Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 514 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Doença de Parkinson

Exemplos de fármacos que provaram não ser tão efetivos em travar ou

reverter a progressão da DA quanto se esperava são:

• Verubecestate, um inibidor da βγ-secretase 1 (BACE1)

• Solanezumabe, um anticorpo monoclonal contra o peptídio Aβ.

 

Há ainda alguma esperança de que estes ou agentes que atuam de modo

similar (p. ex., aducanumabe) possam provar ser efetivos se

administrados em uma fase precoce do desenvolvimento da doença.

O fato de as estratégias terapêuticas dirigidas para a redução de Aβ

falharem em reverter a progressão da DA sugere que a doença é o

resultado de uma fisiopatologia mais complexa, e direcioná-las apenas

para a Aβ pode não ser suficiente para tratar a DA.

Os detalhes de mais de 100 fármacos em várias fases de ensaios

clínicos, seja para alívio sintomático ou modificador da atividade da

doença na DA, são fornecidos em Cummings et al. (2017). Ocorrem

déficits cognitivos em outros distúrbios do SNC tais como DP,

esquizofrenia e depressão. O desenvolvimento de fármacos para

melhora da cognição que podem ser transversalmente úteis a estes

distúrbios é descrito no Capítulo 49.

 

DOENÇA DE PARKINSON

 

CARACTERÍSTICAS DA DOENÇA DE PARKINSON

A DP é uma alteração progressiva dos movimentos que ocorre

principalmente no idoso. Foi primeiro descrita por James Parkinson em

1817. Przedborski (2017) descreve em detalhe como a compreensão do

distúrbio e o seu tratamento evoluíram nos 200 anos subsequentes.

Os principais sintomas são:

Supressão dos movimentos voluntários (bradicinesia), decorrente, em •

parte, da rigidez muscular e, em parte, da inércia inerente do sistema

motor, o que significa que a atividade motora é difícil de parar, bem

como de começar

• Tremor em repouso, começando geralmente nas mãos (tremor do tipo

“contar dinheiro”), que tende a diminuir durante a atividade voluntária

• Rigidez muscular, detectável como o aumento na resistência passiva ao

movimento do membro

• Grau variável de comprometimento cognitivo.

 

Os pacientes parkinsonianos caminham com a característica marcha

arrastada. Eles acham difícil começar e, uma vez em progresso, não

conseguem parar ou mudar de direção com rapidez. A DP está comumente

associada a demência, depressão, alucinações e disfunção autônoma, porque

o processo degenerativo não está confinado apenas aos núcleos da base,

mas afeta também outras partes do cérebro. Os sintomas não motores

podem surgir antes dos sintomas motores e são frequentemente

predominantes nas fases tardias da doença.

A DP ocorre com frequência sem causa subjacente óbvia, mas pode ser

o resultado de isquemia cerebral, encefalite viral, lesão na cabeça ou outros

tipos de lesão patológica. Os sintomas podem também ser induzidos por

fármacos, sendo os principais medicamentos envolvidos aqueles que

bloqueiam receptores dopaminérgicos (p. ex., fármacos antieméticos e

antipsicóticos, como a clorpromazina; ver Capítulos 31 e 47). Há raros

casos de DP familiar e várias mutações gênicas foram identificadas,

incluindo aquelas que codificam a sinucleína e a parquina (p. 524). As

mutações do gene LRRK2 (quinase de repetição rica em leucina) também

foram associadas à DP. O estudo dessas mutações gênicas deu algumas

pistas sobre o mecanismo subjacente ao processo neurodegenerativo.

■ Alterações neuroquímicas

A DP afeta os núcleos da base, e sua origem neuroquímica foi descoberta

em 1960 por Hornykiewicz, que mostrou que o conteúdo de dopamina da

substância negra e do corpo estriado (ver Capítulo 40) nos cérebros post

mortem dos pacientes com DP era extremamente baixo (em geral, menos

que 10% do normal), associado à perda de neurônios dopaminérgicos na

substância negra e à degeneração dos terminais nervosos no estriado.7 Os

neurônios que contêm outras monoaminas, tais como a norepinefrina e a 5-

hidroxitriptamina, também são afetados. Perda gradual de dopamina ocorre

ao longo de vários anos, e os sintomas da DP aparecem apenas quando o

conteúdo de dopamina do estriado caiu para 20 a 40% do normal. As lesões

do trato nigroestriado ou a depleção induzida quimicamente da dopamina

nos animais de experimentação também produzem os sintomas de DP. O

sintoma mais claramente relacionado com a deficiência de dopamina é a

bradicinesia, que ocorre imediata e invariavelmente nos animais

lesionados. A rigidez e o tremor envolvem alterações neuroquímicas mais

complexas de outros transmissores (particularmente acetilcolina,

norepinefrina, 5-hidroxitriptamina e GABA), bem como da dopamina. Nas

lesões experimentais, duas consequências secundárias seguem-se à lesão do

trato nigroestriado, especificamente a hiperatividade dos neurônios

dopaminérgicos remanescentes, que mostra aumento na velocidade de

renovação do transmissor e aumento no número de receptores de dopamina,

o que produz um estado de hipersensibilidade pela desnervação (ver

Capítulo 13). Os neurônios no estriado expressam principalmente

receptores D1 (excitatórios) e D2 (inibitórios) (ver Capítulo 40), porém

poucos receptores D3 e D4. Um diagrama simplificado do circuito neuronal envolvido e das vias primariamente comprometidas na DP e na DH é

mostrado na Figura 41.4.

Os interneurônios colinérgicos do corpo estriado (não mostrados na

Figura 41.4) estão também envolvidos na DP e na DH. A liberação de

acetilcolina do estriado é fortemente inibida pela dopamina, e sugere-se que

a hiperatividade desses neurônios colinérgicos contribua para os sintomas

da DP. O oposto ocorre na DH, e ambas as estratégias terapêuticas

apontadas para redefinir o equilíbrio entre os neurônios dopaminérgicos e

colinérgicos são, até certo ponto, benéficas.