Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos antimaláricos
de insetos e redes mosquiteiras. Mosquiteiros impregnados com inseticidas
como a permetrina são muito eficazes e constituem o pilar de muitas
campanhas de saúde pública.
FÁRMACOS ANTIMALÁRICOS
A maior parte dos fármacos atuais é eficaz apenas contra a fase eritrocítica
do ciclo de vida do parasito (a primaquina é uma exceção). Alguns são
usados profilaticamente para prevenir a malária (Tabela 55.2), enquanto
outros são dirigidos ao tratamento dos ataques agudos. De modo geral, os
fármacos antimaláricos são classificados quanto à sua ação contra os
diferentes estágios do ciclo de vida do parasito (ver Figura 55.1). A Figura
55.2 mostra estruturas químicas de alguns agentes significativos e a Figura
55.3 resume o que se conhece sobre os seus alvos moleculares.
O uso de fármacos para o tratamento da malária mudou
consideravelmente no último meio século, principalmente devido ao
desenvolvimento de resistência à cloroquina e a outras combinações iniciais
bem-sucedidas de fármacos (Butler et al., 2010). Nos locais em que isso
ocorreu, a terapia foi amplamente abandonada a favor de regimes de
combinação com base em artemisina (ACT). Apenas os fármacos
antimaláricos de uso comum são descritos neste capítulo. Para um breve
resumo dos regimes de tratamento atualmente recomendados, ver o boxe
“Fármacos antimaláricos” e a Tabela 55.2. A página da OMS sobre
“malária” (ver Leitura recomendada) fornece links às suas recomendações
mais atuais, cobrindo todas as áreas do mundo.
Tabela 55.2 Exemplos de tratamento farmacológico e
quimioprofilaxia da malária.a
Para tratar… Opções típicas de fármacos
Quinino seguido de doxiciclina ou clindamicina;
Por vezes, pirimetamina com sulfadoxina, se adequado
Infecção por Plasmodium falciparum
ou
Malaroneb c ou Riamet
Infecção por organismos desconhecidos ou mistos Quinino, Malarone® ou Riamet®
Cloroquina (se em uma área não resistente) ou
Infecção com Quinino, Malarone® ou Riamet® (se em uma área resistente à P. malariae , P. vivax ou P. ovale
cloroquina) possivelmente seguida de primaquina no caso de
P. vivax ou P. ovale
Quimiopro laxia (curto prazo) Malarone® ou doxiciclina
Malarone®, me oquina, doxiciclina, cloroquina e proguanil
Quimiopro laxia (longo prazo)
podem ser usados dependendo da duração necessária
a Deve-se levar em conta que este é apenas um resumo, e não um guia de- nitivo para prescrição, uma vez que a combinação de
fármacos reco-mendada varia de acordo com o paciente, a área visitada, o risco global de infecção, a presença de formas
resistentes da doença e assim por diante. Essa informação se baseia nas atuais recomendações do Reino Unido (Fonte: British
National Formulary 2017).
bMalarone® é uma combinação de dose xa patenteada de atovoquona e cloridrato de proguanil.
cRiamet® é uma combinação de dose xa patenteada de arteméter e lumefantrina.
■ Fármacos usados para tratar a forma aguda
Os agentes esquizonticidas sanguíneos (ver Figura 55.1, local A) são usados
para tratar a forma aguda, mas também produzem cura “supressiva” ou
“clínica”. Eles agem nas formas eritrocíticas do plasmódio. Nas infecções
pelo P. falciparum ou P. malariae, que não apresentam estágio exoeritrocítico, esses fármacos efetuam a cura; com o P. vivax ou o P. ovale,
os fármacos suprimem o ataque real, mas as formas exoeritrocíticas podem
reemergir posteriormente para causar recidivas.
Este grupo de fármacos inclui:
• Artemisina e compostos relacionados são derivados da erva chinesa
qinghao, a qual, em geral, é utilizada em combinação com outros
fármacos
Quinolina-metanóis (p. ex., quinina e mefloquina) e várias 4-
aminoquinolinas (p. ex., cloroquina)
• Agentes que interferem tanto na síntese de folato (p. ex., dapsona)
quanto em sua ação (p. ex., pirimetamina e proguanil)
• Atovaquona, que afeta a função mitocondrial.
