Rang e Dale: Farmacologia
Mutagênese e avaliação do potencial genotóxico
crianças, ou naqueles com doença renal concomitante.
MUTAGÊNESE E AVALIAÇÃO DO POTENCIAL GENOTÓXICO
A mutagênese induzida por fármacos é importante causa de carcinogênese e
teratogênese. O registro dos medicamentos requer avaliação exaustiva de
seu potencial genotóxico. Uma vez que não existe um único teste adequado,
a abordagem habitual é a realização de uma bateria de testes in vitro e in
vivo para genotoxicidade, em geral compreendendo testes para a mutação
de genes em bactérias, testes in vivo e in vitro para a lesão dos
cromossomos e testes in vivo para a toxicidade reprodutora e
carcinogenicidade (ver adiante).
Tabela 58.1 Efeitos adversos de fármacos anti-
inflamatórios não esteroides no rim.
Causa Efeitos adversos
Insu ciência renal aguda isquêmica
Retenção de sódio (provocando – ou exacerbando –
Principal ação farmacológica ( hipertensão e/ou insu ciência cardíaca) i. e. , inibição da biossíntese de
prostaglandina)
Retenção de água
Hipoaldosteronismo hiporreninêmico (levando à
hiperpotassemia)
Não relacionada com a principal ação farmacológica (nefrite Insu ciência renal
intersticial do tipo alérgico)
Proteinúria
Não se sabe se está relacionada ou não com a principal ação Necrose papilar
farmacológica (nefropatia por analgésicos)
Insu ciência renal crônica
(Adaptada de Murray e Brater 1993.)
Nefrotoxicidade
• Células tubulares renais são expostas a elevadas concentrações de fármacos e metabólitos
quando a urina é concentrada
• A lesão renal pode causar necrose papilar e/ou tubular
• A inibição da síntese de prostaglandina por AINE provoca vasoconstrição e diminui a taxa
de ltração glomerular.
Mecanismos bioquímicos de mutagênese
Os agentes químicos causam mutação por meio de modificações covalentes
do DNA. Certas mutações resultam em carcinogênese, pois a sequência de
DNA afetada codifica uma proteína envolvida na regulação do crescimento.
Em geral, é necessário haver mais de uma mutação em uma célula para que
se iniciem as mudanças que resultam em malignidade, estando
particularmente relacionadas com as mutações em proto-oncogenes (que
regulam o crescimento celular) e em genes supressores de tumores (que
codificam produtos que inibem a transcrição de oncogenes) (ver Capítulos
6, 12 e 57).
▼ A maioria dos carcinógenos químicos age modificando as bases no
DNA, sobretudo a guanina, cujas posições O6 e N7 prontamente
combinam-se covalentemente com metabólitos reativos de carcinógenos
químicos. A substituição na posição O6 tem maior probabilidade de
produzir efeito mutagênico permanente, pois substituições em N7 são,
em geral, reparadas com rapidez.
A acessibilidade das bases do DNA ao ataque químico é maior quando
o DNA está em processo de replicação (i. e., durante a divisão celular).
A probabilidade de lesões genéticas por muitos agentes mutagênicos
está, portanto, relacionada com a frequência das divisões celulares. O
feto em desenvolvimento mostra-se particularmente suscetível, e os
agentes mutagênicos também são potencialmente teratogênicos por esse
motivo (p. 739). Isso é igualmente importante no que diz respeito à
mutagênese das células germinativas, especialmente em mulheres
jovens, pois, em seres humanos, a produção de oócitos primários ocorre
por meio de rápida sucessão de divisões mitóticas, logo no início da
embriogênese. Cada oócito primário, então, passa por apenas duas
divisões posteriores bem mais tardiamente, quando da ovulação. É no
início da gravidez, portanto, que as células de linhagem germinativa do
embrião feminino em desenvolvimento estão mais suscetíveis às
mutações, sendo essa mutação transmitida à prole concebida muitos
anos depois. No homem, a divisão de células germinativas ocorre
durante toda a vida, e a sensibilidade a agentes mutagênicos está
constantemente presente.
