Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 638 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Abordagens farmacológicas ao tratamento da dependência de substâncias

inicialmente, acredita-se agora que a dependência física e a tolerância

envolvam mecanismos distintos (Bailey e Connor, 2005).

▼ Para fármacos como os opioides, que são agonistas de receptores

específicos (ver Capítulo 43), a tolerância celular resulta em parte da

dessensibilização dos receptores. Na ativação prolongada por um

agonista, o receptor μ é fosforilado por várias quinases intracelulares

(Williams et al., 2013) – que dessensibilizam diretamente o receptor ou

provocam a ligação de outras proteínas ao receptor, como as arrestinas,

que desligam o receptor da sua proteína G (ver Capítulo 3). No animal

intacto, a inibição ou eliminação dessas quinases reduz o nível de

tolerância.

 

ABORDAGENS FARMACOLÓGICAS AO TRATAMENTO DA DEPENDÊNCIA DE SUBSTÂNCIAS

Existe uma variedade de diferentes abordagens realizadas para tratar a

dependência de substâncias. Exemplos específicos dos fármacos usados são

referidos na Tabela 50.2.

 

• Terapia de substituição, na qual um fármaco de grau medicinal (p. ex.,

metadona ou buprenorfina para usuários de opioides) é fornecido a

longo prazo para “manter” o indivíduo, prevenindo que este entre em

abstinência e reduzindo, assim, a necessidade/desejo de consumir

drogas ilícitas. Esta forma de tratamento mostrou reduzir as atividades

ilegais para financiar a compra de drogas ilícitas e reduzir os riscos de

saúde associados como a infecção por HIV e hepatite C

• Facilitação da abstinência de substâncias (desintoxicação) por

substituição de uma substância da mesma classe da qual a abstinência é

menos intensa ou pela administração de outros fármacos durante o

processo de abstinência para reduzir a intensidade dos sintomas de

abstinência

• Bloqueio dos efeitos de uma substância de uso abusivo pela

administração prévia de um antagonista, de modo que se o indivíduo se

desintoxicou, mas recai e consome novamente, ele não irá experienciar

os efeitos prazerosos da substância. Para que isso seja bem-sucedido, o

antagonista tem de ser de longa ação ou administrado na forma de

implante que libera o antagonista durante um período prolongado

• Bloqueio dos efeitos de uma substância de uso abusivo por meio da

imunização para produção de anticorpos circulantes. Vacinas contra

nicotina, heroína ou cocaína, para induzir a formação de anticorpos que

iriam limpar essas substâncias quando elas entrarem na corrente

sanguínea, estão em desenvolvimento clínico inicial, embora o

progresso esteja lento

• Elaboração de uma desagradável experiência do consumo de substância.

O melhor exemplo dessa abordagem é para o etanol, que é rapidamente

metabolizado a ácido acético por meio de um processo em dois passos

(ver Capítulo 49, Figura 49.5). Dissulfiram, um inibidor da aldeído

desidrogenase, inibe o segundo passo, resultando na produção de

acetaldeído, que provoca uma resposta desagradável quando o etanol é

consumido

• Redução da ânsia por uma substância. Uma variedade de substâncias

reduz a ânsia por várias outras. A sua efetividade é uma área de debate e

investigação contínuos.

Figura 50.2 Esquema simplificado de alguns dos fatores psicológicos envolvidos

 

na dependência de substâncias.

 

Para os usuários de drogas intravenosas, o fornecimento de agulhas

esterilizadas reduz a partilha de agulhas e a disseminação de doenças de

transmissão sanguínea como HIV e hepatite C. A superdosagem de opioides

resulta em depressão respiratória grave que pode levar à morte. A depressão

respiratória induzida por opioides é rapidamente revertida pela injeção

intramuscular do antagonista de opioides, naloxona. Salas de injeção

supervisionada e a distribuição de kits de injeção de naloxona na

comunidade usuária da droga são formas de reduzir as mortes por

superdosagem de opioides.

