Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 368 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Regulação da secreção de ácido pelas células parietais

Considera-se que desequilíbrios desses mecanismos secretores e

protetores estejam envolvidos na patogênese da úlcera péptica e em outros

tipos de comprometimento gástrico, como a doença do refluxo

gastresofágico (DRGE) e lesões causadas pelos anti-inflamatórios não

esteroidais (AINE).

 

REGULAÇÃO DA SECREÇÃO DE ÁCIDO PELAS CÉLULAS PARIETAIS

Os distúrbios da secreção de ácido são importantes na patogênese da úlcera

péptica e constituem um alvo particular para a ação de fármacos. A

secreção das células parietais é uma solução isotônica de HCl (150 mmol/ℓ)

com pH abaixo de 1, sendo a concentração de íons hidrogênio mais de 1

milhão de vezes mais alta que no plasma. Para produzi-la, o Cl- é

transportado ativamente para canalículos nas células que se comunicam

com o lúmen das glândulas gástricas e, desse modo, com o próprio

estômago. Isso é acompanhado pela secreção de K+, que é então trocado por

H+ do interior da célula por uma K+-H+-ATPase (a “bomba de prótons”,

Figura 31.1). Dentro da célula, a anidrase carbônica catalisa a combinação

de dióxido de carbono e água para produzir ácido carbônico, que se dissocia

dando origem a íons H+ e bicarbonato. Este último é trocado, através da

membrana basal da célula parietal, por Cl-. Os principais mediadores que

controlam direta ou indiretamente o ácido produzido pelas células parietais

são:

Figura 31.1 Ilustração esquemática da secreção do ácido clorídrico pela célula

parietal gástrica. + + A secreção envolve uma bomba de prótons ( B ), que é uma H /K-

ATPase; um carregador ( + – – C ) de simporte para K e Cl ; e um antiporte ( A ), que troca Cl e

HCO – + + . Um antiporte Na /H adicional situado na interface com o plasma também pode ter

3

participação (não mostrado).

 

• Histamina (hormônio local estimulador)

• Gastrina (hormônio peptídico estimulador)

• ACh (neurotransmissor estimulador)

• PGE e I (hormônios locais que inibem a secreção de ácido) 2 2

• Somatostatina (SST) (hormônio peptídico inibidor).

 

Histamina

A histamina é discutida no Capítulo 18; por isso, somente os aspectos de

sua farmacologia mais relevantes para a secreção gástrica serão tratados

nesta parte. As células neuroendócrinas são abundantes no estômago, e o

tipo dominante é o das células enterocromafim-símiles (ECS). Trata-se de

células contendo histamina semelhantes aos mastócitos, que se localizam

próximo às células parietais. Elas proporcionam uma liberação basal

constante de histamina, que ainda é aumentada pela gastrina e ACh. A

histamina atua como parácrina nos receptores H 2 das células parietais, aumentando o monofosfato de adenosina cíclico (cAMP) intracelular. Essas

células respondem a concentrações de histamina que estejam abaixo do

limiar necessário para ativação dos receptores H2 vasculares.

 

Gastrina

A gastrina é um polipeptídio de 34 resíduos, mas também existe em formas

menores. É sintetizada pelas células G no antro gástrico e é secretada no

sangue portal, agindo como um hormônio circulante. Sua principal ação é a

estimulação da secreção de ácido pelas células ECS por meio da sua ação

nos receptores de gastrina/colecistocinina (CCK)2,1 que aumentam o Ca2+ intracelular. Os receptores de gastrina também são encontrados em células

parietais, mas sua significância no controle da secreção fisiológica é

controversa. Os receptores CCK2 são bloqueados por fármacos

experimentais, como a netazepida e a proglumida (Figura 31.2), mas

nenhum desses agentes conseguiu aprovação clínica.

A gastrina estimula também a síntese de histamina pelas células ECS e

aumenta, indiretamente, a secreção de pepsinogênio, além de estimular o

fluxo sanguíneo e intensificar a motilidade gástrica. A liberação de gastrina

é controlada tanto por transmissores neuronais quanto por mediadores

veiculados pelo sangue, bem como pela química do conteúdo gástrico. Aminoácidos e pequenos peptídios estimulam diretamente as células

secretoras de gastrina, assim como o leite e soluções de sais de cálcio, o que

explica por que é inadequado usar substâncias contendo sais de cálcio como

antiácidos.

 

Acetilcolina

A acetilcolina é liberada (juntamente com uma bateria de outros

neurotransmissores e peptídios) de neurônios colinérgicos pós-ganglionares.

Ela estimula receptores M3 muscarínicos específicos na superfície das

células parietais (ver Capítulo 14), elevando, assim, o Ca2+ intracelular e

estimulando a secreção de ácido. Também apresenta efeitos complexos em

outros tipos celulares; por meio da inibição da liberação da SST das células

D, potencializa sua ação sobre a secreção de ácido pelas células parietais.

 

Prostaglandinas

A maioria das células do trato GI produz PG (ver Capítulo 18), sendo as

mais importantes a PGE 2 e a PGEI2. As PG exercem efeitos “citoprotetores” em muitos aspectos da função gástrica, incluindo: aumento da secreção de

bicarbonato (receptores EP 1/2); aumento da liberação de mucina protetora

(receptores EP4); redução da produção de ácido gástrico, provavelmente por

ação sobre os receptores EP2/3 nas células ECS; e prevenção da vasoconstrição e, portanto, do dano à mucosa, que ocorre após estímulo

agressivo. Essa ação provavelmente é mediada pelos receptores EP2/4. O misoprostol (ver adiante) é uma PG sintética que provavelmente explora

muitas dessas ações para manifestar seus efeitos terapêuticos.

 

Somatostatina

Este hormônio peptídico é liberado pelas células D em muitas regiões

dentro do estômago. Mediante atuação no receptor 2 de somatostatina (SST)2, exerce efeitos inibitórios parácrinos sobre a liberação de gastrina pelas células G e sobre a liberação de histamina pelas células ECS, assim