Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos usados em doenças da tireoide
A deficiência da função tireoidiana durante o desenvolvimento, que
afeta 1 em 3.000 a 4.000 nascimentos, causa hipotireoidismo congênito,
caracterizado por acentuado retardo do crescimento e deficiência mental.7
FÁRMACOS USADOS EM DOENÇAS DA TIREOIDE
HIPERTIREOIDISMO
O hipertireoidismo pode ser tratado farmacológica ou cirurgicamente. Em
geral, atualmente, a cirurgia é realizada apenas quando há problemas
mecânicos decorrentes da compressão da traqueia pela tireoide. Nessas
circunstâncias, é comum a remoção de apenas parte do órgão. Embora o
quadro de hipertireoidismo possa ser controlado com agentes
antitireoidianos, esses fármacos não alteram os mecanismos autoimunes ou
melhoram a exoftalmia associada à doença de Graves.
Iodo radioativo
O iodo radioativo é o tratamento de primeira linha do hipertireoidismo,
particularmente nos EUA. O isótopo usado é o 131I (comumente na forma de
sal de sódio), em geral na dose de 5 a 15 mCi. Quando administrado por via
oral, é captado e processado pela tireoide da mesma maneira que a forma
estável de iodeto, sendo, por fim, incorporado à tireoglobulina. O isótopo
emite tanto radiação β quanto γ as emissões γ passam através do tecido sem
causar danos, mas as partículas β têm alcance muito curto e são absorvidas
pelo tecido, exercendo poderosa ação citotóxica, restrita às células dos
folículos da tireoide, o que resulta em destruição significativa do tecido. O
131I tem meia-vida de 8 dias; assim, em 2 meses, sua radioatividade
efetivamente desaparece. É administrado em dose única, mas o início do
efeito citotóxico sobre a glândula ocorre em 1 a 2 meses e ainda leva mais 2
meses para atingir o efeito máximo.
Depois do tratamento com iodo radioativo, ocorre hipotireoidismo,
principalmente em pacientes com doença de Graves; porém, esse distúrbio é
facilmente controlado pela terapia de reposição com T4. O iodo radioativo não deve ser usado em crianças ou gestantes, em razão do risco de danos ao
feto. Teoricamente, existe aumento do risco de câncer na tireoide, mas isso
não foi observado após o tratamento terapêutico.
A captação de 131I e outros isótopos do iodo também é utilizada para
diagnóstico, no teste da função da tireoide. Uma dose de rastreamento do
isótopo é administrada por via oral ou intravenosa, e a quantidade
acumulada pela glândula é medida por um cintilógrafo posicionado sobre a
ela. Outro uso desse fármaco é no tratamento do câncer da tireoide.
Tireoide
• Os hormônios da tireoide, tri-iodotironina (T3) e tiroxina (T4), são sintetizados por iodação
dos resíduos de tirosina da tireoglobulina no interior do lúmen dos folículos da tireoide
• A síntese e a secreção hormonal são reguladas pelo hormônio estimulante da tireoide ou
tireotro na (TSH) e in uenciadas pelo iodeto plasmático
• Há grande reserva de T4 no corpo; esse hormônio apresenta baixa reciclagem (turnover) e
se encontra principalmente na circulação
• Há pequena reserva de T 3 no corpo; esse hormônio tem uma reciclagem (turnover) rápida
e se encontra principalmente no meio intracelular
• No interior das células, T4 é convertida em T3, que interage com um receptor nuclear para
regular a transcrição gênica
• Ações de T3 e T4:
– Estímulo do metabolismo, elevando o consumo de oxigênio e a taxa metabólica
– Regulação do crescimento e do desenvolvimento
• As anormalidades da função tireoidiana incluem:
– Hipertireoidismo (tireotoxicose), bócio tóxico difuso ou bócio tóxico nodular
– Hipotireoidismo; em adultos, causa o mixedema; em crianças, retardo grave de
crescimento e de ciência mental
– Bócio simples não tóxico, causado pela de ciência de iodo na dieta, geralmente com
função tireoidiana normal.
Tioureilenos
O grupo de fármacos tioureilenos compreende o carbimazol e a
propiltiouracila. Quimicamente, eles se relacionam com a tioureia, e o
grupo tiocarbamida (S-C-N) é essencial para a atividade antitireoidiana.
