Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 151 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos terapêuticos e testes farmacogenômicos clinicamente disponíveis

maneira exclusiva por intermédio da mãe a todos os seus filhos. Esse é o

padrão esperado de um gene mitocondrial, sendo que a mutação

predisponente mais comum é, de fato, a substituição de um único

nucleotídio (A por G) na posição 1555 do genoma mitocondrial, referido

como m.1555A>G. Essa mutação é responsável por 30 a 60% da

ototoxicidade por aminoglicosídios na China, onde o uso desses fármacos é

comum. Os aminoglicosídios atuam por ligação aos ribossomos bacterianos

(ver Capítulo 52), que partilham propriedades com os ribossomos

mitocondriais humanos (acredita-se que as mitocôndrias tenham evoluído a

partir de bactérias simbióticas); os aminoglicosídios causam ototoxicidade

em todos os indivíduos expostos a altas doses. A mutação m.1555A>G torna

os ribossomos mitocondriais ainda mais semelhantes aos seus homólogos

bacterianos, aumentando a afinidade com que o fármaco permanece ligado

aos ribossomos nas células ciliares da cóclea durante vários meses após

uma única dose em indivíduos suscetíveis. Embora a utilidade clínica ainda

tenha de ser provada, alguns peritos sugerem que o rastreamento dessa

variante pode ser adequado em crianças com probabilidade de necessitarem

de tratamento com aminoglicosídios (Linden Phillips, 2013).

 

FÁRMACOS TERAPÊUTICOS E TESTES FARMACOGENÔMICOS CLINICAMENTE DISPONÍVEIS

Os testes clínicos para prever a capacidade de resposta a fármacos foram

antecipados como uma das primeiras aplicações do sequenciamento do

genoma humano. Apesar de uma grande quantidade de novos testes

farmacogenéticos ser atualmente comercializada para profissionais de

saúde, bem como diretamente para os consumidores, a adoção e a

implementação na prática clínica têm sido lentas devido a várias barreiras científicas, comerciais, políticas e educacionais. O reembolso de testes e

fármacos dispendiosos, tanto pelo estado quanto por planos de seguros,

depende cada vez mais da evidência de custo-eficácia. Atualmente, é

necessário que os novos testes farmacogenéticos demonstrem influência

positiva ou significativa na prática da prescrição, como a utilização de um

fármaco alternativo ou um esquema de dose diferente que conduza a

melhoras mensuráveis nos resultados dos pacientes (Khoury e Galea, 2016;

Manrai et al., 2016). Até o momento, a evidência existente que suporta

qualquer um dos testes farmacogenéticos é menos convincente, ficando

aquém do ideal de um ensaio controlado randomizado de uma estratégia de

prescrição orientada pela farmacogenômica em comparação com a melhor

prática clínica atual.

Além disso, a avaliação da resposta a um fármaco com traços

complexos multifatoriais é um importante desafio, uma vez que vários

genes e variantes genéticas interagem com fatores ambientais e o

componente genético pode ter uma influência apenas modesta no efeito do

tratamento. Muitas das primeiras investigações concentraram-se em

variantes patogênicas singulares atrativas, que apresentavam um efeito de

tratamento imediato ou aparente “tudo ou nada”. Contudo, na realidade, a

probabilidade de benefício ou malefício de um fármaco é frequentemente

um continuum, com uma ampla gama de variações entre os indivíduos de

uma população (Manrai et al., 2016). Desse modo, a dependência de um

único biomarcador preditor pode não ser suficientemente precisa ou

confiável para orientar o tratamento de patologias graves.

Os passos-chave na avaliação dos marcadores de farmacogenética na

prática clínica devem ser a confirmação da validade analítica (precisão e

confiabilidade do teste) e determinação de uma relação robusta e replicável

entre o marcador e a resposta ao fármaco na população (validade clínica). Posteriormente, a utilidade clínica deve ser demonstrada por meio da

melhoria na eficácia ou na segurança dos pacientes que recebem os

esquemas terapêuticos orientados pelos biomarcadores. Existem, ainda,

considerações de economia de saúde, designadamente se os marcadores

genéticos apresentam uma frequência suficientemente elevada na população

de pacientes que justifique o custo do rastreamento. Em seguida, os

legisladores e as agências financiadoras terão que avaliar a viabilidade da

utilização da estratégia de testes de biomarcadores de modo que não atrase

o tratamento dos pacientes. Aqui, a abordagem histórica do teste de um

único gene, conforme necessário, ou “um de cada vez” pode parecer lenta,

ineficiente e dispendiosa quando comparada com a recente disponibilização

de testes preventivos de múltiplos marcadores genéticos. A crescente

disponibilização de testes rápidos que utilizam painéis multigenes significa

que a informação genética de um indivíduo, em uma única amostra, pode

ser utilizada para informar muitas opções terapêuticas diferentes que

possam surgir, subsequentemente, ao longo da vida.

Atualmente, a avaliação farmacológica pode incluir testes para: (a)

variantes de diferentes HLA que foram fortemente associados à

suscetibilidade a várias reações farmacológicas lesivas graves, que possam

surgir de uma interação imunológica entre a molécula do fármaco e as

moléculas de histocompatibilidade maior no paciente (Chan et al., 2015);

(b) genes que controlam aspectos do metabolismo dos fármacos; e (c) genes

que codificam alvos terapêuticos, em que o conceito “diagnóstico

companheiro” (definido pela FDA como: “um teste diagnóstico utilizado

como companheiro de um fármaco, para determinar sua aplicabilidade a

uma pessoa em específico”) envolve a detecção de um marcador

farmacológico, de modo que possa ocorrer uma seleção racional do fármaco

na via relacionada com a mutação subjacente. Para um fármaco (varfarina), um teste combina a informação genética sobre o metabolismo