Figura 55.2 Estrutura de alguns fármacos antimaláricos importantes. A. Fármacos que atuam na via do ácido fólico do plasmódio. Os antagonistas do folato (pirimetamina, proguanil) inibem a di-hidrofolato redutase; a relação entre esses fármacos e a porção peptidínica é mostrada em laranja. As sulfonas (p. ex., dapsona) e as sulfonamidas (p. ex., sulfadoxina) competem com o ácido p-aminobenzoico pela di-hidropteroato sintetase
(relação mostrada no retângulo laranja; ver Capítulos 51 e 52). B. A artemisinina e um derivado arteméter. Observe a estrutura de ponte de endoperóxido (em laranja) que é crucial para sua ação. C. Algumas quinolonas antimaláricas. A porção quinolônica é mostrada em laranja. D. O arilamino álcool lumefantrina.
Tratamento antimalárico e ciclo de vida do parasito
Os fármacos usados para o tratamento da malária são dirigidos a vários locais de ação, visto que
nenhum agente isolado é capaz de atingir todo o ciclo de vida do parasito:
• Os fármacos usados para tratar a crise aguda da malária agem nos parasitos no sangue;
podem curar as infecções pelos parasitos (p. ex., Plasmodium falciparum) que não têm um
estágio exoeritrocítico
• Os fármacos usados para quimiopro laxia (pro láticos causais) agem nos merozoítos
emergindo das células hepáticas
• Os fármacos empregados na “cura radical” são ativos contra os parasitos no fígado
• Alguns fármacos agem nos gametócitos e evitam a transmissão pelo mosquito.
Figura 55.3 Diagrama esquemático mostrando os locais de ação dos alvos dos
fármacos antimaláricos nos plasmódios. Durante o estágio eritrocítico da infecção, o parasito vive dentro dos eritrócitos em um vacúolo parasitóforo e alimenta-se de hemoglobina (Hb), que é importada para o vacúolo digestivo, onde é metabolizada em aminoácidos (AA) para uso pelo parasito. O resíduo heme (Hm) remanescente é tóxico para o parasito, pelo que é metabolizado a hemozina (Hz). Alguns antimaláricos quinolonas (p. ex., cloroquina) previnem a destoxificação da heme, envenenando, assim, o parasito. Outros fármacos (p. ex., pirimetamina) previnem a síntese do ácido fólico, que é essencial para a síntese de nucleotídios, tendo como alvo a síntese de proteínas nascentes pelos ribossomos (p. ex., antibióticos como a clindamicina) ou inibem a função mitocondrial (p. ex., atovaquona). A artemisina e seus derivados entram no vacúolo digestivo, em que são “ativados” pela heme para formar compostos que reagem com as proteínas e os lipídios, e os danificam. (De Blasco et al., 2017.)
As combinações desses agentes são empregadas com frequência. Alguns
antibióticos, como doxiciclina (ver Capítulo 52), provaram-se úteis quando combinados com os agentes citados. Apresentam efeito antiparasitário por
si próprios, mas também controlam outras infecções concomitantes.
■ Fármacos que efetuam cura radical
Os agentes esquizonticidas teciduais efetuam cura “radical” ao erradicar os
parasitos P. vivax e P. ovale no fígado (ver Figura 55.1, local B). Apenas as
8-aminoquinolinas (p. ex., primaquina e tafenoquina) têm essa ação. Esses
fármacos também destroem os gametócitos e, assim, reduzem a
disseminação da infecção.
■ Fármacos usados para a quimioprofilaxia
Os fármacos usados para a quimioprofilaxia (também conhecidos como
fármacos profiláticos causais) bloqueiam a ligação entre o estágio
exoeritrocítico e o estágio eritrocítico, evitando, assim, o desenvolvimento
das crises de malária. A profilaxia causal verdadeira – a prevenção da
infecção pela morte dos esporozoítos na entrada no hospedeiro – não é
possível com os fármacos atualmente em uso, embora, no futuro, com as
vacinas, mostre-se possível. A prevenção do desenvolvimento das
manifestações clínicas pode ser efetuada pelos fármacos quimioprofiláticos
que destroem os parasitos quando emergem do fígado após o estágio pré-
eritrocítico (ver Figura 55.1, local C). Os fármacos usados com esse
propósito são principalmente derivados de artemisinina, cloroquina,
lumefantrina, mefloquina, proguanil, pirimetamina, dapsona e doxiciclina.