O uso abusivo de substâncias envolve vários fatores psicossociais e

alguns fatores genéticos, bem como mecanismos neurofarmacológicos, e,

portanto, embora as abordagens farmacológicas ao tratamento

medicamentoso sejam importantes, elas são apenas um componente das

abordagens terapêuticas utilizadas. Para informação sobre outras

abordagens ao tratamento da adicção de substâncias, os leitores são aconselhados a consultar o site do National Institute on Drug Abuse

(NIDA) em http://www.nida.nih.gov/.

Uso clínico de fármacos na dependência de substâncias

 

Dependência de tabaco

• A nicotina a curto prazo é um adjuvante da terapia comportamental em tabagistas

decididos a deixar de fumar; a vareniclina também é usada como adjuvante, mas foi

ligada à ideação suicida

• A bupropiona é também efetiva, mas diminui o limiar de convulsões, portanto, está

contraindicada em pessoas com fatores de risco para convulsões (e também se existir

história de transtorno alimentar).

Dependência de álcool

• Os benzodiazepínicos de longa ação (p. ex., clorodiazepóxido) podem ser usados para

reduzir os sintomas de abstinência e o risco de convulsões; eles devem ser diminuídos ao

longo de 1 a 2 semanas e depois descontinuados devido ao seu potencial de uso abusivo

• O dissul ram é usado como adjuvante da terapia comportamental em alcoólatras

devidamente motivados após desintoxicação; está contraindicado para pacientes nos

quais a hipotensão seria perigosa (p. ex., aqueles com doença coronariana ou

cerebrovascular)

• O acamprosato pode ajudar a manter a abstinência; é iniciado assim que a abstinência

for atingida e mantido se houver recaída, e é continuado por 1 ano.

Dependência de opioides

• A naloxona, um antagonista de opioide competitivo, tornou-se disponível para uso

ambulatorial para reverter a depressão respiratória da superdosagem de opioides. Pode

ser administrado como spray nasal ou injeção intramuscular

• Os agonistas ou agonistas parciais dos opioides (p. ex., respectivamente, metadona ou

buprenor na) administrados por via oral ou sublingual podem ser substitutos para

narcóticos injetáveis, cujos efeitos deletérios sejam atribuíveis à via de administração

• A naltrexona, um antagonista de opioides de longa ação, é usado como adjuvante para

prevenir a recaída nos dependentes desintoxicados (livres de opioides durante pelo menos

1 semana)

• A lofexidina, um agonista α2 (cf. clonidina; Capítulo 15), é usada a curto prazo (em

geral, até 10 dias) a m de melhorar os sintomas da privação dos opioides, e é depois

diminuída durante mais 2 a 4 dias.

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

Geral

Chao, J., Nestler, E.J., 2004. Molecular neurobiology of addiction. Annu. Rev. Med. 55, 113–132.

(Artigo de revisão útil de cientistas de topo sobre a investigação da adicção)

Koob, G.F., Volkow, N.D., 2016. Neurobiology of addiction: a neurocircuitry analysis. Lancet

Psychiatry 3, 760–773. (Descreve em detalhe os componentes da dependência de substâncias

bem como as vias neuronais e os neurotransmissores envolvidos)

Measham, F., Moore, K., 2009. Repertoires of distinction. Exploring patterns of weekend polydrug

use within local leisure scenes across the English night time economy. Criminol. Crim. Justice. 9,

437–464.

Nutt, D., King, L.A., Phillips, L.D., 2010. Drug harms in the UK: a multicriteria decision analysis.

Lancet 376, 558–565.

Recompensa

Hyman, S.E., Malenka, R.C., Nestler, E.J., 2006. Neural mechanisms of addiction: the role of

reward-related learning and memory. Annu. Rev. Neurosci. 29, 565–598. (Revisão extensa sobre

como os fármacos de uso abusivo podem alterar a memória e os processos de aprendizagem)

Jupp, B., Caprioli, D., Dalley, J.W., 2013. Highly impulsive rats: modelling an endophenotype to

determine the neurobiological, genetic and environmental mechanisms of addiction. Dis. Model.

