Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 739 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

O que são substâncias de “bem-estar”?

Esta é uma questão por vezes difícil de responder. Neste livro, são definidas

como drogas ou fármacos que são administrados por escolha para fornecer

prazer (p. ex., Cannabis, álcool, cocaína), para aumentar o desempenho (p.

ex., substâncias nos esportes, substâncias que melhoram a cognição) ou

para melhorar a aparência (p. ex., toxina botulínica, para ajudar pessoas

que não são obesas a emagrecer), em outras palavras, para satisfazer uma

aspiração ou um objetivo não relacionado com a saúde, em vez de tratar

uma condição clínica. Simplificando, são fármacos administrados por

escolha das pessoas que não estão doentes, e um termo melhor pode ser

utilização para o bem-estar, uma vez que muitos são agentes terapêuticos

convencionais. Os exemplos incluem a utilização do anti-hipertensivo

minoxidil para o tratamento da alopecia. Os anticoncepcionais orais, que

claramente se encontram no domínio da medicina, também podem ser

considerados como substâncias de “bem-estar”. Ainda incluídos nesta

categoria estão os suplementos alimentares e outras preparações

relacionadas (por vezes referidos como nutracêuticos), que são consumidos

em decorrência de algum benefício alegado, embora muitas vezes não haja

boas evidências de que sejam eficazes.

 

CLASSIFICAÇÃO DAS SUBSTÂNCIAS DE “BEM-ESTAR”

A categoria bem-estar abrange utilizações no estilo de vida de uma ampla

variedade de medicamentos e drogas, e abrange a classificação

farmacológica utilizada ao longo deste livro. O esquema na Tabela 59.1 tem

como base, em grande parte, o trabalho de Gilbert et al. (2000) e Young

(2003). Abrange substâncias utilizadas para escolhas de bem-estar, com

base em precedentes históricos, tais como anticoncepcionais orais e agentes

utilizados para manejar doenças relacionadas com o “estilo de vida”, como

a dependência do tabaco (p. ex., bupropiona; ver Capítulo 50). Também

inclui substâncias como cafeína e álcool, que são consumidos em grande

escala em todo o mundo, bem como drogas de uso abusivo como a cocaína,

e suplementos nutricionais.

Particularmente atual é a utilização de “estimuladores neuronais”, como

o modafinila e o metilfenidato (ver Capítulo 49) que, sob algumas

circunstâncias, podem melhorar o desempenho intelectual (ver Sahakian e

Morein-Zamir, 2007; Sahakian e LaBuzetta, 2015, por exemplo).1 A

utilização de fármacos que melhoram os defeitos cognitivos em condições

como demência (ver Capítulo 41), esquizofrenia (ver Capítulo 47) e

depressão (ver Capítulo 48) é geralmente vista como desejável, embora os

fármacos atuais sejam apenas marginalmente efetivos. No entanto, é

necessário ter atenção a este tema (ver Capítulos 41 e 49)! Estender a

utilização de fármacos atuais ou futuros, de modo a fornecer uma vantagem

em situações de competição a indivíduos saudáveis, é muito mais

controverso. A possibilidade, ainda não realizada, de descobrir fármacos

capazes de prolongar a vida, retardando as mudanças funcionais e

degenerativas características da velhice, é outro campo social e ético

minado.

Para uma discussão completa do aprimoramento humano por meios

farmacológicos, ver Buchanan (2011) e Flower (2012).

Com o tempo, os medicamentos podem alternar entre as categorias

“bem-estar” e “clínica”. Por exemplo, a cocaína foi utilizada como uma

droga de bem-estar por índios sul-americanos. Os primeiros exploradores

comentaram que essa substância “satisfazia a fome, dava força aos cansados

e exaustos, fazendo os infelizes esquecerem as tristezas”. Originalmente

adotada na medicina europeia como anestésico local (ver Capítulo 44), é

agora em grande parte devolvida ao estado de droga de bem-estar e, lamentavelmente, é a base de uma indústria internacional de drogas ilícitas

multimilionária. Cannabis é outro bom exemplo de uma droga que foi

considerada (pelo menos no Ocidente) como puramente recreativa, mas

agora está (como um extrato de plantas contendo tetra-hidrocanabinol e

canabidiol) licenciada para várias aplicações clínicas (ver Capítulos 20, 43

e 50). Existem muitos outros exemplos (Flower, 2004).

Muitas substâncias de “bem-estar” ou “suplementos esportivos”

amplamente utilizados são produtos naturais (p. ex., extratos de Ginkgo,

melatonina, erva-de-são-joão, extratos de cinchona), cuja fabricação e

venda não têm sido, historicamente, reguladas.2 Assim, sua composição é

muito variável e sua eficácia e segurança geralmente não foram testadas.

Muitas contêm substâncias ativas que, tal como as drogas sintéticas, podem

produzir tanto efeitos adversos quanto benéficos.

 

Tabela 59.1 Alguns exemplos de drogas e medicamentos

de bem-estar (exceto os utilizados no esporte).

 

Principal utilização Utilização de

Categoria Exemplo(s) Capítulo

clínica “bem-estar”

Sildena laa Disfunção erétil Aprimoramento erétil 36

Medicamentos Prevenção da Prevenção da

aprovados para Contraceptivos orais 36 concepção concepção

indicações

especí cas, mas que Orlistate Obesidade Perda de peso 33

também têm outros

Agente anorexígeno

usos de “bem-estar”

Sibutramina (retirado do mercado Perda de peso 33

na Europa)

Medicamentos Recrescimento do

Minoxidil Hipertensão 23

aprovados para cabelo

indicações Metilfenidato TDAH Melhora do 49

especí cas que desempenho

possam também ser acadêmico

utilizados para

satisfazer as Aprimoramento

Moda nila Tratamento do TDAH 49

“escolhas de bem- cognitivo

estar” ou para tratar

“doenças de bem- Opiáceos Analgesia Uso “recreativo” 43, 50

estar”

Componente

Álcool Nenhum como tal 50

difundido de bebidas

Substâncias com

apenas uma Toxina botulínica Alívio do espasmo Alteração estética 14

muscular

utilização clínica

menor ou

inexistente, mas que Cafeína 16, 49 enxaqueca Tratamento da Componente difundido de bebidas

se enquadram na

categoria de bem- Manejo de dor

estar crônica, náuseas e,

Cannabis Uso “recreativo” 20, 50

possivelmente,

espasmo muscular

Metilenodioximetanfetamina

Nenhum Uso “recreativo” 49

(MDMA, “ecstasy”)

Drogas (geralmente

Preparações de

ilícitas) que não têm

nicotina para a

utilidade clínica, mas Tabaco (nicotina) Uso “recreativo” 50

dependência do

são utilizadas para

tabaco

satisfazer requisitos

de “bem-estar” b

Anestesia local (em

Cocaína (algumas

grande parte Uso “recreativo” 43

formulações)

obsoleta)

a Naturalmente, somente em homens. No entanto, em alguns países, a ibanserina é utilizada para aumentar o desejo sexual

feminino, podendo vir a ser uma nova adição a esta categoria.