Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 305 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos fibrinolíticos

A Figura 25.10 resume a interação do sistema fibrinolítico com a cascata da

coagulação e a ativação de plaquetas, mostrando a ação de fármacos que as

modificam. Diversos fármacos fibrinolíticos (trombolíticos) são usados

clinicamente, principalmente para reabrir artérias ocluídas em pacientes

com IAM11 ou AVE e, menos frequentemente, em pacientes com trombose

venosa com risco de morte ou EP.

Usos clínicos dos fármacos antiplaquetários

 

O principal fármaco é o ácido acetilsalicílico. Outros fármacos com ações distintas (p. ex.,

dipiridamol, clopidogrel, ticagrelor) podem ter efeitos aditivos ou ser utilizados em

pacientes com intolerância o ácido acetilsalicílico. Os usos dos fármacos antiplaquetários estão

relacionados principalmente com trombose arterial e incluem:

• Infarto agudo do miocárdio

• Prevenção de IAM em pacientes de alto risco, incluindo histórico de IAM, angina ou

claudicação intermitente (ver Capítulo 23)

• Após cirurgia de revascularização do miocárdio

• Síndromes coronarianas instáveis (um antagonista do P2Y 12 como clopidogrel, prasugrel

ou ticagrelor é adicionado ao ácido acetilsalicílico)

• Após angioplastia da artéria coronária e/ou colocação de stent (em alguns pacientes,

juntamente com o ácido acetilsalicílico, utilizam-se antagonistas de glicoproteína

IIb/IIIa, p. ex., o abciximabe IV)

• Episódio isquêmico cerebral transitório (“mini-AVE”) ou AVE trombótico, para prevenir

recorrências (dipiridamol pode ser adicionado ao ácido acetilsalicílico)

• Fibrilação atrial, se houver contraindicação para anticoagulação oral; ou, por especialistas,

em combinação com anticoagulantes em situações de alto risco.

Outros fármacos antiplaquetários, como o epoprostenol (PGI2; ver Capítulo 18), têm

aplicações clínicas especializadas (p. ex., na hemodiálise ou hemo ltração, ver Capítulo 29, ou

na hipertensão pulmonar, ver Capítulo 23).

 

A estreptoquinase é uma proteína extraída de culturas de estreptococos

que ativa o plasminogênio. Administrada por infusão intravenosa, reduz a

mortalidade no IAM e esse efeito benéfico é aditivo ao do ácido

acetilsalicílico (ver Figura 25.8). Sua ação é bloqueada por anticorpos, que aparecem 4 dias ou mais após a dose inicial: seu uso não deve se repetir

depois de transcorrido esse tempo.12

A alteplase e a duteplase são tPA recombinantes de cadeia única e

dupla, respectivamente. Elas são mais ativas sobre o plasminogênio ligado à

fibrina do que sobre o plasminogênio plasmático e, portanto, são

consideradas “seletivas para o coágulo”. O tPA recombinante não é

antigênico e pode ser utilizado em pacientes com probabilidade de

apresentarem anticorpos contra a estreptoquinase. Como sua meia-vida é

curta, elas precisam ser administradas em infusões intravenosas. A

reteplase é semelhante, mas tem maior meia-vida de eliminação,

permitindo infusão em bolo e, portanto, maior simplicidade de

administração. Ela está disponível para uso clínico no IAM.

 

Efeitos adversos e contraindicações

O principal risco de todos os agentes fibrinolíticos é o sangramento,

inclusive hemorragia gastrintestinal e AVE hemorrágico. Se for grave, pode

ser tratado com ácido tranexâmico (p. 333), plasma fresco e fatores de

coagulação. A estreptoquinase pode causar reações alérgicas e febre baixa;

causa um surto de formação de plasmina, gerando cininas (ver Capítulo 18)

e pode causar hipotensão por esse mecanismo.