Mech. 6, 302–311 (Extensa revisão da impulsividade e de como esta se relaciona com a procura

de substâncias)

Maldonado, R., Saiardi, A., Valverde, O., et al., 1997. Absence of opiate rewarding effects in mice

lacking dopamine D receptors. Nature 388, 586–589. (Uso de animais transgênicos para 2

demonstrar o papel dos receptores de dopamina nas propriedades compensadoras dos opiáceos)

Maramai, S., Gemma, S., Brogi, S., et al., 2016. Dopamine D3 receptor antagonists as potential

therapeutics for the treatment of neurological diseases. Front. Neurosci. 10, 451. (Discute o

desenvolvimento e potenciais usos dos antagonistas D seletivos no tratamento do uso abusivo de 3

substâncias)

Dependência e tolerância

Bagley, E.E., Gerke, M.B., Vaughan, C.W., et al., 2005. GABA transporter currents activated by

protein kinase A excite midbrain neurons during opioid withdrawal. Neuron 45, 433–445.

Bagley, E.E., Hacker, J., Chefer, V.I., et al., 2011. Drug-induced GABA transporter currents enhance

GABA release to induce opioid withdrawal behaviors. Nat. Neurosci. 14, 1548–1554. (Descreve

o mecanismo celular subjacente à resposta de privação dos opioides)

Bailey, C.P., Connor, M., 2005. Opioids: cellular mechanisms of tolerance and physical dependence.

Curr. Opin. Pharmacol. 5, 60–68.

Robbins, T.W., Ersche, K.D., Everitt, B.J., 2008. Drug addiction and the memory systems of the

brain. Ann. N. Y. Acad. Sci. 1141, 1–21. (Revisão de como diferentes formas de memória têm

papéis importantes na dependência de substâncias)

Weiss, F., 2005. Neurobiology of craving, conditioned reward and relapse. Curr. Opin. Pharmacol. 5,

9–19. (Revisão de estudos recentes sobre a neurobiologia da adicção, com enfoque

principalmente em modelos animais)

Williams, J.T., Christie, M.J., Manzoni, O., 2001. Cellular and synaptic adaptations mediating opioid

dependence. Physiol. Rev. 81, 299–343.

Williams, J.T., Ingram, S.L., Henderson, G., et al., 2013. Regulation of γ-opioid receptors:

desensitization, phosphorylation, internalization, and tolerance. Pharmacol. Rev. 65, 223–254.

____________

1 A maior parte é ilegal em vários países, embora existam lobbies fortes

para legalizar algumas que são consideradas menos prejudiciais.

2 Uma sondagem em uma cidade do Reino Unido mostrou que, para

frequentadores de boates de sexta-feira à noite, a escolha da substância

estava associada com o tipo de música que as boates tocavam (Measham e

Moore, 2009).

3 A mídia tem papel influente na determinação da atitude da sociedade com

relação às drogas. No Reino Unido, as mortes após o consumo de ecstasy

(63 em 2016) são com frequência relatadas na imprensa e na televisão, mas

as mortes devido à superdosagem de heroína, que são muito mais

prevalentes (1.209 em 2016), são amplamente ignoradas, a menos que a

vítima seja famosa.

Capítulo 50

 

50.1 TEMA

Uma característica comum dos fármacos psicoativos e de adicção reside na sua

capacidade de ativar a via de recompensa endógena.

Qual das seguintes a rmativas sobre a via de recompensa é incorreta?

 

A. Estende-se da área tegmentar ventral (VTA) até o núcleo accumbens

 

B. Os opioides aumentam a transmissão dopaminérgica, impedindo a sua recaptação

 

C. A inibição dos neurônios GABAérgicos na VTA aumenta o efeito de recompensa

 

D. As propriedades de recompensa da mor na parecem ser mediadas pelos receptores D2

E. Os agonistas parciais D3 podem ter potencial como tratamento para uso abusivo de

fármacos

 

Resposta A A via de recompensa é uma via dopaminérgica mesolímbica, que se

estende do VTA até o núcleo accumbens.

Alternativa B incorreta: Os opioides aumentam a transmissão dopaminérgica,

impedindo a sua recaptação.