Mutagênese e carcinogenicidade
• A mutagênese envolve a modi cação do DNA
• A mutação de proto-oncogenes ou genes supressores de tumores leva à carcinogênese.
Em geral, mais de uma mutação se faz necessária
• Fármacos são causas relativamente incomuns (mas não sem importância) de defeitos
congênitos e cânceres.
Carcinogênese
A alteração do DNA é o primeiro passo na carcinogênese (ver Capítulos 6 e
57). Os compostos carcinógenos podem interagir diretamente com o DNA
(carcinógenos genotóxicos), ou agir em estágio mais avançado, aumentando
a probabilidade de a mutação resultar em tumor (carcinógenos epigenéticos;
Figura 58.2).
Mensuração da mutagenicidade e da carcinogenicidade
Muitos esforços foram realizados no sentido de desenvolver experimentos
que detectem a mutagenicidade e a carcinogenicidade. Testes in vitro para
mutagenicidade são utilizados para rastrear um grande número de
compostos, mas não são confiáveis como preditores de carcinogenicidade.
Testes para carcinogenicidade realizados em animais não castrados e não
modificados geneticamente são caros e consomem tempo, porém, em geral,
são exigidos pelas agências reguladoras antes de o novo fármaco ser
licenciado para uso em seres humanos. A principal limitação desse tipo de
pesquisa é que existem importantes diferenças entre as espécies, sobretudo
as relacionadas ao metabolismo de compostos estranhos e à formação de
produtos reativos.
O teste de Ames, amplamente utilizado para mutagenicidade, mede os
efeitos das substâncias na taxa de mutação reversa (i. e., reversão de
mutante à forma selvagem) em Salmonella typhimurium.
▼ A cepa selvagem pode crescer em meio sem a adição de
aminoácido, pois é capaz de sintetizar todos os aminoácidos de que
precisa. Uma forma mutante do organismo não pode produzir histidina
dessa maneira e, portanto, cresce apenas em meio que contenha esse
aminoácido. O teste de Ames envolve o crescimento do mutante em
meio contendo pequena quantidade de histidina, mais o fármaco a ser
testado. Após algumas divisões, a histidina torna-se escassa, e as únicas
células que continuam a se dividir são aquelas que retornaram à forma
primitiva. A contagem das colônias que se segue à subcultura em placas
deficientes em histidina revela a medida da taxa de mutação.
Carcinógenos primários provocam mutações por ação direta no DNA
bacteriano, mas muitos carcinógenos têm de ser convertidos em um
metabólito ativo (ver Figura 58.2). Portanto, é necessário incluir na
cultura enzimas que catalisem essa conversão. Em geral, emprega-se um
extrato de fígado de rato tratado com fenobarbital para induzir enzimas
hepáticas. Há muitas variações com base no mesmo princípio.
Figura 58.2 Sequência de eventos em mutagênese e carcinogênese. Alterações aos padrões de metilação e acetilação do DNA e histonas de uma forma epigenética podem alterar a expressão de genes durante a transcrição, tradução ou até mesmo após tradução, aumentando a probabilidade de formação de carcinoma.
Outros testes in vitro a curto prazo para substâncias químicas genotóxicas
incluem a mensuração da mutagênese em células de linfoma murino e a
busca de aberrações cromossômicas e trocas de cromátides-irmãs em
células ovarianas de hamsters chineses. No entanto, todos os testes in vitro
apresentam alguns resultados falso-negativos e falso-positivos.
Testes in vivo para carcinogenicidade envolvem a detecção de tumores
em grupos de animais de teste. Testes de carcinogenicidade são
inevitavelmente lentos, pois costuma haver latência de meses ou anos antes
de os tumores se desenvolverem. Além disso, tumores podem se
desenvolver de forma espontânea em animais-controle, e os resultados
quase sempre oferecem apenas evidências equivocadas a respeito da
carcinogenicidade do fármaco testado, tornando difícil para a indústria e
para as agências reguladoras decidirem o posterior desenvolvimento e o
possível licenciamento de um produto. Nenhum dos testes descritos até
agora pode, de maneira confiável, detectar carcinógenos epigenéticos. Para
fazer isso, estão sendo avaliados alguns testes que medem os efeitos das
substâncias na formação de tumores, na presença de doses limiares de um
agente genotóxico separado.
