Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 698 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Tripanossomíase e fármacos tripanossomicidas

Os tripanossomos pertencem ao grupo dos protozoários flagelados

patogênicos. Dois subtipos de Trypanosoma brucei (rhodesiense e

gambiense) causam a doença do sono na África (também chamada HAT –

tripanossomíase humana africana [do inglês, human african

trypanosomiasis). Na América do Sul, outra espécie, o Trypanosoma cruzi,

provoca a doença de Chagas (também conhecida como tripanossomíase

americana).

Quase eliminada em 1960, a HAT reapareceu, mas, graças às

campanhas públicas conjuntas, o número de casos está agora diminuindo

novamente. Em 2017, a OMS reportou menos de 20.000 casos de cerca de

65 milhões de pessoas em risco de contrair a doença do sono. A doença

causada pelo T. b. rhodesiense é a forma mais agressiva, embora menos

disseminada. Fatores como agitação civil, fome e AIDS incentivam a

disseminação da doença, reduzindo as chances de distribuir medicação, ou

porque os pacientes são imunocomprometidos. As infecções por

tripanossoma relacionadas também constituem um grande risco para o

gado, tendo, portanto, impacto secundário na saúde e no bem-estar

humanos. No caso da doença de Chagas, acredita-se que cerca de 7 milhões

de pessoas tenham a infecção.

Fármacos usados na amebíase

 

A amebíase é causada pela infecção por Entamoeba histolytica, que acarreta disenteria e

abscessos hepáticos. O microrganismo pode apresentar-se na forma invasiva móvel ou como

cisto. Os principais fármacos são os seguintes:

• Metronidazol administrado por via oral (meia-vida de 7 horas). Ativo para a forma

invasiva no intestino e no fígado, porém não para os cistos. Efeitos adversos (raros):

alterações GI e sintomas do SNC. O tinidazol é semelhante. O tratamento continuado

dirigido ao lúmen GI é necessário para assegurar a erradicação

• A diloxanida é um agente luminal administrado por via oral sem efeitos adversos sérios.

É ativa, enquanto não absorvida, contra a forma não invasiva, no trato GI.

 

▼ O vetor da HAT é a mosca-tsé-tsé. Em ambos os tipos da doença, há

uma lesão local inicial de entrada, que pode (no caso do T. b.

rhodesiense) desenvolver uma ferida dolorosa (úlcera). A isso, seguem-

se surtos de parasitemia e febre, à medida que o parasito vai penetrando

no sistema hemolinfático. A lesão dos órgãos é causada pelos parasitos

e pelas toxinas que eles liberam na segunda fase da doença. Esta se

manifesta como “doença do sono” quando o parasito chega ao SNC,

causando sonolência e colapso neurológico progressivo. Quando são

deixadas sem tratamento, essas infecções são fatais.

O T. cruzi é transmitido por outros insetos hematófagos, incluindo os

“barbeiros”. As fases iniciais da infecção são semelhantes, mas os

parasitos podem danificar coração, músculos e, por vezes, fígado, baço,

ossos e intestinos. Muitas pessoas têm infecções crônicas. A taxa de

cura é boa se o tratamento começar logo após a infecção, mas este é

menos bem-sucedido se for adiado.

Os principais fármacos usados para a doença do sono africana são a

suramina, sendo a pentamidina uma alternativa no estágio hemolinfático

da doença, e o arsênico melarsoprol no estágio tardio, com o envolvimento

do SNC e a eflornitina (Burchmore et al., 2002; Burri e Brun, 2003). Todos

têm efeitos adversos tóxicos. O nifurtimox, a eflornitina e o benznidazol

são usados na doença de Chagas; contudo, não há tratamento realmente

efetivo para essa forma de tripanossomíase.

 

Suramina

A suramina foi introduzida no tratamento da tripanossomíase em 1920. Esse

fármaco liga-se firmemente às proteínas plasmáticas do hospedeiro, e o

complexo entra no tripanossomo por endocitose, de onde é liberado pelas

proteases lisossômicas. Ele inibe as principais enzimas parasitárias,

induzindo a destruição gradual das organelas, de forma que os

microrganismos são eliminados da circulação após um breve intervalo.

O fármaco é administrado por injeção intravenosa lenta. A concentração

sanguínea cai rapidamente nas primeiras horas e mais lentamente ao longo

dos dias seguintes. Uma concentração residual permanece por 3 a 4 meses.

A suramina tende a se acumular no fagócito mononuclear e nas células do

túbulo proximal do rim.

Os efeitos adversos são comuns. A suramina é relativamente tóxica,

particularmente em pacientes desnutridos, e o principal órgão é o rim.

Muitos outros efeitos adversos de desenvolvimento lento relatados incluem

atrofia óptica, insuficiência suprarrenal, erupções cutâneas, anemia

hemolítica e agranulocitose. Alguns indivíduos apresentam reação

idiossincrática imediata à injeção de suramina, que pode incluir náuseas,

vômitos, choque, convulsões e perda de consciência.

 

Pentamidina A pentamidina exerce ação tripanossomicida direta in vitro. É rapidamente

captada pelos parasitos por um transportador dependente de energia de alta

afinidade e acredita-se que interaja com seu DNA. O fármaco é

administrado por via intravenosa ou por injeção intramuscular profunda, em

geral diariamente, por 10 a 15 dias. Após a absorção do local da injeção,

liga-se fortemente aos tecidos (especialmente ao rim) e é eliminada

lentamente; somente 50% de uma dose são eliminados em 5 dias.

Concentrações relativamente elevadas do fármaco persistem no rim, no

fígado e no baço por vários meses, porém ele não atravessa a barreira

hematencefálica. Também é ativa em pneumonia por Pneumocystis (ver

Capítulo 52). Sua utilidade é limitada por seus efeitos adversos – provoca

imediata diminuição na pressão sanguínea, com taquicardia, falta de ar e

vômito, além de toxicidade séria tardia, como lesão renal,

comprometimento hepático, discrasias sanguíneas e hipoglicemia.

 

Melarsoprol

▼ Trata-se de um composto arsênico orgânico utilizado principalmente

quando o SNC foi atingido. É administrado por via intravenosa e

penetra no SNC em concentrações elevadas, no qual será capaz de

destruir o parasito. Trata-se de um fármaco altamente tóxico que produz

muitos efeitos adversos, incluindo encefalopatia e, algumas vezes,

morte imediata. Por isso, somente é administrado sob estrita supervisão.

 

Eflornitina

▼ A eflornitina inibe a enzima ornitina descarboxilase do parasito.

Mostra boa atividade sobre o T. b. gambiense e é usada como apoio para

o melarsoprol, embora, infelizmente, tenha atividade limitada contra o

T. b. rhodesiense. Os efeitos adversos são comuns e podem ser graves,