Eles são usados frequentemente em combinações.
▼ Os agentes quimioprofiláticos são administrados nos indivíduos que
pretendem viajar para uma área onde a malária é endêmica. A
administração deve começar 1 semana antes da entrada na área e deve
ser continuada por toda a estada e por pelo menos 1 mês depois.
Nenhum regime quimioprofilático é 100% efetivo, e podem ocorrer
efeitos adversos. Um problema adicional é a complexidade de alguns
regimes, que requerem fármacos diferentes tomados em horas
diferentes, e o fato de agentes diferentes poderem ser necessários para
viagens com destinações diferentes. Para breve resumo dos regimes de
quimioprofilaxia recomendados comumente na atualidade, ver Tabela
55.2.
■ Fármacos usados para evitar a transmissão
Alguns fármacos (p. ex., primaquina, proguanil e pirimetamina) também
podem destruir os gametócitos (ver Figura 55.1, local D), evitando a
transmissão pelo mosquito e, assim, diminuindo o reservatório humano da
doença – porém eles raramente são usados apenas para essa ação.
■ Resistência farmacológica
A resistência do parasito é um problema sério e atual para quase todos os
fármacos antimaláricos, com a possível exceção da lumefantrina. Em
muitos casos, cepas resistentes do parasito aparecem dentro de uma década,
ou até menos, após a introdução de um novo fármaco. A maior parte da
resistência deve-se a mutações pontuais que surgem de forma espontânea
em, por exemplo, proteínas-alvo como a di-hidrofolato redutase (que
confere resistência aos fármacos antifolato como o proguanil) ou na
subunidade B do citocromo mitocondrial (que confere resistência à
atovaquona). Mutações nos transportadores de parasitos que facilitam a
entrada, ou controlam a saída, de fármacos quinolonas dentro dos vacúolos
digestivos também podem conferir resistência e provocar mutações em
outras enzimas que também se pensam ser importantes (Blasco et al.,
2017).
Um desenvolvimento muito alarmante é o aumento da resistência
multifarmacológica em certas partes do mundo. Isso pode estar ligado a má
adesão, fármacos ruins ou variações locais nas respostas imunes do
hospedeiro à infecção.
Cloroquina
A 4-aminoquinolina cloroquina é um fármaco antigo, dos anos 1940, porém
ainda é um agente esquizonticida sanguíneo muito potente (ver Figura 55.1,
local A), efetivo contra as formas eritrocíticas de todas as quatro espécies
de plasmódios (se sensíveis ao fármaco), porém não possui efeito algum
nos esporozoítos, hipnozoítos ou gametócitos. Não apresenta carga elétrica
em pH neutro e, assim, difunde-se livremente para o lisossomo parasitário.
Em pH ácido do lisossomo, é convertida para a forma protonada,
impermeável à membrana, sendo “aprisionada” dentro do parasito. Sua
principal ação antimalárica deriva da inibição da heme-polimerase, a
enzima que polimeriza a heme livre tóxico em hemozoína. Isso envenena o
parasito e evita que utilize os aminoácidos da proteólise da hemoglobina. A
cloroquina também é usada como fármaco antirreumatoide modificador da
doença (ver Capítulo 27) e também apresenta algumas ações quinidina-
símiles no coração (ver Capítulo 22).
■ Resistência
Atualmente, o P. falciparum é resistente à cloroquina na maior parte do
mundo. A resistência parece resultar do efluxo acentuado do fármaco das
vesículas parasitárias, como resultado das mutações nos genes
transportadores do plasmódio (Baird, 2005). A resistência do P. vivax à
cloroquina também é um problema crescente.
■ Administração e aspectos farmacocinéticos Em geral, a cloroquina é administrada por via oral, mas a malária falcípara
grave pode ser tratada por injeções intramusculares ou subcutâneas
frequentes de pequenas doses, ou pela infusão intravenosa contínua lenta.
