Rang e Dale: Farmacologia
O que são substâncias de “bem-estar”?
Esta é uma questão por vezes difícil de responder. Neste livro, são definidas
como drogas ou fármacos que são administrados por escolha para fornecer
prazer (p. ex., Cannabis, álcool, cocaína), para aumentar o desempenho (p.
ex., substâncias nos esportes, substâncias que melhoram a cognição) ou
para melhorar a aparência (p. ex., toxina botulínica, para ajudar pessoas
que não são obesas a emagrecer), em outras palavras, para satisfazer uma
aspiração ou um objetivo não relacionado com a saúde, em vez de tratar
uma condição clínica. Simplificando, são fármacos administrados por
escolha das pessoas que não estão doentes, e um termo melhor pode ser
utilização para o bem-estar, uma vez que muitos são agentes terapêuticos
convencionais. Os exemplos incluem a utilização do anti-hipertensivo
minoxidil para o tratamento da alopecia. Os anticoncepcionais orais, que
claramente se encontram no domínio da medicina, também podem ser
considerados como substâncias de “bem-estar”. Ainda incluídos nesta
categoria estão os suplementos alimentares e outras preparações
relacionadas (por vezes referidos como nutracêuticos), que são consumidos
em decorrência de algum benefício alegado, embora muitas vezes não haja
boas evidências de que sejam eficazes.
CLASSIFICAÇÃO DAS SUBSTÂNCIAS DE “BEM-ESTAR”
A categoria bem-estar abrange utilizações no estilo de vida de uma ampla
variedade de medicamentos e drogas, e abrange a classificação
farmacológica utilizada ao longo deste livro. O esquema na Tabela 59.1 tem
como base, em grande parte, o trabalho de Gilbert et al. (2000) e Young
(2003). Abrange substâncias utilizadas para escolhas de bem-estar, com
base em precedentes históricos, tais como anticoncepcionais orais e agentes
utilizados para manejar doenças relacionadas com o “estilo de vida”, como
a dependência do tabaco (p. ex., bupropiona; ver Capítulo 50). Também
inclui substâncias como cafeína e álcool, que são consumidos em grande
escala em todo o mundo, bem como drogas de uso abusivo como a cocaína,
e suplementos nutricionais.
Particularmente atual é a utilização de “estimuladores neuronais”, como
o modafinila e o metilfenidato (ver Capítulo 49) que, sob algumas
circunstâncias, podem melhorar o desempenho intelectual (ver Sahakian e
Morein-Zamir, 2007; Sahakian e LaBuzetta, 2015, por exemplo).1 A
utilização de fármacos que melhoram os defeitos cognitivos em condições
como demência (ver Capítulo 41), esquizofrenia (ver Capítulo 47) e
depressão (ver Capítulo 48) é geralmente vista como desejável, embora os
fármacos atuais sejam apenas marginalmente efetivos. No entanto, é
necessário ter atenção a este tema (ver Capítulos 41 e 49)! Estender a
utilização de fármacos atuais ou futuros, de modo a fornecer uma vantagem
em situações de competição a indivíduos saudáveis, é muito mais
controverso. A possibilidade, ainda não realizada, de descobrir fármacos
capazes de prolongar a vida, retardando as mudanças funcionais e
degenerativas características da velhice, é outro campo social e ético
minado.
Para uma discussão completa do aprimoramento humano por meios
farmacológicos, ver Buchanan (2011) e Flower (2012).
Com o tempo, os medicamentos podem alternar entre as categorias
“bem-estar” e “clínica”. Por exemplo, a cocaína foi utilizada como uma
droga de bem-estar por índios sul-americanos. Os primeiros exploradores
comentaram que essa substância “satisfazia a fome, dava força aos cansados
e exaustos, fazendo os infelizes esquecerem as tristezas”. Originalmente
adotada na medicina europeia como anestésico local (ver Capítulo 44), é
agora em grande parte devolvida ao estado de droga de bem-estar e, lamentavelmente, é a base de uma indústria internacional de drogas ilícitas
multimilionária. Cannabis é outro bom exemplo de uma droga que foi
considerada (pelo menos no Ocidente) como puramente recreativa, mas
agora está (como um extrato de plantas contendo tetra-hidrocanabinol e
canabidiol) licenciada para várias aplicações clínicas (ver Capítulos 20, 43
e 50). Existem muitos outros exemplos (Flower, 2004).
Muitas substâncias de “bem-estar” ou “suplementos esportivos”
amplamente utilizados são produtos naturais (p. ex., extratos de Ginkgo,
melatonina, erva-de-são-joão, extratos de cinchona), cuja fabricação e
venda não têm sido, historicamente, reguladas.2 Assim, sua composição é
muito variável e sua eficácia e segurança geralmente não foram testadas.
Muitas contêm substâncias ativas que, tal como as drogas sintéticas, podem
produzir tanto efeitos adversos quanto benéficos.
Tabela 59.1 Alguns exemplos de drogas e medicamentos
de bem-estar (exceto os utilizados no esporte).
Principal utilização Utilização de
Categoria Exemplo(s) Capítulo
clínica “bem-estar”
Sildena laa Disfunção erétil Aprimoramento erétil 36
Medicamentos Prevenção da Prevenção da
aprovados para Contraceptivos orais 36 concepção concepção
indicações
especí cas, mas que Orlistate Obesidade Perda de peso 33
também têm outros
Agente anorexígeno
usos de “bem-estar”
Sibutramina (retirado do mercado Perda de peso 33
na Europa)
Medicamentos Recrescimento do
Minoxidil Hipertensão 23
aprovados para cabelo
indicações Metilfenidato TDAH Melhora do 49
especí cas que desempenho
possam também ser acadêmico
utilizados para
satisfazer as Aprimoramento
Moda nila Tratamento do TDAH 49
“escolhas de bem- cognitivo
estar” ou para tratar
“doenças de bem- Opiáceos Analgesia Uso “recreativo” 43, 50
estar”
Componente
Álcool Nenhum como tal 50
difundido de bebidas
Substâncias com
apenas uma Toxina botulínica Alívio do espasmo Alteração estética 14
muscular
utilização clínica
menor ou
inexistente, mas que Cafeína 16, 49 enxaqueca Tratamento da Componente difundido de bebidas
se enquadram na
categoria de bem- Manejo de dor
estar crônica, náuseas e,
Cannabis Uso “recreativo” 20, 50
possivelmente,
espasmo muscular
Metilenodioximetanfetamina
Nenhum Uso “recreativo” 49
(MDMA, “ecstasy”)
Drogas (geralmente
Preparações de
ilícitas) que não têm
nicotina para a
utilidade clínica, mas Tabaco (nicotina) Uso “recreativo” 50
dependência do
são utilizadas para
tabaco
satisfazer requisitos
de “bem-estar” b
Anestesia local (em
Cocaína (algumas
grande parte Uso “recreativo” 43
formulações)
obsoleta)
a Naturalmente, somente em homens. No entanto, em alguns países, a ibanserina é utilizada para aumentar o desejo sexual
feminino, podendo vir a ser uma nova adição a esta categoria.