Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 502 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Mediadores lipídicos

distúrbios do SNC está se acumulando, sua farmacologia está ainda em

um estado muito preliminar.

O monóxido de carbono (CO) é mais bem conhecido como gás

venenoso presente na combustão dos veículos, que se liga fortemente à

hemoglobina, causando anoxia tecidual. Entretanto, ele também é

formado de maneira endógena e tem muitas características em comum

com o NO. Os neurônios e outras células contêm uma enzima geradora

de CO, a hemoxigenase, e o CO, assim como o NO, ativa a guanilato

ciclase. Tem havido alguma evidência de que o CO desempenhe um

papel nos mecanismos de memória no hipocampo (Cutajar e Edwards,

2007).

Tem sido postulado que o sulfeto de hidrogênio (H2S) esteja envolvido

em aprendizagem, memória e percepção da dor, mas quase todos os

outros neurotransmissores e neuromoduladores também têm sido

envolvidos nesses processos! Foi sugerido que as concentrações de H 2S

no encéfalo estejam diminuídas nas doenças de Alzheimer e de

Parkinson, mas a relevância de tais observações ainda precisa ser

trabalhada.

 

MEDIADORES LIPÍDICOS

▼ Sabe-se que a formação do ácido araquidônico e sua conversão em

eicosanoides (principalmente prostaglandinas, leucotrienos e ácidos

hidroxieicosatetraenoicos [HETE]; ver Capítulo 18) e em canabinoide,

anandamida e 2-araquidonoilglicerol (ver Capítulo 20) ocorrem no

SNC.

A clivagem dos fosfolipídios, levando à produção do ácido

araquidônico, ocorre nos neurônios em resposta à ativação do receptor

por muitos e diferentes mediadores, incluindo os neurotransmissores. O

ácido araquidônico assim formado pode agir diretamente como

mensageiro intracelular, controlando tanto os canais iônicos quanto

várias partes da cascata das proteinoquinases (ver Capítulo 3),

produzindo não só efeitos rápidos mas também efeitos retardados na

função neuronal. Tanto o próprio ácido araquidônico quanto seus

produtos escapam prontamente da célula de origem e podem afetar

estruturas vizinhas, incluindo os terminais pré-sinápticos (sinalização

retrógrada) e as células adjacentes (sinalização parácrina), que agem nos

receptores ou que agem diretamente como mensageiros intracelulares. A

Figura 40.7 mostra visão esquemática de diferentes papéis que esses

agentes podem ter na sinapse.

O ácido araquidônico pode ser metabolizado em eicosanoides, alguns

dos quais (principalmente os HETE) também podem agir como

mensageiros intracelulares, atuando na mesma célula. Os eicosanoides

podem, além disso, exercer efeito autócrino por intermédio de

receptores de membrana expressos pela célula (ver Capítulo 18). Os

eicosanoides desempenham papéis importantes na função neural, como

dor, regulação da temperatura, indução de sono, plasticidade sináptica e

aprendizado espacial.

É agora geralmente aceito que os endocanabinoides, tais como

anandamida e 2-araquidonilglicerol, atuem como mensageiros

sinápticos retrógrados no SNC (ver Pertwee, 2015 e Capítulo 20). Eles

são sintetizados e segregados em resposta a um aumento de Ca2+

intracelular e ativam receptores pré-sinápticos CB1, inibindo a liberação

de neurotransmissores como glutamato e GABA. Os receptores CB1

estão amplamente distribuídos no encéfalo e na medula espinal, não

apenas em neurônios, mas também em astrócitos e micróglia, enquanto

a expressão dos receptores CB2 é muito menor, mas pode ser

suprarregulada sob condições patológicas. Os agonistas de receptores

CB1 têm potencial para o tratamento de vômitos, dor (agonistas de

receptores CB 2 podem também ser efetivos em alguns estados

dolorosos), espasmos musculares que ocorrem em condições como a

esclerose múltipla e ansiedade, assim como em outros distúrbios

cerebrais, incluindo doença de Alzheimer e discinesias tardias. Os

endocanabinoides liberados no espaço extracelular são removidos para

as células por transporte facilitado, para o qual foram desenvolvidos

inibidores, e depois metabolizados (Cascio e Marini, 2015). A

anandamida é metabolizada pela hidrolase da amida de ácidos graxos

(FAAH; ver Capítulo 20). Os inibidores de FAAH potenciam os efeitos

dos endocanabinoides, tendo sido demonstrado serem analgésicos

efetivos em modelos animais da dor (Roques et al., 2012).6 O

antagonista do receptor CB1 rimonabanto foi introduzido como um

agente antiobesidade, mas foi subsequentemente retirado do mercado

devido aos seus efeitos negativos no humor (ver Capítulo 20). Os

endocanabinoides, além de serem agonistas de receptores canabinoides,

interagem também com uma variedade de canais iônicos, incluindo

canais TRPV1 (ver Figura 40.7 e Capítulo 43), receptores 5-HT3 (pp.