Após a administração da dose oral, é completamente absorvida e
extensamente distribuída nos tecidos, concentrando-se nos eritrócitos
parasitados. A liberação dos tecidos e dos eritrócitos infectados é lenta. O
fármaco é metabolizado no fígado e eliminado na urina, 70% como fármaco
inalterado e 30% como metabólitos. A eliminação é lenta, com a fase
principal possuindo meia-vida de 50 horas, e algum resíduo persiste por
semanas ou meses.
■ Efeitos adversos
A cloroquina tem poucos efeitos adversos quando administrada com a
finalidade de quimioprofilaxia. No entanto, esses efeitos, incluindo náuseas
e vômitos, tonturas e turvação da visão, cefaleia e sintomas de urticária,
podem ocorrer quando doses maiores são administradas para tratar as crises
agudas de malária. Algumas vezes, as doses maiores também resultaram em
retinopatias e perda da audição. As injeções em bolus intravenoso de
cloroquina podem causar hipotensão e, se doses elevadas forem usadas,
arritmias fatais. A cloroquina é considerada segura para uso por gestantes.
A amodiaquina tem ação muito semelhante à da cloroquina. Foi
retirada do mercado alguns anos atrás, devido ao risco de agranulocitose,
porém agora está reintroduzida em diversas áreas do mundo em que a
resistência à cloroquina é endêmica.
Quinina
A quinina é um derivado da casca da cinchona. Tem sido usada no
tratamento das “febres” desde o século XVI, quando a casca, que vinha do Peru, e o conhecimento de sua ação, foram levados para a Europa por
missionários jesuítas. Trata-se de um fármaco esquizonticida sanguíneo
efetivo contra as formas eritrocíticas de todas as quatro espécies de
Plasmodium (ver Figura 55.1, local A), mas não tem efeito nas formas
exoeritrocíticas ou nos gametócitos do P. falciparum. Seu mecanismo de
ação é idêntico ao da cloroquina, porém a quinina não está tão
extensamente concentrada no plasmódio quanto a cloroquina, então outros
mecanismos também podem estar envolvidos. Com a emergência e a
disseminação da resistência à cloroquina, agora a quinina é o agente
quimioterápico principal para o P. falciparum em certas zonas do mundo.
Outras ações farmacológicas no tecido do hospedeiro incluem ação
depressora sobre o coração, efeito ocitócico leve no útero gravídico,
discreta ação bloqueadora na junção neuromuscular e fraco efeito
antipirético.
■ Resistência
Tem-se desenvolvido algum grau de resistência à quinina, conferido pela
expressão aumentada dos transportadores para efluxo do fármaco nos
plasmódios.
■ Aspectos farmacocinéticos
A quinina é bem absorvida e em geral administrada por via oral pelo
período de 7 dias, porém também pode ser administrada por infusão
intravenosa lenta nas infecções graves pelo P. falciparum e nos pacientes
que estejam vomitando. Uma dose inicial maior pode ser necessária, porém
a administração de bolus intravenoso está contraindicada, em virtude do
risco de arritmias cardíacas. A meia-vida do fármaco é de 10 horas; ele é metabolizado no fígado e os metabólitos são eliminados na urina cerca de
24 horas depois.
■ Efeitos adversos
A quinina tem gosto amargo, e a adesão ao tratamento por via oral é
frequentemente pequena.3 É irritante para a mucosa gástrica e pode causar
náuseas e vômitos. Se a concentração plasmática exceder 30 a 60 μmol/ℓ, é
provável que ocorra “cinchonismo” – caracterizado por náuseas, tonturas,
zumbido, cefaleia e turvação da visão. Os níveis plasmáticos excessivos de
quinina podem resultar em hipotensão, arritmias cardíacas e alterações
graves no sistema nervoso central (SNC), tais como delírio e coma.
Outras reações adversas infrequentes que foram relatadas são as
discrasias sanguíneas (especialmente trombocitopenia) e reações de
hipersensibilidade. A quinina pode estimular a liberação de insulina. Os
pacientes com parasitemia marcante causada por falciparum podem
apresentar glicemia baixa por esse motivo e também pelo consumo de
glicose pelo parasito. Isso torna difícil o diagnóstico diferencial entre coma
causado por malária cerebral e coma hipoglicêmico. Um resultado raro do
tratamento da malária com quinina, ou do uso errático e inapropriado de
quinina, é a febre da água negra, uma situação grave e frequentemente fatal
em que a anemia hemolítica aguda está associada à insuficiência renal.