São conhecidos poucos fármacos terapêuticos utilizados na clínica que
aumentem o risco de câncer, sendo os grupos mais importantes aqueles que
atuam no DNA, isto é, fármacos citotóxicos e imunossupressores (ver
Capítulos 57 e 27, respectivamente) e hormônios sexuais (p. ex.,
estrógenos, ver Capítulo 36).
Teratogênese e anomalias congênitas induzidas por fármacos Teratogênese significa produção de malformações estruturais grosseiras
durante o desenvolvimento fetal, diferente de outros tipos de lesão fetal
induzidos por fármacos, como retardamento do crescimento, displasia (p.
ex., bócio associado ao iodo) ou redução assimétrica dos membros
resultante de vasoconstrição causada pela cocaína (ver Capítulo 50), em um
membro que se desenvolveria normalmente.
Carcinógenos
• Os carcinógenos podem ser:
– Genotóxicos, ou seja, causando mutações diretamente (carcinógenos primários) ou
após a conversão em metabólitos reativos (carcinógenos secundários)
– Epigenéticos, ou seja, aumentando a possibilidade de um mutágeno causar câncer,
embora não sejam, eles mesmos, mutagênicos
• Novos fármacos estão sendo testados para mutagenicidade e carcinogenicidade
• O teste de Ames para mutagenicidade mede a mutação reversa, em meio livre de
histidina, de um mutante de Salmonella typhimurium (que, ao contrário de sua forma
selvagem, não pode crescer sem histidina) na presença de:
– Substância química a ser testada
– Um preparado de enzimas microssomais hepáticas para gerar metabólitos reativos
• O crescimento da colônia indica que ocorreu mutagênese. O teste é rápido e barato, mas
ocorrem alguns falso-positivos e falso-negativos
• Teste para carcinogenicidade:
– Envolve a dosagem crônica de grupos de animais
– É caro e demorado
– Não existe teste que realmente sirva para carcinógenos epigenéticos.
Outras anomalias congênitas podem estar relacionadas com a função
neurocomportamental. Por exemplo, sabe-se, ou suspeita-se, que muitas
substâncias psicoativas (ver Capítulo 46) administrados durante a gravidez
aumentem o risco de problemas cognitivos e comportamentais nos
descendentes. Exemplos de substâncias que afetam o desenvolvimento fetal
de forma adversa são mostrados na Tabela 58.2.
A importância da utilização dos raios X e da infecção por rubéola como
causas de malformações fetais foi reconhecida no início do século XX, mas
apenas em 1960 é que os fármacos passaram a ser vistos como agentes
causadores de teratogênese: a experiência chocante com a talidomida levou
à reavaliação amplamente difundida quanto ao uso clínico de muitos outros
fármacos e à criação de entidades reguladoras de fármacos em muitos
países. A maioria dos defeitos congênitos (cerca de 70%) ocorre sem o
reconhecimento de qualquer fator causal. Acredita-se que a exposição a
fármacos ou a substâncias químicas durante a gestação seja responsável por
apenas 1% de todas as malformações fetais. Essas malformações são
comuns; portanto, os números absolutos de crianças afetadas são
substanciais.
Mecanismo da teratogênese
A época da lesão teratogênica em relação ao desenvolvimento fetal é crítica
na determinação do tipo e da magnitude do dano. O desenvolvimento fetal
em mamíferos passa por três fases (Tabela 58.3):
1. Formação do blastocisto.
2. Organogênese.
3. Histogênese e maturação da função.
A divisão celular é o principal processo que ocorre durante a formação do
blastocisto. Nessa fase, alguns fármacos podem destruir o embrião pela
inibição da divisão celular, mas, em caso de sua sobrevivência, o
desenvolvimento subsequente, em geral, não parece ser comprometido. O
etanol é uma exceção, pois afeta o desenvolvimento mesmo nesse estágio
inicial (ver Capítulo 50).
