Rang e Dale: Farmacologia
Tripanossomíase e fármacos tripanossomicidas
Os tripanossomos pertencem ao grupo dos protozoários flagelados
patogênicos. Dois subtipos de Trypanosoma brucei (rhodesiense e
gambiense) causam a doença do sono na África (também chamada HAT –
tripanossomíase humana africana [do inglês, human african
trypanosomiasis). Na América do Sul, outra espécie, o Trypanosoma cruzi,
provoca a doença de Chagas (também conhecida como tripanossomíase
americana).
Quase eliminada em 1960, a HAT reapareceu, mas, graças às
campanhas públicas conjuntas, o número de casos está agora diminuindo
novamente. Em 2017, a OMS reportou menos de 20.000 casos de cerca de
65 milhões de pessoas em risco de contrair a doença do sono. A doença
causada pelo T. b. rhodesiense é a forma mais agressiva, embora menos
disseminada. Fatores como agitação civil, fome e AIDS incentivam a
disseminação da doença, reduzindo as chances de distribuir medicação, ou
porque os pacientes são imunocomprometidos. As infecções por
tripanossoma relacionadas também constituem um grande risco para o
gado, tendo, portanto, impacto secundário na saúde e no bem-estar
humanos. No caso da doença de Chagas, acredita-se que cerca de 7 milhões
de pessoas tenham a infecção.
Fármacos usados na amebíase
A amebíase é causada pela infecção por Entamoeba histolytica, que acarreta disenteria e
abscessos hepáticos. O microrganismo pode apresentar-se na forma invasiva móvel ou como
cisto. Os principais fármacos são os seguintes:
• Metronidazol administrado por via oral (meia-vida de 7 horas). Ativo para a forma
invasiva no intestino e no fígado, porém não para os cistos. Efeitos adversos (raros):
alterações GI e sintomas do SNC. O tinidazol é semelhante. O tratamento continuado
dirigido ao lúmen GI é necessário para assegurar a erradicação
• A diloxanida é um agente luminal administrado por via oral sem efeitos adversos sérios.
É ativa, enquanto não absorvida, contra a forma não invasiva, no trato GI.
▼ O vetor da HAT é a mosca-tsé-tsé. Em ambos os tipos da doença, há
uma lesão local inicial de entrada, que pode (no caso do T. b.
rhodesiense) desenvolver uma ferida dolorosa (úlcera). A isso, seguem-
se surtos de parasitemia e febre, à medida que o parasito vai penetrando
no sistema hemolinfático. A lesão dos órgãos é causada pelos parasitos
e pelas toxinas que eles liberam na segunda fase da doença. Esta se
manifesta como “doença do sono” quando o parasito chega ao SNC,
causando sonolência e colapso neurológico progressivo. Quando são
deixadas sem tratamento, essas infecções são fatais.
O T. cruzi é transmitido por outros insetos hematófagos, incluindo os
“barbeiros”. As fases iniciais da infecção são semelhantes, mas os
parasitos podem danificar coração, músculos e, por vezes, fígado, baço,
ossos e intestinos. Muitas pessoas têm infecções crônicas. A taxa de
cura é boa se o tratamento começar logo após a infecção, mas este é
menos bem-sucedido se for adiado.
Os principais fármacos usados para a doença do sono africana são a
suramina, sendo a pentamidina uma alternativa no estágio hemolinfático
da doença, e o arsênico melarsoprol no estágio tardio, com o envolvimento
do SNC e a eflornitina (Burchmore et al., 2002; Burri e Brun, 2003). Todos
têm efeitos adversos tóxicos. O nifurtimox, a eflornitina e o benznidazol
são usados na doença de Chagas; contudo, não há tratamento realmente
efetivo para essa forma de tripanossomíase.
Suramina
A suramina foi introduzida no tratamento da tripanossomíase em 1920. Esse
fármaco liga-se firmemente às proteínas plasmáticas do hospedeiro, e o
complexo entra no tripanossomo por endocitose, de onde é liberado pelas
proteases lisossômicas. Ele inibe as principais enzimas parasitárias,
induzindo a destruição gradual das organelas, de forma que os
microrganismos são eliminados da circulação após um breve intervalo.
O fármaco é administrado por injeção intravenosa lenta. A concentração
sanguínea cai rapidamente nas primeiras horas e mais lentamente ao longo
dos dias seguintes. Uma concentração residual permanece por 3 a 4 meses.
A suramina tende a se acumular no fagócito mononuclear e nas células do
túbulo proximal do rim.
Os efeitos adversos são comuns. A suramina é relativamente tóxica,
particularmente em pacientes desnutridos, e o principal órgão é o rim.
Muitos outros efeitos adversos de desenvolvimento lento relatados incluem
atrofia óptica, insuficiência suprarrenal, erupções cutâneas, anemia
hemolítica e agranulocitose. Alguns indivíduos apresentam reação
idiossincrática imediata à injeção de suramina, que pode incluir náuseas,
vômitos, choque, convulsões e perda de consciência.
Pentamidina A pentamidina exerce ação tripanossomicida direta in vitro. É rapidamente
captada pelos parasitos por um transportador dependente de energia de alta
afinidade e acredita-se que interaja com seu DNA. O fármaco é
administrado por via intravenosa ou por injeção intramuscular profunda, em
geral diariamente, por 10 a 15 dias. Após a absorção do local da injeção,
liga-se fortemente aos tecidos (especialmente ao rim) e é eliminada
lentamente; somente 50% de uma dose são eliminados em 5 dias.
Concentrações relativamente elevadas do fármaco persistem no rim, no
fígado e no baço por vários meses, porém ele não atravessa a barreira
hematencefálica. Também é ativa em pneumonia por Pneumocystis (ver
Capítulo 52). Sua utilidade é limitada por seus efeitos adversos – provoca
imediata diminuição na pressão sanguínea, com taquicardia, falta de ar e
vômito, além de toxicidade séria tardia, como lesão renal,
comprometimento hepático, discrasias sanguíneas e hipoglicemia.
Melarsoprol
▼ Trata-se de um composto arsênico orgânico utilizado principalmente
quando o SNC foi atingido. É administrado por via intravenosa e
penetra no SNC em concentrações elevadas, no qual será capaz de
destruir o parasito. Trata-se de um fármaco altamente tóxico que produz
muitos efeitos adversos, incluindo encefalopatia e, algumas vezes,
morte imediata. Por isso, somente é administrado sob estrita supervisão.
Eflornitina
▼ A eflornitina inibe a enzima ornitina descarboxilase do parasito.
Mostra boa atividade sobre o T. b. gambiense e é usada como apoio para
o melarsoprol, embora, infelizmente, tenha atividade limitada contra o
T. b. rhodesiense. Os efeitos adversos são comuns e podem ser graves,