Rang e Dale: Farmacologia
Aplicação em superfícies epiteliais
Administração cutânea
A administração cutânea é usada quando é necessário um efeito local na
pele (p. ex., esteroides tópicos, ver Capítulo 28). No entanto, pode haver
absorção apreciável, causando efeitos sistêmicos; por vezes, a absorção é
explorada terapeuticamente, por exemplo, na aplicação local de géis de
agentes anti-inflamatórios não esteroides, como o ibuprofeno (ver Capítulo
27).
A maioria dos fármacos é muito pouco absorvida pela pele intacta.
Contudo, diversos inseticidas organofosforados (ver Capítulo 14), os quais
precisam atravessar a cutícula dos insetos para exercer seu efeito, são
absorvidos pela pele, ocorrendo intoxicação acidental em trabalhadores
rurais.
▼ Narra-se o caso de um florista de 35 anos de idade ocorrido em
1932. “Enquanto fazia um pequeno conserto elétrico em sua bancada de
trabalho, ele se sentou em uma cadeira na qual um pouco de “Nico-
Fume liquid” (uma solução a 40% de nicotina livre) tinha sido
derramado. Ele sentiu sua roupa ficar molhada na região da nádega
esquerda, uma área do tamanho da palma de sua mão. O florista não se
importou muito com o ocorrido e continuou seu trabalho por cerca de
15 min, quando, repentinamente, foi acometido por náuseas e sensação
de desmaio, e viu-se banhado em suor. A caminho do hospital, ele
perdeu a consciência.” Ele sobreviveu e, 4 dias depois, “ao ter alta,
recebeu a mesma roupa que vestia quando chegou ao hospital. A roupa
havia sido guardada em uma sacola de papel e ainda estava úmida na
região em que estava a solução de nicotina”. O que ocorreu a seguir era
previsível. Sobreviveu de novo, mas, desde então, “sentia-se incapaz de
entrar em uma estufa na qual estivesse sendo aplicado spray de
nicotina”. A nicotina transdérmica é usada atualmente para reduzir os
sintomas de abstinência que ocorrem quando um indivíduo está parando
de fumar (ver Capítulo 50).
As apresentações transdérmicas, nas quais o fármaco é incorporado em
um adesivo para ser aplicado na pele, são de uso cada vez mais
frequente, e diversos fármacos (p. ex., estrógeno e testosterona, para
terapia de reposição hormonal [ver Capítulo 36]) estão disponíveis
nessa apresentação. Esses adesivos produzem uma taxa estável de
liberação do fármaco, evitando o metabolismo pré-sistêmico. A
fentanila está disponível como um adesivo para o tratamento de dor
intermitente (ver Capítulo 43). Contudo, esse método é apropriado
apenas para fármacos lipossolúveis e é relativamente caro.
Sprays nasais
Análogos de alguns hormônios peptídicos como, por exemplo, hormônio
antidiurético (ver Capítulo 34) e hormônio liberador de gonadotrofina
(ver Capítulo 36) são aplicados por spray nasal, assim como a calcitonina
(ver Capítulo 37). Acredita-se que a absorção ocorra através da mucosa que
recobre o tecido linfoide nasal. Ela é semelhante à mucosa que recobre as
placas de Peyer no intestino delgado, que também é singularmente
permeável.
Colírios
Muitos fármacos são aplicados na forma de colírio, dependendo da
absorção através do epitélio do saco conjuntival para produzir seus efeitos.
Efeitos locais desejáveis podem ser alcançados sem causar efeitos colaterais
sistêmicos. Por exemplo, a dorzolamida é um inibidor da anidrase carbônica administrada na forma de colírio para reduzir a pressão ocular em
pacientes com glaucoma. Esse efeito é alcançado sem afetar os rins (ver
Capítulo 30), evitando, assim, a acidose causada pela administração oral da
acetazolamida. No entanto, ocorre certa absorção sistêmica nos olhos,
resultando em efeitos indesejáveis (p. ex., broncospasmo em pacientes
asmáticos usando colírio de timolol para glaucoma).
Administração por inalação
A via inalatória é usada para os anestésicos voláteis e gasosos, servindo o
pulmão tanto como via de administração quanto de eliminação. A troca
rápida resultante da grande área e do fluxo sanguíneo possibilita a obtenção
de ajustes rápidos na concentração plasmática. O comportamento
farmacocinético dos anestésicos inalatórios é discutido no Capítulo 42.