Tabela 58.2 Efeitos adversos no desenvolvimento fetal
humano relatados para algumas substâncias.
Agente Efeito(s) Ver Capítulo a congênita Risco de anomalia
Focomelia, defeitos cardíacos, atresia intestinal
Talidomida K Este capítulo
etc.
Nariz em sela; atraso de crescimento; defeitos dos
Varfarina K 25
membros, olhos, sistema nervoso central
Corticosteroides Fenda palatina e catarata congênita – raro — 34
Andrógenos Masculinização em mulheres — 36
Estrógenos Atro a testicular em homens — 36
Adenose vaginal no feto feminino, também +20 anos mais
Estilbestrol 36
câncer vaginal ou colo do útero tarde
Fenda labial/palatina, microcefalia, atraso
Fenitoína K 46
mental
Defeitos do tubo neural (p. ex., espinha bí da,
Valproato K 46
anomalias da face)
Carbamazepina Atraso do crescimento da cabeça fetal S 46
Fármacos citotóxicos Hidrocefalia, fenda palatina, defeitos do tubo K 57
(especialmente antagonistas neural etc.
do folato)
Aminoglicosídios Surdez — 52
Escurecimento de ossos e dentes, esmalte
Tetraciclina S 52
dentário no, alteração do crescimento do osso
Etanol Síndrome fetal alcoólica K 50
Nicotina Função neurológica alterada K 49
Retinoides Hidrocefalia etc. K 28
Inibidores da enzima
Oligo-hidrâmnio, insu ciência renal K 23
conversora da angiotensina
a K, sabe-se que tem risco elevado de anomalia congênita (em animais experimentais e/ou seres humanos); S, suspeita-se que
cause ou aumente o risco de anomalia congênita (em animais experimentais e/ou seres humanos).
Tabela 58.3 Natureza dos efeitos dos fármacos no
desenvolvimento fetal.
Período de gestação em Principais processos
Estágio Afetado por
seres humanos celulares
Fármacos citotóxicos, álcool
Formação do blastocisto 0 a 16 dias Divisão celular
(?)
Divisão Teratógenos
Migração Teratógenos
17 a 60 dias,
Organogênese
aproximadamente
Diferenciação Teratógenos
Morte Teratógenos
Histogênese e maturação 60 dias até o nal Igual ao anterior Fármacos diversos (p. ex.,
funcional álcool, nicotina, fármacos
antitireoidianos, esteroides)
Os fármacos podem causar malformações grosseiras se administrados
durante a organogênese (dias 17 a 60 em seres humanos). A organização
estrutural do embrião ocorre em uma sequência bem-definida: olhos e
cérebro, esqueleto e membros, coração e vasos maiores, palato e sistema
urogenital. O tipo de malformação produzida depende da época de
exposição ao teratógeno.
Os mecanismos celulares por meio dos quais as substâncias
teratogênicas produzem seus efeitos não são bem compreendidos. Há
sobreposição considerável entre mutagenicidade e teratogenicidade. Em
uma grande pesquisa, entre 78 compostos, 34 eram tanto teratogênicos
quanto mutagênicos, 19 eram negativos em ambos os testes e 25 (entre eles,
a talidomida) eram positivos em um, mas não no outro. A lesão ao DNA é
importante, mas não é o único fator. O controle da morfogênese é pouco
compreendido; derivados de vitamina A (retinoides) estão envolvidos e
representam teratógenos potentes (ver p. 741 e Capítulo 28). Teratógenos
conhecidos também incluem muitos fármacos (p. ex., metotrexato e
fenitoína) que não reagem diretamente com o DNA, mas que inibem sua
síntese por causa de seu efeito no metabolismo do folato (ver Capítulo 26).
A administração de folato durante a gravidez reduz a frequência tanto de
malformações espontâneas quanto as induzidas por fármacos, sobretudo
defeitos do tubo neural.