504-505), canais de cálcio e canais de potássio (Pertwee, 2015).

O ácido lisofosfatídico e a esfingosina-1-fosfato são fosfolipídios com

funções de sinalização importantes no encéfalo e em outras partes do

corpo. Seus efeitos são mediados por múltiplos receptores acoplados à

proteína G (LPA1-6 e S1 P1-5). Estão em fase III de ensaios clínicos

agonistas de receptores S1P1 para o tratamento da esclerose múltipla

(ver Capítulo 41).

Figura 40.7 Modos postulados de sinalização pelos mediadores lipídicos. O ácido araquidônico (AA) é formado por clivagem mediada por receptor dos fosfolipídios da membrana. Ele pode agir diretamente como mensageiro intracelular nos canais iônicos ou nos componentes de diferentes cascatas de quinases, produzindo vários efeitos a longo e curto prazo. Ele também pode ser convertido nos eicosanoides (prostaglandinas, leucotrienos ou ácidos hidroxieicosatetraenoicos [HETE]) ou em endocanabinoides (EC), em anandamida e 2-araquidonoilglicerol. Os EC também podem agir como mensageiros intracelulares e ativar os canais de TRPV1. Os HETE também podem agir diretamente como mensageiros intracelulares. Todos esses mediadores também se difundem para fora da célula e exercem seus efeitos nos terminais pré-sinápticos e nas células vizinhas, agindo tanto nos receptores extracelulares quanto nos intracelulares. Há exemplos da maioria desses modos de sinalização, porém apenas informações limitadas sobre seu significado funcional no sistema nervoso. Eic, eicosanoides; FM, fosfolipídio da membrana.

 

Outros transmissores e moduladores

 

Purinas

• O ATP funciona como neurotransmissor, sendo armazenado em vesículas e liberado por

exocitose. Ele age por intermédio de receptores P2X ionotrópicos e dos receptores P2Y

metabotrópicos

• O ATP citosólico está presente em concentração relativamente elevada e pode ser liberado

diretamente se a viabilidade neuronal estiver comprometida (p. ex., no acidente vascular

encefálico). A liberação excessiva pode ser neurotóxica

• O ATP liberado é rapidamente convertido em ADP, AMP e adenosina

• A adenosina não é armazenada em vesículas, e sim liberada por mecanismos

transportadores ou gerada pelo ATP liberado, principalmente em condições patológicas

• A adenosina exerce, principalmente, efeitos inibitórios, por intermédio dos receptores A1 e

A2, resultando em efeitos sedativos, anticonvulsivantes e neuroprotetores, e agindo como um mecanismo de segurança

• As metilxantinas (p. ex., cafeína) são antagonistas dos receptores A 2 e aumentam o nível

de alerta.

Histamina

• A histamina preenche os critérios para um neurotransmissor. Os neurônios

histaminérgicos originam-se em uma pequena área do hipotálamo e apresentam

distribuição generalizada

• Os receptores H 1, H2 e H3 estão espalhados pelo encéfalo

• As funções da histamina não estão bem compreendidas, as principais pistas são que os

neurônios histaminérgicos estão ativos durante as horas do despertar, e os antagonistas

do receptor H1 são fortemente sedativos

• Os antagonistas do receptor H 1 são antieméticos.

Melatonina

A melatonina é sintetizada da 5-hidroxitriptamina, principalmente na glândula pineal, da

•

qual é liberada como um hormônio circulante

• A secreção é controlada pela intensidade da luz, sendo baixa durante o dia e alta à noite.

As bras da retina correm para o núcleo supraquiasmático (“relógio biológico”), que

controla a glândula pineal por meio de sua inervação simpática

• A melatonina age nos receptores MT 1 e MT2 no encéfalo

• Agonistas para os receptores da melanona induzem o sono e apresentam propriedades

antidepressivas.