Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 146 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Idade

responderem dessa maneira. A diferença subjacente é a de que os pacientes

que respondem bem apresentam mutações específicas no receptor do fator

de crescimento epidérmico (Wadman, 2005). É provável que muitas de tais

diferenças étnicas sejam genéticas em sua origem, mas os fatores

ambientais (p. ex., os relacionados com hábitos alimentares) também

poderão trazer uma contribuição. É importante não abandonar a procura

mais sofisticada de maneiras de individualizar a medicina com base na

farmacogenômica somente porque tem apresentado algum sucesso o

processo simples e acessível de solicitar aos pacientes que definam seu

grupo étnico: isso deveria funcionar como um estímulo. Se uma abordagem

tão grosseira e imperfeita teve algum sucesso, conseguiremos certamente

fazer melhor com os testes genômicos.

 

IDADE

A principal razão pela qual a idade afeta a ação farmacológica é a de que a

eliminação de fármacos é menos eficiente em bebês recém-nascidos e em

pessoas idosas; assim, os fármacos produzem comumente efeitos maiores e

mais prolongados nos extremos da vida. Outros fatores relacionados com a

idade, como variações na sensibilidade farmacodinâmica, são também

importantes com alguns fármacos. A composição corporal se altera com a

idade, e a gordura contribui com uma proporção maior nos mais idosos,

com consequentes alterações no volume de distribuição de fármacos. Em

geral, os idosos consomem mais fármacos que os jovens adultos; então, o

potencial de interação dos fármacos também se encontra aumentado. Para

descrições mais detalhadas da terapia farmacológica em pediatria e nos

idosos, consulte os capítulos sobre doença renal e hepática em Atkinson et

al. (2012).

Efeito da idade na excreção renal de fármacos

A taxa de filtração glomerular (TFG) no recém-nascido, normalizada para a

área de superfície corporal, representa somente cerca de 20% do valor do

adulto. Em consonância, as meias-vidas de eliminação plasmática dos

fármacos eliminados em nível renal são mais longas em recém-nascidos que

em adultos (Tabela 12.1). Em bebês a termo, a função renal aumenta para

valores semelhantes aos do jovem adulto em menos de 1 semana, e continua

a aumentar para um máximo de aproximadamente o dobro do valor adulto

aos 6 meses de idade. A melhora da função renal ocorre mais lentamente

em bebês prematuros. A imaturidade renal em crianças prematuras pode ter

efeito substancial na eliminação de fármacos. Por exemplo, em recém-

nascidos prematuros, o antibiótico gentamicina (ver Capítulo 52) tem

meia-vida plasmática ≥ 18 h, comparada com 1 a 4 h para adultos e

aproximadamente 10 h para bebês a termo. Portanto, é necessário reduzir

e/ou espaçar as doses para evitar toxicidade em bebês prematuros.

A TFG declina lentamente a partir dos 20 anos de idade (em média),

decrescendo em torno de 25% aos 50 anos e 50% aos 75 anos. A Figura

12.1 demonstra que a depuração renal da digoxina em indivíduos jovens e

idosos se correlaciona intimamente com a depuração da creatinina, uma

medida da TFG. Consequentemente, a administração crônica ao longo dos

anos da mesma dose diária de digoxina ao indivíduo, à medida que ele ou

ela envelhece, leva a um progressivo aumento da concentração plasmática,

o que constitui uma causa comum de toxicidade por glicosídios em pessoas

idosas (ver Capítulo 22).

 

Tabela 12.1 Efeito da idade nos tempos de meia-vida de

eliminação plasmática de vários fármacos.

Meia-vida média ou intervalo de meia-vida (h)

Fármaco a Recém-nascido a termo Adulto Indivíduo idoso

Fármacos que são majoritariamente excretados sem alteração na urina

Gentamicina 10 2 4

Lítio 120 24 48

Digoxina 200 40 80

Fármacos que são majoritariamente metabolizados

Diazepam 25 a 100 15 a 25 50 a 150

Fenitoína 10 a 30 10 a 30 10 a 30

Sulfametoxipiridazina 140 60 100

a Em bebês prematuros, ocorrem diferenças ainda maiores em relação aos valores médios dos adultos.

(Dados de Reidenberg, M.M., 1971. Renal Function and Drug Action. Saunders, Philadelphia; e Dollery, C.T., 1991. Therapeutic

Drugs. Churchill Livingstone, Edinburgh.)