Fármacos utilizados pelos seus efeitos nos pulmões também são
administrados por inalação, geralmente na forma de aerossol.
Glicocorticoides (p. ex., dipropionato de beclometasona) e
broncodilatadores (p. ex., salbutamol; ver Capítulo 29) são administrados
por essa via para alcançar altas concentrações locais, minimizando os
efeitos sistêmicos. Contudo, os fármacos administrados por inalação
geralmente são absorvidos parcialmente, podendo ocorrer efeitos adversos
sistêmicos. A modificação química de um fármaco pode minimizar essa
absorção. Por exemplo, o ipratrópio, um antagonista de receptores
muscarínicos (ver Capítulos 14 e 29), é um análogo de amônio quaternário
da atropina. Ele é usado como um broncodilatador inalado, pois sua baixa
absorção reduz a probabilidade de efeitos adversos sistêmicos.
Administração por injeção A injeção intravenosa é a via mais rápida e confiável de administração de
um fármaco. A injeção em bolus produz concentração muito alta do
fármaco, primeiro no coração direito e nos vasos pulmonares e, depois, na
circulação sistêmica. A concentração máxima alcançada nos tecidos
depende criticamente da velocidade da injeção. A administração
intravenosa usando uma bomba mecânica evita as incertezas da absorção
em outros locais e das altas concentrações plasmáticas causadas pela
injeção em bolus.
A injeção de fármacos SC ou intramuscular geralmente produz um
efeito mais rápido que a administração oral, mas a velocidade da absorção
depende muito do local da injeção e do fluxo sanguíneo local. Os fatores
limitantes da velocidade de absorção no local da injeção são:
• Difusão através do tecido
• Remoção pelo fluxo sanguíneo local.
A absorção no local da injeção (embora, por vezes, nem sempre desejável,
ver adiante) aumenta quando o fluxo sanguíneo aumenta. A hialuronidase
(uma enzima que degrada a matriz extracelular, aumentando, assim, a
difusão) também amplia a absorção no local da injeção. Por outro lado, a
absorção está reduzida em pacientes com insuficiência circulatória
(choque), nos quais a perfusão tecidual está reduzida (ver Capítulo 23).
Métodos para retardar a absorção
Pode ser desejável retardar a absorção, ou para produzir um efeito local
prolongado ou para prolongar as ações sistêmicas. Por exemplo, a adição de
epinefrina a um anestésico local reduz a absorção do anestésico na
circulação geral, prolongando apropriadamente o efeito anestésico (ver
Capítulo 44). A formulação de insulina com protamina e zinco produz uma
forma de ação prolongada (ver Capítulo 32). A benzilpenicilina procaína
(ver Capítulo 52) é um sal pouco solúvel da penicilina; quando
administrada como uma solução aquosa, é absorvida lentamente,
prolongando sua ação. A esterificação de hormônios esteroides (p. ex.,
acetato de medroxiprogesterona, propionato de testosterona; ver Capítulo
36) e de fármacos antipsicóticos (p. ex., decanoato de flufenazina; ver
Capítulo 47) aumenta a sua solubilidade em óleo, reduzindo sua absorção
quando injetados em solução oleosa.
Outro método utilizado para conseguir a absorção lenta e contínua de
certos hormônios esteroides (p. ex., o estradiol; ver Capítulo 36) é a
implantação subcutânea do fármaco, formulado, por exemplo, na forma de
um pellet sólido. A velocidade de absorção é proporcional à área da
superfície do implante.
Injeção intratecal
A injeção de um fármaco no espaço subaracnoide através de uma agulha de
punção lombar é usada para propósitos especiais. O metotrexato (ver
Capítulo 57) é administrado dessa maneira no tratamento de determinadas
leucemias da infância para evitar recidivas no SNC. A anestesia regional
pode ser produzida por meio da administração intratecal de um anestésico
local, como a bupivacaína (ver Capítulo 44); analgésicos opioides também
podem ser usados dessa maneira (ver Capítulo 43). O baclofeno (um
análogo do GABA; ver Capítulo 39) é utilizado para tratar espasmos
musculares incapacitantes. Ele é administrado pela via intratecal para
minimizar seus efeitos adversos. Alguns antibióticos (p. ex.,
aminoglicosídios) atravessam a barreira hematencefálica lentamente e, em
situações clínicas raras em que são essenciais (p. ex., infecções do sistema
nervoso com bactérias resistentes a outros antibióticos), podem ser administrados por via intratecal ou diretamente nos ventrículos cerebrais