Figura 25.10 Sistema fibrinolítico. O esquema mostra as interações das vias de coagulação e plaquetária e os pontos para a ação de fármacos que modificam esses sistemas. HBPM, heparinas de baixo peso molecular. Para mais detalhes sobre ativação de

plaquetas e cascata da coagulação, ver as Figuras 25.1, 25.2 e 25.7.

 

As contraindicações ao uso desses fármacos incluem sangramento

interno ativo, AVE hemorrágico, diátese hemorrágica, gravidez, hipertensão

não controlada, procedimentos invasivos nos quais a hemostasia seja

importante e traumatismo recente – inclusive reanimação cardiopulmonar

vigorosa.

 

Uso clínico Alguns estudos grandes controlados com placebo em pacientes com IAM

mostraram, de forma convincente, que os fármacos fibrinolíticos reduzem a

mortalidade se administrados dentro de 12 h após o início dos sintomas, e

que quanto mais cedo forem administrados, melhor é o resultado.

Considerações semelhantes são válidas quanto a seu uso no AVE

trombótico. É aconselhável uma avaliação para excluir derrame

hemorrágico, embora nem sempre seja praticável em uma situação de

emergência. Os fármacos fibrinolíticos disponíveis, usados em combinação

com o ácido acetilsalicílico, fornecem níveis de benefício semelhantes,

porém geralmente menores do que os obtidos por procedimentos mecânicos

(principalmente a angioplastia). Outros usos de agentes fibrinolíticos estão

listados no boxe clínico.

 

Fibrinólise e fármacos modi cadores da brinólise

 

• A cascata brinolítica é iniciada ao mesmo tempo que a cascata da coagulação, resultando

na formação de plasmina dentro do coágulo, a qual digere a brina

• Vários agentes promovem a formação de plasmina a partir de seu precursor, o

brinogênio, como, por exemplo, a estreptoquinase, e os tPA, como a alteplase, a

duteplase e a reteplase. A maioria é administrada por infusão; a reteplase pode ser

administrada em forma de injeção em bolo

• Alguns fármacos (p. ex., ácido tranexâmico) inibem a brinólise.

Usos clínicos de fármacos brinolíticos

 

Os principais fármacos são a estreptoquinase e os tPA como, por exemplo, a alteplase.

O principal uso é no IAM, dentro de 12 h do início dos sintomas (quanto mais cedo,

•

melhor!)

• Outros usos incluem:

– AVE trombótico agudo dentro de 3 h do início do quadro (tPA), em pacientes

selecionados

– Reabertura de derivações e cânulas trombosadas

– Tromboembolismo arterial agudo

– Trombose venosa profunda com risco de morte e embolismo pulmonar

(estreptoquinase, administrada imediatamente).

 

Fármacos antifibrinolíticos e hemostáticos

O ácido tranexâmico inibe a ativação do plasminogênio e, assim, previne a

fibrinólise. Ele pode ser administrado por via oral ou intravenosa. É usado

no tratamento de diversas condições em que ocorre sangramento ou risco de

sangramento, como em hemorragia excessiva após prostatectomia ou

extração dentária, na menorragia (sangramento menstrual excessivo) e nos

sangramentos potencialmente fatais após administração de trombolíticos.

Também são usados em pacientes com a rara doença angioedema

hereditário.

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

Coagulação sanguínea e anticoagulantes

Bah, A., Carrell, C.J., Chen, Z.W., et al., 2009. Stabilization of the E* form turns thrombin into an

anticoagulant. J. Biol. Chem. 284, 20034–20040. (O perfil anticoagulante causado pela mutação

do gene na trombina ocorre devido à estabilização da forma E* inativa da trombina que é

seletivamente deslocada para a forma E ativa mediante a ligação com trombomodulina e

proteína C)

Hirsh, J., O’Donnell, M., Weitz, J.I., 2005. New anticoagulants. Blood 105, 453–463. (Artigo de

revisão sobre as limitações dos anticoagulantes existentes, antagonistas da vitamina K e

heparinas que levaram ao desenvolvimento de novas terapias anticoagulantes)

Koenig-Oberhuber, M.F., 2016. New antiplatelet drugs and new oral anticoagulants V. Br. J. Anaesth.