Mefloquina
A mefloquina (ver Figura 55.2) é um composto esquizonticida sanguíneo
ativo contra o P. falciparum e o P. vivax (ver Figura 55.1, local A), mas não
tem efeito nas formas hepáticas dos parasitos; assim, o tratamento das
infecções pelo P. vivax deve ser seguido por um período de uso de primaquina para erradicar os hipnozoítos. A mefloquina age da mesma
maneira que a quinina e, com frequência, é combinada com a pirimetamina.
■ Resistência
O P. falciparum é resistente à mefloquina em algumas áreas –
particularmente no Sudeste Asiático –, acreditando-se que a resistência seja
causada, como ocorre com a quinina, pelo aumento da expressão no
parasito dos transportadores para efluxo do fármaco.
■ Aspectos farmacocinéticos e efeitos adversos
A mefloquina é administrada por via oral, sendo rapidamente absorvida.
Tem início de ação lento e meia-vida plasmática muito longa (até 30 dias), o
que pode ser o resultado da ciclagem êntero-hepática ou do armazenamento
tecidual.
Quando a mefloquina é usada no tratamento da crise aguda, cerca de
50% dos indivíduos queixam-se de alterações gastrintestinais (GI). Pode
ocorrer toxicidade temporária sobre o SNC – desequilíbrio, confusão,
disforia e insônia – e há alguns relatos de condução atrioventricular
aberrante e de doenças de pele sérias, porém infrequentes. Raramente a
mefloquina pode provocar reações neuropsiquiátricas graves. A mefloquina
está contraindicada em gestantes ou em mulheres que desejem engravidar
em até 3 meses depois da interrupção do uso do fármaco, por causa de sua
longa meia-vida e da incerteza de seu potencial teratogênico. Quando usada
para quimioprofilaxia, as ações adversas costumam ser mais brandas, porém
o fármaco não deve ser usado dessa maneira, a não ser que haja elevado
risco de malária resistente à cloroquina.
Lumefantrina Este fármaco arilamino álcool está relacionado com um composto mais
antigo, a halofantrina, que raramente é utilizada atualmente. A
lumefantrina nunca é administrada de forma isolada, mas sempre em
combinação com o arteméter. Seu mecanismo de ação provavelmente
consiste em prevenir a destoxificação pelo parasito da heme. A
famacocinética da combinação é complexa, e o leitor deve consultar Ezzet
et al. (1998) para mais detalhes. Os efeitos adversos da combinação podem
incluir sintomas GI e também sobre o SNC.
Fármacos que alteram o metabolismo do folato
As sulfonamidas e as sulfonas, usadas como fármacos antibacterianos (ver
Capítulo 52), inibem a síntese do folato pela competição com o ácido p-
aminobenzoico. A pirimetamina e o proguanil inibem a di-hidrofolato
redutase, impedindo a utilização do folato na síntese de DNA. Juntas,
causam bloqueio da via do folato em pontos diferentes, apresentando, dessa
maneira, ação sinérgica.
A principal sulfonamida empregada no tratamento da malária é a
sulfadoxina, e a única sulfona usada é a dapsona. Os detalhes desses
fármacos estão apresentados no Capítulo 52. As sulfonamidas e as sulfonas
são ativas contra as formas eritrocíticas do P. falciparum, porém são menos
ativas contra as formas do P. vivax; elas não apresentam atividade contra as
formas esporozoíticas ou hipnozoíticas dos plasmódios. A combinação
pirimetamina-sulfadoxina foi amplamente usada no tratamento da malária
resistente à cloroquina, porém, infelizmente, desenvolveu-se resistência
contra ela em muitas áreas.
A pirimetamina é similar em estrutura à trimetoprima (ver Capítulo
52). A estrutura do proguanil é diferente, porém seu metabólito (ativo) pode
assumir configuração similar. Ambos os fármacos têm maior afinidade pela enzima plasmódica do que pela humana. Eles apresentam ação lenta contra
as formas eritrocíticas do parasito (ver Figura 55.1, local A), e acredita-se
que o proguanil tenha efeito adicional no estágio hepático inicial (ver 1a a
3a na Figura 55.1), porém não nos hipnozoítos do P. vivax (ver Figura 55.1,
local B). A pirimetamina é usada apenas em combinação com a dapsona ou
com uma sulfonamida.
