,

também, aumento da liberação por aminas simpatomiméticas com ação

indireta, como a anfetamina e a tiramina (ver Capítulo 15 e Figura 15.7). A

tiramina, assim, causa elevação muito maior da pressão arterial em animais

tratados com IMAO que nos controles. Esse mecanismo é importante em

relação à “reação ao queijo” produzida pelos IMAO em humanos (ver

adiante).

Em indivíduos normais, os IMAO causam aumento imediato da

atividade motora e desenvolvem euforia e excitação durante alguns dias.

Diferem dos ADT, que causam apenas sedação e confusão quando

administrados a indivíduos não depressivos. Os efeitos dos IMAO sobre o

metabolismo das aminas desenvolvem-se rapidamente, e o efeito de uma

única dose dura vários dias. Há clara discrepância, como com os ISRS e

ADT, entre a resposta bioquímica rápida e o efeito antidepressivo tardio.

 

■ Efeitos adversos e toxicidade

Muitos dos efeitos adversos dos IMAO resultam diretamente da inibição da

MAO, mas alguns são produzidos por outros mecanismos.

A hipotensão é um efeito adverso comum; na verdade, a pargilina era

antigamente usada como anti-hipertensivo. Uma explicação possível para

esse efeito – na verdade, era esperado o efeito oposto – é que as aminas,

como a dopamina ou a octopamina, se acumulam dentro das terminações

nervosas simpáticas periféricas e deslocam a norepinefrina das vesículas de armazenamento, reduzindo, assim, a liberação de norepinefrina associada à

atividade simpática.

A estimulação central excessiva pode causar tremores, excitação,

insônia e, em superdosagem, convulsões.

Aumento do apetite, levando a ganho de peso, pode ser tão extremo a

ponto de exigir que o fármaco seja interrompido.

Os efeitos atropínicos (boca seca, visão embaçada, retenção urinária

etc.) são comuns com os IMAO, embora sejam problema menor que com os

ADT.

Os IMAO do tipo hidrazina (p. ex., fenelzina e iproniazida) produzem,

muito raramente (menos de 1 em 10.000), hepatotoxicidade grave, que

parece ser causada pela parte hidrazina da molécula. Não se recomenda,

portanto, seu uso em pacientes hepatopatas.

 

■ Interação com outros fármacos e alimentos

A interação com outros fármacos e alimentos é o problema mais grave com

os IMAO e é o principal fator que causou declínio do seu uso clínico. A

vantagem especial alegada para os novos IMAO reversíveis, como a

moclobemida, é que essas interações se reduzem.

A “reação ao queijo” é consequência direta da inibição da MAO e

ocorre quando são ingeridas aminas normalmente inócuas (principalmente a

tiramina) produzidas durante a fermentação. A tiramina normalmente é

metabolizada pela MAO na parede do intestino e fígado, e uma quantidade

pequena de tiramina da dieta chega à circulação sistêmica. A inibição da

MAO permite que a tiramina seja absorvida e também aumenta seu efeito

simpático, como foi discutido anteriormente. O resultado é a hipertensão

aguda, dando origem a cefaleia latejante intensa e, ocasionalmente, até

hemorragia intracraniana. Embora muitos alimentos contenham certa quantidade de tiramina, parece que pelo menos 10 mg de tiramina precisam