Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos que aumentam a cognição
“Cognição” engloba diversos aspectos da função mental, incluindo
memória, raciocínio e capacidade de resolver problemas, julgamentos
situacionais, tomada de decisões e função executiva. Uma variedade de
diferentes baterias de testes foi desenvolvida para medir essas funções em
seres humanos (p. ex., Bateria Automatizada de Testes Neuropsicológicos
de Cambridge [CANTAB; do inglês, Cambridge Neuropsychological Test
Automated Battery), os quais testam os efeitos dos fármacos. Muitos
transtornos clínicos, tais como doença de Alzheimer (ver Capítulo 41),
esquizofrenia (ver Capítulo 47), depressão (ver Capítulo 48) e
toxicodependência (ver Capítulo 50) afetam essas funções, e a esperança é
o desenvolvimento de fármacos que aumentem a cognição para restaurá-las.
O progresso tem sido limitado, apesar de muito exagerado, tanto com o
objetivo questionável de “melhorar” a função mental em indivíduos
saudáveis quanto de amenizar déficits nos pacientes.
Viu-se que os fármacos atualmente disponíveis:
• Alteram o processamento da memória (i. e., aumentam a memória)
• Reduzem a fadiga (estimulantes), de modo a permitir ao usuário usar a
função por mais tempo (i. e., melhorar o desempenho de tarefas
complexas e estudo para provas, superar jet lag)
• Aumentam a motivação, a energia, a segurança e a concentração.
Também são conhecidos como “pílulas da inteligência” ou “nootrópicos”.
Os fármacos com relatos de melhorar o desempenho cognitivo são
cafeína, anfetaminas, metilfenidato, modafinila, arecolina, donepezila,
vortioxetina e piracetam, mas a eficácia clínica desses fármacos é
limitada, e o desenvolvimento de fármacos mais eficazes que melhorem a cognição poderia ter benefícios significativos para muitos grupos de
pacientes.
Os fármacos que melhoram a cognição também são usados por
indivíduos saudáveis com o intuito de melhorar o seu desempenho, por
exemplo, em estudar e para fazer provas (d’Angelo et al., 2017) ou em
papéis profissionais com muita demanda. O uso de substâncias por
indivíduos saudáveis para aumentar o desempenho acadêmico levanta
questões éticas quanto a equidade, pressão acadêmica e medo de coerção
por pais “insistentes”. Também existem questões de segurança. Apesar de
muitas das substâncias usadas estarem disponíveis como remédios (i. e.,
terem passado por testes de segurança-padrão para fármacos), ainda há falta
de informação sobre os seus efeitos agudos e a longo prazo em crianças e
adolescentes, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento. Em
indivíduos saudáveis, o desempenho cognitivo pode ser aumentado por
melhora no sono e humor, assim como diminuição da ansiedade. Parece ser
mais apropriado alcançar isso por meio de mudanças no estilo de vida e
terapia comportamental do que recorrendo ao uso de substâncias.8
Eficácia
Enquanto a eficácia dos fármacos que aumentam a cognição em indivíduos
saudáveis geralmente é divulgada por indivíduos que fazem uso delas e pela
imprensa, a sua eficácia real é de certa forma inconclusiva e ambígua, como
avaliado em estudos científicos. Além disso, as substâncias podem afetar
diferentes tipos de memória de modo distinto (d’Angelo et al., 2017). É
importante fazer a distinção entre fármacos que somente melhoram as
habilidades de um indivíduo quando este está cansado e aqueles que podem
melhorar a habilidade cognitiva em indivíduos não cansados.