■ Resistência
Mutações pontuais nas enzimas da via de síntese de folato conferem
resistência a estes fármacos.
■ Aspectos farmacocinéticos
Tanto a pirimetamina quanto o proguanil são administrados por via oral e
são bem absorvidos, embora lentamente. A pirimetamina tem meia-vida
plasmática de 4 dias, e as concentrações plasmáticas “supressivas” efetivas
podem atuar por até 14 dias; ela é administrada 1 vez/semana. A meia-vida
do proguanil é de 16 horas. Trata-se de um profármaco metabolizado no
fígado para sua forma ativa, a cicloguanila, que é eliminada principalmente
na urina. Deve ser administrado diariamente.
■ Efeitos adversos
Esses fármacos apresentam poucos efeitos adversos quando usados
cuidadosamente nas doses terapêuticas. Doses maiores da combinação
pirimetamina-dapsona podem causar reações sérias, como anemia
hemolítica, agranulocitose e alveolite esinofílica. A combinação
pirimetamina-dapsona pode causar reações cutâneas sérias, discrasias
sanguíneas e alveolite alérgica, não sendo mais recomendada para
quimioprofilaxia. Em doses elevadas, a pirimetamina pode inibir a di-
hidrofolato redutase dos mamíferos e causar anemia megaloblástica (ver
Capítulo 26); suplementos de ácido fólico devem ser administrados se esse
fármaco for usado durante a gravidez. A resistência aos fármacos
antifolatos surge de mutações puntiformes isoladas nos genes que codificam
a di-hidrofolato redutase parasitária.
Primaquina
A primaquina é uma 8-aminoquinolina (em geral, disponível apenas entre
os fármacos clinicamente antimaláricos) que se mostra ativa sobre os
hipnozoítos hepáticos (ver Figura 55.2). A etaquina e a tafenoquina são os
análogos mais ativos e mais lentamente metabolizados da primaquina.
Podem efetuar a cura completa daquelas formas de malária em que os
parasitos têm um estágio dormente no fígado – P. vivax e P. ovale. A
primaquina não afeta os esporozoítos e exerce pouca ou nenhuma ação no
estágio eritrocítico do parasito. No entanto, tem ação gameticida e é o
fármaco antimalárico mais efetivo para evitar a transmissão das quatro
espécies de plasmódios. Com frequência, é quase sempre usada em
combinação com outro fármaco, em geral a cloroquina. A farmacologia da
primaquina e dos fármacos similares foi revisada por Shanks et al. (2001).
■ Resistência
A resistência à primaquina é (felizmente) escassa, embora tenha sido
relatada evidência de diminuição da sensibilidade de algumas cepas de P.
vivax.
■ Aspectos farmacocinéticos
A primaquina é administrada por via oral e é bem absorvida. Seu
metabolismo é rápido, e muito pouco do fármaco está presente no corpo
depois de 10 a 12 horas. A meia-vida é de 3 a 6 horas. A tafenoquina é degradada mais lentamente e, assim, apresenta a vantagem de poder ser
administrada em dose semanal.
■ Efeitos adversos
Quando usada na dosagem terapêutica normal, a primaquina provoca
poucos efeitos adversos na maioria dos pacientes. Podem ocorrer sintomas
GI relacionados à dosagem, e doses maiores podem causar
metemoglobinemia com cianose.
Esse fármaco antimalárico pode, entretanto, causar hemólise em
indivíduos com condição metabólica genética ligada ao cromossomo X nos
eritrócitos, a deficiência de glicose 6-fosfato desidrogenase (ver Capítulo
12). Quando essa deficiência está presente, os eritrócitos não são capazes de
regenerar a NADPH, sendo sua concentração reduzida pelos derivados
metabólicos oxidantes da primaquina. Como consequência, as funções
metabólicas dos eritrócitos são comprometidas e ocorre hemólise. A
deficiência da enzima ocorre em até 15% dos homens negros e também é
bastante comum em alguns outros grupos étnicos. A atividade da glicose 6-
fosfato desidrogenase deve ser avaliada antes da administração da
primaquina.
