Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 242 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Mecanismos fisiológicos

Figura 20.4 Biossíntese e inativação dos endocanabinoides. 2-AG, 2-araquidonoil glicerol; A, ácido araquidônico; DAGL, diacilglicerol lipase; E, etanolamina; TEM, transportador endocanabinoide de membrana; FAAH, ácido graxo amida hidrolase; G, glicerol; GFL, glicerofosfolipídio; MAGL, monoacil glicerol lipase; NAPE, N-acil-fosfatidiletanolamina; NAPE-PLD, fosfolipase D específica da N-acil-fosfatidiletanolamina; NAT, N-acil-transferase; FE, fosfatidiletanolamina; FLC, fosfolipase C.

 

O fenótipo de camundongos “knock-out” para FAAH fornece alguns

indícios da fisiologia dos endocanabinoides; tais camundongos apresentam

maior conteúdo de anandamida cerebral e um aumentado limiar de dor.

Inibidores seletivos da FAAH4 contêm propriedades analgésicas e

ansiolíticas em camundongos (o Capítulo 45 explica como os

medicamentos são testados em roedores com relação a propriedades

ansiolíticas). Ao contrário da anandamida, o conteúdo de 2-AG no cérebro

não aumenta em animais “knock-out” para FAAH, indicando a provável

importância de outra rota do metabolismo do 2-AG. Outras possíveis rotas

do metabolismo incluem esterificação, acilação e oxidação pela ciclo-

oxigenase 2, originando prostaglandina-etanolamidas (“prostamidas”), ou

pela 12 ou 15-lipo-oxigenase (ver Capítulo 18).

 

MECANISMOS FISIOLÓGICOS

Os estímulos que liberam endocanabinoides, levando à ativação dos

receptores CB 1, e seu vínculo com eventos posteriores, incluindo efeitos comportamentais ou psicológicos, não estão completamente definidos. A

concentração aumentada de Ca2+ intracelular é, provavelmente, um

importante gatilho celular porque, como mencionado na página 256, o Ca2+

ativa a NAPE-PLD e outras enzimas envolvidas na biossíntese de

endocanabinoides.

A ativação dos receptores CB está envolvida em um fenômeno

conhecido como supressão da inibição induzida por despolarização (DSI; do inglês, depolarisation-induced suppression of inhibition). A DSI ocorre

em células piramidais do hipocampo; quando estas são despolarizadas por

um estímulo excitatório, ocorre supressão do estímulo inibitório mediado

pelo GABA para as células piramidais, gerando um fluxo retrógrado de

informações da célula piramidal despolarizada para os axônios inibitórios

que terminam nesta. Tal fluxo reverso de informações da célula pós-

sináptica para a célula pré-sináptica é uma característica de outros casos de

plasticidade neuronal, tais como a “sonação temporal” (wind-up) nas vias

nociceptivas (ver Figura 43.2) e a potencialização a longo prazo no

hipocampo (ver Figura 39.7). A DSI é bloqueada pelo antagonista CB 1

rimonabanto. A localização pré-sináptica dos receptores CB1 e as distribuições celulares das enzimas DAGL e monoacil glicerol lipase

(MAGL) (ver Figura 20.4) compatibilizam-se bem com a ideia de que o

endocanabinoide 2-AG poderia ser um mensageiro “retrógrado” na DSI

(ver Figura 40.7).

As ações neuromoduladoras dos endocanabinoides poderiam influenciar

uma ampla gama de atividades fisiológicas, incluindo a nocicepção e as

funções cardiovascular, respiratória e gastrintestinal. Acredita-se que as

interações dos endocanabinoides com hormônios hipotalâmicos influenciem

a ingestão de alimentos e a função reprodutiva. Os modelos de

camundongos “knock-out” para os receptores CB apoiam a proposta de

papéis importantes e balanceados da sinalização endocanabinoide na

fertilidade em homens e mulheres, e essa sinalização está implicada em

espermatogênese, fertilização, desenvolvimento pré-implantação do

embrião recém-formado e crescimento durante a implantação e pós-

implantação do embrião (Battista et al., 2012). Os efeitos dos

endocanabinoides sobre a ingestão de alimentos são de particular interesse,

devido à importância da obesidade (ver Capítulo 33).