117 (Suppl. 2), ii74–ii84.

Martin, F.A., Murphy, R.P., Cummins, P.M., 2013. Thrombomodulin and the vascular endothelium:

insights into functional, regulatory, and therapeutic aspects. Am. J. Physiol. Heart Circ. Physiol.

304 (12), H1585–H1597.

Shearer, M.J., Newman, P., 2008. Metabolism and cell biology of vitamin K. Thromb. Haemost. 100,

530–547. (Revisão)

Endotélio, plaquetas e agentes antiplaquetários

Chew, D.P., Bhatt, D., Sapp, S., et al., 2001. Increased mortality with oral platelet glycoprotein

IIb/IIIa antagonists: a meta-analysis of phase III multicenter trials. Circulation 103, 201–206.

COMMIT Collaborative Group, 2005. Addition of clopidogrel to aspirin in 45 852 patients with

acute myocardial infarction: randomised placebo-controlled trial. Lancet 366, 1607–1621. (O

clopidogrel reduziu o risco de morte, IAM ou AVE combinados e o risco de mortalidade tomado

isoladamente; ver comentário correlato de Sabatine M.S., pp. 1587-1589 no mesmo fascículo)

Goodman, T., Ferro, A., Sharma, P., 2008. Pharmacogenetics of aspirin resistance: a comprehensive

systematic review. Br. J. Clin. Pharmacol. 66, 222–232. (Apoia a associação genética entre a

variante molecular PlA1/A2 e resistência ao ácido acetilsalicílico em indivíduos sadios, sendo o

efeito reduzido na presença de doença cardiovascular)

Patrono, C., Coller, B., FitzGerald, G.A., et al., 2004. Platelet-active drugs: the relationships among

dose, effectiveness, and side effects. Chest 126, 234S–264S.

Wallentin, L., Becker, R.C., Budaj, A., et al., 2009. Ticagrelor versus clopidogrel in patients with

acute coronary syndromes. N. Engl. J. Med. 361, 1045–1057.

Wiviott, S.D., Braunwald, E., McCabe, C.H., et al., 2007. For the TRITON-TIMI 38 Investigators.

Prasugrel versus clopidogrel in patients with acute coronary syndromes. N. Engl. J. Med. 357,

2001–2015. (O prasugrel reduziu eventos isquêmicos, incluindo a trombose, porém aumentou o

risco de sangramento, inclusive de sangramento fatal. A mortalidade geral não apresenta

diferença significativa entre os grupos de tratamento)

Aspectos clínicos e gerais Aster, R.H., 1995. Heparin-induced thrombocytopenia and thrombosis. N. Engl. J. Med. 332, 1374–

1376. (Editorial sucinto e lúcido; ver também o artigo correlato, pp. 1330-1335.)

Diener, H., Cunha, L., Forbes, C., et al., 1996. European Stroke Prevention Study 2. Dipyridamole

and acetylsalicylic acid in the secondary prevention of stroke. J. Neurol. Sci. 143, 1–14. (O

dipiridamol de liberação lenta, na dose de 200 mg, 2 vezes/dia, diariamente, mostrou-se tão

eficaz quanto 25 mg de ácido acetilsalicílico, 2 vezes/dia, diariamente, e os efeitos do ácido

acetilsalicílico e do dipiridamol somaram-se)

Goldhaber, S.Z., 2004. Pulmonary embolism. Lancet 363, 1295–1305. Kyrle, P.A., Eichinger, S., 2005. Deep vein thrombosis. Lancet 365, 1163–1174. Levine, M., 1995. A comparison of low-molecular-weight heparin administered primarily at home

with unfractionated heparin administered in the hospital for proximal deep vein thrombosis. N.

