Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 127 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Interações medicamentosas por indução ou inibição enzimática

INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS POR INDUÇÃO OU

INIBIÇÃO ENZIMÁTICA

 

Interações causadas por indução enzimática

A indução enzimática é uma causa importante da interação medicamentosa.

O início lento da indução e a recupe-ração lenta depois da retirada do

agente indutor, em conjunto com o potencial de indução seletiva de uma ou

mais isoenzimas CYP, contribuem para a natureza traiçoeira dos problemas

clínicos que a indução representa. Os problemas clínicos derivados de tais

interações são muito variados e incluem rejeição de transplantes devido à

perda de efetividade de tratamentos imunossupressores, convulsões

provocadas pela perda de eficácia de anticonvulsivantes, gravidez

indesejada devido à perda de eficácia dos contraceptivos orais e trombose

(perda de eficácia da varfarina) ou hemorragia (devido à incapacidade de

reconhecer a necessidade de diminuir a dosagem de varfarina quando a

indução abranda após a descontinuação de um agente indutor). Mais de 200

fármacos provocam indução enzimática e, consequentemente, diminuem a

atividade farmacológica de uma série de outros fármacos. São apresentados

alguns exemplos na Tabela 10.4, e mais exemplos são fornecidos no site do

Deparment of Medicine da Indiana University citado previamente (p. 134).

Uma vez que o agente indutor é muitas vezes também um substrato para as

enzimas induzidas, o processo pode resultar em uma tolerância lentamente

desenvolvida. Este tipo de tolerância farmacocinética é normalmente menos

acentuado que a tolerância farmacodinâmica; por exemplo, a opioides (ver

Capítulo 43), mas é clinicamente importante quando se iniciam tratamentos

com o anticonvulsivo carbamazepina (ver Capítulo 46). Os tratamentos

iniciam-se com baixas dosagens para evitar a toxicidade (pois as enzimas

hepáticas não são induzidas inicialmente) e são aumentadas gradualmente

por algumas semanas, durante as quais induzem o seu próprio metabolismo.

Metabolismo dos fármacos

 

• As reações de fase 1 envolvem oxidação, redução e hidrólise:

– Em geral, formam produtos quimicamente mais reativos, que podem ser

farmacologicamente ativos, tóxicos ou carcinogênicos

– Com frequência, envolvem um sistema de monoamino-oxigenases, no qual o

citocromo P450 desempenha um papel fundamental

• As reações de fase 2 envolvem a conjugação (p. ex., glicuronidação) de um grupo reativo

(geralmente inserido durante a reação de fase 1) e normalmente levam à formação de

produtos inativos e polares que são eliminados facilmente na urina

• Alguns produtos conjugados são eliminados pela bile, reativados no intestino e depois

reabsorvidos (“circulação êntero-hepática”)

• A indução das enzimas P450 pode acelerar acentuadamente o metabolismo hepático de

fármacos. Em consequência, pode haver aumento da toxicidade de fármacos que contêm

metabólitos tóxicos, e é uma causa importante da interação fármaco-fármaco, como é a

inibição enzimática

• O metabolismo pré-sistêmico no fígado ou na parede intestinal reduz a biodisponibilidade

de diversos fármacos quando são administrados por via oral.

A Figura 10.5 representa a forma como o antibiótico rifampicina,

administrado durante 3 dias, reduz a eficácia da varfarina como

anticoagulante. Em contrapartida, a indução enzimática pode aumentar a

toxicidade de um segundo fármaco, se os efeitos tóxicos forem mediados

por um metabólito ativo. A toxicidade do paracetamol (acetaminofeno) é

um caso a apreciar (ver Figura 58.1): esta é causada pelo metabólito

derivado da CYP, imina N-acetil-p-benzoquinona (NAPQI).

Consequentemente, o risco de lesões hepáticas graves após uma dose tóxica

de paracetamol é maior em pacientes em que tenha sido induzida a CYP;

por exemplo, por meio do consumo crônico de álcool.