O feto depende do suprimento adequado de nutrientes durante o estágio
final da histogênese e da maturação funcional, e seu desenvolvimento é
regulado por vários hormônios. Nesse estágio, malformações estruturais
grosseiras não surgem a partir da exposição a mutágenos, mas fármacos que
interfiram no suprimento de nutrientes, ou no meio hormonal, podem apresentar efeitos deletérios no crescimento e no desenvolvimento. A
exposição de um feto feminino a andrógenos nesse estágio pode causar
masculinização. O estilbestrol (um estrógeno sintético, agora raramente
utilizado, licenciado para tratar câncer de mama ou de próstata) foi
comumente administrado às gestantes com história de aborto recorrente
durante os anos 1950 (por motivos infundados). Utilizado desse modo,
provocou displasia da vagina em crianças do sexo feminino e aumento da
incidência de carcinoma da vagina, uma doença maligna rara, praticamente
sem incidência de base, em sua prole durante a adolescência e por volta dos
20 anos de idade. A angiotensina II desempenha importante papel nos
estágios mais avançados do desenvolvimento fetal e no funcionamento
renal do feto, e inibidores da ECA e antagonistas dos receptores de
angiotensina (ver Capítulo 23) causam oligo-hidrâmnio e insuficiência renal
se administrados nessa fase da gravidez, além de malformações fetais, se
administrados mais cedo.
Teste para teratogenicidade
O desastre com a talidomida mostrou, de maneira dramática, a necessidade
de se realizarem testes de rotina para teratogenicidade em novos fármacos
terapêuticos. A detecção de teratogênese induzida por fármacos em seres
humanos é um problema particularmente difícil, porque a taxa de
malformações “espontâneas” é elevada (3 a 10%, dependendo da definição
do significado de malformação) e altamente variável entre diferentes
regiões, grupos etários e classes sociais. É necessário realizar estudos em
larga escala e a longo termo, sendo os resultados muitas vezes
inconclusivos.
▼ Estudos que utilizam células-tronco embrionárias para a avaliação
da toxicidade no desenvolvimento têm se mostrado promissores.
Métodos in vitro, com base na cultura de células, órgãos ou embriões
inteiros, não foram, contudo, desenvolvidos até o momento a ponto de
predizer satisfatoriamente a teratogênese in vivo, e a maioria das
agências reguladoras requer a realização de testes de teratogenicidade
em roedores e mais uma espécie de não roedores (p. ex., coelho).
Fêmeas grávidas recebem variadas doses, em diferentes níveis, no
período crítico da organogênese, e os fetos são examinados em busca de
anomalias estruturais. No entanto, correlações fracas entre espécies
cruzadas significam que testes desse tipo não são confiáveis na predição
em seres humanos e, em geral, recomenda-se que novos fármacos não
sejam utilizados na gravidez, a menos que se mostrem essenciais.
Alguns teratógenos definidos e prováveis em seres humanos
Embora se tenha descoberto que muitos fármacos são teratogênicos em
graus variados nas experiências realizadas com animais, relativamente
poucos são sabidamente teratogênicos em seres humanos (ver Tabela 58.2).
Alguns dos mais importantes são discutidos a seguir.
■ Talidomida
Em dosagens terapêuticas, a talidomida é quase única na produção de
praticamente 100% de bebês malformados quando administrada nas
primeiras 3 a 6 semanas de gestação. Foi introduzida em 1957, como
hipnótico e sedativo, com a característica especial de se mostrar muito
menos prejudicial em superdosagens que os barbitúricos, sendo, inclusive,
recomendada para uso específico durante a gravidez (com a propaganda de
“o hipnótico seguro”). Foi submetida ao teste de toxicidade aguda apenas
em ratos, que são resistentes à teratogenicidade da talidomida. A talidomida
foi comercializada em larga escala e com sucesso, e a primeira suspeita de sua teratogenicidade surgiu no início de 1961, por meio de relatos de
aumento súbito na incidência de focomelia (“membros de foca”, ausência
do desenvolvimento dos ossos longos dos braços e das pernas), que, até
aquele momento, era praticamente desconhecida. Mas, àquela altura, um
milhão de comprimidos já estavam sendo vendidos diariamente na
Alemanha Ocidental. Relatos de focomelia vieram simultaneamente de
Hamburgo e Sidney, estabelecendo-se, então, a conexão com a talidomida.3
O fármaco foi retirado do mercado no final de 1961, quando a estimativa
correspondia a 10 mil bebês nascidos com malformação (a Figura 58.3
ilustra o uso da ligação de dados na detecção de RAF tardia). A
investigação epidemiológica mostrou muito claramente a correlação entre o
tempo de exposição e o tipo de disfunção produzido (Tabela 58.4). Embora
o mecanismo não seja totalmente compreendido, acredita-se que a inibição
da formação de vasos sanguíneos (angiogênese) esteja envolvida.
