Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 10 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Farmacologia atual

daqueles das terapias baseadas em fármacos e necessitarão de uma estrutura

conceitual diferente, razão pela qual livros como este vão precisar descrevê-

los cada vez mais se quiserem estar atualizados com o moderno tratamento

médico.

 

FARMACOLOGIA ATUAL

Assim como outras disciplinas biomédicas, as fronteiras da farmacologia

não estão claramente definidas nem são constantes. Seus expoentes – tal

como convém aos pragmáticos – estão sempre prontos para invadir os

territórios e as técnicas de outras disciplinas. Se ela já teve um núcleo

conceitual e técnico que podia realmente chamar de seu, este já definhou

quase ao ponto de extinção, e a especialidade agora é definida mais por seu

objetivo – entender o que os fármacos fazem aos organismos vivos e, mais

particularmente, como seus efeitos podem ser aplicados à terapêutica – do

que por sua coerência científica.

A Figura 1.2 mostra a estrutura da farmacologia tal como se apresenta

atualmente. No assunto principal, inserem-se vários compartimentos

(neurofarmacologia, imunofarmacologia, farmacocinética etc.), que são

subdivisões convenientes, se não estanques. Esses tópicos compõem o

material principal deste livro. Em torno de seus limites, estão muitas

disciplinas de interface não abordadas neste livro, que formam importantes

pontes de mão dupla entre a farmacologia e outros campos da biomedicina,

o que tende a acontecer aqui com mais frequência do que em outras

disciplinas. Outras subdivisões apareceram trazidas pelos novos avanços,

tais como farmacogenômica, farmacoepidemiologia e farmacoeconomia.

Farmacogenômica. A farmacogenética, o estudo das influências

genéticas sobre as respostas aos fármacos, inicialmente se concentrava nas reações familiares idiossincrásicas aos fármacos, em que os indivíduos

afetados mostravam uma resposta anormal – em geral, adversa – a uma

classe de medicamentos (Nebert & Weber, 1990). Renomeada como

farmacogenômica, agora abrange variações na resposta ao fármaco

baseadas na genética, em que a base genética é mais complexa. O objetivo é

usar informações genéticas para orientar a escolha da terapia

medicamentosa em uma base individual – a chamada medicina

personalizada (ver Capítulo 12). O princípio que a fundamenta é que as

diferenças entre indivíduos na resposta a agentes terapêuticos podem ser

previstas a partir de sua constituição genética. Os exemplos que confirmam

esse argumento estão aumentando de maneira decisiva (ver Capítulo 12).

Até o momento, envolvem principalmente o polimorfismo genético dos

receptores ou das enzimas que metabolizam os fármacos. Em consequência,

associar as variações gênicas específicas àquelas na terapêutica ou nos

efeitos indesejáveis de um fármaco em particular possibilitaria a

individualização da escolha terapêutica com base no genótipo do paciente.

Os melhoramentos contínuos nos custos e na exequibilidade da

determinação de genótipos irão aumentar sua aplicabilidade e,

potencialmente, haverá consequências abrangentes para a terapêutica (ver

Capítulo 12).

Farmacoepidemiologia. É o estudo dos efeitos dos fármacos em nível

populacional (Strom et al., 2013). Ocupa-se da variabilidade dos efeitos dos

fármacos entre indivíduos de uma população e entre populações. Trata-se de

um tópico cada vez mais importante aos olhos das autoridades reguladoras

que decidem se um novo fármaco pode ou não ser aprovado para uso

terapêutico. A variabilidade entre indivíduos ou populações diminui a

utilidade de um fármaco, mesmo que seu nível de efeito global seja

satisfatório. Estudos farmacoepidemiológicos também levam em conta a adesão do paciente ao tratamento e outros fatores que se aplicam quando o

medicamento é usado em condições reais.

 

Figura 1.2 Farmacologia atual, com suas várias subdivisões. O boxe cinza contém as áreas gerais da farmacologia abordadas neste livro. As disciplinas de interface (boxes marrons) ligam a farmacologia a outras disciplinas biomédicas principais (boxes verdes).

 

Farmacoeconomia. Este ramo da economia da saúde visa quantificar,

em termos econômicos, os custos e os benefícios dos fármacos

terapeuticamente utilizados. Surgiu do interesse de muitos governos em

fornecer cuidados de saúde financiados por receitas públicas, levantando a

questão sobre quais procedimentos terapêuticos representam o melhor em

termos financeiros. Isso, naturalmente, gerou acirrada controvérsia, porque

essa questão, em última análise, significa atribuir valor monetário à saúde e

à longevidade. Como ocorre com a farmacoepidemiologia, as autoridades

regulamentadoras se tornaram cada vez mais necessitadas de análises econômicas, assim como de demonstração dos benefícios para o indivíduo,

ao fazer decisões sobre o licenciamento de fármacos. Para mais

informações sobre esse complexo assunto, ver Rascati (2013).