Os opioides aumentam o disparo dos neurônios dopaminérgicos da VTA, reduzindo a

inibição GABAérgica.

Alternativa C incorreta: A sinalização GABAérgica inibe a via ao diminuir o disparo

dos neurônios dopaminérgicos da VTA.

Alternativa D incorreta: Foi demonstrado que a deleção dos receptores D 2 elimina as propriedades de recompensa da mor na.

Alternativa E incorreta: Embora não esteja totalmente elucidado, acredita-se que os

receptores D3 desempenhem um papel nos efeitos de recompensa da adicção de fármacos, de modo que os antagonistas e os agonistas parciais podem ser bené cos no

uso abusivo.

 

Concluir questão

 

50.2 TEMA

Muitos fármacos de uso abusivo resultam em dependência física, o que é

comprovado pela experiência de efeitos siológicos adversos após abstinência.

Qual das seguintes a rmativas sobre os mecanismos de dependência física

associados à abstinência de opiáceos é incorreta?

 

A. A abstinência resulta em aumento da excitabilidade neuronal

B. Os antagonistas da adenosina podem ter potencial como agentes no tratamento do uso

abusivo de fármacos

 

C. A abstinência de opioides resulta em aumento de rebote do cAMP

D. A proteína de ligação ao elemento de resposta cAMP (CREB) é um mediador-chave da

dependência física

 

E. A abstinência resulta em liberação aumentada de transmissores

 

Resposta A O aumento na ativação da proteinoquinase A (PKA) induzido pelo cAMP

provoca elevação da excitabilidade nervosa devido à fosforilação dos transportadores

neuronais, aumentando a sua condutância iônica.

Alternativa B incorreta: Os antagonistas da adenosina podem ter potencial como

agentes no tratamento do uso abusivo de fármacos.

A ligação da adenosina a receptores A1 pré-sinápticos diminui a liberação de glutamato e, portanto, reduz a excitabilidade neuronal. Por conseguinte, os agonistas da adenosina

podem ser bené cos.

Alternativa C incorreta: A abstinência de opioides causa “superativação” da adenilato

ciclase e aumento na expressão da enzima.

Alternativa D incorreta: Camundongos transgênicos que carecem de CREB

apresentam redução da dependência física.

Alternativa E incorreta: O aumento da liberação de GABA é provavelmente mediado

pela excitabilidade neuronal induzida por PKA.

 

Concluir questão

 

50.3 TEMA

Foram desenvolvidos vários agentes farmacológicos para o tratamento da

dependência de fármacos e para ajudar os pacientes no processo de

abstinência.

Qual dos seguintes agentes não é utilizado como terapia mais prolongada para

ajudar nos sintomas de abstinência?

 

A. Dissul ram para ajudar na abstinência do álcool

 

B. Metadona para sustentar a abstinência de opioide

 

C. Naloxona para ajudar na abstinência de opioides

 

D. Nicotina em baixa dose para ajudar na cessação do tabagismo

E. Clordiazepóxido para ajudar na abstinência de álcool

 

Resposta A O dissul ram é um inibidor da aldeído desidrogenase, cujo uso resulta em

sintomas desagradáveis após o consumo de álcool, causados pelo acúmulo de

acetaldeído.

Alternativa B incorreta: A metadona de grau medicinal é um agonista opioide, que é

administrada por via oral como substituto mais seguro do opioide ilícito.

Alternativa C incorreta: Naloxona para ajudar na abstinência de opioides.

As injeções intramusculares de naloxona são utilizadas para reverter rapidamente a

depressão respiratória observada após a abstinência de opioides. Entretanto, implantes

de naltrexona, que são de maior duração, podem ser utilizados para evitar a ocorrência

de recidiva.

Alternativa D incorreta: As preparações de nicotina podem ajudar a “desmamar” os

pacientes dos efeitos do tabagismo, mantendo um nível de estimulação nicotínica, sem

os agentes carcinogênicos associados.

Alternativa E incorreta: O clordiazepóxido é um benzodiazepínico de ação longa

bené co na redução dos sintomas de abstinência do álcool.

 

Concluir questão

 

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