Engl. J. Med. 334, 677–681. (Conclui que a HBPM pode ser utilizada de modo seguro e eficaz

domiciliarmente; esse fato tem implicações potencialmente muito importantes para o tratamento

dos pacientes)

Markus, H.S., 2005. Current treatments in neurology: stroke. J. Neurol. 252, 260–267.

____________

1 A coagulação de 100 mℓ de sangue requer 0,2 mg de fator VIII, 2 mg de

fator X, 15 mg de protrombina e 250 mg de fibrinogênio.

2 Sr. Hageman (o paciente com deficiência no fator XII, que recebeu seu

nome) faleceu não em virtude do sangramento excessivo, mas por EP: a

deficiência de fator XII não leva à anomalia de sangramento.

3 O fator de von Willebrand é uma glicoproteína que está ausente em uma

doença hemorrágica hereditária chamada doença de von Willebrand, que é a

mais comum das doenças hemorrágicas hereditárias. Ele é sintetizado pelas

células do endotélio vascular (a presença do fator de von Willebrand

imunorreativo é uma característica que identifica essas células em cultura) e

está presente também em plaquetas.

4 Esta sorte também favoreceu Vane e seus colegas de trabalho na

descoberta da PGI (ver Capítulo 18), quando procuravam um tipo de 2

atividade biológica e encontraram outra. Os ensaios químicos mais

específicos (ver Capítulo 8), apesar de toda sua importância, não

prescindem desse tipo de descoberta inesperada.

5 A varfarina é um bom exemplo da “medicina personalizada” ou

“farmacogenômica”. Antes de se estabelecer a dose do anticoagulante, o

paciente pode ser testado por genotipagem para as mutações nos genes

VKORC1 e CYP2C9, envolvidos na cascata de coagulação e no

metabolismo do fármaco. Em pacientes que apresentam mutações comuns

desses genes, as doses-padrão de varfarina podem provocar hemorragia ou

tromboembolismo potencialmente fatais devido à falha terapêutica.

6 Púrpura significa um rash cutâneo avermelhado causado por múltiplos

pontos de sangramento espontâneo na pele. Quando isso é causado pela redução nas plaquetas circulantes, o sangramento pode ocorrer em outros

órgãos, como no intestino e no cérebro.

7 Várias glicoproteínas da membrana plaquetária são receptores ou locais de

ligação para proteínas de adesão como o fator de von Willebrand ou o

fibrinogênio.

8 Este esquema posológico de ácido acetilsalicílico não é convencional,

sendo um pouco menor do que a dose de 75 mg/dia habitualmente utilizada

na tromboprofilaxia.

9 A convenção para a nomenclatura dos monoclonais é: -momabe =

anticorpo monoclonal de camundongo (mouse monoclonal antibody); -

umabe = humano; -zumabe = humanizado; -ximabe = quimérico – um tipo

de pesadelo medieval camundongo-homem.

10 Suas propriedades antitrombóticas são a principal razão para o ditado

“Um comprimido de ácido acetilsalicílico por dia mantém o médico longe”,

embora também se tenha descoberto que o ácido acetilsalicílico apresenta

propriedades anticancerígenas, especialmente no que diz respeito ao câncer

de cólon. Se você for um dos indivíduos desafortunados que é alérgico ao

ácido acetilsalicílico, por favor ignore o ditado.

11 Atualmente, os fármacos fibrinolíticos são menos utilizados no IAM, uma

vez que muitas unidades ao redor do mundo fornecem serviço de

emergência de angioplastia (a artéria bloqueada é identificada

angiograficamente, dilatada com um cateter com um balão e, se necessário,

mantida aberta por meio de um stent, ver Capítulo 22). O importante é abrir

a artéria trombosada o mais rápido possível. Se estiverem disponíveis

instalações para fazer isso mecanicamente, é pelo menos tão bom quanto a

utilização de fármacos líticos. A trombectomia intra-arterial cirúrgica

também está sendo introduzida no tratamento de AVE agudo.

12 Um único fármaco na vida!

OceanofPDF.com