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

Clark, D.P., Pazderink, N.J., 2015. Biotechnology. Elsevier, New York. (Princípios gerais da

biotecnologia e suas possíveis aplicações)

Nebert, D.W., Weber, W.W., 1990. Pharmacogenetics. In: Pratt, W.B., Taylor, P. (Eds.), Principles of

Drug Action, third ed. Churchill Livingstone, New York. (Registro detalhado dos fatores

genéticos que afetam as respostas aos fármacos, com muitos exemplos obtidos da literatura que

antecede o surgimento da genômica)

Porter, R., 1997. The Greatest Benefit to Mankind. Harper-Collins, London. (Excelente e agradável

descrição da história da medicina, com um bom relato do desenvolvimento inicial da

farmacologia e da indústria farmacêutica)

Rascati, K.L., 2013. Essentials of Pharmacoeconomics, second ed. Lippincott Williams & Wilkins,

Philadelphia. (Introdução a um assunto complexo e denso)

Strom, B.L., Kimmel, S.E., Hennessy, S., 2013. Textbook of Pharmacoepidemiology, second ed.

Wiley, Chichester. (Livro escrito por vários autores que abrange todos os aspectos de uma

disciplina nova e inclui os aspectos de farmacoeconomia)

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1 Assim como a maioria das definições, esta também tem suas limitações.

Por exemplo, há uma quantidade de complementos alimentares

fundamentais, como ferro e diversas vitaminas, que são usados como

medicamentos. Além disso, alguns produtos biológicos (p. ex., epoetina)

apresentaram uma variação entre lotes de sua constituição química que

influencia, de forma significativa, suas propriedades. Existe o estudo dos

nutrientes com importância farmacêutica ou “nutracêuticos”.

2 Atualmente, este nome persiste em algumas universidades antigas, estando

relacionado com disciplinas a que poderíamos chamar de farmacologia

clínica.

3 O eminente médico Oliver Wendell Holmes escreveu em 1860: “(…)

acredito firmemente que se todas as substâncias medicinais usadas

atualmente fossem depositadas no fundo do mar, seria o melhor para a

humanidade e o pior para os peixes” (Porter, 1997).

4 Algumas substâncias sintéticas conquistaram grande importância

farmacológica muito antes do início da era da química sintética. O éter

dietílico, inicialmente preparado como “óleo doce de vitríolo” no século

XVI, e o óxido nitroso, preparado por Humphrey Davy em 1799, foram

usados para animar festas antes de serem introduzidos como agentes

anestésicos em meados do século XIX (ver Capítulo 42). O nitrito de amila

(ver Capítulo 21) foi obtido em 1859 e pode reivindicar o posto de primeira

substância terapêutica “racional”; seu efeito terapêutico na angina foi

previsto com base em seus efeitos fisiológicos – uma verdadeira “droga de

farmacologista” e um precursor malcheiroso dos nitrovasodilatadores, que

são amplamente utilizados atualmente. O ácido acetilsalicílico (ver Capítulo

27), o fármaco terapêutico mais amplamente empregado na história, foi sintetizado inicialmente em 1853, sem finalidade terapêutica em mente. Foi

redescoberto em 1897, nos laboratórios da empresa alemã Bayer, que estava

buscando um derivado menos tóxico do ácido salicílico. A Bayer

comercializou o ácido acetilsalicílico em 1899 e fez fortuna.

5 Alguns de nossos mais distintos pioneiros na área da farmacologia fizeram

carreira na indústria: por exemplo, Henry Dale, que lançou os fundamentos

de nossos conhecimentos sobre transmissão química e sistema nervoso

autônomo (ver Capítulo 13); George Hitchings e Gertrude Elion, que

descreveram o princípio dos antimetabólitos e produziram os primeiros

fármacos antineoplásicos eficazes (ver Capítulo 57); e James Black, que

introduziu os primeiros antagonistas dos -adrenérgicos e dos receptores

H 2 da histamina (ver Capítulos 15 e 31). Não é por acaso que neste livro, no qual focalizamos os princípios científicos da farmacologia, a maioria de

nossos exemplos seja de produtos da indústria, e não da natureza.

6 A UK Medicines and Healthcare Regulatory Agency (MHRA) exige

evidências detalhadas da eficácia terapêutica com base em ensaios clínicos

controlados antes de um novo fármaco ser registrado, mas não existem

dados de ensaios clínicos de produtos homeopáticos ou de medicamentos à

base de plantas à venda antes do “Ato Médico” de 1968 (Medicines Act).

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