Figura 58.3 Incidência de maiores anomalias fetais na Europa Ocidental após a
introdução e subsequente retirada da talidomida, ligada aos dados de venda dessa substância.
Tabela 58.4 Teratogênese da talidomida.
Dias de gestação Tipo de deformidade
Malformação das orelhas
21 a 22
Defeitos do nervo craniano
24 a 27 Focomelia dos braços
28 a 29 Focomelia dos braços e das pernas
Malformação das mãos
30 a 36
Estenose anorretal
■ Fármacos citotóxicos
Muitos agentes alquilantes (p. ex., clorambucila e cliclofosfamida) e
antimetabólitos (p. ex., azatioprina e mercaptopurina) causam
malformações quando utilizados no início da gravidez, porém, com mais
frequência, levam ao aborto (ver Capítulo 57). Antagonistas do folato (p.
ex., metotrexato) produzem incidência muito maior de grandes
malformações, evidentes tanto em nascidos vivos quanto em fetos
natimortos.
■ Retinoides
O etretinato, um retinoide (i. e., derivativo da vitamina A) com efeitos
marcantes na diferenciação da epiderme, é um teratógeno conhecido e causa
grande quantidade de anomalias importantes (notadamente deformidades
esqueléticas) nos fetos expostos. Dermatologistas utilizam retinoides para
tratar doenças de pele, incluindo as graves, como acne e psoríase, comuns
em mulheres jovens. O etretinato acumula-se na gordura subcutânea e é eliminado de modo extremamente lento, com quantidades detectáveis
persistentes por muitos meses após a descontinuação da dosagem crônica.
Por isso, as mulheres devem evitar a gravidez por pelo menos 2 anos após o
tratamento. A acitretina é um metabólito ativo do etretinato. É igualmente
teratogênica, mas o acúmulo tecidual é menor, e a eliminação pode,
portanto, ser mais rápida.
■ Metais pesados
Chumbo, cádmio e mercúrio causam malformações fetais em seres
humanos. A principal evidência vem da doença de Minamata, que recebeu
esse nome em virtudo do lugar no Japão onde ocorreu epidemia na
população local, após a ingestão de peixe contaminado com metilmercúrio,
que havia sido utilizado como fungicida por agricultores. Isso prejudicou o
desenvolvimento cerebral nos fetos expostos, resultando em paralisia
cerebral e retardamento mental, frequentemente com microcefalia. O
mercúrio, como outros metais pesados, inativa muitas enzimas por meio da
formação de ligações covalentes com sulfidrila e outros grupamentos, e
acredita-se que seja responsável por essas anomalias do desenvolvimento.
■ Fármacos antiepilépticos (ver Capítulo 46)
As malformações congênitas estão aumentadas duas a três vezes nos bebês
de mães epilépticas, especialmente naquelas tratadas com dois ou mais
fármacos antiepilépticos durante o primeiro trimestre e em associação com
concentrações plasmáticas acima dos níveis terapêuticos. Muitos fármacos
antiepilépticos têm sido implicados, incluindo fenitoína (particularmente
fenda labial/palatina), valproato (defeitos do tubo neural) e
carbamazepina (espinha bífida e hipospadia, uma malformação da uretra
masculina) (ver Capítulo 46). Os riscos relativos atribuíveis a diferentes fármacos antiepilépticos não estão bem-definidos, mas o valproato é