Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 102 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Ensaios clínicos

Os estudos envolvendo indivíduos humanos variam desde investigações

experimentais de farmacodinâmica ou farmacocinética até ensaios clínicos

formais. Métodos não invasivos para obtenção de dados, como a

ressonância magnética funcional (RMF) para avaliar o fluxo sanguíneo no

cérebro (um substituto de atividade neuronal) e a ultrassonografia para a

avaliação do desempenho cardíaco, aumentaram em muito a fronteira do

que é possível. Os princípios científicos que regem os trabalhos

experimentais em humanos com o objetivo de, por exemplo, confirmar

quais mecanismos que funcionam em outras espécies podem também ser

aplicados em humanos, ou de tirar vantagem da capacidade de resposta

muito maior de uma pessoa em comparação com a de um rato, são os

mesmos para os animais, porém os problemas éticos e de segurança são

maiores. Os comitês de ética associados a todos os centros de pesquisa

médica controlam rigidamente o tipo de experimento que pode ser

realizado, levando em consideração não somente os problemas éticos e de

segurança, mas também a importância científica do estudo proposto. Na

outra ponta do espectro da experimentação em humanos, estão os ensaios

clínicos formais, com frequência envolvendo centenas de pacientes, visando

responder a questões específicas em relação à eficácia e à segurança de

novos fármacos.

 

ENSAIOS CLÍNICOS

Os ensaios clínicos são uma forma de ensaio biológico importante e

altamente especializado, com o objetivo específico de avaliar a eficácia

terapêutica e detectar os efeitos adversos. A necessidade da utilização de

pacientes que estejam em tratamento com propósitos experimentais levanta

considerações éticas sérias e impõe muitas restrições. Neste texto,

discutimos alguns dos princípios básicos envolvidos nos testes clínicos; o papel desses estudos ao longo do desenvolvimento do fármaco é descrito no

Capítulo 60.

Um ensaio clínico é um método que consiste em comparar

objetivamente, por meio de estudo prospectivo, os resultados de dois ou

mais procedimentos terapêuticos. No caso de fármacos novos, isso é feito

nas fases II e III do ensaio (ver Capítulo 60). É importante acrescentar que,

até cerca de 60 anos atrás, os métodos de tratamento eram escolhidos mais

com base na impressão clínica e na experiência pessoal do que em testes

objetivos.6 Apesar de muitos fármacos, com eficácia inquestionável,

permanecerem em uso sem nunca terem sido submetidos a ensaio clínico

controlado, atualmente qualquer novo fármaco precisa ser testado dessa

maneira antes de ser licenciado para uso clínico.7

Por outro lado, o digital (ver Capítulo 22) foi usado durante 200 anos

no tratamento da insuficiência cardíaca antes que um estudo controlado

demonstrasse que seu valor era muito limitado, exceto em determinado tipo

de paciente.

Hackshaw (2009) traça uma introdução aos princípios e à organização

dos estudos clínicos. Um ensaio clínico compara a resposta de um grupo de

pacientes recebendo um novo tratamento (A) com um grupo-controle sob

um tratamento “padrão” existente (B). O tratamento A pode ser um fármaco

novo, uma nova combinação de fármacos existentes ou qualquer outro tipo

de intervenção terapêutica, como cirurgia, dieta, fisioterapia etc. O padrão

com que o tratamento é comparado (tratamento B) pode ser um tratamento

farmacológico ou não, já existente na prática clínica ou um placebo (se não

houver tratamento eficaz disponível) ou até mesmo nenhum tratamento.

O uso de controles é crucial nos estudos clínicos. Afirmações de

eficácia baseadas em relatórios em que, por exemplo, 16 de 20 pacientes

que receberam o fármaco X melhoraram em um prazo de 2 semanas, não têm valor (em especial no caso de doenças menores, que se resolvem por si

próprias) sem sabermos como teriam reagido 20 pacientes que não

receberam tratamento algum ou que receberam um tratamento diferente.

Em um desenho de grupos paralelos, os controles são compostos de um

grupo separado de pacientes, mas, às vezes, é possível fazer um estudo

cruzado em que os mesmos pacientes mudam do grupo de teste para o

grupo-controle ou vice-versa, e os resultados são comparados. A

distribuição aleatória (randomização) é essencial para evitar eventual

predisposição a determinado resultado ao se incluírem pacientes no grupo

de teste ou controle. Assim, atualmente, o ensaio clínico controlado

randomizado é considerado ferramenta essencial para se avaliar a eficácia

terapêutica dos novos fármacos.

Sempre existe a preocupação com a ética ao incluirmos pacientes ao

acaso em um grupo-controle para determinado tratamento (ou para o não

tratamento). Entretanto, o ensaio é feito porque muitos médicos têm

dúvidas acerca da eficácia do tratamento, e existe um equilíbrio clínico

genuíno na seleção do tratamento. Todos concordam com o princípio do

consentimento informado,8 por meio do qual cada paciente deve receber

informações sobre a natureza e os riscos do estudo e concordar em

participar, sabendo que será aleatoriamente indicado para o grupo de teste

ou de controle. A “Declaração de Helsinki”, regularmente atualizada, define

as regras básicas, amplamente aceitas, que regulam a investigação em seres

humanos.

Ao contrário dos tipos de ensaios biológicos anteriormente discutidos, o

ensaio clínico não fornece qualquer informação sobre a potência ou a forma

da curva dose-resposta; simplesmente compara a resposta produzida por

dois ou mais regimes terapêuticos estipulados. As curvas de sobrevida

fornecem uma medida comumente utilizada. A Figura 8.5 mostra a taxa de sobrevida livre de doença em dois grupos de pacientes com câncer de mama

tratados com quimioterapia convencional com e sem a adição de paclitaxel

(ver Capítulo 57). A divergência entre as curvas mostra que o paclitaxel

melhorou significativamente a resposta clínica. Questões adicionais podem

ser apresentadas, como a incidência e a gravidade dos efeitos colaterais ou

se o tratamento funciona melhor ou pior em determinadas classes de

pacientes, mas ao custo de maior complexidade e de um número maior de

pacientes. O pesquisador deve decidir previamente, utilizando uma

abordagem protocolar, a dose e a frequência da administração, e o ensaio irá

revelar apenas se o regime escolhido é melhor ou pior do que o tratamento-

controle. Se não forem comparadas doses diferentes, ele não dirá se

aumentar ou diminuir a dose melhora a resposta.

Antes de desenhar e começar um ensaio clínico, é necessário um

volume considerável de trabalho preliminar ou fundamental, que

quantifique os resultados do novo fármaco nos pacientes. A questão básica

ou hipótese do ensaio clínico é mais simples do que a tratada pela maioria

dos ensaios biológicos. Entretanto, a organização dos ensaios clínicos, com

a dificuldade para evitar a tendenciosidade, é incomparavelmente mais

complicada, demorada e cara do que qualquer ensaio biológico laboratorial.

Desse modo, os estudos observacionais podem ser mais práticos ou

adequados para averiguar a existência de efeitos adversos raros, para os

quais é necessário que haja amostras maiores e um tempo de

acompanhamento mais prolongado.