Rang e Dale: Farmacologia
Farmacologia atual
daqueles das terapias baseadas em fármacos e necessitarão de uma estrutura
conceitual diferente, razão pela qual livros como este vão precisar descrevê-
los cada vez mais se quiserem estar atualizados com o moderno tratamento
médico.
FARMACOLOGIA ATUAL
Assim como outras disciplinas biomédicas, as fronteiras da farmacologia
não estão claramente definidas nem são constantes. Seus expoentes – tal
como convém aos pragmáticos – estão sempre prontos para invadir os
territórios e as técnicas de outras disciplinas. Se ela já teve um núcleo
conceitual e técnico que podia realmente chamar de seu, este já definhou
quase ao ponto de extinção, e a especialidade agora é definida mais por seu
objetivo – entender o que os fármacos fazem aos organismos vivos e, mais
particularmente, como seus efeitos podem ser aplicados à terapêutica – do
que por sua coerência científica.
A Figura 1.2 mostra a estrutura da farmacologia tal como se apresenta
atualmente. No assunto principal, inserem-se vários compartimentos
(neurofarmacologia, imunofarmacologia, farmacocinética etc.), que são
subdivisões convenientes, se não estanques. Esses tópicos compõem o
material principal deste livro. Em torno de seus limites, estão muitas
disciplinas de interface não abordadas neste livro, que formam importantes
pontes de mão dupla entre a farmacologia e outros campos da biomedicina,
o que tende a acontecer aqui com mais frequência do que em outras
disciplinas. Outras subdivisões apareceram trazidas pelos novos avanços,
tais como farmacogenômica, farmacoepidemiologia e farmacoeconomia.
Farmacogenômica. A farmacogenética, o estudo das influências
genéticas sobre as respostas aos fármacos, inicialmente se concentrava nas reações familiares idiossincrásicas aos fármacos, em que os indivíduos
afetados mostravam uma resposta anormal – em geral, adversa – a uma
classe de medicamentos (Nebert & Weber, 1990). Renomeada como
farmacogenômica, agora abrange variações na resposta ao fármaco
baseadas na genética, em que a base genética é mais complexa. O objetivo é
usar informações genéticas para orientar a escolha da terapia
medicamentosa em uma base individual – a chamada medicina
personalizada (ver Capítulo 12). O princípio que a fundamenta é que as
diferenças entre indivíduos na resposta a agentes terapêuticos podem ser
previstas a partir de sua constituição genética. Os exemplos que confirmam
esse argumento estão aumentando de maneira decisiva (ver Capítulo 12).
Até o momento, envolvem principalmente o polimorfismo genético dos
receptores ou das enzimas que metabolizam os fármacos. Em consequência,
associar as variações gênicas específicas àquelas na terapêutica ou nos
efeitos indesejáveis de um fármaco em particular possibilitaria a
individualização da escolha terapêutica com base no genótipo do paciente.
Os melhoramentos contínuos nos custos e na exequibilidade da
determinação de genótipos irão aumentar sua aplicabilidade e,
potencialmente, haverá consequências abrangentes para a terapêutica (ver
Capítulo 12).
Farmacoepidemiologia. É o estudo dos efeitos dos fármacos em nível
populacional (Strom et al., 2013). Ocupa-se da variabilidade dos efeitos dos
fármacos entre indivíduos de uma população e entre populações. Trata-se de
um tópico cada vez mais importante aos olhos das autoridades reguladoras
que decidem se um novo fármaco pode ou não ser aprovado para uso
terapêutico. A variabilidade entre indivíduos ou populações diminui a
utilidade de um fármaco, mesmo que seu nível de efeito global seja
satisfatório. Estudos farmacoepidemiológicos também levam em conta a adesão do paciente ao tratamento e outros fatores que se aplicam quando o
medicamento é usado em condições reais.
Figura 1.2 Farmacologia atual, com suas várias subdivisões. O boxe cinza contém as áreas gerais da farmacologia abordadas neste livro. As disciplinas de interface (boxes marrons) ligam a farmacologia a outras disciplinas biomédicas principais (boxes verdes).
Farmacoeconomia. Este ramo da economia da saúde visa quantificar,
em termos econômicos, os custos e os benefícios dos fármacos
terapeuticamente utilizados. Surgiu do interesse de muitos governos em
fornecer cuidados de saúde financiados por receitas públicas, levantando a
questão sobre quais procedimentos terapêuticos representam o melhor em
termos financeiros. Isso, naturalmente, gerou acirrada controvérsia, porque
essa questão, em última análise, significa atribuir valor monetário à saúde e
à longevidade. Como ocorre com a farmacoepidemiologia, as autoridades
regulamentadoras se tornaram cada vez mais necessitadas de análises econômicas, assim como de demonstração dos benefícios para o indivíduo,
ao fazer decisões sobre o licenciamento de fármacos. Para mais
informações sobre esse complexo assunto, ver Rascati (2013).
REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR
Clark, D.P., Pazderink, N.J., 2015. Biotechnology. Elsevier, New York. (Princípios gerais da
biotecnologia e suas possíveis aplicações)
Nebert, D.W., Weber, W.W., 1990. Pharmacogenetics. In: Pratt, W.B., Taylor, P. (Eds.), Principles of
Drug Action, third ed. Churchill Livingstone, New York. (Registro detalhado dos fatores
genéticos que afetam as respostas aos fármacos, com muitos exemplos obtidos da literatura que
antecede o surgimento da genômica)
Porter, R., 1997. The Greatest Benefit to Mankind. Harper-Collins, London. (Excelente e agradável
descrição da história da medicina, com um bom relato do desenvolvimento inicial da
farmacologia e da indústria farmacêutica)
Rascati, K.L., 2013. Essentials of Pharmacoeconomics, second ed. Lippincott Williams & Wilkins,
Philadelphia. (Introdução a um assunto complexo e denso)
Strom, B.L., Kimmel, S.E., Hennessy, S., 2013. Textbook of Pharmacoepidemiology, second ed.
Wiley, Chichester. (Livro escrito por vários autores que abrange todos os aspectos de uma
disciplina nova e inclui os aspectos de farmacoeconomia)
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1 Assim como a maioria das definições, esta também tem suas limitações.
Por exemplo, há uma quantidade de complementos alimentares
fundamentais, como ferro e diversas vitaminas, que são usados como
medicamentos. Além disso, alguns produtos biológicos (p. ex., epoetina)
apresentaram uma variação entre lotes de sua constituição química que
influencia, de forma significativa, suas propriedades. Existe o estudo dos
nutrientes com importância farmacêutica ou “nutracêuticos”.
2 Atualmente, este nome persiste em algumas universidades antigas, estando
relacionado com disciplinas a que poderíamos chamar de farmacologia
clínica.
3 O eminente médico Oliver Wendell Holmes escreveu em 1860: “(…)
acredito firmemente que se todas as substâncias medicinais usadas
atualmente fossem depositadas no fundo do mar, seria o melhor para a
humanidade e o pior para os peixes” (Porter, 1997).
4 Algumas substâncias sintéticas conquistaram grande importância
farmacológica muito antes do início da era da química sintética. O éter
dietílico, inicialmente preparado como “óleo doce de vitríolo” no século
XVI, e o óxido nitroso, preparado por Humphrey Davy em 1799, foram
usados para animar festas antes de serem introduzidos como agentes
anestésicos em meados do século XIX (ver Capítulo 42). O nitrito de amila
(ver Capítulo 21) foi obtido em 1859 e pode reivindicar o posto de primeira
substância terapêutica “racional”; seu efeito terapêutico na angina foi
previsto com base em seus efeitos fisiológicos – uma verdadeira “droga de
farmacologista” e um precursor malcheiroso dos nitrovasodilatadores, que
são amplamente utilizados atualmente. O ácido acetilsalicílico (ver Capítulo
27), o fármaco terapêutico mais amplamente empregado na história, foi sintetizado inicialmente em 1853, sem finalidade terapêutica em mente. Foi
redescoberto em 1897, nos laboratórios da empresa alemã Bayer, que estava
buscando um derivado menos tóxico do ácido salicílico. A Bayer
comercializou o ácido acetilsalicílico em 1899 e fez fortuna.
5 Alguns de nossos mais distintos pioneiros na área da farmacologia fizeram
carreira na indústria: por exemplo, Henry Dale, que lançou os fundamentos
de nossos conhecimentos sobre transmissão química e sistema nervoso
autônomo (ver Capítulo 13); George Hitchings e Gertrude Elion, que
descreveram o princípio dos antimetabólitos e produziram os primeiros
fármacos antineoplásicos eficazes (ver Capítulo 57); e James Black, que
introduziu os primeiros antagonistas dos -adrenérgicos e dos receptores
H 2 da histamina (ver Capítulos 15 e 31). Não é por acaso que neste livro, no qual focalizamos os princípios científicos da farmacologia, a maioria de
nossos exemplos seja de produtos da indústria, e não da natureza.
6 A UK Medicines and Healthcare Regulatory Agency (MHRA) exige
evidências detalhadas da eficácia terapêutica com base em ensaios clínicos
controlados antes de um novo fármaco ser registrado, mas não existem
dados de ensaios clínicos de produtos homeopáticos ou de medicamentos à
base de plantas à venda antes do “Ato Médico” de 1968 (Medicines Act).
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