■ Mecanismo de ação
Os tioureilenos reduzem a liberação de hormônios tireoidianos e causam
redução gradual dos sinais e sintomas da tireotoxicose, sendo que a taxa
metabólica basal e a frequência cardíaca retornam ao normal em 3 a 4
semanas. Seu mecanismo de ação não é completamente compreendido, mas
há evidências de que eles reduzam a iodação dos resíduos de tirosil na
tireoglobulina (Figuras 35.1 e 35.2), inibindo as reações de oxidação
catalisadas pela tireoperoxidase, possivelmente por atuarem como
substratos, inibindo competitivamente a interação com a tirosina. A
propiltiouracila tem o efeito adicional de reduzir a desiodação de T 4 em T3 nos tecidos periféricos.
■ Aspectos farmacocinéticos
Os tioureilenos são administrados por via oral. O carbimazol é rapidamente
convertido em um metabólito ativo, e uma dose média dele produz mais de
90% de inibição da incorporação de iodo à tireoide em 12 h. Entretanto, a
resposta clínica completa a esses e a outros fármacos antitireoidianos pode
levar várias semanas (Figura 35.6), em parte porque T 4 tem meia-vida longa e também porque a tireoide pode ter grandes estoques do hormônio, que
devem ser esgotados antes que a ação do medicamento possa manifestar-se
por completo. A propiltiouracila age, supostamente, um pouco mais
depressa devido ao seu efeito adicional de inibidor da conversão periférica
de T4 em T3.
Figura 35.6 Tempo de queda da taxa metabólica basal (TMB) durante o tratamento
com fármaco antitireoidiano, o carbimazol. A curva é exponencial, correspondendo à redução diária de 3,4% na TMB. (Modificada de Furth et al., 1963.)
Ambos os fármacos podem ser usados durante a gravidez, mas podem
atravessar a placenta e afetar a glândula tireoide fetal. Podem também
aparecer no leite materno, mas esse efeito é menos pronunciado com a
propiltiouracila, porque ela tem uma ligação mais forte à proteína
plasmática. Após a degradação, os metabólitos desses fármacos são
excretados na urina. Os tioureilenos podem acumular-se na tireoide.
■ Efeitos adversos
Os principais efeitos adversos dos fármacos tioureilenos são a neutropenia e
a agranulocitose (ver Capítulo 26). Eles efeitos são relativamente raros,
com incidência de 0,1 a 1,2%, sendo reversíveis com a suspensão do
tratamento. Os pacientes devem ser instruídos para avisar imediatamente
caso apresentem algum sintoma (principalmente dor de garganta) e devem fazer hemogramas periódicos. São comuns rashes (2 a 25%) e outros
sintomas, incluindo cefaleias, náuseas, icterícia e artralgia. Casos raros de
anomalias fetais foram descritos com o carbimazol.
Iodo/iodeto
O iodo é convertido, in vivo, em iodeto (I-), que inibe temporariamente a
liberação de hormônios tireoidianos. Quando doses elevadas são
administradas a pacientes com tireotoxicose, os sintomas desaparecem em 1
a 2 dias. Ocorre inibição da secreção dos hormônios tireoidianos e, por
período de 10 a 14 dias, intensa redução da vascularização da glândula, que
fica menor e com consistência mais firme. Em geral, o iodo é administrado
por via oral em solução com iodeto de potássio (“iodo de Lugol”). Com
administração contínua, o efeito alcança seu máximo em 10 a 15 dias e, em
seguida, diminui. O mecanismo de ação não está totalmente esclarecido;
pode inibir a iodação da tireoglobulina, possivelmente por reduzir a geração
de H 2O2, necessária para o processo.
As principais indicações do iodo/iodeto são o preparo de pacientes com
hipertireoidismo para a ressecção cirúrgica da glândula e como parte do
tratamento da crise tireotóxica grave (tempestade tireotóxica). Também é
utilizado após exposição ao derrame acidental de iodo radioativo de
reatores nucleares, para reduzir a captura dos isótopos radioativos na
tireoide. Podem ocorrer reações alérgicas, que incluem angioedema,
erupções cutâneas e febre medicamentosa. Lacrimejamento, conjuntivite,
dor nas glândulas salivares e sintomas de resfriado são efeitos adversos
relacionados com a dose e estão ligados à concentração de iodeto pelos
mecanismos de transporte nas lágrimas e na saliva.
Outros fármacos utilizados Os antagonistas do receptor beta-adrenérgico, como o propranolol e o