 

Interações causadas por inibição enzimática

Tal como para a indução, as interações causadas por inibição enzimática são

difíceis de se antecipar pelos princípios primários. Se existirem dúvidas

sobre a possibilidade de uma interação, é melhor pesquisar pelas mesmas

(p. ex., no British National Formulary, que apresenta um importante

apêndice sobre interações farmacológicas, indicando aquelas que são clinicamente importantes) ou no site do Department of Medicine da Indiana

University citado previamente (p. 134).

A inibição enzimática, especialmente das enzimas CYP, reduz o

metabolismo e, consequentemente, aumenta a ação de outros fármacos

inativados pelas enzimas. Tais efeitos podem ser clinicamente importantes e

são de grande relevância no tratamento com terapias combinadas de

pacientes infectados pelo HIV, uma vez que vários inibidores de protease

são inibidores potentes da CYP (ver Capítulo 53). Outros exemplos de

fármacos inibidores de enzimas são apresentados na Tabela 10.5. Para

dificultar ainda mais, vários inibidores do metabolismo de fármacos

influenciam seletivamente o metabolismo de diferentes estereoisômeros. Na

Tabela 10.6 são apresentados exemplos de fármacos que inibem o

metabolismo dos isômeros de varfarina ativos (S) e menos ativos (R).

Os efeitos terapêuticos de alguns fármacos são uma consequência direta

da inibição enzimática (p. ex., o alopurinol, o inibidor da xantina oxidase,

utilizado no tratamento da gota; ver Capítulo 27). A xantina oxidase

metaboliza vários fármacos citotóxicos e imunossupressores, incluindo a

mercaptopurina (o metabólito ativo da azatioprina), cuja ação é, então,

potencializada e prolongada pelo alopurinol. O dissulfiram, um inibidor do

aldeído desidrogenase, utilizado na produção de uma reação aversiva ao

etanol (ver Capítulo 50), também inibe o metabolismo de outros fármacos,

incluindo a varfarina, a qual potencia. O metronidazol, um antimicrobiano

utilizado no tratamento de infecções bacterianas anaeróbicas e de várias

doenças protozoárias (ver Capítulos 52 e 55), também inibe esta enzima e,

por esse motivo, os pacientes aos quais é prescrito este fármaco devem

evitar o consumo de álcool.

 

Tabela 10.4 Exemplos de fármacos que induzem as

enzimas metabolizadoras de fármacos.

 

Fármacos que induzem a ação das enzimas Exemplos de fármacos com o metabolismo alterado

Fenobarbital Varfarina

Rifampicina Contraceptivos orais

Griseofulvina Corticosteroides

Fenitoína Ciclosporina

 

Etanol Os fármacos indicados na coluna à esquerda também são

afetados

Carbamazepina

Figura 10.5 Efeito da rifampicina no metabolismo e ação anticoagulante da

varfarina. A. A concentração plasmática da varfarina (escala logarítmica) em função do tempo após uma única dose oral de 5 μmol/kg do peso corporal. Depois de ter sido administrada a rifampicina (600 mg/dia durante alguns dias), a meia-vida plasmática da varfarina diminuiu de cerca de 2 dias para < 1 dia. B. O efeito de uma única dose de varfarina no tempo de protrombina em condições normais (curva vermelha) e após administração de rifampicina (curva verde). (Redesenhada de O’ Reilly, R.A. 1974. Ann. Intern. Med. 81, 337.)

 

Tabela 10.5 Exemplos de fármacos que inibem as enzimas

metabolizadoras de fármacos.

 

Fármacos que inibem a ação das enzimas Fármacos com o metabolismo alterado

Alopurinol Mercaptopurina, azatioprina

Cloranfenicol Fenitoína

Cimetidina Amiodarona, fenitoína, petidina

Cipro oxacino Teo lina

Corticosteroides Antidepressivos tricíclicos, ciclofosfamida

Dissul ram Varfarina

Eritromicina Ciclosporina, teo lina

Inibidores da monoamina oxidase Petidina

Ritonavir Saquinavir

 

Tabela 10.6 Inibição estereosseletiva e não

estereosseletiva do metabolismo da varfarina.

 

Inibição do metabolismo Fármaco(s)

Estereosseletiva para o isómero (S) Fenilbutazona

Metronidazol

Sul mpirazona

Sulfametoxazol-trimetoprima