Artemisinina e compostos relacionados
A importância desse grupo é que, muitas vezes, são os únicos fármacos
capazes de tratar, de modo eficaz, P. falciparum resistentes. Estas lactonas
sesquiterpênicas são derivadas do absinto doce, qinghao, um medicamento
chinês tradicional para febres. O nome científico, conferido à erva por
Linnaeus, é Artemisia.4 A artemisinina, um extrato químico pouco solúvel
da Artemisia, é um esquizonticida sanguíneo de rápida atuação, mostrando-
se efetivo no tratamento da crise aguda de malária (incluindo a malária resistente à cloroquina e a malária cerebral). Em ensaios randomizados, as
artemisininas curaram ataques de malária, incluindo a malária cerebral,
mais rapidamente e com menos efeitos indesejados do que outros agentes
antimaláricos. A artemisinina e seus derivados são eficazes contra o P.
falciparum multirresistente na África Subsaariana e, combinada com a
mefloquina, contra o P. falciparum multirresistente no Sudeste Asiático.
■ Aspectos farmacocinéticos
Os derivados de artemisinina, que incluem o artesunato (um derivado
solúvel em água, disponível em alguns países) e o arteméter, têm maior
atividade e melhor absorção. Esses compostos são concentrados nos
eritrócitos infectados e, entrando nos vacúolos digestivos, sua “ponte de
endoperóxido” atípica é ativada pelo ferro da heme, originando compostos
de oxigênio altamente reativo. Estes causam lesão irreversível às proteínas,
membranas lipídicas e outros alvos parasitários. Tais fármacos não têm
efeitos nos hipnozoítos hepáticos. A artemisinina pode ser administrada por
via oral, intramuscular ou por supositório; o arteméter, por via oral ou
intramuscular; e o artesunato, por via intramuscular ou intravenosa. São
rapidamente absorvidos e amplamente distribuídos, e são convertidos no
fígado para o metabólito ativo di-hidroartemisinina. A meia-vida da
artemisinina é de aproximadamente 4 horas; do artesunato, de 45 minutos; e
do arteméter, de 4 a 11 horas.
Há poucos efeitos adversos. Houve relatos de bloqueio cardíaco
transitório, queda na contagem neutrofílica sanguínea e breves episódios de
febre. Nos estudos com animais, a artemisinina provoca lesão não usual em
alguns núcleos do tronco encefálico, particularmente naqueles envolvidos
na função auditiva; entretanto, não há incidência relatada de
neurotoxicidade nos seres humanos.
Em estudos realizados com roedores, a artemisinina potencializou os
efeitos de mefloquina, primaquina e tetraciclina; foi sinérgica com a
cloroquina; e antagonizou as sulfonamidas e os antagonistas dos folatos.
Por essa razão, os derivados da artemisinina são frequentemente usados em
combinação com outros fármacos antimaláricos como parte de regimes
ACT; por exemplo, com frequência, o arteméter é administrado em
combinação com lumefantrina.
■ Resistência
Inicialmente, a resistência não era um grande problema, mas, de modo
alarmante, registros de que o parasito em algumas áreas do mundo (p. ex.,
Sudeste Asiático) estava se tornando menos sensível a esses fármacos –
isolados ou em combinações ACT – começaram a aparecer há cerca de uma
década (Blasco et al., 2017). A situação é monitorada de maneira muito
cuidadosa.
Atovaquona
A atovaquona é um fármaco hidroxinaftoquinonônico usado
profilaticamente para evitar a malária e tratar os casos resistentes a outros
fármacos. Atua primariamente inibindo a cadeia de transporte mitocondrial
de elétrons do parasito, possivelmente imitando o substrato natural
ubiquinona. Em geral, a atovaquona é usada em combinação com o fármaco
antifolato proguanil, pois atuam juntos na obtenção de um efeito
antimalárico sinérgico. O mecanismo subjacente a esse efeito não é
conhecido, porém a sinergia é específica para esses dois fármacos, porque
outros fármacos antifolato ou inibidores do transporte de elétrons não
provocam esse efeito. Quando combinada com o proguanil, a atovaquona é
francamente efetiva e bem tolerada. Poucos efeitos adversos de tal combinação de tratamento foram relatados, porém podem ocorrer dor