 

▼ O declínio na TFG relacionado com a idade, ao contrário da

depuração da creatinina, não se reflete em um aumento da

concentração plasmática de creatinina. Em geral, a creatinina

plasmática permanece na gama normal dos adultos em pessoas idosas,

apesar da TFG substancialmente reduzida. Isso se deve à redução da

síntese de creatinina em pessoas idosas, motivada pela diminuição de

sua massa muscular. Consequentemente, uma concentração plasmática

“normal” de creatinina em uma pessoa idosa não indica que ela tenha

uma TFG normal. Falhas no reconhecimento desses fatores e a redução

da concentração do fármaco que é eliminado por excreção renal poderão

levar à toxicidade por fármacos.

Efeito da idade no metabolismo de fármacos

Várias enzimas importantes, incluindo a oxidase microssomal hepática, a

glicuroniltransferase, a acetiltransferase e as esterases plasmáticas, têm

baixa atividade em recém-nascidos, especialmente se prematuros. Essas

enzimas requerem 8 semanas ou mais para alcançarem o nível de atividade

adulto. A relativa falta de atividade de conjugação no recém-nascido pode

ter sérias consequências, como o kernicterus causado pelo deslocamento

farmacológico da bilirrubina de seus pontos de ligação na albumina (ver

Capítulo 9) e na síndrome de “bebê cinzento”, causada pelo antibiótico

cloranfenicol (ver Capítulo 52). Esta condição, por vezes fatal,

primeiramente considerada uma sensibilidade bioquímica específica ao

fármaco em bebês jovens, resulta, na verdade, do simples acúmulo de

concentrações teciduais muito elevadas de cloranfenicol devido à baixa

conjugação hepática. O cloranfenicol não é mais tóxico para os bebês do

que para os adultos, desde que a dose seja reduzida em conformidade com

isso. A baixa conjugação é também uma razão pela qual a morfina (que é

excretada principalmente como um glicuronídio, ver Capítulo 43) não é

usada como analgésico nas dores do parto, uma vez que o fármaco

transferido pela placenta tem meia-vida longa no recém-nascido e pode

causar depressão respiratória prolongada.

Figura 12.1 Relação entre a função renal (medida como a depuração [clearance] da creatinina) e a depuração de digoxina em indivíduos jovens e idosos. (De Ewy, G.A. et al., 1969. Circulation 34, 452.)

 

Figura 12.2 Aumento do tempo de meia-vida plasmática para o diazepam, com a

idade, em 33 indivíduos normais. Observe tanto o aumento da variabilidade quanto o da meia-vida com o envelhecimento. (De Klotz, U. et al., 1975. J. Clin. lnvest. 55, 347.)

A atividade das enzimas microssômicas hepáticas declina lentamente (e

de forma muito variável) com a idade, e o volume de distribuição dos

fármacos lipossolúveis aumenta, porque a proporção de gordura corporal

passa a ser maior com o avançar da idade. O aumento da meia-vida do

fármaco ansiolítico diazepam com o passar da idade (Figura 12.2) é uma

consequência disso. Alguns outros benzodiazepínicos e seus metabólitos

ativos mostram aumentos ainda maiores na meia-vida relacionados com a

idade. Como a meia-vida determina o tempo de acúmulo do fármaco ao

longo de doses repetidas (ver Capítulo 11), efeitos insidiosos, que se

desenvolvem após dias ou semanas, podem ocorrer em idosos e ser

erroneamente atribuídos aos problemas de memória relacionados com a

idade, e não ao acúmulo do fármaco. Ainda que a meia-vida média de um

fármaco possa ser pouco afetada, há, muitas vezes, um aumento marcado na

variabilidade da meia-vida entre indivíduos com o passar da idade (como

na Figura 12.2). Isso é importante porque uma população de idosos terá

alguns indivíduos com taxas grandemente reduzidas de metabolismo de

fármacos, ao passo que tais extremos não ocorrem com tanta frequência em

populações de adultos jovens. Assim, as autoridades que regulamentam os

fármacos geralmente exigem estudos em idosos como parte da avaliação de

fármacos suscetíveis de serem usados nestes.

 

Variação na sensibilidade a fármacos relacionada com a idade

A mesma concentração plasmática de um fármaco pode causar efeitos

diferentes em indivíduos jovens e idosos. Os benzodiazepínicos (ver

Capítulo 45) exemplificam isso, produzindo mais confusão e menos

sedação em idosos que em indivíduos jovens; de modo similar, fármacos

hipotensores (ver Capítulo 23) causam hipotensão postural com maior

frequência em idosos do que em pacientes adultos jovens.